Ler Controle – Capítulo 19 Online
Quando a mãe de Siheon desmaiou e foi hospitalizada, foi a primeira vez que ele viu o rosto do homem que ela dizia ser seu “pai”. E ele não apareceu imediatamente – a mulher ficou internada por quase um mês, vítima de uma doença misteriosa que só a consumia mais a cada dia. Era uma doença rara, que só acometia ômegas, com uma probabilidade de menos de 0,1% de acontecer. E, ironicamente, sua mãe tinha sido justamente uma das poucas afetadas.
O médico, diversas vezes, perguntou a Siheon se não havia outro responsável. Talvez achassem cruel demais contar tudo aquilo para um menor de idade.
“Acho… acho que não falta muito tempo. Antes que seja tarde… pelo menos uma vez…”
A voz da mãe soava fraca e suplicante. Enquanto Siheon tinha saído por alguns minutos para encher um copo d’água no purificador, sua mãe fez uma ligação. Ao voltar, ele inadvertidamente escutou a conversa pela fresta da porta. Pela fresta, viu o rosto dela – cansado e esgotado. Aquela mulher que sempre sorria radiante, agora parecia carregar o próprio mundo nas costas. Até mesmo aquele sorriso fraco doía de ver.
Depois de um longo tempo de súplicas, naquela mesma noite, bem tarde, Seungmin Seonwoo apareceu no hospital.
“Siheon… esse é seu pai. Vá, cumprimente ele.”
Sua mãe disse, feliz, como se aquele momento fosse algo maravilhoso.
‘Porque está tão feliz…?’
Sua mãe alegremente apresentou Siheon ao homem chamado pai. Para Si-heon, aquilo era absurdo. Ali estava ele – Um desconhecido – que nunca havia visto em seus dezessete anos de vida – agora aparecia diante dele como “pai”. Como é que poderia chamar de pai alguém que nem sabia que rosto tinha até aquele dia?
Siheon apenas fez uma leve reverência com a cabeça. E, do outro lado, Seungmin Seonwoo o encarou com um olhar frio, quase indiferente. Nenhuma palavra acolhedora. Nenhuma demonstração de preocupação com a mãe doente. Esse foi o primeiro encontro entre eles.
Três dias depois, sua mãe faleceu.
“Mesmo que ele pareça meio frio… na verdade, ele é uma boa pessoa. Então… não odeie seu pai, está bem? Mamãe… mamãe está muito feliz. Estou muito feliz por você ter conhecido seu pai.”
Ela disse, sorrindo de forma serena, como se, ao apresentar Siheon para aquele homem, tivesse cumprido seu último dever. E então, fechou os olhos.
Siheon perdeu a única família que tinha no mundo. Era uma dor que parecia rasgar o peito, sufocante, esmagadora. Mas, curiosamente, as lágrimas não vinham. E foi naquele dia que ele descobriu que, quando se está triste além dos próprios limites, nem chorar se consegue.
O que restou foi uma risada vazia. Mesmo até o último segundo de vida, sua mãe defendeu aquele homem. E ele? Aquele que ela tanto amou… sequer compareceu ao funeral.
Seungmin Seonwoo voltou a procurá-lo – ou melhor, mandou chamá-lo – só depois que o funeral já havia terminado.
“Suas notas são ótimas, pelo que vi. Já decidiu em que universidade ou curso quer entrar?”
Siheon cerrou os dentes, se recusando a responder. A pergunta não era essa. O que ele deveria ter perguntado era se o funeral da mulher que lhe deu um filho correu bem.
“Não se preocupe com despesas. Nem com as mensalidades da faculdade.”
Ele disse entregando um cartão.
“O dinheiro que vou colocar ai… use -o como quiser.”
“…Isso é o quê? Uma esmola barata?”
A pergunta escapou entre os dentes, carregada de desprezo. Seungmin franziu a testa, claramente desconfortável com aquele tom.
“Não preciso.” Siheon apertou os punhos. “Eu me viro sozinho. Não preciso do seu dinheiro”
“Você ainda é só uma criança. Se virar? E como, exatamente, acha que vai fazer isso?”
A frieza do homem contrastava com a raiva de Siheon. Mesmo diante de um Siheon totalmente armado e cheio de rancor, Seungmin manteve-se impassível.
“Sem uma formação universitária, seu valor no mercado cai. Mesmo que seja um alfa altamente capacitado, sem diploma, seu valor social se torna desvalorizado. E, com isso, a chance de você subir na vida também vai ser extremamente limitada.”
O homem disse, com aquele olhar cortante. Seungmin olhou diretamente nos olhos de Siheon, com um olhar que parecia capaz de atravessar sua alma.
“Orgulho… só faz sentido quando você está no mesmo nível que a outra pessoa. No seu caso, isso não é orgulho. É só teimosia infantil.”
Siheon mordeu o interior da boca, engolindo o ódio. O pior era saber que ele tinha razão. E, para seu próprio desgosto, não havia como rebater aquelas palavras.
A partir daquele dia, até a casa onde viveu com sua mãe foi vendida – sem que ele sequer soubesse. Deram-lhe um apartamento para morar e, todo mês, uma quantia absurda, daquelas que ele sequer conseguia entender como poderia gastar, era depositada em sua conta.
Só o fato de usar aquele dinheiro já feria mortalmente seu orgulho. No entanto, as palavras de Seungmin estavam certas. Se insistisse apenas no orgulho e não conseguisse conquistar nada, isso sim seria ser um verdadeiro fracassado. Por isso, passou a sacar apenas o valor mínimo necessário para pagar a mensalidade da faculdade.
Após entrar na universidade, sempre que pôde, arcou com os custos através de bolsas de estudo, e o restante, com trabalhos de meio período.
Quando já estava relativamente adaptado à vida universitária, simplesmente parou de tocar no dinheiro da conta. Aumentou a carga de trabalho, mas, faltando um semestre para se formar, acabou perdendo a bolsa e precisou trancar a matrícula. No início, não teve escolha, mas agora que já podia se sustentar com seus próprios esforços, não queria, de forma alguma, mexer naquele dinheiro.
Aquele dinheiro sujo não merecia ser tocado.
Economizar trabalhando meio período não era nada fácil, e era ainda mais apertado, já que precisava juntar tanto para o custo de vida quanto para a mensalidade. Só para conseguir pagar as mensalidades levou um ano inteiro. Como no último semestre planejava diminuir os trabalhos, optou por não retornar imediatamente e passou mais dois anos economizando. Foi o tempo necessário para garantir que conseguiria se manter sem precisar trabalhar como um louco.
“Mamãe quer que você encontre seu destinado Siheon”
As palavras que a mãe dizia sempre ecoavam em seus ouvidos.
“Já que você nasceu como alfa, seria maravilhoso se encontrasse seu próprio ômega. Sabe… isso é uma chance bem rara, viu? Seria ótimo que fosse alguém com quem você pudesse até se vincular. Quero que você seja feliz.”
— A senhora… foi feliz?
Perguntou, olhando para o porta-retrato, mas por mais que perguntasse, não havia resposta. Sua mãe também era uma ômega. No entanto, ela não chegou a se vincular nem a se casar com Seungmin Seonwoo. Terá sido feliz, de fato? Ele não sabia responder. Na maior parte do tempo, ela sorria de forma radiante, mas a imagem da mãe no leito do hospital, ligando para aquele homem, ficou marcada profundamente em sua memória. Naquele momento, ela não parecia nem um pouco feliz. Só parecia exausta e profundamente triste.
Mesmo sendo um ômega, Yohan era bem diferente dela. Era impossível imaginá-lo dedicando toda sua vida a uma única pessoa, como sua mãe fizera. Ele até falava de sexo de forma bem casual. Assim como o vínculo, esse tipo de compromisso também não combinava com alguém como Ryu Yohan.
Brrrrrrr.
De repente, seu celular começou a tocar estridentemente em algum lugar. Seguindo o som, virou o rosto e percebeu que vinha de dentro da jaqueta. Ele provavelmente, tinha chegado em casa e nem sequer tirado o celular do bolso.
Com passos lentos, caminhou até o cabide onde a jaqueta estava pendurada. Também não se importava se a ligação caísse. Afinal, não esperava nenhuma ligação importante.
Quando tirou o celular e olhou o identificador de chamadas, soltou uma risada seca. “Presidente.” Aquelas sílabas pareciam especialmente mais frias naquele dia.
Ficou apenas olhando, sem de fato atender, enquanto o telefone seguia tocando alto. Ele não queria atendê-lo. Não queria ouvir aquela voz, tampouco tinha algo a dizer. E, de qualquer forma, sabia que o homem não estava ligando para perguntar se estava bem ou coisa do tipo.
De certo modo, até preferia Seonwoo Geon a ele. Aquele desgraçado sempre fazia de tudo para infernizar quando se encontravam, mas pelo menos com ele bastava revidar na mesma moeda.
O toque não parou. Teria sido melhor se tivesse deixado no silencioso ou no modo vibrar, mas, por azar, estava no modo som, o que o irritava ainda mais. Sem escolha, apertou o botão de atender e levou o aparelho ao ouvido.
— Fala.
Disse, de forma seca. Nem sequer cumprimentou. Do outro lado, igualmente, não houve qualquer pergunta sobre como estava.
[Soube que começou um estágio.]
— Sim.
[No setor digital, ouvi dizer.]
‘Quem é que fica passando informações tão detalhadas sobre mim?’
Ao redor, não havia ninguém vigiando, e ainda assim, aquele homem parecia saber tudo. A simples percepção de estar sendo observado de forma invisível deixava seu estômago embrulhado.
[E também ouvi que está bem próximo de Ryu Yohan.]
Ao ouvir aquele nome, Siheon apertou os dentes com força. Nem precisava ouvir o restante para saber o que viria.
[Continue se aproximando.]
A voz do outro lado era gelada.
[Aproveite essa amizade. Ele pode ser útil.]
— Aquele cara… é um ômega, sabia?
Disse Siheon, cerrando ainda mais o maxilar. Ele nunca tinha tratado alguém de forma diferente por ser ômega, alfa ou beta. Mas Seungmin era diferente. Para ele, existiam linhas bem delimitadas, qualquer um poderia ser usado, desde que servisse aos seus propósitos. Em seu mundo, Alfas eram úteis, Ômegas exploráveis e Betas irrelevantes.
[Justamente por ser ômega.]
A voz soou fria do outro lado.
[Ele pode ser uma ponte para você. Afinal, é um ômega nascido em uma família de alfas. Poderia até haver um casamento arranjado com nossa família.]
— Hah.
Não conseguiu conter a risada seca que escapou.
— Casamento arranjado com o Ryu Yohan?
Ficou imaginando qual seria a reação dele se ouvisse aquilo.
— Aquele cara… não faz meu tipo.
[Nunca disse que seria pra você.]
A resposta veio afiada.
‘Ah…’
Dessa vez, engoliu o suspiro antes que escapasse. Ryu Yohan tinha por trás dele nada menos que o gigantesco grupo RF. Não era possível que colocassem alguém assim com ele, um filho ilegítimo. Claramente, estavam considerando o Yohan como par para algum outro alfa da família Seonwoo. Ou seja, provavelmente, para Geon Seonwoo.
[Mesmo assim, se você souber como persuadi-lo, pode conseguir arrancar informações do RF Group. Depende de você.]
‘Que ridículo… como se o Yohan fosse mais do que um simples estagiário…’
Apesar do nome do Yohan estar no meio, a verdade é que nem precisava ser ele. O que o homem estava dizendo, e que ele deveria atuar como espião dentro do grupo RF.
— Pode deixar, eu sei me virar. Não precisa se preocupar.
[Não se esqueça de que essa é sua chance de provar seu valor.]
A voz foi seca, quase cruel.
‘Provar meu valor, é?’
Sorriu com desdém. Não era uma surpresa, nunca foi. Desligou e jogou o celular na cama sem cuidado. Deitou-se, encarando o teto.
“ A Mamãe… ama o seu pai.”
Aquela frase que ela tanto repetia parecia reverberar dentro da cabeça dele.
Amor? Se aquilo era amor… então que se dane. Prefiro não ter nenhum.
Não acreditava nem nas pessoas, nem no amor. No mundo em que Siheon viveu, algo como amor simplesmente não existia.
***
Depois do almoço, os estagiários decidiram passar juntos na cafeteria para tomar um café. Cada um fez seu pedido, escolheram uma mesa e aguardaram até que o pager vibrasse. Quando o aparelho começou a apitar, Yohan prontamente se ofereceu:
— Eu pego.
Os colegas, que ainda carregavam certos preconceitos sobre filhos de famílias ricas, ficavam surpresos com a naturalidade e simplicidade de Yohan.
— Ele é um anjo, de verdade…
Murmurou uma das funcionárias.
— Sério… ter esse rosto e ainda ser gentil? Isso é golpe baixo!
— Não é? Em pensar que ele é filho do presidente!
— E, ainda por cima, trabalha bem. — Acrescentou o supervisor, que os acompanhava. — Ontem foi só o primeiro dia, mas já deu para perceber que ele é de outro nível, bem diferente da maioria dos outros estagiários.
— O teste durante a entrevista foi lendário.
— Ah, eu também ouvi falar disso!
Sem nem perceberem, a conversa já tinha mudado completamente de rumo, agora girando em torno das histórias da entrevista de Yohan para o estágio. Diziam até que os recrutadores ficaram de queixo caído. Observando aquilo, Siheon se levantou da cadeira.
— Vai aonde?
Perguntou o colega ao lado. Sem responder, apenas indicou com um movimento sutil do queixo a direção do balcão. Tinham pedido bastante coisa, e parecia pesado demais para Yohan trazer tudo sozinho.
— Olha só… ele parece todo frio, meio durão, mas no fundo é um cara bem atencioso, hein?
Comentou outro colega, sorrindo.
— Pois é. Eles se dão bem.
Acrescentou o supervisor, claramente satisfeito, até dando um empurrãozinho nas costas de Siheon, incentivando-o a ir ajudar. Afinal, ontem mesmo, durante o jantar, ele tinha ficado preocupado com a relação entre os dois.
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Continua…
Ler Controle Yaoi Mangá Online
SpinOffs de ESCAPE.
— Esse é o Jenny, veio dos Estados Unidos. Ao lado está o Alexei, que está comigo desde a Rússia, é um dos mais antigos. O próximo é o Jordi, que vem direto da França. E por último, aquele ali é o mais novo, o “Honey”. Escolhi ele porque achei que teria o tamanho ideal para hyung Siheon. O que acha, gostou?
À medida que ele ia apontando um por um com o dedo e explicando, o rosto de Siheon ia ficando cada vez mais sombrio. ‘Parece que ele entendeu perfeitamente.’ Yohan olhou para Siheon e sorriu com um ar inocente, quase doce.
— Pode cumprimentar. Todos já passaram pelo mesmo buraquinho.
— Haa…
Siheon soltou um som comprido, que ninguém saberia dizer se era um suspiro ou uma risada vazia. Em seguida, lançou um olhar fulminante para os brinquedos enfileirados.
— Está me dizendo que eu estou no mesmo nível que essas coisas?
— Bom, eu não disse exatamente isso… Mas, no fim das contas, o único ser humano que já entrou em mim foi você, hyung.
(Trecho de CTRL.)