Ler Cão Real. – Capítulo 49 Online
Era a manhã do dia em que Pavel deveria voltar, após terminar seus afazeres. Logo cedo, Lock invadiu o quarto e acordou Hayul.
— Quando o senhor Pavel chegar, ele irá direto ao baile à noite. Por favor, levante-se e se prepare.
Lock foi insistentemente importuno, perturbando Hayul sem parar, que tentava se enfiar debaixo do cobertor alegando que queria dormir mais. Porém Hayul acabou levantando, mas não fazia ideia do que exatamente precisava se preparar.
— O que eu tenho para preparar?
Perguntou Hayul com uma expressão mal-humorada, ainda com sono. Lock respondeu com um olhar que parecia dizer como ele podia perguntar algo tão óbvio.
— Precisa se arrumar, claro.
—…
Hayul pensou que já tinha ouvido de tudo na vida. Soltou uma risada incrédula.
— E por que eu deveria me arrumar? Não sou nenhuma dama da nobreza.
—Porque é o noivo do senhor Pavel. O senhor não pretende ir a uma festa importante com essa aparência, pretende? Quer envergonhar o nome dele?
— E o que tem de errado com a minha aparência?
— Quer que eu seja honesto?
— Pode falar —respondeu Hayul, pegando a xícara de chá quente que Lock havia trazido, na tentativa de espantar o sono.
— O senhor parece um cão selvagem largado no deserto, coberto de areia e poeira, com os pelos todos embaraçados. Sujo, brega, grosseiro e deselegante. Não como alguém ‘robusto’ ou ‘viril’, é simplesmente feio. Deixando a pele bonita de lado, o que é esse cabelo? Céus. O Senhor Pavel está profundamente apaixonado por você, Senhor Jin, então ele vai te achar lindo de qualquer jeito, mas se você sair assim, nós é que vamos ser criticados.
Era uma sinceridade tão brutal que Hayul ficou sem palavras. Lock parecia decidido a despejar tudo o que pensava.
— Imagine o Senhor Jin, desse jeito, ao lado do Senhor Pavel, que é impecável e perfeito sem uma única falha. Vai parecer um príncipe ao lado de um mendigo. Já será alvo de fofocas por não ser um Ômega Real, então pelo menos precisa evitar ser criticado pela aparência, não acha?
— Então, se eu não for para a festa, não é melhor?”
— O cabeleireiro virá logo depois do café da manhã. Coma algo e vá se lavar.
Lock ignorou completamente o que Hayul disse e começou a colocar a refeição na mesa. Por mais que repetisse que não pretendia ir a lugar nenhum, era inútil. Lock não escutava nada, só continuava falando o que queria.
Hayul comeu, ouvindo as reclamações de Lock entrarem por um ouvido e saírem pelo outro. Depois foi praticamente empurrado para o banheiro, tomou banho e vestiu-se às pressas. Assim que saiu, uma equipe de cabeleireiros e estilistas entrou no quarto. Antes que pudesse protestar, foi empurrado para uma cadeira por Lock, os criados e os profissionais, que começaram a arrumar seu cabelo e a tratar da pele. Também teve que experimentar uma por uma as roupas que o estilista de cabelo rosa trouxera. Sentia-se como um manequim sendo usado para uma brincadeira.
Quando a irritação estava prestes a fazê-lo explodir, finalmente a “brincadeira de boneca” chegou ao fim.
— E então? O que acha?
Hayul ficou parado diante do espelho, olhando-se de forma um tanto desconfortável. O resultado não era ruim – na verdade, até ele achou que estava apresentável. Dizem que a roupa faz o homem, e vestindo roupas de grife caras, a pessoa realmente parecia nobre. O terno luxuoso lhe caía bem, as calças se ajustavam perfeitamente e os sapatos pareciam feitos sob medida. O cabelo preto, antes desgrenhado, agora estava limpo e penteado, e a sua pele brilhava.
Até o relógio que colocaram em seu pulso parecia custar uma fortuna. Ele nunca tinha usado roupas assim, nem quando vivia na favela, nem quando foi para os Estados Unidos e viveu como Sean Ringer. Seu único terno e casaco de qualidade foram comprados em um outlet por 500 dólares no total, para usar em entrevistas.
—Agora sim, está apresentável
Lock, que estava colado ao seu lado verificando cada detalhe minuciosamente, também mostrou um sorriso de satisfação.
— É uma pena que homens não possam usar joias extravagantes. O colar de diamantes herdado pelas noras da família Kirov há gerações seria perfeito para causar na festa social.
Ao ouvir a palavra “colar”, o rosto de Hayul se contorceu. Depois do anel de diamante, agora um colar? O estilista de cabelo rosa tagarelou sorridente:
— Ora, por que não? Há alguma lei que diga que um homem não pode usar um colar de diamantes com um terno? Pode me mostrar o colar?
Lock, que havia saído por um momento, voltou logo depois com uma pequena caixa de veludo nos braços. Os especialistas soltaram exclamações de admiração ao ver o colar. Hayul também virou a cabeça para olhar. Ao ver o colar de diamantes nas mãos do homem de cabelo rosa, a primeira reação que lhe veio foi um palavrão.
Era um colar imenso, exagerado, algo que só uma rainha usaria – grande, pesado e absurdamente luxuoso. Só de olhar já dava para sentir o peso do desconforto. O homem de cabelo rosa o segurou com as duas mãos e se aproximou de Hayul com um sorriso.
— Não faça isso. Eu não quero.
— Está tudo bem. Não precisa ficar constrangido. Hoje em dia não existem regram dizendo que homem não pode usar um colar.
—Sou eu que não estou bem com isso.
Hayul recuou e recusou, mas o estilista se aproximou sorrindo insistentemente. Seja uma herança de família ou o que for, para Hayul, aquilo só parecia uma coleira para enforcar seu pescoço. Ele odiava aquilo mortalmente.
— No momento em que colocarem isso no meu pescoço, eu vou puxar e jogar longe.
Quando Hayul ameaçou com um rosto rígido, o estilista se assustou e olhou para Lock, procurando sua reação.
— Deixe pra lá. Podemos colocar depois.
Mas Locke não parecia disposto a desistir. Parecia decidido a ver aquela coleira enorme pendurada no pescoço de Hayul. Sentindo que, se ficasse ali mais um minuto, perderia o controle, ele foi para trás do biombo e começou a tirar as roupas caras e pesadas. Despindo as peças luxuosas como quem troca de pele, sentiu uma estranha sensação de alívio e liberdade. Tirou os sapatos, desabotoou o relógio que pesava em seu pulso e o deixou sobre a mesinha ao lado. Depois vestiu suas roupas simples de sempre e saiu.
— Para onde o senhor vai? Ainda não terminamos a produção!
Ignorando os gritos de Lock, Hayul pegou o casaco pendurado no sofá e fugiu do quarto. Ele correu direto para o campo de caça e tiro ao ar livre. Como Oleg havia dito que ele podia usar todos os lugares do castelo livremente, então Hayul decidiu descarregar a raiva atirando até se acalmar.
Mas o campo já tinha um visitante.
Dmitri, que estava atirando, percebeu a presença dele. Virou o rosto, e, ao reconhecer Hayul, franziu o cenho com visível desgosto. Então, sem sequer dar uma saudação, virou a cabeça de volta e puxou o gatilho. Hayul também pegou uma arma, foi para o lado dele, mirou no alvo e carregou a arma.
— Que método você usou para enfeitiçar Pavel?
Dmitri perguntou, sem sequer olhar para ele.
— Ouvi dizer que desde os tempos em que vivia como o filho daquele sujeito Headington um há sete anos, o Pavel já era obcecado por você. Que tipo de truque um Sub-Beta usou para seduzir um Alfa Real? Você é tão bom assim na cama? O sabor do seu buraco era tão especial?
Dmitri tinha um rosto elegante, mas a boca suja de um homem vulgar. Hayul já havia notado isso na primeira vez que o viu, na festa de Marco. Apesar da aparência contida, como a de alguém que nunca tocou uma mulher, ele fora o mais promíscuo entre os convidados.
Bang! O disparo ecoou alto, e só quando o som se dissipou Dmitri voltou a falar:
— Então foi dando um buraco já usado e gasto que conseguiu este castelo? Sabe mesmo fazer negócios com o corpo, hein?
Ele finalmente desviou os olhos da arma e olhou para Hayul. Não era só o tom de voz que era grosseiro, o olhar também era selvagem.
— Coisas baratas deveriam se misturar com coisas baratas. O que te fez achar que podia seduzir o Pavel? Não sei como um sujeito como você conseguiu enganar um Alfa Real, mas o Pavel vai voltar a si algum dia. E quando isso acontecer, o que você vai fazer? Acha que a família Kirov é uma gangue de rua? Como o Pavel pôde se apaixonar por um lixo como você? Ele é uma vergonha para a família.
Era provocação direta. Não havia razão para suportar aquilo calado.
— A vergonha para a família é o senhor, não?
—O quê?
Dmitri arregalou os olhos.
— O Pavel não bebe nem fuma. Muito menos usa drogas. É instável, mas ainda assim tem princípios. Por mais que eu o odeie, reconheço isso. E, diferentemente do senhor, nunca se envolveu em orgias nem viveu como um devasso, senhor “Raposa Branca”.
O rosto de Dmitri se contorceu. Ver aquele homem, de olhos arregalados e tremendo de raiva, foi um espetáculo à parte.
— Eu já vi o senhor na festa do Marco. O senhor provavelmente não me viu, mas…
Dmitri, que olhava para Hayul com o rosto torcido, soltou então uma risada seca.
— E daí? O que quer dizer com isso?
— Nada. Só estou comentando.
Hayul respondeu de qualquer modo e desviou o olhar de Dmitri, apontando a arma para o alvo. Não tinha intenção de usar aquilo como chantagem; afinal, todo mundo daquela casa parecia saber que ele era um lixo sem solução.
Havia, porém, uma coisa que o incomodava – e ele resolveu sondar por precaução.
— Como a pedra que apareceu era grande demais, o senhor deve ter ficado inseguro, pensando que ela não só levaria toda a parte da herança que era sua, mas também arrancaria as pedras já fixas. Fiquei pensando se não seria motivo suficiente para que ficasse com tanta raiva do seu sobrinho amado a ponto de querer matá-lo?
Hayul murmurou aquilo em tom baixo e puxou o gatilho. O estampido da arma e o recuo imediato foram deliciosos; a cápsula saltando e caindo no chão também lhe trouxe uma sensação boa.
— Não vou mentir. Sim, fui eu. Pedi a Marco que assassinasse o Pavel.
A resposta de Dmitri veio com franqueza. Admitir o que havia feito, pelo menos, agradou a Hayul em certo nível. Ele virou a cabeça para observá-lo melhor: cabelos brancos, olhos azuis. Eram olhos azuis que se pareciam com os de Pavel, mas suas pupilas eram turvas e sujas.
— Como você disse. A pedra que entrou rolando pode realmente fazer as pedras já fixadas caírem. Ótima expressão. Mas “sobrinho amado”? Não, isso não procede. Eu nunca gostei da minha cunhada, nem da maldita filha que era a cara dela. Todos sempre me desprezaram. E o bastardo do Pavel, que se parece com a falecida Leana, é igual, ele me olha com desdém com os mesmos olhos de Leana. Então eu deliberadamente encomendei o assassinato de Pavel para você.
— O senhor sabia sobre o meu passado com Pavel?
— Sim. Investiguei um pouco. Pelo que vi, aquele maldito do Pavel ficou completamente obcecado por um Sub Beta qualquer, perdendo a cabeça e fazendo escândalo, até acabar daquele jeito. Ele finge ser o mais astuto do mundo, mas não passa de um idiota. Um filho da puta demente.
Era uma opinião que ninguém poderia negar, muitos pensariam igual.
— Pensei que seria interessante ver ele sendo morto por alguém a quem era tão apaixonado. E como o Marco elogiou muito sua habilidade, achei que você não falharia.
Dmitri fez uma pausa, olhou de soslaio para Hayul e deu um riso desdenhoso.
—Mas quem imaginaria que você seria um idiota tão patético? O “Anjo da Morte”? Que piada. O anjo da morte virando a noiva do Pavel – e ainda mutando para ômega? Esqueça a carreira de assassino, você não vai voltar a fazer esse serviço. Com esse cheiro de fêmea exalando por aí, que tipo de assassino será você? Se o Pavel te largar, você pode vender o corpo para os Alfas Reais. Se disserem que o Anjo da Morte virou prostituta, todos farão fila, não?
Parecia que ele estava escolhendo palavras vulgares de propósito para machucar, mas não teve nenhum efeito. Hayul não se importou. Ele não tinha intenção de voltar a ser um assassino, mesmo que pedissem, e como não tinha nada de que se envergonhar, também não precisaria vender o corpo. Além do mais, era improvável que Pavel o abandonasse algum dia.
Hayul apenas o observava em silêncio, com uma expressão quase de pena, como quem achava patético ver alguém se excitar falando sozinho. Pessoas sensíveis a desprezo e olhares de desdém podem se ferir instantaneamente com isso – e Dmitri reagiu, perdendo o controle.
— Não me olhe com esse olhar. Desgraçado!
Sentindo-se tratado como um inseto e perdendo a compostura, Dmitri apontou a arma para Hayul. Mesmo com o cano em sua direção, Hayul não piscou. Sabia que ele não teria coragem de atirar. Dmitri resmungou por um instante, depois suspirou, como se tivesse se acalmado e baixou a arma.
Os pensamentos de Hayul circulavam rápido. Dmitri fora quem encomendou o assassinato do Pavel; havia motivos de sobra para o ódio. Agora, com o casamento sendo empurrado adiante sem sequer consultá-lo, a ira de Dmitri devia estar no auge – ele também era um membro da família Kirov e tinha sido ignorado em todas as decisões. Talvez valesse a pena tentar uma negociação.
Dmitri suspirou no ar e apertou um interruptor que estava por perto. Zzzzum! Um zumbido soou e o alvo que Hayul havia atirado mais cedo veio voando. Novamente, havia um furo bem na região do coração. Era um tiro perfeito.
— Sr. Dmitri.
Hayul chamou-o baixinho, enquanto ele olhava para o papel com o coração perfurado. Antes que ele pudesse proferir a próxima frase, Dmitri fez uma pergunta primeiro.
—Você realmente quer matar Pavel?
Ele repetiu as palavras que Hayul estava prestes a dizer.
— Quer mesmo acabar com aquele desgraçado?
Ao erguer a cabeça para encará-lo, Dmitri perguntou de novo. Hayul concordou com a cabeça e, ao mesmo tempo, devolveu a pergunta:
— E se for?
— Se eu te pedisse de novo para assassinar o Pavel, o que você faria? Você conseguiria?
Houve um breve silêncio. Ironicamente, embora ele estivesse disposto a negociar com Dmitri, hesitou em responder. Pensou se deveria dizer que precisava de tempo para pensar. Isso também soava ridículo. Que tipo de pensamento era esse, depois de ter desejado tanto a morte de Pavel? Se era uma oportunidade, ele deveria agarrá-la.
Sem deixar o tempo se alongar e correr o risco de ser dominado por dúvidas, abriu a boca e falou o que lhe veio à mente primeiro.
— Minha taxa é cara. Muito cara.
E acrescentou, sem demora:
— Vou cobrar várias vezes mais do que o habitual.
— Quanto?
— Como sabe, assim que eu me casar com o Pavel, este castelo e as terras ao redor passarão a ser meus. Se tivermos um filho, metade da herança será minha.
Dmitri soltou uma gargalhada de escaneio.
— Que absurdo. Ele só pode estar maluco? Por causa de um único Sub Beta, o alicerce da nossa família está prestes a ser arrancado. Ah, e é possível ter um filho? Mesmo que você tenha sofrido mutação para Ômega, seu corpo original ainda é de um Sub Beta, não é?
Hayul não mencionou que, se o Pavel morresse, herdaria toda a propriedade – e nem pretendia. Tudo aquilo estava condicionado ao casamento com Pavel.
Ele não tinha intenção de se casar com o sujeito. Também não tinha intenção de preencher o registro de casamento. Como Victor havia dito, para Hayul, eram condições em que ele não tinha nada a perder, mas ele não queria isso. Não queria receber nada de Pavel. Mesmo que herdasse a fortuna, sentia que aquilo o incomodaria para sempre.
Era um vilão com a consciência de um tolo. Não tinha sangue frio o suficiente para ser um canalha sem remorso. Simplesmente não dava para mudar a própria natureza.
— Também acho que ter um filho é improvável. Voltando ao ponto: mesmo que não peça 50% da fortuna, você terá de me dar dinheiro suficiente para matar o ‘cachorro louco dos Kirov’ e viver fugindo pelo resto da vida.
— E se eu não concordar com suas exigências?
— Eu mato o Pavel e depois mato o senhor.
— Que absurdo. Como você iria me matar?
— Se tenho as habilidades suficientes para assassinar alguém como o Pavel, posso facilmente assassinar alguém como o senhor.
Era um fato incontestável, e Dmitri apenas encarou Hayul em silêncio. Hayul esperou pacientemente pela resposta, como se não tivesse nada a perder. Depois de um momento, os lábios de Dmitri se torceram e ele pronunciou a conclusão.
— Certo. Faça isso o quanto antes.
— Combinado. E para esta missão vou precisar da sua ajuda.
—Está bem, então organize tudo e me diga de uma vez.
Enquanto dizia isso, ele afirmou que precisava entrar porque estava ficando com frio e acenou para um criado esperando à distância. O criado se aproximou, puxando um cavalo amarrado a uma árvore. Dimitri reclamou com o criado, dizendo que ele era muito lento. O criado, de estatura pequena, se desculpou repetidamente, curvando-se.
Dmitri insistiu em voltar a cavalo do campo de tiro até o castelo, uma distância que nem era tão longa. O criado, sem luvas, soprava as mãos vermelhas enquanto arrumava as coisas; vendo aquilo, Hayul, que sempre se identificava mais com a condição dos criados do que com a da família, não se conteve e falou:
— Vou cuidar da arrumação das armas, você pode entrar.
— Mas…
— Eu vou ficar mais um pouco antes de entrar. Não se preocupe…
….Você pode entrar. Essas palavras não puderam ser concluídas. De repente, alguém o abraçou por trás. Ele ficou tão genuinamente assustado que um som de surpresa saiu involuntariamente de sua boca.
— Por que está tão assustado?
A voz de Pavel ecoou atrás dele. Só então seu aroma cítrico o envolveu. Não houve nenhum sinal de aproximação, nem odor. Ele deve ter se aproximado furtivamente, escondendo deliberamente sua presença e feromônios.
Por mais que tentasse, o fato de não ter percebido até que ele estivesse tão perto… feriu levemente seu orgulho.
— Caralho. Você é um gato? Seu merda grande, por que se aproximou tão silenciosamente?
— Ah… que bom. O cheiro do meu hyung.
Enquanto dizia isso, o sujeito esfregou o rosto no pescoço de Hayul, como um gato grande. Ele pressionou o nariz contra o lóbulo da orelha e a nuca, cheirando o aroma. Seus braços grossos, que abraçavam Hayul por trás, eram como correntes de ferro.
— Eu senti sua falta. O cheiro do hyung… eu queria tanto sentir isso.
— Me solta. Puta que pariu, eu estou com uma arma agora.
— Senti falta até dos seus palavrões.
Quanto mais Hayul se debatia, mais ele o apertava, beijando as orelhas e a nuca com sons fofinhos. O criado ficou olhando, com o nariz vermelho de frio, sem saber onde enfiar a cara. Ele não sentia vergonha de serem vistos? Talvez Pavel não se importasse, mas Hayul ficava louco toda vez que isso acontecia.
— Me solta!
Só conseguiu se soltar depois de dar uma cotovelada forte nas costelas de Pavel que estava grudado nele. Assim que se libertou dos braços do homem, ele imediatamente recuou e apontou a arma.
Talvez porque estivesse envolto em seu casaco preto, que chegava abaixo dos joelhos, o rosto de Pavel parecia mais pálido que o normal. Olhando mais de perto, era possível ver um arranhão vermelho em sua bochecha lisa e uma atadura em sua mão esquerda enluvada. ‘Droga. Ele machucou o rosto de novo.’ A ferida na testa, daquela explosão do carro, ainda nem havia cicatrizado direito.
A pequena marca no rosto era mais irritante que o curativo no braço. A ideia de que aquela face tão bonita pudesse ficar marcada o incomodava. Mas o que mais o irritava era o próprio coração, que ele não entendia.
Tinha acabado de negociar com Dmitri para matar Pavel, e agora apontava a arma para ele; ainda assim, estava preocupado com um arranhão no rosto do sujeito. Queria uma explicação clara para esse comportamento. Não entendia por que reagia assim.
— O que aconteceu no seu rosto? Quem te bateu?
— Está preocupado comigo?
Pavel sorriu.
— Que piada. Não se mexa.
Quando Pavel estendeu a mão para afastar o cano da arma, Hayul rosnou baixo, ameaçando. Mas, ignorando-o, Pavel inclinou a cabeça com um sorriso espalhado e encarou Hayul.
— Hyung, você está tão lindo hoje. Você se arrumou desse jeito para seduzir quem?
Aquela pergunta, depois da manhã inteira de maquiagem forçada, cutucou uma ferida.
— Por acaso você se arrumou para me impressionar?
Diga algo que faça sentido. A raiva subiu tão rapidamente que ele estava prestes a dar um tiro de advertência. Foi nesse momento que foi subjugado a uma velocidade incrível. A mão de Pavel avançou rapidamente, agarrando e torcendo o cano da arma, e quando Hayul recuperou os sentidos, a arma já havia sido tomada. Mesmo sem compreender direito, tudo que pôde foi piscar, boquiaberto. Ele não conseguiu ver nenhum dos movimentos do homem.
— Ficar todo bonito desse jeito e carregar uma arma? Não combina nada.
Pavel exibiu um sorriso radiante, mostrando todos os dentes. Então, ele abriu o carregador da arma que havia tomado e deixou as balas caírem em uma cascata. As pesadas balas ecoaram alto e se enterraram no chão coberto de neve. Hayul percebeu mais uma vez que nunca seria capaz de derrotá-lo sozinho.
As palavras de Oleg estavam erradas. Não era que ele hesitasse em matá-lo; era que ele não conseguia. Sem ajuda, seja para assassiná-lo ou qualquer outra coisa, ele acabaria perdendo a arma primeiro, assim como agora.
Pavel atirou o pente vazio para o lado e estendeu a mão para Hayul. As pontas dos dedos enluvados acariciaram suavemente seus cabelos.
— Você está lindo. Já é lindo mesmo sem se arrumar, mas estou preocupado que, se você ficar ainda mais bonito e o levar para a festa, todos os cachorros e bois lá dentro vão cobiçá-lo.
‘Bastava não me levar’
Hayul pensou, mas não disse. Não valeria a pena discutir; seria inútil. Ainda assim, não pôde ficar calado e soltou uma frase.
— Será que existe outro idiota tão cego quanto você?
— O problema é que você não percebe o quanto chama atenção. Mas é isso que te torna fofo.
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°
Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog