Ler Cão Real. – Capítulo 40 Online
Hayul despertou sobressaltado, assustado com um ruído estranho que lhe penetrou os ouvidos e com um frio cortante que o fez estremecer. No instante em que abriu os olhos, uma dor de cabeça e dores musculares vieram à tona, e um gemido escapou involuntariamente de sua boca.
— Merda. Minha cabeça está doendo.
Ele tentou massagear as têmporas latejantes com as mãos, mas ouviu um som de metal rangente e sentiu um peso que impediu que seus braços se movessem. Ao olhar com mais atenção, viu que ambos os pulsos estavam algemados. Não eram algemas de metal comuns, e sim algemas de couro do tipo usado em jogos sexuais: a parte que tocava o pulso era macia, forrada em couro, e dali partia uma longa corrente de metal. Além disso, havia grilhões de formato similar presos em seus tornozelos.
Ou seja: suas mãos e pernas estavam amarradas.
Foi só então que ele se lembrou: havia desmaiado por causa dos feromônios de Pavel.
— Porra, ei! Que é isso? Me solta!
Ele se debateu como um peixe fora d’água, e acabou rolando pelo chão. Mesmo rolando, não ficou quieto; continuou a se debater incessantemente enquanto olhava em volta. A paisagem não era a do quarto onde ele havia estado.
Estava dentro de um avião.
O interior não se parecia com o de um voo comercial normal: havia poucos assentos e nenhum comissário à vista. Enquanto repousava no chão e examinava o ambiente, Pavel apareceu.
— Já acordou?
Ele se ajoelhou à frente de Hayul como se nada tivesse acontecido.
— O que está acontecendo?
— O que, como assim?
— Onde estamos?
— Dentro de um jato particular. Estamos a caminho da Rússia.
Não era uma aeronave comum, mas o jato particular da família Kirov. De qualquer forma, o importante era o fato de que ele estava no ar, voando – claramente Pavel o havia nocauteado e embarcado à força.
Uma fúria intensa fervilhou dentro dele. Um desejo assassino queimava fervorosamente, deixando-o cego de raiva. Mas, amarrado como estava, ele não podia fazer nada, apenas se contorcia como um verme, rangendo os dentes.
— Que merda é essa? Eu vou te matar, seu filho da puta. Tira isso agora! Me solta, eu disse!
— Fiz isso para o hyung não se machucar.
Pavel falou com calma enquanto levantava Hayul nos braços. Por mais que ele se debatesse intensamente, Pavel o segurou com firmeza e o sentou em uma poltrona do avião. Em seguida, puxou o cinto de segurança e prendeu firmemente o corpo de Hayul ao assento.
Mas Hayul não era do tipo que ficava quieto. Mesmo amarrado, ele continuou xingando e se contorcendo violentamente.
— Para de gastar energia à toa. É a primeira vez do hyung na Rússia, não é? Pense que está indo fazer turismo.
— Fala sério! Seu filho da puta! Eu juro que vou te matar! Maldito!
Pavel beijou a testa de Hayul, que gritava e xingava como se cuspisse sangue, acariciou seu cabelo despenteado e deu leves tapinhas em sua bochecha. Um homem se aproximou, empurrando um carrinho com bebidas.
Pavel pegou uma caixinha de suco de goiaba do carrinho e perguntou:
— Quer um suco?
— Beba você, seu porra!
Embora tivesse gritado com bravata, sua garganta estava seca. Ver Pavel sentado na poltrona em frente e bebendo o suco, sem insistir mais, fez com que sua garganta ficasse completamente ressecada. Parecendo perceber o olhar fixo de Hayul em seu copo de suco, Pavel riu alto.
— Vai querer?
— Eu disse para você beber!
— Sirva um copo de suco para o hyung também.
Dessa vez serviram, era um alívio. O homem que empurrava o carrinho abriu uma mesinha entre os dois, serviu um copo de suco e o colocou na frente de Hayul. Mas as mãos dele continuavam algemadas, impossibilitando-o de beber.
— Solte minhas mãos para eu beber!
Irritado, gritou, e Pavel, com a mesma calma, ordenou ao capanga:
— Coloque um canudo para ele.
O homem colocou um canudo comprido dentro do copo de suco. — Merda, merda, droga. Maldito seja. — Enquanto fazia caretas e xingava, Hayul inclinou a cabeça e chupou o suco pelo canudo. O suco estava doce e saboroso. Ele o bebeu de uma só vez e, sem vergonha alguma, exigiu:
— Me dê mais um copo.
Quando o homem encheu o copo novamente, ele também bebeu aquilo de canudinho até o fim. Pavel, sentado à frente, olhava para Hayul com um sorriso no rosto. O copo de suco de goiaba na mão do sujeito parecia uma taça de vinho. Para um cara cuja aura parecia a de alguém que bebia vodka, fumava charutos grossos e cheirava drogas, aquele suco era uma contradição.
Depois de beber dois copos de suco seguidos pelo canudo, Hayul começou a recuperar a clareza.
— Solta isso logo enquanto eu estou pedindo de boa.
Ele deu a ordem enquanto olhava para Pavel, que saboreava o suco com a elegância de quem prova um vinho. Os lábios vermelhos e carnudos do homem, molhados pelo suco, pareciam indecentemente atraentes, e os olhos de Hayul foram involuntariamente atraídos para eles. Ele pensou que, se beijasse aqueles lábios agora, provavelmente teriam gosto de suco de goiaba, mas se esforçou para apagar o pensamento.
— Você não ouviu eu dizer para tirar isso? Isso aqui é um sequestro!
— Sequestro? Que exagero. Estou levando o hyung para um lugar seguro, para o seu próprio bem.
— Seguro? Até um cachorro de rua daria risada disso.
— Até agora, o hyung esteve sob o comando de Marco, matando Alfas Reais. O hyung só pôde ficar seguro até agora porque estava sob a proteção de uma organização. Mas Marco, que podia proteger você, está morto.
— Foi você quem matou ele!
— Então eu devia ter deixado sair ileso o cara que encostou na minha noiva? Até pensei em cortar os genitais daquele merda e enfiar na boca dele, mas no fim acho que acabei resolvendo aquilo até fácil demais.
A voz era uniformemente elegante, mas o conteúdo era extremamente sinistro. Ele tomou outro gole de suco com calma e continuou.
— De qualquer forma, o hyung tem muitos inimigos. Mesmo quem não era inimigo, cobiçava o Anjo da Morte. Os alfas reais, principalmente os que dominam o submundo, são vis e ardilosos, uns canalhas. Qualquer um teria usado o hyung e depois matado. Provavelmente, o próprio Marco teria descartado o hyung sem piedade no momento em que seu valor utilitário acabasse. Você conhece este mundo, então deve saber como as coisas funcionam por aqui. Ninguém garantiria a sua segurança.
— Eu sempre garanti minha própria segurança. Até agora foi assim, e vai continuar sendo.
— Mas não importa o quanto hyung seja forte, diante do poder inato de um alfa real você sempre será um mais fraco.
Hayul mordeu os lábios, sem palavras.
Era verdade. Nem precisava ser Alfas Reais, ele nem mesmo conseguia vencer um Alfa comum. Por mais que treinasse seu corpo, havia um limite. Ele nem pensava em enfrentá-los de frente, a não ser que estivesse armado. Era o mesmo com Marco. Enquanto o homem o favorecesse, a ideia era agradá-lo o suficiente, garantir uma boa grana e esperar o momento certo para fugir.
Ele nunca quis riqueza ou fama. Só queria juntar dinheiro suficiente para viver uma vida tranquila em alguma vila do interior. Na verdade, se realmente desejasse isso, nunca deveria ter se submetido a Marco. Mas, se não tivesse se rendido, já estaria morto.
De qualquer jeito, estava destinado a nunca viver em paz.
— Mesmo quando viveu como Sean Ringer, um beta, você era um sub-beta. E como acha que um sub beta sobrevivia nesse mundo? E agora, o hyung sofreu uma mutação para Ômega. O que acha que vai acontecer quando o boato de que o Anjo da Morte é um Ômega se espalhar por aí? O hyung não pode sobreviver sozinho neste meio. Precisa de um protetor forte e poderoso. Como eu.
— Isso soa como a desculpa esfarrapada de um criminoso para a sua vítima. Os psicopatas assassinos também não dizem essa merda de ‘foi por sua causa’ depois de matar alguém?
Pavel arqueou levemente as grossas sobrancelhas, ainda sorrindo.
— Pode admitir. O hyung precisa de mim.
— Cala a boca.
— Reconhecer os próprios limites nunca é fácil. Eu entendo.
Ver Pavel constantemente tranquilo fez com que o estômago de Hayul fervesse de raiva. O que o deixava ainda mais irritado era o fato de ele não ter dito nada de errado. Milhares de palavras e xingamentos passavam por sua cabeça, mas se as colocasse para fora só se sentiria patético. Além disso, Hayul não era bom de fala. No final, a única coisa que conseguiu dizer, escolhendo a dedo entre tantas palavras, foi algo de que se arrependeu imediatamente.
— Droga. Por que eu fui trabalhar naquele estádio de canoagem sete anos atrás? Maldito seja aquele filho da puta do Tommy.
Que bela coisa: a única fala que conseguiu soltar foi xingar Tommy, o amigo que havia lhe arrumado aquele bom emprego. Envergonhado consigo mesmo, ele chupou o resto do suco de maneira barulhenta.
— Na verdade, eu não queria ir ao estádio naquele dia. — Pavel respondeu sorrindo.
— Mas hoje eu sou grato ao amigo que me arrastou à força até lá. Se não tivesse ido, não teria conhecido o hyung.
Hayul ficou em silêncio por um momento, encarando Pavel enquanto ele murmurava. Ele começou a pensar que talvez não tivesse sido um acidente esbarrar em Pavel no estádio naquele dia. Talvez Pavel tivesse se aproximado de propósito, para esbarrar nele.
— Foi um dia escrito pelo destino.
Ouvindo a seguinte declaração, aquela suspeita se solidificou em uma certeza. E então, outro pensamento veio em sequência.
A ideia de que tudo depois daquele momento também foi profundamente intencional. O primeiro encontro, a visita de Pavel ao bar onde ele trabalhava, o convite com dinheiro como isca para levá-lo à mansão e trancafiá-lo, e até mesmo tê-lo feito sofrer a mutação para Ômega.
Tudo parecia seguir o roteiro que Pavel havia escrito.
A única variável, provavelmente, havia sido a reação inesperada de Hayul. Ele jamais teria imaginado que aquele sub-beta, a quem estava acostumado a manipular e controlar, ousaria tentar matá-lo. Por mais inteligente que Pavel fosse, ele nunca poderia ter previsto aquilo.
E agora, passados sete anos, Pavel havia conseguido agarrar de novo essa bola de borracha que escapou de suas mãos. Mas, desta vez, parecia que tinha preparado o roteiro de maneira mais certeira e meticulosa do que na época, há sete anos, quando era um tanto inexperiente.
Ele não era alguém que agia por impulso, sem pensar. Toda a sua loucura seguia um plano meticuloso, dentro de uma trajetória calculada. O problema era que, ao contrário, Hayul era alguém que só conseguia reagir no instinto, sem pensar muito. Isso significava que, no fim, ele jamais escaparia da palma da mão de Pavel.
O homem inclinou o copo vazio, deixando a luz do sol que entrava pela janela do avião atravessá-lo, e então umedeceu os lábios para falar.
— Eu acredito que o hyung e eu somos destinados.
— Um destino que você forjou à força.
Pavel não respondeu, apenas sorriu. Seus olhos azuis, banhados pela luz, brilhavam como contas de vidro.
Logo, alguns homens saíram, puxando um carrinho de metal com um rangido. Eles colocaram uma toalha de mesa de renda sobre a mesa e começaram a dispor rapidamente itens como champanhe, taças de cristal, uma cesta de flores e um bolo. O ambiente já estava claro com a luz que entrava, mas ainda acenderam velas.
Um dos homens pegou um violino e começou a tocar. Outro, vestido com uniforme como se fosse garçom de restaurante de luxo, abriu a garrafa de champanhe e serviu as taças diante de Hayul e Pavel. Tudo parecia mais um espetáculo, e Hayul resolveu ficar quieto para ver no que aquilo ia dar. Foi então que Pavel tirou uma caixinha do bolso.
‘Não me diga que…’
Pavel abriu a caixinha diante dele e sorriu em puro êxtase.
Exatamente como temia: da caixa estava, de fato, um anel. Um anel com uma pedra enorme. Não havia como aquela pedra central ser vidro – só podia ser diamante.
Uma serenata doce, tocada no violino, ecoava como fundo musical, ao ritmo da música, as pétalas de flores sobre a mesa tremeluziam suavemente, e as chamas das velas oscilavam. A champanhe, com suas bolhas borbulhantes, também brilhava dourada. No meio daquela cena romântica, o anel de diamante brilhava com esplendor ainda maior. Mas a coisa mais deslumbrante e bela de todas era Pavel, sentado à frente, sorrindo.
— Casa comigo, hyung.
No fim, o maldito disse aquelas palavras.
Qualquer outra pessoa ficaria emocionada com uma proposta daquelas, mas Hayul apenas torceu o rosto em desgosto.
— Você está louco.
Era tão absurdo que ele nem conseguiu soltar uma risada irônica.
— Vou fazer você feliz pelo resto da vida.
Pavel sussurrou com um sorriso bonito, mostrando os dentes brancos e bem alinhados. A voz sussurrada soava doce.
— Estar com você agora é a maior infelicidade da minha vida, seu filho da puta!
Hayul franziu ainda mais o cenho e cuspiu xingamentos. Mesmo assim, Pavel não parecia ouvir.
— Se casar comigo, você não vai se arrepender. Vou te tratar bem.
— Que tipo de doido prende alguém e pede em casamento? Primeiro solta isso!
Hayul começou a se debater novamente. Ele se contorceu como um louco, até que o cinto de segurança se soltou. No momento em que seu corpo se separou da poltrona, ele se levantou de um salto e, com as mãos amarradas, varreu para longe todas aquelas coisas ridículas da mesa. A garrafa de champanhe, as taças… tudo caiu no chão, quebrando e causando um caos.
O violinista interrompeu a música, inquieto, apenas observando a cena.
Mesmo no meio daquela confusão, Pavel permaneceu sentado, cruzando as pernas e sorrindo com calma.
Hayul pegou a caixinha do anel inteira e a arremessou na direção do rosto de Pavel. No momento em que a caixinha o atingiu, o sorriso relaxado sumiu do rosto do homem.
— Se realmente quer casar, me mata e casa com meu cadáver! Seu merda!
— É perigoso, então sentem-no.
Com essa única ordem de Pavel, os homens que observavam agarraram Hayul e o forçaram de volta à poltrona. Os capangas pressionavam seus ombros e braços, impedindo-o de se mexer.
— Nosso hyung é tão radical….
Pavel murmurou baixinho, inclinou-se e pegou o anel que havia caído no chão. Soprou a poeira do diamante incrustado no centro do anel e ordenou:
— Ponham a mão dele em cima da mesa.
Imediatamente os homens ergueram a mão de Hayul e a pousaram sobre a mesa. Ele se contorceu e tentou resistir, mas era inútil. Mexer os punhos só fazia a pele roçar contra o couro das amarras.
— Desculpe. Foi tudo tão repentino, não foi? Eu precisava pedir você em casamento antes de apresentá-lo ao meu avô, então não tive escolha.
Pavel disse isso enquanto, com uma mão, segurava firmemente o pulso direito de Hayul, que não parava de se mover. Então, tentou forçar o anel em seu dedo. Mas Hayul fechou o punho com teimosia, vendo isso um dos homens segurou cada dedo, abrindo-os à força.
— Quando chegarmos ao meu país, vou pedi-lo em casamento direito.
Dizendo isso, Pavel forçou o anel no quarto dedo da mão de Hayul, que tremia e se abria contra sua vontade. A sensação do anel deslizando entre os dedos era arrepiante. Finalmente, o homem conseguiu colocar o anel no dedo de Hayul. O diamante, do tamanho de um polegar, brilhando em seu próprio dedo, tinha um aspecto sinistro.
— Fica bem em você.
Ele sorriu satisfeito, olhando para o dedo do outro com o anel de casamento.
— Gostou? É um diamante que foi muito difícil de conseguir.
— Morra, seu maluco.
Das sua boca só saíam xingamentos. O sorriso no rosto de Pavel ficou ainda mais largo. O homem parecia extremamente feliz. Os feromônios que preenchiam a cabine também exalavam uma fragrância mais fresca do que o normal. Ele parecia de bom humor, mas Hayul só sentia desespero naquela situação.
— Eu vou te matar, seu filho da mãe.
— Está bem.
Ao cuspir os xingamentos entre os dentes, Pavel respondeu com um sorriso.
— Eu vou te matar!
— Huhn. Eu te amo.
— Ei!
— Eu te amo, Jin Hayul.
Pavel fez a declaração olhando para Hayul – que ofegava como uma fera enlouquecida – como se ele fosse a coisa mais amável e preciosa do mundo. Suas palavras de amor eram incrivelmente doces. Assim como seu rosto sorridente.
Nada fazia sentido. Por mais que ele se debatesse e surtasse, estavam dentro de um avião. Era de enlouquecer.
— Vá para a porra do inferno com esse amor! Tira isso agora. Me solta, eu disse! Ei! AAAAH!
Não importava o quanto Hayul resistisse, se debatesse e agisse como um louco, o jato particular da família Kirov continuava sua rota de cruzeiro em direção à Rússia.
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Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog