Ler Fuja se puder – Capítulo 56 Online
— Por que me trouxe para a sua casa? Mesmo com licença médica, normalmente em um casos como esse, as pessoas não são levadas ao pronto-socorro? Ou você sempre traz pessoas doentes para casa?
Mesmo sabendo que Nathaniel Miller não é alguém movido por solidariedade humana, não pude deixar de perguntar. Era a única explicação que conseguia encontrar para ele ter me trazido até aqui. Como era de se esperar, ele soltou uma risada baixa, como se minha pergunta fosse absurda.
— Você é a primeira pessoa que trago para a minha casa, se é que isso importa.
Mas isso só deixou tudo mais confuso. Perguntei, incapaz de disfarçar a surpresa.
— Então por que me trouxe…?
Ele olhou ao redor do quarto mais uma vez e repetiu a mesma coisa de antes.
— Você não ouviu? Seu buraco de rato é muito pequeno para mim.
Claro que ouvi. Só não dava para aceitar isso como a única razão.
‘Mas, pensando bem, foi uma sorte ele não ter me levado ao hospital. Já estou com uma dívida por causa do conserto do carro e outras coisas; se tivesse que pagar as despesas de um pronto-socorro, talvez tivesse ido à falência.’
— … Você não vai me cobrar pelo tratamento, vai?
Perguntei, cauteloso, considerando a possibilidade. Não achava que ele fosse mesquinho a esse ponto, mas ele poderia muito bem fazer algo assim apenas para me importunar. Afinal, advogados são persistentes em perturbar os outros para obter o que querem. Ao ouvir minha pergunta, Nathaniel esboçou um sorriso intrigante.
— Humm…. e se eu cobrar?
Sem perceber, prendi a respiração. Na minha cabeça comecei a fazer contas: o que Nathaniel queria, o que eu poderia oferecer em troca.
De repente ele ergueu a mão. Levei um susto e congelei por um instante. Quando a grande mão se aproximou de mim, me preparei para o pior – meu coração disparou, meu rosto foi ficando pálido. A lembrança de que aquela mão já havia tentado algo contra meus olhos voltou num flash. Lembrei até do calor intenso que senti através das finas córneas. Um calafrio de terror percorreu minhas costas, deixando meu corpo completamente paralisado.
‘… hã?’
Surpreendentemente, a mão dele tocou minha testa. Confuso com a ação inesperada, só pude piscar. Nathaniel olhou para mim e falou num tom estranho, quase distante:
— A febre baixou.
A mão daquele homem de sangue frio – que parecia incapaz de ter sangue correndo nas veias – estava, inesperadamente, quente. Na verdade, pensando bem, era óbvio. Não importava a constituição de Nathaniel Miller, nem quão cruel ele fosse; no final, ele era um ‘ser humano’. Era natural que tivesse temperatura corporal, mas, ainda assim, aquela sensação me pareceu tão estranha.
Enquanto eu ainda tentava processar o choque, ele continuou:
— O soro termina em três horas. Há algum lugar que esteja te incomodando especificamente?
Demorei a responder. Depois de hesitar, balancei a cabeça.
— Não, estou bem.
Era o momento de agradecer, mas as palavras simplesmente não saíram. Em vez disso, soltei uma pergunta inusitada:
— Por que você se tornou advogado? Já que tem uma prestigiada licença médica.
Resmunguei, tentando provocar. Ele curvou um canto da boca em um sorriso sarcástico e respondeu de maneira cínica:
— Porque não é tão divertido.
Fiquei olhando para ele, franzindo a testa em silêncio e ele continuou, como se não fosse nada demais:
— É mais interessante ver pessoas vivas chorando do que ficar cortando e costurando pessoas inconscientes. É muito mais emocionante. Será que isso é vocação?
Nathaniel Miller então acrescentou, como se pudesse ler meus pensamentos:
— Se tem algo a dizer, diga.
— Seu maldito louco.
Cuspi as palavras sem hesitar e depois acrescentei, com raiva:
— Com assa índole, é claro que você defendeu um bastardo capaz de estupro coletivo e assassinato. Sentiu alguma identificação com esse lixo igual a você? Deve ter sido muito gratificante conseguir o resultado que queria, mesmo tendo que chantagear os parentes da vítima, não foi? Foi para ver essa cena que você se tornou advogado, não foi? Para se divertir vendo as vítimas chorarem!
A raiva que eu vinha reprimindo explodiu. Ao despejar tudo sem filtro, fiquei tonto de repente, provavelmente por ter me agitado demais. Mordi o lábio inferior para suportar a tontura e fixei os olhos no homem com toda a força. Eu esperei que ele revidasse com sarcasmo ou, no mínimo, com um grito irritante. Mas..
Para minha surpresa, Nathaniel deixou escapar uma risada curta. Fiquei atônito por um instante; e então ele falou.
— Viver vendo apenas um lado do mundo às vezes embaça sua visão.
— De que merda você está falando?
Mesmo desferindo xingamentos, a calma habitual dele só deixou minha fúria maior. Ele, por sua vez, continuou com naturalidade.
— Quero dizer que Anthony Smith pode não ter sido uma vítima tão pura quanto você imagina.
Era uma observação óbvia – quem é perfeito? – mas não me convencia.
— Mesmo assim, ele não cometeu nenhum crime que justificasse ser estuprado e assassinado.
