Ler Cão Real. – Capítulo 24 Online
Pouco depois de Pavel sair, alguns criados entraram no quarto. A porta finalmente se abriu, mas Hayul já não tinha forças e teve de permanecer deitado na cama, como um cadáver. Os empregados, por iniciativa própria, trocaram a roupa de Hayul, limparam seu corpo e trataram de suas feridas, também substituíram os lençois por outros limpos.
— E o Pavel? — perguntou ele à criada que o ajudava a se vestir. — Ele morreu?
A criada soltou uma risadinha.
— Como se um Alfa Real fosse morrer por causa de alguns arranhões na cabeça. Ele entrou na capela que fica no anexo.
‘Arranhões?’
A cabeça dele não tinha sido apenas arranhada, estava cortada e sangrando sem parar. Mas o que mais deixou Hayul atônito foi ouvir a palavra “capela”.
— Capela? Não me diga que ele foi pagar penitência?
— Disseram que vai permanecer em isolamento lá até o fim do rut.
— Rut?
Hayul repetiu, surpreso. De repente, lembrou-se dos olhos de Pavel mudando para o tom arroxeado, e de todos os sintomas estranhos que ele havia demonstrado. Já tinha ouvido falar que, quando um Alfa Real entra em rut, a cor dos olhos muda.
— Então ele tentou me atacar porque estava no rut? Aquele filho da puta queria mesmo me matar? Ele não é um maluco?
Elevou a voz, independentemente se os empregados ouviriam ou não. Eles olharam de lado para Hayul, que xingava seu patrão chamando-o de “filho da puta” e outros impropérios.
— Como foi o primeiro rut dele, é provável que ele nem soubesse o que estava acontecendo. Normalmente, o rut surge ainda na adolescência, mas o jovem mestre Pavel nunca tinha passado por isso. Talvez seja por causa do voto de castidade e das medicações para controlar os feromônios.
Uma das criadas, que aparentemente não era médica, mas agia com desenvoltura, aplicou-lhe uma injeção no braço enquanto murmurava. O tom de voz era casual, mas era óbvio que ela tinha enfiado a agulha de propósito para doer.
— Os sintomas de Jin foram apenas um choque temporário de feromônios. Durante o rut de um Alfa Real, os feromônios aumentam de forma explosiva. Além disso, como foi o primeiro rut, é provável que ele não tenha conseguido se controlar. Se Jin fosse apenas um Beta, já teria sofrido uma parada cardíaca. Se fosse um Ômega, então… nem se fala.
— …E se tivesse acontecido a penetração?
— Nós estaríamos aqui para recolher um cadáver.
Ela disse aquilo de maneira calma, mas o conteúdo era arrepiante. Um arrepio percorreu o corpo de Hayul. O simples fato de a glande ter penetrado por um instante já havia resultado em tudo aquilo. Se ele não tivesse resistido com todas as forças, poderia ter literalmente morrido durante o ato.
— Se quiser continuar vivo, evite a todo custo ter relações sexuais completas com o jovem mestre Pavel.
— E você acha que isso depende só de mim?!
Hayul explodiu irritado. Mas a criada apenas guardou com calma os instrumentos médicos que havia usado.
— Este aqui é um neutralizador de feromônios. Tome-o por um tempo. Já fiz os primeiros socorros, mas mesmo assim seria bom você ir a um hospital na cidade. E lembre-se mais uma vez: não deve haver penetração. Não queremos ter que recolher um cadáver aqui.
— Como se fosse uma escolha minha! O seu maldito mestre me ataca como um animal enlouquecido e a culpa é minha? Em vez de ficar na capela, ele não devia ser amarrado e trancado?
A mulher, no entanto, nem fingiu ouvir sua revolta.
— Confie na paciência do jovem mestre.
A naturalidade com que ela proferiu isso só aumentou sua irritação. Ela ainda parecia confiar no autocontrole de Pavel. Se ela tivesse passado por isso, não falaria assim. Se Pavel já era louco por natureza, agora, no rut, era como um animal selvagem completamente fora de si.
— E quando, afinal, esse rut dele vai terminar?
— Ninguém sabe.
— Então por que não chamam logo a princesa Kartan para consumar o noivado? Se ele tivesse relações durante o rut, poderiam até gerar um herdeiro. Ou será que o rut é algo que pode ser controlado sozinho?
— O jovem mestre já enviou uma carta de rompimento do noivado à princesa.
