Ler Cão Real. – Capítulo 53 Online
Sem sequer olhar para Hayul, Pavel fez a pergunta. Seus olhos frios continuavam voltados para o entorno. A pergunta, não passava de uma formalidade. Mesmo sem obter resposta, Pavel puxou Hayul e entrou no salão, dirigindo-se à mesa central onde petiscos simples e doces foram dispostos. A multidão se abriu como uma onda se partindo ao meio; um caminho foi formando-se conforme os dois avançavam.
Ao chegar à mesa, Pavel pegou uma taça de champanhe, entregou-a à Hayul e ergueu uma garrafa de água para si. Hayul, comportadamente, deu golinhos moderados no champanhe adocicado e, como acompanhamento, comeu uvas que pareciam apetitosas.
Enquanto mascava as uvas, Hayul manteve o olhar sobre aqueles que o observavam fixamente. Era engraçado, de um jeito cruel: ficavam ali, em grupos separados, mantendo distância e trocando olhares, observando as reações. Não podiam mais sussurrar como antes, e agora só encaravam com olhares carregados de desprezo e aversão. Parecia haver uma linha invisível entre as pessoas e Pavel.
Eles tinham medo de Pavel. Era patético que nobres Alfas Reais, importantes e prestigiados, apenas observassem as expressões de Pavel, o mais jovem ali. Ainda assim, os olhares eram cortantes. Para qualquer um que visse, era claro que Pavel era o protagonista da festa, o detentor do maior poder na selva repleta de feras.
Era o momento em que a hierarquia deste mundo, que ele apenas ouvira falar, ficava clara diante de seus olhos. Ele, que sempre fora ignorado e tratado como se não existisse, onde quer que fosse, agora estava recebendo a atenção de todos apenas por estar ao lado de Pavel. Parecia que, embora não aprovassem a presença de um ser inferior que baixava o nível da festa, ninguém ousaria expressar abertamente seu descontentamento.
Oleg Kirov era alguém que, silenciosamente, sem alarde, eliminava facções que se rebelavam contra o presidente que constituía o núcleo de seu poder. Agora sua lâmina cortava os que ousavam enfrentá-lo – sem perdão, sem clemência. Neste mundo, mostrar misericórdia era sinal de fraqueza. Oleg Kirov tornou-se um tigre velho, mas seu jovem neto, Pavel Kirov, herdou com a mesma eficácia, a sua lâmina .
Apenas olhando para a dinâmica atual, dava para entender perfeitamente. Neste mundo brutal, a família Kirov ainda era a mais forte.
— Pavel!
O silêncio breve foi quebrado por um homem de meia-idade que se aproximou de Pavel e o cumprimentou calorosamente.
— Pensei que não viria hoje. Obrigado por ter vindo.
O homem abraçou Pavel de leve e lançou um olhar para Hayul, que comia outra uva. — Esta pessoa é sua noiva? — ele perguntou, e Pavel apenas piscou, confirmando.
— Mas por que está aí, escondido, bebendo suco? Este é o momento de apresentar sua noiva. Venham! Senhores, por favor, olhem para cá!
Mesmo sem o homem bater palmas e gritar, o interesse de todos já estava voltado apenas para Pavel e Hayul.
— Todos já devem ter ouvido os rumores, certo? O senhor Pavel Kirov vai se casar! Vamos dar os parabéns!
O homem incentivou as pessoas a aplaudirem, mas ninguém o fez. Envergonhado, encolheu os ombros e deu uma cotovelada em Pavel.
— O que está fazendo? Pelo menos diga alguma coisa.
Pavel, que estava de braços cruzados, girando o copo de suco como se fosse uma taça de champanhe, piscou os olhos lentamente algumas vezes e então falou.
— Não vim aqui para receber parabéns. Portanto, não se sintam obrigados a me parabenizar. Esta pessoa aqui é meu cônjuge.
A situação tinha um humor ácido. Hayul, propositalmente de pé numa pose desleixada, mordiscou a uva e olhou para a plateia com ar desafiador. Normalmente, em uma situação como esta, ele deveria cumprimentá-las também, mas ele apenas inclinou a cabeça para trás e engoliu o champanhe como se fosse água, em grandes goles. Já que o desprezavam chamando-o de vulgar e sujo, ele decidiu agir de forma ainda mais grosseira. Como esperado, as pessoas ficaram abertamente desconfortáveis.
— Independente de suas origens ou linhagem, esta pessoa agora também é membro da família Kirov. Portanto, a partir de agora, peço que se abstenham de palavras ou ações que insultem meu cônjuge. Ele não é alguém com quem se pode brincar, então é melhor que não façam besteira. Como todos sabem muito bem, a família Kirov nunca perdoa aqueles que mexem com seus membros.
Era um aviso: se mexessem com seu parceiro, ele não ficaria parado. Mais do que um anúncio de casamento, parecia uma declaração unilateral de guerra.
— Portanto, daqui para frente, peço que se abstenham de fazer coisas como colocar estimulante de porco na minha bebida. Também não mandem mais Ômegas Reais no cio entrarem no meu quarto. Eu não reajo a nenhum ômega que não seja o meu cônjuge.
Hayul sabia que era uma fala rude, mas não conseguiu conter o riso. Estimulante de porco? Ele se perguntou o que aquelas pessoas tinham feito com Pavel para que ele dissesse algo assim.
— Seu insolente!
Com a atitude de Hayul, alguém perdeu o controle e explodiu de raiva. Ele também não se conteve e retrucou em tom afiado:
— Drogar alguém com “estimulante de porco”… não acha que isso já é demais? Afinal, quem está sendo vulgar aqui?
— O q-quê? Como ousa, seu insolente! Sabe onde está?
— Já chega. O nível é tão baixo que nem tenho vontade de continuar essa conversa.
— Você sabe com quem está falando? Seu bastardo, mestiço!
O homem era de temperamento explosivo. Com os olhos faiscando de raiva, ele avançou contra Hayul. Não havia motivo para poupar quem começou a confusão e partiu para cima.
Por acaso, Hayul viu a arma presa no coldre do guarda que estava parado ao lado da mesa, nervoso e sem saber o que fazer. Ele largou a taça de champanhe que segurava, arrancou rapidamente a arma da cintura do guarda e, num movimento rápido, dominou o homem, arremessando-o ao chão. Mesmo sendo um alfa real, ele estava cambaleando por causa do álcool e das drogas, então não foi difícil imobilizá-lo.
Hayul pressionou o joelho nas costas do homem, prendendo-o firmemente contra o chão, e apontou a arma para sua cabeça. Mesmo naquela posição, o sujeito ainda se contorcia e xingava — Seu desgraçado, seu insolente! — Hayul o ameaçou em voz baixa:
— Não se mexa, ou eu atiro.
O som seco do gatilho sendo puxado fez o homem estremecer e parar de se mover.
— Eu avisei que ele não é alguém que possa ser subestimado.
A voz baixa de Pavel soou sobre o burburinho do salão, ecoando com frieza. Ele olhou de cima o homem que jazia no chão como um verme.
— Há pouco eu avisei que quem tocasse em alguém da família Kirov não seria perdoado.
Pavel rosnou as palavras, cuspindo-as, e em seguida esmagou a mão do homem com a ponta da bota. O homem se contorceu e gemeu como um peixe de água doce jogado direto no mar salgado.
— Senhor Fyodor, o senhor parece guardar certo rancor de mim. Quer acabar como o senhor Alexei, tendo sua morte declarada como “suicídio”?
— Aah! Me desculpe, foi um erro, eu errei!
— Os pedidos de desculpas devem ser dirigidos ao meu cônjuge.
Pavel pressionou ainda mais a bota sobre a mão do homem. Um grito agudo escapou dele, e, desesperado, ele virou a cabeça em direção a Hayul – que ainda apontava a arma – e implorou:
— Me desculpe!
— Peça desculpas educadamente.
— Aah! S-sinto muito! Eu perdi a cabeça e acabei sendo desrespeitoso!
Quando ouviu o pedido de desculpas, Hayul achou que já era o suficiente. Ele não tinha intenção de machucar ninguém, não era algo pelo qual tinha sido contratado. Afastou o cano da arma e se levantou de cima do homem. Pavel, no entanto, só tirou o pé depois de esmagar a mão dele mais uma vez com a sola do sapato.
Os seguranças correram para ajudar o sujeito a se levantar. Com o rosto vermelho de dor e humilhação, ele se voltou contra os próprios guardas, batendo neles em um ataque de fúria.
— Me dê a arma. É perigoso.
Pavel estendeu a mão para Hayul, que naturalmente guardava a arma no bolso da frente de seu paletó. Era improvável que uma arma fosse perigosa para alguém que já havia trabalhado como assassino. Hayul relutou em entregar, mas Pavel insistiu e pegou a arma de sua mão.
— Daqui pra frente, não suje mais suas mãos, hyung.
— O que você… — começou Hayul, mas não teve tempo de terminar.
Antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer com aquilo, Pavel levantou a arma e puxou o gatilho em direção ao homem. O estampido ecoou alto, cortando o salão. O tiro acertou o homem que, de costas, ainda resmungava e tentava se afastar. Um grito agudo se espalhou enquanto ele caía, agarrando a perna atravessada pela bala, se contorcendo de dor no chão.
— Eu mesmo lido, com aquele que tocar na minha pessoa.
Pavel falou casualmente e jogou a arma de volta para o guarda. Em seguida, ergueu a voz com um tom leve, dirigindo-se aos presentes, que murmuravam atônitos:
— Então, como já tratei do assunto, irei me retirar. Vocês não precisam comparecer à cerimônia do nosso casamento.
— Aargh! Maldito, seu louco imundo!
O homem rolou pelo chão, gritando como se cuspisse sangue, mas Pavel não deu atenção e puxou o braço de Hayul. Uma festa onde não foi bem-vindo. Uma saída sem ninguém aplaudindo; uma saída sem despedidas calorosas. Atrás deles ecoavam vozes ruidosas.
— É um mestiço nojento, é um patógeno — eram insultos que Hayul já estava cansado de ouvir. O desprezo e a repulsa, como se olhassem para um inseto, eram tão familiares que pouco importavam. Até então, ninguém jamais havia se desculpado com Hayul, e ele também nunca esperou receber um pedido de desculpas. Esse tratamento era considerado natural.
— Será que eu devia tê-los matado?
Pavel, que até então caminhava em silêncio com o rosto rigidamente voltado para a saída, falou de repente.
— Devo voltar lá e matar todos? Quanto mais penso, mais irritado me sinto.
Desta vez, ele virou o rosto e olhou para Hayul enquanto perguntava. Hayul deu um riso surpreso. Não tinha sido ele o alvo das ofensas; por que, então, Pavel pareceria tão irritado? Quem tinha sido realmente insultado era Hayul, não ele. Ainda assim, Pavel estava genuinamente furioso, como se os insultos tivessem sido dirigidos a ele.
De repente, ele pensou: quem faria algo assim por mim?
Quem vestiria alguém como ele, que era considerado um “espécie impura” do fundo do poço, e sairia por aí se referindo a ele como “minha pessoa”? Quem diria para ele não sujar as mãos e atiraria em seu lugar? Embora estivesse acostumado a ser desprezado, às vezes isso doía. Às vezes ficava com raiva. E após a raiva, invariavelmente, a tristeza chegava.
Hoje foi o dia em que ele esteve cercado pelo maior número de Alfas Reais em sua vida, recebendo todos os seus olhares desdenhosos. Ainda assim, não se importou.