Apesar das minhas palavras teimosas, Nathaniel apenas esboçou um sorriso indecifrável.
— Bem, será?
Meu rosto se contorceu. O que esse homem estava querendo dizer?
O rosto da Sra. Smith passou pela minha cabeça num lampejo, e Nathaniel falou novamente.
— Já fiz tudo que podia por você. Pode ir embora quando quiser.
Foi quando eu vi claramente. Enquanto dizia aquilo, como se fosse um favor, ele mexeu no grampo do soro. E as gotas de soro, que caíam em um ritmo constante, começaram a fluir rapidamente, como se estivessem sendo derramadas. Imediatamente depois, senti uma sensação arrepiante do líquido frio subindo pela minha veia e, ao erguer o olhar, o que ele trazia na bandeja entrou no meu campo de visão – junto com uma seringa vazia que estava sobre ela.
Só então percebi a razão pela qual ele, contrariando sua natureza, agiu com gentileza e até mediu minha febre com a mão. Deveria haver um termômetro, mas ele fingiu medir minha temperatura para distrair minha atenção e misturar algo no soro sem que eu percebesse.
Fiquei em estado de choque e raiva, olhando-o com ódio, mas não aguentei por muito tempo.
— Filho da puta, seu…
Mesmo antes de conseguir dizer as palavras completas – seu desgraçado, que merda está fazendo – minha consciência afundou no breu.
***
— …Ugh.
Um gemido escapou dos meus lábios, e minha consciência voltou. Abri os olhos devagar e olhei ao redor, mas já estava escuro. O anoitecer havia chegado.
‘Quanto tempo eu dormi?’
Ao me levantar cambaleando, percebi que algo balançava no meu braço. Imediatamente, lembrei do que aconteceu antes de perder a consciência e, olhando para cima, vi o saco de soro quase vazio.
— …Hah.
Soltei um curto suspiro de descrença. Aparentemente a gripe já estava curada: não sentia mais dor de cabeça nem febre. Um misto de desgosto e raiva de mim mesmo me invadiu por estar em dúvida com aquele homem.
Se Nathaniel Miller não tivesse me visitado desde o início, nada disso teria acontecido.
Ao pensar isso, não hesitei mais e saí da cama. Precisava pegar um táxi e sair dali rapidamente, antes que ele percebesse.
Segurando o frasco de soro com a mão, fechei o clamp e, cuidadosamente, silenciei meus passos ao sair da cama, mas parei de repente. Notei que estava sem calças.
— …Que mer.
Quase xinguei em voz alta, mas prendi o palavrão. De repente, toda a minha energia se esvaiu, e eu desabei na beirada da cama mais uma vez.
‘Que diabos ele estava pensando, esse bastardo?’
Algo parecido já tinha acontecido antes. Pelo menos agora eu estava com a camisa e a cueca; então talvez isso fosse um alívio.
Mas a situação de não poder sair era a mesma de antes. Não, era ainda pior, já que minhas roupas nem estavam à vista. No fim, a única solução seria enfrentar Nathaniel Miller?
— Haa…
Soltei um suspiro profundo e me levantei. De repente, lembrei-me do que ocorreu pouco antes de perder a consciência. Aquele sorriso enigmático dele:
“Anthony Smith pode não ter sido uma vítima tão pura quanto você pensa.”
“Se o julgamento for para frente, tudo se tornará público. Não podemos permitir que isso aconteça. Precisamos proteger a honra do Anthony.”
‘Honra.’
‘A honra de Anthony Smith, que está morto.’
… O motivo pelo qual a família da vítima teve que aceitar um acordo, mesmo com todas as circunstâncias a seu favor.
O que teria acontecido para que eles não tivessem alternativa senão concordar?
Uma sensação ruim percorreu minha espinha. Sem tempo para refletir mais, desci da cama e saí apressadamente.
°
°
Continua…
Ler Fuja se puder Yaoi Mangá Online
m caso chocante acontece: um alfa, junto com seu grupo, estupra e assassina um ômega. O promotor encarregado do caso, Chrissy Jin, recusa qualquer acordo e decide levar o caso a julgamento, determinado a garantir uma punição adequada.
É nesse contexto que ele encontra pela primeira vez Nathaniel Miller, representante da maior firma de advocacia dos Estados Unidos, o Miller. Mas a arrogância de Nathaniel não lhe agrada em nada.
Pouco depois, ao voltar de um encontro com seus pais adotivos, Chrissy se envolve num acidente de trânsito: por azar, o carro em que bateu é justamente o de Nathaniel. Diante do valor absurdo do conserto, Chrissy não tem escolha a não ser ir até o homem para explicar sua situação, mas o lugar onde Nathaniel se encontra é, na verdade, uma festa de feromônios.
Lá, Chrissy quase acaba sendo violentado por Nathaniel, mas consegue atingi-lo com um caco de vidro e escapa. A partir desse incidente, a atitude de Nathaniel muda radicalmente: ele demite o advogado responsável pelo caso e decide assumir a defesa pessoalmente.
Os dois passam a se enfrentar no tribunal. No entanto, mesmo em meio a essa relação de hostilidade, Chrissy se sente estranhamente atraído por ele. Nathaniel, por sua vez, não disfarça seu interesse por ele. Em meio a essa tensão crescente, um dos membros do júri surpreende Chrissy com uma revelação inesperada….
Nome alternativo: Run Away If You Can