— …O quê?
Da garganta de Hayul escapou uma voz rouca, tomada pelo choque.
— Ah, como não houve uma cerimônia de noivado adequada, não chega a ser um rompimento de noivado. Pelo que sei, o jovem mestre Pavel enviou pessoalmente uma mensagem à família real de Kartan, informando que não se casaria. Você não sabia?
A pergunta carregava implicitamente o sentido de: “Você é servo real do mestre Pavel e não sabe nem disso?”
Não, não sabia. De modo algum. Nunca tinha ouvido nada a respeito.
Se Pavel realmente tivesse feito algo assim, o mordomo da mansão, os empregados ou até mesmo o duque de Headington não teriam ficado de braços cruzados. O mordomo até segurou a mão de Pavel quando ele partia para a casa de Belmak, e disse: “Por favor, no Natal entre em contato com a princesa de Kartan. Ela ficará feliz.” Isso significava que, até então, ele não sabia de nada.
Então, quando foi? Será que ele fez isso durante a longa viagem até a villa? Ou somente depois de chegar aqui? Não era como na Idade Média, em que se precisava de pombos-correio para enviar mensagens. Bastava um tablet ou um celular para mandar um e-mail a qualquer momento.
Ele vivia reclamando que não queria casar, e no fim das contas acabou mesmo cometendo a loucura. E, para completar, tirou de vez o anel do voto de castidade.
— E volto a dizer: eu confio no jovem mestre Pavel. Ele não é alguém que se deixaria influenciar ou manipular por simples feromônios.
‘O seu “jovem mestre” já está completamente dominado e manipulado pelos feromônios, idiota.’
Mas de nada adiantaria falar; ela não acreditaria.
— Então, descanse.
— Espere um pouco. Até quando pretende me manter preso aqui?
— Estar trancado aqui dentro é provavelmente mais seguro para o senhor. Ninguém pode entrar aqui. Nem mesmo o jovem mestre Pavel. Antes de entrar na capela, ele confiou a chave apenas a mim.
Enquanto o dono da casa permanecia enclausurado na capela, as vozes e gargalhadas dos intrusos que haviam ocupado a residência ecoavam do lado de fora. Passavam o dia inteiro em festa, de novo e de novo. A criada, que havia feito uma pausa, continuou.
— Como todos os hóspedes são Alfas, quando ficam bêbados ou drogados, não se sabe o que podem fazer. O senhor sabe como os alfas podem ser. Nós também estamos tomando neutralizantes e supressores em doses acima do normal, por precaução. Até o jovem mestre Pavel entrou em rut de repente…
Ela arrastou as palavras e soltou um suspiro profundo.
— Espero que o fim de ano passe sem maiores problemas. De qualquer forma, aqui dentro é o lugar mais seguro. Descanse bastante.
Ela e os outros criados se retiraram, e a porta foi novamente trancada com o som metálico da fechadura. O silêncio voltou a tomar conta do quarto.
Não sabia que injeção a criada havia aplicado em seu braço, mas sentiu-se um pouco mais disposto, levantou e foi até a janela. O sol já havia se posto, a noite estava escura. Do lado de fora, um grupo de homens e mulheres fazia uma bebedeira ao ar livre, como se nem sentissem frio. Bêbados, riam, gritavam, corriam, completamente entregues à farra.
As festas dos alfas quase sempre acabavam degenerando em orgias desenfreadas. Aqueles convidados já tinham repetido várias vezes, naquela bela casa, suas orgias animalescas. Em meio a festas transbordando álcool e drogas, apenas Pavel permanecia distinto, tomando água com gás, suco de frutas ou chá com leite com elegância. Enquanto todos ao redor se derretiam em torpor, ele era o único que brilhava com serenidade.
Não importava quão degradante fosse a festa, ele jamais perdia a altivez e a graça de um cisne.
Por isso, ninguém acreditaria se alguém dissesse o que Pavel havia feito com Hayul. Somente Hayul conhecera aquele lado oculto, somente diante dele a fachada de Pavel se rompia. Se soubessem como era sua verdadeira natureza, não teriam ficado tão surpresos quando Ben foi espancado sem piedade.
O homem era um louco apenas para ele. Somente diante de Hayul ele enlouquecia. Chegou ao ponto de romper unilateralmente o noivado com a princesa de Kartan e escolher passar seu primeiro Rut ao lado dele.
‘Por quê? O que, afinal, esse desgraçado quer de mim?’
O quarto estava quente, mas um arrepio gélido percorreu-lhe o corpo. O ambiente parecia uma prisão eterna, sem saída.
‘Eu preciso fugir.’
O pensamento o golpeou com força na nuca. Com Pavel trancado na capela, aquele era o momento perfeito. Tinha a convicção de que, quando o rut terminasse e ele saísse, não haveria mais chance de escapar, independente do prazo do contrato. Hayul decidiu agir imediatamente.
Ele esperou até meia-noite, vestiu-se, pegou suas coisas e se aproximou da janela. Naquele horário, todos os empregados da casa deveriam estar dormindo. Mas, como era de se esperar, havia um homem de guarda bem debaixo da janela.
Por sorte, Hayul logo se lembrou de que também havia uma janela no banheiro. Com muito esforço, espremeu-se pela pequena abertura e conseguiu se esgueirar para fora, descendo no jardim, agora envolto na escuridão. Era uma noite sombria, com a lua escondida pelas nuvens. Apenas o som do vento e das ondas ecoava nitidamente e uma umidade fria pairava por toda parte.
‘Para onde devo ir?’
Olhou ao redor, hesitante, e então simplesmente correu. Precisava chegar ao estacionamento, roubar qualquer carro e fugir dali. Enquanto atravessava o jardim em direção ao estacionamento, as primeiras gotas de chuva começaram a cair.
Logo, de alguns pingos, passou a um aguaceiro pesado e incessante.
Não havia onde se abrigar, e o jardim parecia malditamente enorme. Tudo naquele lugar era desproporcional, vasto e inútil. Era como um castelo medieval saído de um filme.
Além do prédio principal, onde Pavel, Hayul e o grupo estavam hospedados, havia vários anexos. Segundo Pavel, havia até espaços secretos dentro da floresta que quase ninguém conhecia. Ele mesmo dizia que ainda não sabia tudo o que aquele lugar escondia.
‘Droga. Para que lado fica o estacionamento?’
Ele correu sob a chuva até perder a noção do caminho. A chuva estava tão forte que não dava mais para correr. Ao longe, viu a silhueta de uma construção com telhado e correu em sua direção.
Era uma estufa abandonada. O teto de vidro estava todo quebrado e as plantas dentro estavam mortas ou tomadas por ervas daninhas. Ainda assim, ao menos serviria de abrigo contra a chuva por algum tempo.
— Merda… Filho da puta… eu vou matar esse desgraçado.
Uma voz baixa, murmurando, ecoou do fundo da estufa. Havia alguém ali. Seguiu-se uma risada baixa e estridente.
— Você fala bem para quem apanhou sem nem conseguir revidar.
— Cala a boca!
Um grito agudo soou, seguido do estrondo de uma garrafa quebrando. As risadas aumentaram.
— Mas confesso, foi a primeira vez que vi o desgraçado do Pavel daquele jeito. Deu medo de verdade. Parece que ele ficou completamente obcecado por aquele vira-lata sub-beta. Que sabor deve ter o buraco de um mestiço para deixar aquele cara tão maluco assim?
— Vou matar os dois. Não aguento mais.
Hayul pensou ter reconhecido a voz. Era a voz de Ben. Que merda, encontrar aquele cretino num lugar desses. Ele começou a recuar silenciosamente para sair, mas seu pé chutou uma garrafa de bebida vazia. O som da garrafa rolando fez os homens reagirem.
— O que foi isso? Que barulho foi esse?
‘Merda!’
Ao correr sem olhar para frente, Hayul acabou colidindo com algo duro, como uma parede de pedra. Naquele mesmo instante, um braço forte agarrou seu antebraço.
— Olha só… Olha só o vira-lata se escondendo aqui.
Parecia ser um companheiro dos homens. O homem grande, completamente encharcado pela chuva, agarrou Hayul, fazendo com que todos os outros de dentro também saíssem. Hayul e Ben se encararam diretamente. O rosto dele estava tão inchado que era difícil até reconhecer os traços. Parecia que, naquele estado, ele tinha se trancado naquele lugar para usar álcool e drogas.
Ben sorriu de forma ameaçadora. Seus olhos brilharam perigosamente. ‘Droga,’ Hayul praguejou mentalmente.
— O que ele está fazendo aqui? O filho da puta do Pavel não veio junto?
Um dos homens olhou ao redor, em alerta, desconfiado. Mas logo se convenceu de que Hayul estava sozinho.
— Caralho. Segura bem esse desgraçado.
Ben avançou rapidamente, acariciando a frente de suas próprias calças. Era óbvio o que ele pretendia fazer.
— Você vai acabar apanhando de novo do Pavel até morrer.
O homem que agarrava o braço de Hayul riu de modo estridente enquanto o puxava para dentro da estufa. Outro homem, que até o último instante ainda olhava em volta para confirmar se Pavel não estava por perto, também se juntou. Empurraram Hayul contra o chão úmido, repleto de garrafas quebradas e seringas espalhadas. Dois deles o imobilizaram de uma vez, e sua boca foi amordaçada com um pano sujo, possivelmente um lenço.
Em um instante, suas calças foram puxadas para baixo, expondo completamente suas nádegas. Atrás dele, só se ouvia a respiração animalesca e ofegante daqueles homens. Era nojento. Era repulsivo.
Hayul se debatia desesperado, ofegando contra o tecido que lhe tapava a boca.
— Fica quieto. Não é sua primeira vez, então porque ficar se debatendo assim. Ou será que é? Quem sabe o meu pau não é melhor que o do Pavel?
Enquanto Ben falava, algo roçou e bateu contra as nádegas expostas e arredondadas de Hayul. Pelo que sentiu, era quente e úmido – provavelmente o pênis de Ben.
— Ei, não é bem assim não. Pelo que me lembro o pau do Pavel é enorme…
— Nem parece um pau de humano. É incrível que aquilo tenha entrado neste buraco tão apertado.
O som das risadas deles se misturava ao barulho da chuva. As grossas gotas batiam contra o teto de vidro da estufa, fazendo um estrondo ensurdecedor.
— Calem a boca.
Ben afastou as nádegas de Hayul e mirou seu pau naquele espaço.
‘Eu vou matar vocês. Filhos da puta, de verdade, eu encarei até o desgraçado do Pavel, acham mesmo que vou me submeter a vocês?’
Com toda a força que restava, ele se contorceu, dobrando o braço que ainda estava livre, e deu uma cotovelada para cima com toda a brutalidade. Um dos homens pareceu ter levado a pancada no rosto. Um de seus braços agora estava completamente livre.
Sem perder a chance, agarrou o que estivesse ao alcance da mão e, desta vez, golpeou o outro sujeito que o segurava. O homem gritou de dor, e a pressão das mãos que o imobilizavam se desfez.
No instante em que a contenção se afrouxou, Hayul se ergueu como se tivesse sido lançado por uma mola, então Ben caiu para trás, desabando pesadamente. Estava tão bêbado e drogado que nem conseguia manter o equilíbrio do corpo.
Hayul se levantou e rapidamente e agarrou uma vara comprida que estava à vista.
— Ei, seu merda…
Ele brandiu a madeira e acertou a cabeça de Ben, que, drogado, mal conseguia falar e se arrastava pelo chão. Fez o mesmo com os outros homens. Sem piedade, ele golpeou cada um daqueles idiotas, todos embriagados e lentos. Ele balançou a madeira descontroladamente, com um zumbido no ar. Com a determinação de matar todos aqueles filhos da puta. O som dos golpes contra a carne ecoava sem clemência. Uma onda de euforia subiu nele ao ver que três Alfas não conseguiam lidar com um único Sub Beta.
Um clarão iluminou a estufa, seguido de um trovão que fez o chão estremecer. Nesse instante, Hayul finalmente parou. Ofegante, ele olhou ao redor.
Os três homens se contorciam no chão como insetos esmagados. Hayul largou a vara ensanguentada, ajeitou as calças e saiu correndo da estufa.
Ele sabia que, depois de deixar aqueles alfas naquele estado, dificilmente teria uma vida tranquila. Mas, que diferença fazia? Já tinha até mesmo aberto o crânio de um Alfa Real.
‘Que se fodam. Como é que se sentem sendo dominados por um fodido Sub Beta?’
Enquanto atravessava o jardim encharcado pela chuva, Hayul começou a rir descontroladamente. Ria de forma quase histérica. Naquele momento, parecia que ele era o centro do mundo. Estava tomado pela certeza de que sobreviveria, de que um futuro melhor ainda podia existir.
Se conseguisse sair vivo daquele lugar, é claro.
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Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog