Ler Laços profanos – Capítulo 03 Online
O silêncio voltou a se fazer presente como uma névoa densa, quase palpável. A voz do demônio ainda vibrava pelas paredes, trazendo consigo um ar frio e introspectivo; entre a escuridão sombria, os olhos vermelhos de Theros brilhavam convidativos ao mesmo tempo que sua silhueta mantinha um sorriso sutil no canto direito dos lábios.
Alberth continuou em silêncio. Seu corpo tremia em um misto de raiva e medo; ele nunca quis nada daquilo, tudo o que desejava era viver em paz. Porém, acabou preso naquela bagunça criada por seus pais. Sua respiração se tornou fraca e irregular, enquanto uma dor latejante pressionava sua cabeça, forçando-o a fechar os próprios olhos. O corpo frágil cedeu, afundando sobre o colchão macio e rompendo o silêncio com o estralo da cama de ferro; sua carne implorava por descanso, fazendo sua mente simplesmente desligar.
Theros observou a situação em silêncio; nem mesmo um pensamento ousou quebrar sua quietude. Ele se aproximou ainda mais, sentando-se à beira da cama onde o jovem de cabelos ruivos repousava. Seus dedos largos foram direcionados à testa do humano, tocando com sutileza a pele alheia. A epiderme pálida como porcelana estava levemente quente, indicando que ele provavelmente estava com febre. Aquilo fez Theros soltar o ar. Jamais havia cuidado de um humano tão fragilizado, mas ali estava ele, checando a temperatura de um ser que tanto desprezava.
O demônio manteve o olhar sobre Alberth por longos instantes, observando sua silhueta em meio à escuridão; seu rosto não estava sereno — as sobrancelhas estavam contraídas e o maxilar se apertava com força, deixando claro o desconforto que o invadia. Theros arqueou a sobrancelha: aquilo em seu peito estremeceu, como se finalmente sentisse algo. Talvez uma pontada de compaixão… ou simplesmente a preocupação de perder aquela alma antes do banquete.
Desgostoso com aquele aparente sentimento, Theros se levantou enquanto murmurava:
— Ridículo…
Sua voz soou grave, porém serena. Seus pés começaram a se mover lentamente em direção à porta, e logo sua presença sumiu entre a escuridão da noite. Pouco tempo depois, Theros retornou ao quarto trazendo consigo uma bacia com água e alguns panos limpos, que usaria para baixar a febre do rapaz.
Em silêncio, o homem voltou a se aproximar da cama, deixando a bacia sobre a cadeira ao lado e, em seguida, sentando-se, soltou um suspiro pesado. Theros não entendia aquela sensação; sua mente tentava enganar seu coração dizendo que aquilo era apenas sua obrigação — Alberth não poderia morrer antes do contrato acabar, e por isso sentia aquela falsa impressão de preocupação.
O homem desviou sua atenção dos pensamentos, focando apenas em cuidar do garoto ainda adormecido e certamente desconfortável. Suas mãos se moveram com cuidado, pegando o tecido branco de dentro da bacia e torcendo-o com precisão. Quando o pano parou de pingar, Theros o dobrou pela metade e, em seguida, repousou aquele retângulo levemente úmido sobre a testa de Alberth. Com o toque fresco e delicado, o corpo do jovem relaxou, ao mesmo tempo que um arrepio percorreu toda a sua pele.
O demônio observou cada reação daquele humano com curiosidade, notando o quanto sua alma tentava lutar para se manter minimamente alerta. Todo aquele aroma de sangue, de repente, havia sido coberto por uma densa camada de medo e tristeza. Aqueles sentimentos fúteis fizeram Theros rir; afinal, quem, naquele estado, ainda conseguia sentir pena por aqueles que o fizeram sofrer?
— Humano patético… apenas foque em melhorar.
Um sussurro rouco surgiu de seus lábios fartos, carregado de uma amargura facilmente percebida pelo tom de voz. Suas mãos grandes, porém delicadas, voltaram ao pano branco sobre a testa do outro para se certificar de que ainda estava úmido.
O corpo de Alberth tremia, e seus dentes batiam levemente uns contra os outros, mesmo com os lábios cerrados. Seu rosto havia sido tomado por um rubor avermelhado e uma leve cortina de suor, indicando que a febre estava em seu ápice — mas logo iria embora. Theros apenas observou; não podia fazer nada além daquilo, afinal, era contra as regras do contrato usar qualquer magia para curar seu mestre.
Durante toda a noite, o demônio permaneceu ao lado da cama de Alberth, analisando cada detalhe com seu olhar atento. A cada meia hora, Theros trocava a bandagem molhada por uma nova, percebendo, pouco a pouco, a mudança no semblante do rapaz. Pela manhã, sua febre já havia se dissipado e agora Alberth apenas dormia com o rosto descontraído e os lábios entreabertos. Sua pele clara era delicadamente iluminada pela luz solar que entrava pelas frestas da janela, tornando mais nítidos seus traços suaves, que tão pouco lembravam os de um homem; seus lábios levemente rosados se destacavam sobre aquela brancura salpicada de vermelho.
Theros permaneceu ali, observando o rosto sereno do humano que dormia sem qualquer preocupação. O silêncio da manhã era aos poucos rompido pelo som de pássaros e portas se abrindo; a rua onde estavam era movimentada e, por isso, as lojas abriam logo cedo. Aqueles ruídos irritavam o demônio — ou talvez fosse o fato de ter passado a noite sentado naquela cama enquanto cuidava daquele frágil ser que lutava por sua vida.
Com um último olhar, Theros notou que logo seu mestre acordaria, e isso o fez levantar da cama. Em silêncio, o homem alto se afastou e, como mágica, sumiu antes mesmo de chegar à porta. Uma nova obrigação havia acendido em sua mente: precisava buscar comida para seu mestre.
Não muito tempo depois, Alberth começou a despertar lentamente. Seu corpo parecia pesado e formigava em algumas extremidades. Seus olhos verdes como esmeraldas logo se estabilizaram sobre o teto e nas mechas de cabelo que caíam sobre os olhos. Sua mente ainda estava anestesiada; não sabia diferenciar a realidade dos sonhos — muito menos se aquele homem alto e de olhar chamativo fazia parte de seus devaneios ou se pertencia à dura realidade que estava prestes a enfrentar.
Tomado por um impulso, o rapaz se sentou sobre a cama e varreu o quarto com os olhos, notando que nada daquilo havia sido um sonho. Contudo, algo o intrigou. Seu corpo estava suado e, ao lado da cama, havia uma bacia com um pouco de água e alguns panos largados dentro dela. Alberth franziu o cenho e se questionou mentalmente:
“Aquele demônio cuidou de mim?”
Era confuso pensar que um ser das trevas, dito como o “mal da humanidade”, de repente se visse cuidando de um humano de quem ninguém jamais havia se importado verdadeiramente. Aquele pensamento cruzava sua mente constantemente, trazendo consigo uma sensação de espanto e, em seguida, um toque inesperado de carinho e gratidão — mesmo que fosse por um ser como aquele.
Alberth passou a mão pela própria nuca, sentindo a área úmida e levemente quente. Aquela sensação o fez lembrar da noite passada; antes de desmaiar, jurou sentir o próprio corpo estranho, como se queimasse em febre, e logo em seguida aquela sufocante onda de calor se dissipar com sutileza. Seu rosto foi tomado por um rubor singelo enquanto uma sensação de gratidão invadia seu peito — por mais que o medo do desconhecido ainda estivesse ali, insistente.
Antes que pudesse terminar de analisar o quarto repleto de luz solar, um estralo seco ecoou pelo ambiente, seguido por um aroma suave de chá e bolinhos de canela que pareciam ter acabado de sair do forno. O cheiro fez o estômago do garoto roncar e, em seguida, trouxe consigo um enjoo profundo provocado pela fome constante.
Pouco depois, a porta se abriu, revelando aquele belo homem trajado de veludo preto e vermelho. Suas mãos grandes seguravam uma bandeja de prata e, na outra, um bule do mesmo material.
Seus olhares se encontraram de repente, criando um clima tenso e silencioso. Theros percorreu o humano com o olhar, analisando seu semblante — parecia um pouco melhor, apesar dos cabelos ruivos ainda bagunçados e das suaves marcas arroxeadas sob os olhos; nada que fosse preocupante. Percebendo que havia encarado por tempo demais, o demônio pigarreou e se aproximou da cama, depositando a bandeja sobre o colo de Alberth e a chaleira sobre a cadeira — afastando a bacia que estava ali.
— Coma. Você precisa de energia para curar suas feridas.
Sua voz soou calma, trazendo uma estranha sensação de ternura. Alberth desviou o olhar, focando os olhos sobre a bandeja, que estava repleta de frutas, iogurte natural e aqueles aclamados bolinhos de canela; no canto esquerdo ainda havia uma xícara de porcelana cheia de um chá de aroma doce e relaxante, cujo sabor o jovem não conseguiu distinguir. Suas mãos tensionaram sobre o cobertor e seus lábios se comprimiram alguns centímetros para dentro, logo soltando o ar preso na garganta em forma de sussurro:
— O… obrigado… o senhor… não gostaria de um pouco?
O demônio franziu o cenho e deixou um sorriso sarcástico escapar por seus lábios fartos, suavemente pintados de vermelho carmesim. Theros não entendia como aquele humano conseguia ser tão gentil, mesmo estando com o corpo cheio de feridas purulentas e cortes que ficariam marcados pelo resto de sua vida. Deixando aquele pensamento de lado, ele se aproximou da cama e falou naquele mesmo tom suave de antes — carinhoso, mas ainda assim macabro:
— Eu não preciso disso. Mas agradeço.
Alberth apenas assentiu em silêncio, temendo prolongar a conversa e acabar despertando a ira daquele homem. Suas mãos pálidas, marcadas por sutis linhas arroxeadas, alcançaram a bandeja com hesitação. Ele pegou um dos bolinhos e, sem pensar muito, levou-o diretamente à boca.
O gosto doce e quente o envolveu de imediato, preenchendo seu paladar com um conforto há muito esquecido. Seu estômago roncou alto, implorando por mais.
Logo, o jovem passou a comer sem se preocupar com modos ou aparência. Farelos se espalhavam por sua pele, e o chá escorria pelos cantos dos lábios em pequenos filetes que desciam até seu queixo. Ele limpava o rosto com a manga creme da camisa, manchando-a com pequenos pontos escuros e úmidos.
Theros achou aquela cena intrigante. Como alguém tão jovem havia sobrevivido tanto tempo naquele inferno… e agora comia como se toda a fome que passara fosse apenas uma lembrança distante? Alberth era realmente um ser incompreensível: sofreu durante anos e, ainda assim, não carregava ambição ou ódio no coração — diferente de tantos que, ao menor toque, espalham guerra pelos quatro cantos.
Aquela mistura de leveza e sofrimento que o jovem emanava irritava o demônio. Mas, de certo modo, Theros não podia fazer nada quanto àquilo: estava atado àquele garoto ruivo de olhos preciosos.
De repente, um tintilar seco ecoou pelo quarto, despertando Theros de seus pensamentos. Ele piscou algumas vezes e suas orbes rubras focaram instantaneamente no humano. A mão de Alberth pairava no ar, rígida, como se algo tivesse escapado de seus dedos. Seus belos olhos fitavam o chão, transmitindo nada além de um pavor gritante. O garoto não se mexia. Não falava. Mal respirava. Por um segundo, Theros se assustou, acreditando que ele tivesse colapsado de vez.
O demônio deu um passo à frente e, quando ia tocar o ombro do menino, Alberth finalmente murmurou. Sua voz saiu arrastada e quase inaudível — se não fosse a audição aguçada de Theros, certamente não teria entendido.
— Me perdoa… eu… não queria…
Aquele pedido de perdão pairou no ar como um fio prestes a se romper.
Particularmente, Theros amava quando humanos imploravam por perdão enquanto o cheiro podre dos seus medos preenchia o ambiente. Mas, naquele momento, nada daquilo importou para o homem mais velho.
Theros franziu o cenho e se ajoelhou com apenas uma perna no chão. Alguns cacos perfuraram sua calça, arranhando a pele ali de baixo. O sangue não escorreu — as pequenas fissuras se fecharam quase instantaneamente — e, mais uma vez, o humano pareceu surpreso.
O demônio recolheu os pedaços maiores e, em seguida, os menores, com uma calma assustadora.
— Perdoar?… Objetos se quebram e são facilmente substituídos por novos. Por que eu deveria te perdoar por algo tão trivial?
Sua voz surgiu rouca, quebrando o silêncio sufocante entre eles.
Seus olhares se encontraram por breves instantes, mesclando o pavor esverdeado à calmaria sombria e avermelhada.
O coração do humano estava acelerado e seus membros tremiam, mas sua mente se tranquilizava com a falsa sensação de segurança transmitida pelo demônio. Alberth desviou o olhar; seu rosto levemente corado ainda carregava aquela mistura de confusão e medo gritante, chamando novamente a atenção de Theros.
O homem de pele escura e lisa como seda aproximou a mão do ombro do ruivo, mas, antes que pudesse tocar a área, o jovem se esquivou e murmurou baixinho:
— Senhor… eu já sei o que eu quero pedir.
Continua…
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Quando Alberth foi entregue pelas próprias mãos dos pais a uma entidade sombria, seu destino parecia selado em sofrimento e desespero. Mas o que deveria ser uma maldição eterna transforma-se em algo inesperado. Preso a um demônio que começa a experimentar emoções humanas, Alberth descobre que o verdadeiro inferno pode não ser aquele que o cerca, mas o que cresce dentro de si. Amor, dor e redenção se entrelaçam em uma jornada onde as almas podem ser negociadas, mas os sentimentos, jamais.
Nome alternativo: Laos Profanos