Ler Lamba-me se puder – Capítulo 132 Online
As estações passaram rapidamente. O ar começou a ficar frio nas manhãs e nas noites, o sol se punha cada vez mais cedo — e, num piscar de olhos, o novo ano havia chegado. Logo começaram a chegar notícias de colegas que haviam sido aceitos em universidades.
Enquanto todos estavam ocupados, mergulhados na correria dos exames de admissão, apenas Koy seguia em silêncio, dividindo seus dias entre o hospital e a escola. Seu pai era internado com frequência, mas havia uma coisa boa em meio àquilo: ele havia declarado falência há muitos anos, e por viverem praticamente na miséria, as despesas médicas eram totalmente cobertas pelo sistema público.
Koy costumava ficar até tarde no hospital, ao lado do pai, e depois voltava sozinho para dormir no trailer. Não trocavam muitas palavras afetuosas — mas, mesmo assim, algo havia mudado.
Depois da morte do irmão e da partida da mãe, mais de dez anos haviam se passado, e eles sabiam que não lhes restava tempo suficiente para recuperar tudo o que fora perdido. Ambos tinham consciência disso, mas nunca falavam a respeito. Em vez disso, conversavam sobre banalidades, tentando, mesmo que um pouco, se reaproximar. E aquilo bastava.
— Koy! —
A voz de Ariel o chamou quando ele passava pelo pátio. Prestes a subir na bicicleta, ele parou e esperou que ela se aproximasse.
— Vai aonde? De novo para o hospital?
— Aham. —
Koy assentiu sem hesitar. Todos os amigos já sabiam que o pai dele estava internado. Ariel franziu o cenho, a expressão preocupada.
— Você não vai mesmo tentar a faculdade? Ouvi dizer que nem se inscreveu.
Ela e Bill haviam sido aceitos na universidade estadual. Koy também sonhara com isso, uma vez — mas o sonho já havia se desfeito.
— Não posso deixar meu pai sozinho para ir à faculdade. —
Ele não sabia o que poderia acontecer enquanto estivesse no alojamento. Além disso, era ele quem levava o pai ao hospital sempre que algo acontecia.
— Estou procurando um emprego. Posso começar numa universidade comunitária e depois tentar uma faculdade de quatro anos…
— Haa… —
O longo suspiro de Ariel soou mais como frustração do que desânimo. Koy já estava acostumado àquela reação — ouvira a mesma coisa várias vezes. Sabendo que não havia nada a fazer, ele apenas sorriu, sem se abalar.
— Então, Al, eu vou indo.
— Ah, Koy.
Ela o chamou de novo, quando ele já se afastava em direção à bicicleta.
— Você… teve notícias do Ash?
— Hm? …Não.
— …Entendo.
Quando Koy balançou a cabeça negativamente, Ariel abaixou a cabeça em desapontamento. Koy murmurou uma despedida desajeitada e saiu.
Desde aquele dia, ele não vira mais Ashley — nem uma única vez. Tudo o que soube foi que ele havia ido para a Costa Leste.
Koy se manteve ocupado, sem dar espaço para o arrependimento o dominar.
E só veio a ouvir notícias de Ashley novamente numa tarde de primavera, pouco antes da formatura.
***
— O Ash vai ao baile de formatura?
A voz surpresa ecoou pelo refeitório. Um dos rapazes do time de hóquei, com quem Koy almoçava, soltou um grito tão alto que várias cabeças se viraram. Koy, igualmente atônito, largou o sanduíche e encarou Bill com os olhos arregalados.
Bill, que trouxe a notícia bombástica, assentiu com um ar de satisfação antes de continuar:
— Consegui falar com ele ontem, depois de um tempão. Perguntei por curiosidade, sabe? E ele disse que vai vir. Disse que vai aparecer na festa depois do baile, então eu falei que tudo bem.
— O quê, então ele vai pra sua casa, Bill? — perguntou um dos garotos.
— É. Faz tempo que não vejo aquele desgraçado, quero saber como ele tá.
Ao ouvir isso, o grupo inteiro explodiu em gritos e risadas, empolgado. Koy também sorriu — um sorriso breve e contido — mas não conseguiu acompanhar o entusiasmo dos outros. Encolheu-se levemente na cadeira, e Bill, percebendo o gesto, lançou-lhe um olhar rápido antes de acrescentar num tom natural:
— Enfim, vai ser assim. Depois da festa, todo mundo lá em casa, entendido?
Ele olhou diretamente para Koy.
— Você também.
Koy engoliu em seco. Apenas depois de alguns segundos conseguiu assentir e responder:
— Tá.
Bill sorriu para ele — um sorriso gentil, talvez até um pouco piedoso. Koy baixou o rosto, fingindo se concentrar no sanduíche, embora mal conseguisse mastigar.
‘Vou ver o Ash de novo.’
Só de pensar, seu peito ficou tão apertado que ele mal conseguia engolir a comida. Os outros já tinham mudado de assunto, mas Koy não ouvia nada. Sua cabeça estava completamente tomada por um único nome: Ashley.
***
No dia do baile de formatura, o clima estava excepcionalmente bonito. Quando abriu a porta e viu o céu limpo, de um azul intenso sem uma única nuvem, o coração de Koy acelerou tanto que ele precisou respirar fundo várias vezes para se acalmar.
— Koy, aconteceu alguma coisa? — perguntou o pai, erguendo-se um pouco na cama.
Koy se virou depressa e fechou a porta atrás de si.
— Ah, não. É só que o tempo está ótimo hoje.
Enquanto o pai o observava em silêncio, Koy se apressou em preparar o café da manhã. Ultimamente, o homem mal conseguia comer. Era esperado, já que o câncer havia se espalhado para seu estômago. Ainda assim, Koy fazia o possível para que ele se alimentasse, nem que fosse um pouco.
— Sopa de legumes.
Ele aqueceu o prato e levou até o quarto. No momento em que o aroma quente subiu do vapor, uma lembrança antiga lhe atravessou a mente — e, por reflexo, Koy balançou a cabeça, tentando expulsá-la. Reprimiu a emoção que ameaçava subir e pousou a bandeja rachada, com o prato e a colher, sobre as pernas do pai.
— O-obrigado, Koy. — murmurou o homem, com voz fraca.
O pai, depois de agradecer, começou a tossir com força. Koy esperou em silêncio até que a tosse diminuísse, então lhe estendeu um copo d’água. O homem bebeu em pequenos goles, com esforço, apenas o suficiente para umedecer os lábios, antes de pegar a colher. Levando um pouco da sopa rala à boca, ele sorriu.
— Está gostosa.
Era impossível que o gosto fosse realmente bom. A sopa era uma daquelas versões instantâneas baratas compradas em promoção no mercado — o tipo de produto cujo prazo de validade já estava por expirar. Koy a havia escolhido não pela qualidade, mas pela quantidade e pelo preço baixo. Entre todas as sopas instantâneas disponíveis, aquela devia ser a pior de todas.
Mesmo assim, o pai sempre sorria e dizia que estava saborosa.
Koy esperou pacientemente até que ele terminasse, colher após colher, até o prato ficar vazio. Então apressou-se em recolher a bandeja, separou os remédios e ajudou o pai a se deitar novamente. Quando voltou da cozinha, depois de lavar os pratos, ele já dormia. O som suave da respiração fez Koy soltar um suspiro de alívio, e ele se sentou na cadeira ao lado.
As economias que havia juntado para se tornar independente estavam quase no fim. Koy ainda fazia alguns bicos, mas entre o hospital e os cuidados com o pai, era difícil considerar aquilo uma renda estável. A universidade já estava fora de cogitação; era hora de procurar outro caminho.
Ele suspirou fundo e começou a cuidar da casa. O dia passou depressa enquanto lavava, arrumava e cozinhava. Depois de preparar a sopa da noite e dar ao pai os analgésicos e o sonífero, sentou-se para revisar algumas vagas de emprego que havia separado. Foi então que o som de uma notificação soou alto demais na quietude do pequeno trailer.
Por um instante, Koy ficou paralisado. Àquela hora, só podia ser uma pessoa. Bill havia prometido mandar uma mensagem assim que Ash aparecesse na festa, já que Koy não poderia ir ao baile.
Respirando fundo, ele pegou o celular com as mãos trêmulas e desbloqueou a tela.
Como esperava, era uma mensagem de Bill:
[Koy, o Ash chegou.]
O coração de Koy disparou. Ele inspirou profundamente e sem hesitar pegou o celular e saiu de casa. O pai, sob o efeito dos remédios, dormiria profundamente por pelo menos três horas.
Fechando a porta com cuidado, Koy montou na bicicleta e começou a pedalar o mais rápido que pôde. O vento frio cortava o rosto, mas ele mal percebia — a cabeça estava tomada por uma única imagem: Ashley.
***
— Haa… haa…
Quando finalmente chegou ao destino, estava sem fôlego, o peito queimava, e ele achava que ia desmaiar. Curvado ao meio, Koy tentou controlar a respiração ofegante.
A festa já estava a todo vapor. A música alta e as vozes animadas escapavam pelas janelas, misturando-se em um ruído abafado. O som era tão intenso que Koy sentiu a cabeça girar por um instante.
— Ah, Koy! —
Foi Bill quem o reconheceu primeiro, chamando-o pelo nome com um sorriso acolhedor.
— Koy!
Atravessando a multidão de jovens amontoados no salão, Koy olhou em volta, procurando por Ash com ansiedade, até que avistou Bill e correu até ele.
— Que bom que você veio! — disse o amigo, batendo de leve em seu ombro. — Deve ter sido cansativo vir até aqui. Seu pai está bem?
— Sim, tomou o remédio da noite, está dormindo agora.
— Entendo. — Bill assentiu devagar, sem fazer mais perguntas.
Ele era o único que sabia do relacionamento entre Koy e Ashley. Não sabia por que haviam terminado nem por que Ashley tinha partido para a Costa Leste, mas nunca perguntou. Aquilo era assunto dos dois — e tudo o que Bill podia fazer era, no máximo, algo como aquilo: dar a eles uma chance de se verem novamente.
— O Ash está no jardim dos fundos.
Koy prendeu a respiração por um instante, o peito apertado.
— O-obrigado.
A voz saiu trêmula, rasgando a garganta de nervosismo. Bill, num gesto de encorajamento, deu dois tapinhas firmes em seu ombro antes de soltá-lo. Koy esboçou um sorriso forçado e passou por ele, seguindo em direção ao jardim.
Empurrando a multidão de colegas que lotava o corredor, ele finalmente conseguiu sair da casa. Lá fora, perto da piscina iluminada, os jovens estavam em grupos, rindo alto, bebendo ponche e se empurrando para dentro d’água. As risadas ecoavam pelo pátio enquanto Koy olhava em volta, o coração acelerado — mas não o encontrou em lugar algum.
A cada segundo, a ansiedade crescia.
Então, sem querer, levantou o olhar.
No alto, no segundo andar, a silhueta de uma pessoa surgiu no terraço.
Ashley.
De pé, olhando para o horizonte distante.
O coração de Koy parou por um instante — e antes que pudesse pensar, já se movia. Com passos apressados, quase tropeçando, ele subiu correndo as escadas em direção ao segundo andar.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís
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Em breve será disponibilizado uma sinopse!
Nome alternativo: Kiss Me If You Can