Ler Laços profanos – Capítulo 02 Online
O cheiro de sangue ainda pairava no ar, mas não era isso que o enjoava. O verdadeiro nojo vinha daquilo que viu sob o corpo do humano: seus membros superiores tinham cortes profundos que sangravam com o mínimo toque, enquanto outras feridas eram tão antigas que haviam deixado marcas levemente avermelhadas na pele do jovem. Os membros inferiores, por sua vez, estavam cobertos de sujeira, e uma infecção intensa no tornozelo direito denunciava as correntes que o prenderam naquele quarto escuro.
O demônio observava em silêncio, os lábios cerrados se retorcendo em repulsa, enquanto seus olhos vazios percorriam o corpo nu e marcado daquele frágil humano.
Aquela visão era grotesca, até mesmo para um demônio. Theros sentiu o estômago revirar à medida que suas mãos suavam frias; era como se fosse vomitar, embora soubesse que isso não aconteceria – afinal, demônios não têm emoções, e ele sabia bem disso. Contudo, a sensação que o invadiu ao descobrir todas aquelas marcas foi a mais humana possível, fazendo o homem de vestes pretas aveludadas franzir o cenho em desgosto.
O silêncio perdurou por alguns instantes, tornando-se quase palpável. Até que, enfim, um grunhido de dor rompeu aquela bolha muda e chamou a atenção do demônio, que permanecia estático ao lado da cama. Seus olhos rubros se voltaram para a face pálida do humano, marcada por escoriações arroxeadas que se contorciam em agonia.
Verdes como esmeraldas apagadas, os olhos do jovem se abriram, sem vida, como se nenhuma alma habitasse aquele corpo. Piscou algumas vezes, sentindo o vento frio bater sobre suas feridas, provocando incômodos que o fizeram estremecer. Seu semblante parecia perdido, e o olhar vagava sem rumo pelo teto de madeira sobre sua cabeça.
Theros manteve-se em silêncio, apenas observando as reações do humano recém-desperto. Até que, por fim, seus olhares se cruzaram. No primeiro instante, não houve qualquer expressão; mas, de repente, o jovem se ergueu às pressas, atônito ao perceber o ambiente ao seu redor.
Assim que tentou se levantar, o ruivo de sardas delicadas sentiu a cabeça girar, e uma ânsia sufocante subiu de seu estômago. O demônio percebeu o que estava prestes a acontecer e, com uma calma sombria, amparou o corpo fragilizado. A náusea se intensificou, mas nada além de um líquido ralo escapou pela boca do humano.
Naquele instante, Theros sentiu o sangue ferver e uma fúria inevitável incendiar-lhe o peito. Além de todas aquelas feridas, havia agora a prova de algo ainda mais desprezível: os pais que ele venerava o haviam deixado definhar, sem alimento, sabe-se lá por quanto tempo.
Theros nunca havia experimentado sensação igual – era uma mistura de cólera e repulsa que o consumia por dentro. Pela primeira vez em sua eternidade, ele se descobria sentindo algo além de saciedade e prazer. E esse algo era terrivelmente humano.
O silêncio voltou a reinar por alguns segundos, interrompido apenas pela respiração ofegante do humano. Theros bufou em desgosto e cruzou os braços fortes diante do corpo. Então, sua voz grave rasgou o clima tenso:
– Vocês, humanos… realmente são desprezíveis.
As palavras saíram ríspidas, carregadas de escárnio, mas ainda assim não conseguiram mascarar completamente a estranha sensação que queimava em seu peito. Era como se cada sílaba arranhasse sua garganta, formando um nó sufocante que ele se recusava a reconhecer.
O ruivo ergueu o olhar com dificuldade, ainda tonto, encarando a figura à sua frente. Seus olhos não expressavam emoção alguma – pareciam os de um boneco vazio, usado e descartado como moeda de troca. O cansaço e a confusão estavam estampados em seu semblante, mesmo que em gestos mínimos. Seus lábios se moveram com esforço, e uma voz rouca, quase inaudível, escapou:
– Quem… é você…?
Theros permaneceu imóvel, seus olhos rubros cortando o humano como lâminas, enquanto a respiração pesada se disfarçava em uma falsa calma. Aquelas palavras frágeis atravessaram a muralha de repulsa que ele erguera dentro de si. No fim, o que via ali era apenas um ser miserável, arrastado para problemas que jamais lhe pertenceram – e que, inevitavelmente, acabaria morrendo pelas mãos do mesmo que agora o mantinha de pé.
Um sorriso ladino curvou os lábios negros do demônio, revelando presas brancas e pontiagudas. Lentamente, Theros se aproximou. Com delicadeza incomum, pressionou os ombros do jovem contra o colchão, forçando-o a deitar-se novamente.
– Não deve se esforçar – murmurou, a voz baixa, quase sedosa. – Descanse… enquanto eu limpo isso aqui.
O humano se remexeu sobre o estofado macio, e um gemido de dor escapou de sua garganta, rouco e arrastado, até se perder em seus lábios entreabertos. Seus olhos verdes, pesados, ergueram-se com esforço e encontraram Theros, que permanecia imóvel, como uma estátua sombria ao lado da cama.
Mesmo ferido, o jovem ruivo respirou fundo, o ar tremendo em seus pulmões enfraquecidos, antes de insistir novamente, agora com a voz marcada pela dor e pela fúria contida:
— Quem… é você?
As palavras, frágeis e trêmulas, soaram quase como um sussurro, facilmente captado pelos ouvidos aguçados de Theros.
O demônio, percebendo que o humano não cessaria suas perguntas até obter uma resposta, suspirou baixinho. Com um movimento lento, voltou-se para a janela que antes permanecia atrás dele. A luz que atravessava a vidraça já não era tão intensa, anunciando o cair da tarde; os últimos feixes solares delineavam as sombras perfeitas de seu rosto. Seus olhos vermelhos ardiam como brasas vivas, em contraste com a pele escura e impecável. Os longos cabelos, adornados por enfeites metálicos que refletiam a luz, mantinham as tranças firmes e elegantes, sem que sua aura imponente se perdesse diante de tamanha beleza.
O silêncio do quarto foi quebrado por um estalar de dedos. Como em um feitiço, roupas surgiram dobradas com precisão sobre a cadeira no canto. Nos lábios do moreno, despontou um sorriso sagaz, revelando caninos pontiagudos e de um branco impecável.
— Você… quer mesmo saber quem eu sou… ou apenas confirmar o que já desconfia?
A voz grave ecoou pelo quarto, deslizando pelas frestas e fazendo o ar parecer mais denso. O humano, quase sem respirar, fitava as roupas com surpresa, os lábios secos tremendo a cada curta inspiração. Então, um arrepio gelado percorreu-lhe a espinha, como se a resposta que buscava há tantos anos tivesse finalmente se revelado.
“Então… eles realmente existem.”
O pensamento latejou em sua mente incrédula. Ele sabia. Aquele homem era um demônio — fruto das incontáveis tentativas de invocação de seus pais. E, enfim, o resultado estava diante dele.
Antes que pudesse pronunciar qualquer som, um novo estalo o arrancou de seus devaneios. Seus olhos verdes encontraram as orbes rubras e astutas que o fitavam com intensidade. O sorriso sarcástico nos lábios carnudos de Theros anunciava que as palavras viriam carregadas de veneno.
— Sim, senhor Alberth Vegher… nós existimos. Há milhões de anos auxiliamos vocês, humanos, em suas conquistas e… prazeres fúteis.
Os olhos de Alberth tremiam à medida que um suor frio começava a escorrer por seu corpo ainda despido de roupas. Sua pele tornara-se ainda mais pálida, realçando o contraste de suas belas sardas contra os fios ruivos que emolduravam seu rosto.
O demônio pegou as vestes e se aproximou lentamente, sem abandonar o sorriso estampado nos lábios. O humano recuou por instinto, mas a dor que lhe dilacerava o corpo era tamanha que mal conseguia mover-se um milímetro. Fechando os olhos por um instante, Theros pousou as roupas sobre o colo do rapaz em um gesto que quase parecia gentil, e logo se afastou, falando em um tom calmo, mas carregado de ameaça velada:
— Vista alguma coisa… Seria uma pena perder meu jantar tão cedo assim.
Um arrepio cortante percorreu a espinha do ruivo, e seus olhos vacilaram como se prestes a desabar em lágrimas. Engolindo em seco, permaneceu imóvel, enquanto o quarto mergulhava em um silêncio sufocante — ainda que sua mente gritasse em desespero.
Theros podia ouvir cada fragmento daquele turbilhão de pensamentos, mas preferiu ignorá-los. Com um simples gesto, fez a mancha de água quase seca desaparecer do assoalho, restando apenas uma marca passageira na madeira. Suas orbes vermelhas se ergueram novamente para o garoto, que tremia feito um filhote abandonado. Um breve riso escapou de seus lábios; aquelas reações frágeis apenas aumentavam sua expectativa sobre o quão saborosa seria a alma delicada e sofrida diante dele.
Deixando tais pensamentos de lado, o demônio estalou a língua e se aproximou ainda mais. Suas mãos fortes, porém surpreendentemente suaves, seguraram os braços de Alberth com delicadeza, mesmo que os olhos do ruivo o fitassem em puro terror. Revirando os olhos diante da resistência inútil, Theros enfim conseguiu vestir-lhe uma blusa. Assim que terminou, sua voz soou fria, sem qualquer traço de emoção:
— Eu disse para se vestir. Ainda tem uma longa jornada pela frente… Então, não se preocupe. Não vou te matar agora.
As palavras frias de Theros cortaram o ar como lâminas. O silêncio que se seguiu parecia reinar por toda a cidade, como se o próprio tempo tivesse parado naquele instante.
As orbes cristalinas de Alberth fixaram-se em suas mãos, marcadas por uma coloração pálida quase desumana. As manchas vermelhas que se espalhavam por seus pulsos agora estavam escondidas sob a manga da blusa que Theros havia lhe colocado.
O demônio, por sua vez, o observava sem qualquer traço de emoção. Mas algo dentro dele se revirava cada vez que se lembrava dos inúmeros machucados que havia limpado enquanto o novo amo dormia. Aquela sensação ardia em seu peito, acendendo uma chama assassina em seu coração. Ainda assim, era algo tão humano que lhe causava estranheza e desconforto. Nunca antes havia sentido aquilo.
— Mas eu não quero… por favor, me mate de uma só vez…
A voz melancólica quebrou o silêncio, preenchendo o quarto com uma súplica carregada de dor. O ar começava a esfriar à medida que o sol se punha no horizonte. Alberth reuniu as últimas forças e clamou de peito aberto, como se carregasse aquele desejo há muito tempo.
Theros, em contrapartida, sentiu uma pressão latejante na nuca, como se alguém tivesse lhe golpeado a cabeça com força. O estômago se revirou, e até a saliva lhe pareceu áspera ao descer pela garganta. O demônio não conseguia compreender a lógica humana: aqueles que nada possuíam ansiavam pelo mundo inteiro, enquanto os que tinham algo desejavam livrar-se da própria vida.
Mesmo numa invocação forçada, Theros acreditava que aquele frágil ser aproveitaria sua presença para extravasar a ganância contida no coração. Mas não era isso que via. E ele não entendia o porquê.
Engolindo o nó em sua garganta, o demônio se sentou na velha cadeira de madeira e cruzou as pernas, os braços se fechando diante do corpo. Quando falou, sua voz grave quebrou novamente a barreira do silêncio:
— Eu não posso fazer isso… são as regras do contrato. Mas pense bem, Alberth… eu posso lhe dar tudo o que sempre sonhou. Casa, riquezas, terras… até mesmo mulheres.
O ruivo desviou o olhar. Suas íris pareciam perdidas em algum ponto obscuro do quarto, enquanto os dedos apertavam as cobertas com força. Então, sua voz melancólica ecoou, rasgando a garganta em dor:
— Você pode me dar paz?…
“Paz.”
Aquela palavra atingiu Theros como uma lâmina invisível. Suas sobrancelhas grossas e escuras se contraíram em surpresa. Em todos os seus anos caminhando entre humanos, jamais havia ouvido um pedido assim. Normalmente, imploravam por guerra e, em seguida, rastejavam aos pés de seus deuses clamando por clemência. Mas suas súplicas nunca eram ouvidas — e suas almas corrompidas acabavam por se tornar alimento para entidades infernais como ele.
Theros permaneceu quieto por longos segundos. Seus olhos fitavam o garoto como se quisesse ler cada fissura em sua alma. Por fim, sua voz grave voltou a preencher o quarto:
— Paz… isso é algo que eu não posso lhe dar.
Seus lábios se curvaram em um sorriso quase imperceptível. Voltando ambos os pés ao chão, o demônio aproximou seu corpo ainda mais da cama e continuou, desta vez em um tom calmo e sombrio:
— …Mas enquanto você viver… posso lhe oferecer algo próximo dessa aclamada paz. A felicidade mais pura e sincera. Jovem mestre, creio que há algo bem no fundo do seu coração… algo que você deseja há muito tempo. Estou certo?
Continua…
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Quando Alberth foi entregue pelas próprias mãos dos pais a uma entidade sombria, seu destino parecia selado em sofrimento e desespero. Mas o que deveria ser uma maldição eterna transforma-se em algo inesperado. Preso a um demônio que começa a experimentar emoções humanas, Alberth descobre que o verdadeiro inferno pode não ser aquele que o cerca, mas o que cresce dentro de si. Amor, dor e redenção se entrelaçam em uma jornada onde as almas podem ser negociadas, mas os sentimentos, jamais.
Nome alternativo: Laos Profanos