Porque Pavel estava ao seu lado. Talvez ele fosse um pervertido insano, mas Pavel estava do lado de Hayul. Era o único que se referia a ele como “minha pessoa”, tratando-o como um ser humano, e que havia feito uma proclamação pública para que ninguém ousasse tocar nele.
Mesmo se chegasse o momento em que Hayul apontasse uma arma para a cabeça de Pavel, o homem ainda estaria do seu lado. Aquele Alfas Real nunca o abandonaria.
A única “pessoa do seu lado” neste mundo. O único ser que priorizaria ele acima de tudo. Mesmo que enfiasse o pau no seu traseiro e na boca, nunca cravaria uma faca pelas suas costas.
Pavel era único. Hayul teve de reconhecer isso. Não existiria outro ser humano como Pavel, e ninguém além dele seria capaz de ir a tais extremos por ele. Surgiria outra pessoa que fosse tão obcecada por ele, tão entregue, que não hesitaria em sujar as próprias mãos?
Eles já tinham alcançado a porta. Um empregado abriu a porta para eles, e uma forte nevasca os saudou. Os cabelos negros de Pavel voavam desordenadamente ao vento cortante. Ele agarrou firmemente a mão de Hayul e saiu com passos largos para a neve que caía.
— Como declarei oficialmente que vou me casar com você, hyung, ninguém mais vai ousar te tocar. Não só neste país, mas acho que a notícia vai chegar aos ouvidos de todos ao redor do mundo. Os Kirov não perdoam quem mexe com sua família, e não deve haver ninguém suficientemente ousado para tocar em você sabendo disso.
A expressão dele se suavizou. A face que estava congelada como gelo dentro do salão, que era quente, derreteu suavemente assim que eles saíram para a nevasca.
— Mas, se mesmo assim houver alguém que ousar tocar em você, eu os matarei. Não importa quem seja, não vou perdoar quem mexer com a minha pessoa.
Seus olhos azuis, que olhavam para Hayul, eram quentes e claros como o céu da primavera. No rosto dele havia um sorriso suave que brilhava entre os flocos de neve. No peito de Hayul algo se moveu, uma onda de sentimento que não sabia nomear. Seu coração bateu forte. Bum, bum.
Tinha que ser por causa dos feromônios. Não. Na verdade, não era por causa dos feromônios. Agora ele tinha certeza. Essa sensação não era influência dos feromônios, ele finalmente entendia isso claramente. Enquanto olhava para Pavel em silêncio, ele levantou a mão de Hayul, que estava entrelaçada com a sua, e beijou o dedo onde estava o anel.
— Eu te amo.
O movimento dos lábios sobre o dedo provocou uma cócega suave.
Quem mais sussurraria um “eu te amo” com uma voz tão doce? Fora a mãe que lhe deu à luz, ninguém jamais lhe dissera que o amava.
Era uma confissão sussurrada apenas para Hayul. Uma voz grave e suave que só ele podia ouvir, um olhar e um sorriso que só pertenciam a ele. A figura fria e impiedosa que, há pouco, atirou sem piscar os olhos havia desaparecido por completo. Aqueles olhos azuis sempre refletiam apenas Hayul. Sete anos atrás, agora e, provavelmente, para sempre, só ele estaria naquele olhar – com a mesma cor, o mesmo calor de sempre.
Era isso o que sentia: encantamento. O motivo do coração acelerado só podia ser esse. Até agora tentou negar, mas já era hora de admitir. Sim. Seu coração estava acelerado. Por causa do olhar de Pavel voltado para si, do sussurro dele, do seu calor, do aroma cítrico que o cercava. Não era uma reação fisiológica causada pelos feromônios – era seu coração, suas emoções, que estavam em turbilhão.
“Vou matar você.” Nem mesmo como brincadeira, essas palavras não saíram. Ele nem sequer pensou nisso. Era uma noite em que todo sentimento de raiva e intenção de matá-lo havia desaparecido. A nevasca branca que caia do lado de fora parecia lavar todos os sentimentos negativos dentro de si.
‘O que está acontecendo? O que eu realmente quero fazer? O que meu coração deseja de verdade?’
Hayul não sabia o que fazer em uma situação como essa. Nunca tinha aprendido. Porque ele viveu em um mundo onde sentimentos eram um luxo. Além disso, nunca antes enfrentou alguém que o abalasse emocionalmente desse jeito. Era a primeira vez – e, por isso, era natural não saber o que fazer.
‘O que deveria fazer agora?’
Badum-bum-bum. Seu coração batia forte. As perguntas jorravam, mas nenhuma resposta vinha, apenas o som das batidas do seu próprio coração ecoava.
* * *
No dia seguinte após a festa, Hayul dirigiu-se ao depósito subterrâneo da mansão, mencionado por Oleg Kirov.
Digitou a senha na pesada porta de ferro e, ao entrar, ficou boquiaberto com o tamanho do arsenal. Havia armas suficientes para começar uma guerra. Fileiras e mais fileiras de armas estavam organizadas diante de seus olhos.
Ele tinha liberdade para entrar no arsenal. Pavel também não o impediu de entrar ali.
— Vai para o depósito subterrâneo? Lá tem vários brinquedos que o hyung provavelmente vai gostar.
Foi ele quem lhe deu a senha do porão. Mesmo sabendo que Hayul vivia ameaçando matá-lo, Pavel não demonstrou preocupação.
‘Será que ele realmente achava que, mesmo empunhando uma arma, eu não conseguiria matá-lo?’
Hayul observou o ambiente com calma, pegando e examinando algumas das armas. Ao segurar a arma, ele sentiu que as emoções complicadas que o impediram de dormir na noite anterior estavam se organizando um pouco.
Até quando vai ser arrastado, incapaz de controlar seus próprios sentimentos? Embora fossem seus sentimentos, ele se esforçou para negá-los, evitá-los e supri-los. Mas, na noite anterior, ele admitiu ao menos uma coisa: Pavel fazia seu coração acelerar, e não era apenas por causa dos feromônios.
Agora, precisava entender por que seu coração batia daquele jeito. O que ele queria fazer e o que realmente desejava.
Ele não queria aceitar passivamente a situação atual, onde, apenas porque seu coração acelera, tem que se casar com o alfa. A proposta de casamento de Pavel não passava de um cortejo unilateral, sem considerar de forma alguma a vontade de Hayul. Embora ele tivesse reconhecido o sentimento de “frio na barriga”, isso não significava que seu ódio por Pavel havia desaparecido.
Precisava enfrentar primeiro esse ódio – descobrir se realmente queria matar Pavel Kirov. Ele sentia que precisava tentar descobrir a intensidade desse ódio dentro da coexistência dos sentimentos de “amor” e “ódio”, e testar se seria capaz de apertar o gatilho.
Hayul pegou um rifle de precisão e o mirou no vazio. Nunca tinha usado uma arma daquelas antes, mas o peso e o encaixe nas mãos lhe pareceram perfeitos. Separou-o, planejando levá-lo para fora e testá-lo. No momento em que pegou outra arma, um bip soou e alguém abriu a porta e entrou.
Era Dmitri Kirov.
— Perguntei ao Pavel onde você estava, e ele disse que tinha vindo ao arsenal — comentou Dmitri, aproximando-se de Hayul.
Enquanto dizia isso, ele se aproximou. Era óbvio por que ele tinha seguido Hayul até lá. Dmitri parou ao lado dele e continuou:
— Ouvi dizer que houve um incidente interessante na festa ontem. Pavel já tinha muitos inimigos, mas, depois do que aconteceu, é provável que todos os presentes tenham se voltado contra ele.
— Quem sabe? Talvez o que aconteceu ontem tenha feito alguns mudarem de lado e se aliarem a ele.
Como eram seres humanos astutos, eles provavelmente rapidamente perceberam de que lado seria mais vantajoso se aliar após o incidente de ontem. Um jovem detentor de poder com um carisma avassalador, capacidade de ação e crueldade que lembravam Oleg Kirov em seu auge. Era óbvio que ele, com apenas vinte e poucos anos, expandiria ainda mais sua influência. Pavel era um navio em ascensão. Em vez de se rebelar contra ele e naufragar, embarcar em seu navio e navegar suavemente seria, de todas as formas, mais vantajoso.
Dmitri olhou de relance para o anel de diamante vermelho no dedo de Hayul e torceu o canto da boca em um sorriso.
— E então, o que vai fazer?
Hayul não respondeu de imediato; ficou só mexendo nas armas recém retiradas do mostruário.
— Eu perguntei o que vai fazer. Já mudou de ideia?
Ele vai escolher sua mente, pensando em como agir.
— Daqui a três dias.
Depois de pensar brevemente, ele falou. Ergueu a arma que estava examinando e acariciando, encostou-a no ombro e mirou. Apontou o cano para um adorno de chifres de veado pendurado na parede e puxou o gatilho. Sem o carregador inserido, apenas um clique sonoro ecoou.
— Vou executar o plano em três dias. Eu vou dizer o que precisa ser preparado.
— Mas por que eu deveria confiar em você?
— Fica a seu critério acreditar ou não. De qualquer forma, eu também não confio em você.
Dmitri deu um risinho.
— Mas, depois de matar seu sobrinho, como você pretende lidar com as consequências?
— Por que não se preocupa com a sua própria pele em vez disso?
Ele tinha razão. Era como um rato se preocupando com um gato. Dmitri ficou olhando fixamente para Hayul em silêncio por um momento. Parecia que ia dizer algo mais, mas acabou se virando e saindo. Tendo concluído aquela negociação, não havia motivo para prolongar a conversa.
Hayul não confiava em Dmitri. E era óbvio que o homem também não confiava nele.
Hayul nunca, em toda a sua vida, havia confiado em um parceiro de negócios. Sempre confiou apenas em si mesmo e desconfiou dos outros. Mas agora… ele nem ao menos podia confiar em si próprio.
Será que Dmitri realmente confiava nele o suficiente para encomendar o assassinato de Pavel? Por mais idiota que fosse, ele ainda era um Alfa Real. Certamente tinha outras intenções ocultas. Mesmo sabendo disso, Hayul aceitou. Para colocar em ordem suas próprias emoções, que eram completamente incompreensíveis.
Apontou novamente a arma para o vazio e puxou o gatilho. Depois abaixou e olhou para o anel no próprio dedo. Se ele ficasse distraído e indeciso, seria arrastado pela correnteza que Pavel criou arbitrariamente. Como sempre acontecera até então.
“Eu te amo, hyung.”
O sussurro de Pavel ecoou nos seus ouvidos.
‘Sim. Você sempre foi, é e sempre será de uma direção só, não é? Seus sentimentos sempre foram em linha reta. Não há curva à direita, curva à esquerda ou marcha à ré. Você é como um cavalo de corrida, correndo apenas para a frente.’
‘E eu? Eu…’
Ainda não sabia. Nem um pouco.
Não havia necessidade de decidir às pressas. Hayul suspirou brevemente e pegou outra arma para experimentar. Ficou um bom tempo vasculhando o arsenal até notar uma porta no fundo – entrou. Parecia uma sala de tortura. Uma cadeira de ferro enferrujada, uma mesa cirúrgica, correntes para amarrar, grilhões e outros instrumentos macabros estavam espalhados. Era um recinto cercado de metal, com o piso também revestido de chapas de ferro – claramente pensado para facilitar a limpeza caso jorrasse sangue.
E ao lado da área de tortura, estava aquilo. A enorme gaiola de ferro sobre a qual Pavel e Natasha tinham falado. Quando ele só tinha ouvido falar, imaginou quão grande seria, mas vendo pessoalmente, era imensa. Grande o suficiente para caçar e criar vários ursos.
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°
Continua
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog