Ler Controle – Capítulo 36 Online
Noah nem sempre havia sido como um cão raivoso, pronto para atacar e morder qualquer um que se metesse com Yohan. Mesmo depois que seus gêneros foram definidos, por anos eles eram apenas gêmeos um pouco mais próximos que o normal. Mas não havia aquela intimidade excessiva, a ponto de parecer perigosa para os outros, como era agora.
Foi na primavera, no ano em que fizeram quinze anos. Ainda estava bem frio para ser primavera de verdade – então devia ter sido bem no comecinho.
Naquele dia, Noah não voltou para casa com Yohan porque ficou jogando basquete com os amigos. De qualquer forma, o motorista passaria para buscá-los, então mandou Yohan ir na frente e planejou voltar de ônibus depois. Durante o jogo, seu celular ficou jogado na mochila, então ele não percebeu as dezenas de ligações perdidas.
«Noah, acho está a maior confusão atrás de você…»
Se não fosse por um amigo da escola que passou e avisou, ele teria demorado ainda mais para perceber. Ao checar o telefone, viu inúmeras chamadas do motorista, da mãe, do pai e até algumas de Natasha. Um mau pressentimento tomou conta dele.
«Meu Deus do céu, Noah! O que você estava fazendo para não atender o telefone? Que alívio que você atendeu. O Yohan sumiu! Você sabe onde ele está?»
Natasha gritou, completamente fora de si. Já era para Yohan ter chegado em casa há muito tempo. Fazia mais de duas horas desde que mandou ele ir embora, mas Yohan não tinha chegado nem atendia o celular – só de ouvir isso, o seu coração despencou.
Ainda que fossem menores de idade, não eram crianças pequenas, então todos pensaram que talvez os dois tivessem saído juntos para algum lugar. Havia preocupação, mas ainda era um clima contido. No entanto, quando descobriram que Yohan não estava com Noah, tudo virou um caos. Ryu Jin e Ilya concluíram na hora que se tratava de um sequestro e começaram a rastrear o celular de Yohan.
Exatamente uma hora depois, Ilya o encontrou e o trouxe de volta. O homem responsável era alguém que tinha rancor de Ilya. Eles pensavam que haviam lidado com todos os inimigos durante a transição da máfia para um negócio legal, mas aparentemente alguém havia escapado.
Por fora, Yohan parecia ileso, sem nenhum arranhão. Mas naquele dia, Noah viu pela primeira vez o tipo de aura que Ilya emanava quando estava verdadeiramente furioso. Carregando Yohan adormecido nos braços, o pai entrou em casa envolto numa aura tão densa e negra que ninguém ousava sequer falar. Os subordinados mal respiravam. Apenas Ryu Jin, sua mãe, se aproximou silenciosamente dele, abraçando seus ombros e acariciando suas costas sem dizer uma palavra.
Noah achou que tudo havia terminado. Os pais nunca contaram os detalhes, mas ficou claro que se livraram discretamente do homem que sequestrou Yohan. Porém, a partir daquele dia, Yohan começou a agir de forma estranha. Ele ficava sentado, olhando para o nada pela janela, e quando Noah tentava tocá-lo, ele se encolhia, assustado.
Quando perguntava o que tinha acontecido durante o sequestro, Yohan apenas sorria e balançava a cabeça. Dizia que não tinha acontecido nada, usava sempre a mesma resposta.
«… De qualquer forma… acho que por isso…»
Noah não tinha a intenção de ouvir, foi realmente por acaso. Ele desceu para pegar algo para comer e acabou ouvindo os subordinados que tinham ido junto com o pai para resgatar Yohan conversando durante a refeição.
«Ainda bem que ele saiu ileso. Pelo menos não foi até o fim.»
«Não fala uma coisa dessas. Você viu a cara do chefe naquele dia? Eu achei que ele fosse estraçalhar o filho da puta ali mesmo. Comparado a antigamente, ele teve uma paciência absurda.»
«E o que ele teria feito antes?»
«O que você acha? Ele teria acabado com o cara na hora.»
O subordinado fez um gesto de cortar a garganta com a mão. Noah já tinha passado pela fase de ficar em choque por saber que o pai era mafioso, então até aí ainda conseguiu engolir em seco e ignorar.
«No dia a dia, a gente nem percebe, mas ele é um ômega. E aquele cheiro… não era quase como o da época do Ryu Jin? E ele ainda é tão novo…»
Na parte em que falaram do cheiro de ômega, Noah parou, congelado na entrada.
«Acho que usaram um indutor de cio. Como ele nunca teve um ciclo de calor completo antes, deve ter entrado em pânico. Espero que ele supere sem traumas.»
«Ele é forte, vai ficar bem.»
«Mas ultimamente ele fica tão distante, como se estivesse com a mente em outro lugar…»
A conversa dos subordinados só aumentou a preocupação de Noah sobre Yohan. Ele ficou parado, absorto, organizando mentalmente tudo o que tinha acabado de ouvir. Era óbvio que o desgraçado que sequestrou Yohan tinha aprontado alguma coisa. Por sorte, antes que algo pior acontecesse, seu pai apareceu e conseguiu resgatar Yohan. Mas aparentemente, algo tão horrível aconteceu naquele dia que Yohan nem conseguia falar sobre isso.
Mesmo que já tivessem quinze anos, ainda estavam muito mais próximos de serem crianças do que adultos. Mesmo sabendo de seus gêneros, nem Yohan nem Noah tinham passado por um ciclo de cio ou rut, por isso nunca haviam se preocupado demais com essas questões. Mas Yohan, justamente na primeira vez que Noah não estava por perto, enfrentou o primeiro ciclo de calor de sua vida. E ainda por cima, de forma forçada, provocado por outra pessoa.
Noah lembrava das aulas na escola sobre os ciclos de calor: um desejo que vai além da razão, algo tão intenso que se dizia ser quase como virar um animal. Yohan era a pessoa mais racional que ele conhecia. Inteligente, rápido para tomar decisões, e por isso, mais maduro do que a maioria da mesma idade.
‘Será que o Yohan ficou apavorado diante do cio? Será que aquele estranho encostou no corpo dele?’
Quando imaginou a cena, um enjoo insuportável subiu pela sua garganta. Ele correu para o banheiro e só se acalmou depois de vomitar tudo o que tinha no estômago.
“Noah, é você quem deve proteger Yohan. Só você pode protegê-lo.”
Ele se arrependeu profundamente de ter ignorado as palavras do pai. Nunca, nenhuma única vez, eles haviam guardado segredos entre si. Doía perceber que Yohan agora estava escondendo algo dele. Noah decidiu, com toda a convicção, que nunca mais deixaria Yohan passar por aquilo outra vez. Não importava o que acontecesse, ele mesmo iria protegê-lo.
Foi a partir desse momento que começou o comportamento superprotetor quase obsessivo de Noah. Os pais também não fizeram questão de impedir, e o próprio Yohan, que era o mais envolvido, não demonstrou nenhuma rejeição séria nem se mostrou incomodado com a atitude de Noah. Por causa desse zelo excessivo, o tempo que Yohan passava sozinho, parado, apenas olhando o vazio, diminuiu consideravelmente. Afinal, ele não permitia que Yohan ficasse sozinho por muito tempo, então era uma consequência natural.
Parecia que tudo tinha voltado à rotina normal, mas, na verdade, havia mudanças. Depois de muitas conversas com Ryu Jin, Yohan começou a frequentar o laboratório de pesquisa conjunto da RF Pharmaceuticals com a empresa Galayev. O motivo era que ele queria aprender a controlar controlar seus feromônios ômega. Com a ajuda do laboratório, obteve bons resultados, e, desde então, Noah nunca mais viu Yohan entrar em um ciclo de calor sem estar preparado – exceto, é claro, quando alguém usou um indutor de cio nele.
E Noah não sabia, mas foi também nessa época que Yohan começou a coleção de “brinquedos”. Um corpo que uma vez foi consumido pelo desejo não esquece facilmente o calor. No entanto, ele não tinha a menor vontade de ser tocado pelas mãos de outra pessoa. Não era exatamente um trauma, mas, depois de ter passado pela experiência de um estranho pondo as mãos em seu corpo contra sua vontade, entendeu perfeitamente que aquilo não era nem um pouco agradável.
Talvez porque seu primeiro ciclo de calor não tenha sido tão intenso, o desejo não apagou completamente sua razão. Aquele formigamento estranho por dentro, como se algo coçasse, tinha ficado marcado em seu corpo, mas ele não se tornou um animal a ponto de desejar qualquer um. Por isso, o caminho que escolheu foi começar a colecionar brinquedos.
Ryu Jin estava ciente da situação de Yohan e acabou aceitando sua escolha. Quando Yohan completou vinte anos, Ryu Jin até entrou na brincadeira, comprou alguns produtos de boa qualidade e os entregou pessoalmente. Quando Yohan e Noah se mudaram para a Coreia, foi Ryu Jin quem escolheu a casa e mandou instalar uma estante no quarto do filho para guardar toda a coleção.
***
Yohan ficou parado diante da estante, com uma expressão séria, refletindo por alguns instantes, e acabou fechando a porta do armário. Ele pensou em brincar um pouco mais, já que as memórias com Siheon durante o dia vieram à tona mas, ao encarar os brinquedos, percebeu que não estava com vontade alguma.
Parecia improvável que algum deles conseguisse reproduzir exatamente aquela sensação que Siheon fazia ele sentir.
‘Isso é um efeito colateral bem sério…’
Ele não podia garantir por quanto tempo aquela relação com Siheon continuaria. Quando começou o estágio, tinha proposto aquele namoro de contrato por um mês, e agora não faltava nem uma semana para acabar.
‘Acho que está chegando a hora de tomar uma decisão de verdade… Mas o que eu vou fazer?’
Se não quisesse perdê-lo, teria que se tornar um namorado de verdade. Um relacionamento de verdade com Siheon…? Justamente com Cha Siheon, que ainda o olhava com aqueles olhos frios e indiferentes? Acabou soltando uma risada baixa.
Na verdade, o problema não era Siheon. O problema eram os próprios sentimentos dele. Aquela história de “um mês” tinha sido, no fundo, uma maneira de ganhar tempo, mas não porque Cha Siheon estivesse se fazendo de difícil e ele precisasse de mais tempo para conquistá-lo. Era só que um mês parecia suficiente para matar a própria curiosidade de forma segura.
Só que agora, o problema era que ele estava se envolvendo muito mais do que tinha previsto.
‘Pelo quê, exatamente? Pelo sexo com Siheon? Ou por Siheon em si? É difícil saber ao certo. Bom… Ainda falta um pouco até completar o mês. Quando chegar a hora, de algum jeito eu resolvo isso.’
Ele desistiu de ficar remoendo aquelas preocupações e saiu para a sala de estar. Noah estava sentado no sofá, mudando os canais da TV sem parar. Ele havia passado pomada, mas o canto da boca estava inchado e machucado, e seu rosto apresentava um tom azulado perto do queixo, indicando que um hematoma estava se formando. Provavelmente o corpo estava ainda pior.
Aproximou-se de Noah e se ajoelhou no chão, bem à sua frente. Segurou de repente a barra da camisa dele e a levantou, fazendo Noah se assustar.
— O que você está fazendo?
— Eu sabia…
Como ele imaginava, o abdômen do outro também estava cheio de hematomas aqui e ali.
— Nossa… Cha Siheon te bateu sem piedade mesmo…
— Não é nada demais.
Noah puxou a camisa de volta para baixo, respondendo com indiferença ao notar para onde Yohan estava olhando.
— Quer que eu coloque um adesivo pra dor?
— Não precisa.
— E remédio? Quer que eu passe?
— Eu já passei agora há pouco.
‘Claro que passou. Ele provavelmente só fingiu que aplicou, no máximo, no rosto.’
— Não está sentindo nada doendo? Nenhuma fisgada em lugar nenhum?
Depois de brigar daquele jeito, podia até parecer que estava tudo bem, mas era comum ter dor muscular. Mais uma vez, Noah balançou a cabeça. Yohan não conseguia saber se ele dizia que estava bem porque realmente não sentia nada ou se estava escondendo.
Yohan sentou-se ao lado dele no sofá e apoiou a cabeça no ombro de Noah.
— Quer que eu te compre alguma coisa gostosa?
Ele perguntou aquilo do nada, e Noah se virou para encará-lo, soltando um riso breve.
— Isso não foi sua culpa. Não fique se sentindo culpado.
— Quem disse que eu estou me sentindo culpado…?
Mesmo negando, Noah passou a mão pelos cabelos de Yohan, como se já soubesse de tudo. O toque era tão suave que ele fechou os olhos e ficou escutando apenas o som da televisão.
Mas era estranho. A imagem de Cha Siheon não saía da sua mente.
‘Será que ele também não está todo machucado, como o Noah? Devia ter olhado direito quando tive a chance…’
Esses pensamentos não paravam de atormentar sua cabeça.
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Continua…
Ler Controle Yaoi Mangá Online
SpinOffs de ESCAPE.
— Esse é o Jenny, veio dos Estados Unidos. Ao lado está o Alexei, que está comigo desde a Rússia, é um dos mais antigos. O próximo é o Jordi, que vem direto da França. E por último, aquele ali é o mais novo, o “Honey”. Escolhi ele porque achei que teria o tamanho ideal para hyung Siheon. O que acha, gostou?
À medida que ele ia apontando um por um com o dedo e explicando, o rosto de Siheon ia ficando cada vez mais sombrio. ‘Parece que ele entendeu perfeitamente.’ Yohan olhou para Siheon e sorriu com um ar inocente, quase doce.
— Pode cumprimentar. Todos já passaram pelo mesmo buraquinho.
— Haa…
Siheon soltou um som comprido, que ninguém saberia dizer se era um suspiro ou uma risada vazia. Em seguida, lançou um olhar fulminante para os brinquedos enfileirados.
— Está me dizendo que eu estou no mesmo nível que essas coisas?
— Bom, eu não disse exatamente isso… Mas, no fim das contas, o único ser humano que já entrou em mim foi você, hyung.
(Trecho de CTRL.)