Ler Cão Real. – Capítulo 12 Online
— Achei que tinha trazido para casa um mestiço idiota, mas você é surpreendentemente esperto.
Pavel murmurou, avançando com passos largos. Ele acariciou a bochecha de Hayul, que estava parado diante da porta, com a ponta dos dedos. Hayul, irritado, bateu e afastou a mão branca dele.
— É melhor me pagar direito. Vou aguentar essa merda de vida só por um ano.
Em vez de responder, Pavel riu. Seus olhos azuis brilhavam, ele estava claramente se divertindo, e o forte aroma cítrico exalou dele.
— Espere obedientemente. Voltarei logo.
Pavel se levantou e saiu. Ficando sozinho no quarto, Hayul rangeu os dentes e reafirmou sua decisão.
‘O período contratual é de um ano.’
De qualquer jeito, iria suportar. Ele definitivamente não se deixaria quebrar, nem destruir. Custasse o que custasse, sairia daquela casa vivo e com seu corpo intacto.
Naquele mesmo dia, Pavel acabou levando Hayul ao centro da cidade. Ele tentou desconversar, dizendo que não precisava sair, mas Pavel, sorridente, insistiu que tinham coisas a resolver e o colocou no carro.
Sentado confortavelmente no banco de trás, Pavel começou a deslizar a mão pela coxa de Hayul, que estava ao lado dele. Hayul lançou um olhar rápido para a frente, temendo que o motorista percebesse, mas Pavel, indiferente, continuou acariciando a coxa dele, avançou até a parte interna, chegando a roçar de leve os dedos sobre o pênis.
— Pare com isso.
Hayul murmurou, tentando afastar a mão dele que rapidamente abriu a boca:
— Recebi uma proposta de casamento da família real de Marrocos.
— Parece que o duque finalmente vai realizar o grande sonho dele.
O duque de Headington sempre quis nadar em águas maiores, sonhando em fazer parte da família real. Por isso levava Pavel consigo a todos os eventos oficiais, sonhando em colocá-lo dentro da realeza britânica. Ele não conseguiu realizar o sonho de entrar na realeza britânica, mas agora parecia estar mirando na família real marroquina. De qualquer forma, ainda era uma chance de virar parte de uma família real.
Pavel falou com uma expressão carrancuda:
— Eu só tenho vinte anos.
— É uma boa idade para casar.
Hayul respondeu de forma desdenhosa. No fundo, torcia para que ele se casasse logo e fosse embora para Marrocos ou para onde fosse. Não acreditava que Pavel o levaria junto, nem que faria questão de mantê-lo como servo sexual em plena vida num palácio.
— Casar aos vinte… É muito repentino, estou confuso.
Pavel murmurou olhando pela janela, mas a mão em sua coxa não parava. Era um toque quase como se estivesse acariciando um animal de estimação. Hayul apenas deixou; afinal, não era como se o sujeito fosse parar porque ele mandou.
Vinte anos. De fato, era jovem demais para se amarrar ao um casamento. Mesmo que casamentos entre Alfas Reais fossem um negócio político, ainda assim era um peso ter de se casar estrategicamente com alguém que nunca havia visto. A princesa marroquina seria sua primeira e última parceira. Pavel, que em pleno século XXI(21) ainda fazia o papel de uma donzela de família nobre do século XIX(19), ao mesmo tempo que parecia ridículo era digno de pena.
— Ultimamente, tenho me perguntado se meu pai realmente me ama.
Aos olhos de Hayul, o afeto do Duque não passava de um amor distorcido. O homem sacrificaria a felicidade do filho, que sempre olhara para ele com devoção, em prol dos próprios objetivos. Era uma forma de abuso. Agora, queria vendê-lo por um alto preço. Pela primeira vez, Hayul realmente achou Pavel digno de pena. Poderia aquilo realmente ser chamado de amor? Talvez o amor fosse só unilateral de Pavel pelo próprio pai.
Quem era ele, nascido como um sub-Beta, criado num bairro pobre sem conhecer o pai, para ter pena de alguém? Mesmo assim, sua mãe havia lhe dado tanto amor que transbordava.
— Acho que agora entendo por que minha mãe resolveu fugir com meu pai, mesmo se arriscando. Ela só queria viver a própria vida. A determinação dela me deixa com inveja e eu a admiro por isso.
Que absurdo: um garoto de apenas vinte anos falando como se fosse morrer amanhã, como se já tivesse desistido de tudo. Se admirava tanto a coragem da própria mãe, que tivesse a ousadia de fazer o mesmo.
— Então viva a sua vida, agora mesmo. — Pavel virou a cabeça e olhou para Hayul.— Se não quer se casar, então vire a mesa de uma vez.
— Será que eu posso mesmo fazer isso?
Hayul soltou uma risada sarcástica.
— O que não pode? É a sua vida. Se você viver para os outros, só vai restar arrependimento. Se deixar que os outros prendam os seus pés e viver de qualquer jeito, logo vai envelhecer. E quando envelhecer, perderá as forças, vai desistir e se acomodar. Ninguém vai assumir a responsabilidade pela sua vida no seu lugar, então apenas viva fazendo o que quer.
Quando ele ia acrescentar mais alguma coisa, o outro soltou uma risada contida. Mesmo que zombasse dele, chamando -o de kkondae (pessoa mais velha, condescendente, autoritária e presunçosa), não tinha como rebater. Mas o sujeito apenas ficou olhando fixamente para Hayul, em silêncio.
— O que foi?
— O que será? O que eu realmente quero.
— Por que está me perguntando isso?
Hayul franziu a testa.
— Eu não sei. Não sei o que é que eu quero. Que tipo de vida eu quero viver.
Pavel acariciava a coxa de Hayul enquanto se perdia em pensamentos.
— A vida que vivi até agora foi a vida que meu pai queria. Apenas segui o que ele determinou. Entrar na universidade, entrar para o time de rúgbi, fazer o voto de castidade… tudo foi porque ele quis assim.
A voz baixa e grave soou agradavelmente. A voz era doce, mas o toque da mão que apalpava sua perna não era exatamente gentil.
— Foi você Hyung.
— O quê? — Hayul franziu ainda mais o rosto, incomodado pelo toque em sua perna, e perguntou, encarando Pavel.
— A primeira coisa que escolhi por minha própria vontade.
Ao dizer isso, Pavel apertou com força o músculo da coxa de Hayul. Seus olhos azuis o encararam fixamente antes de ele abrir um sorriso amplo.
— Meu pai, claro, foi contra. Mas eu desobedeci pela primeira vez. Eu realmente queria trazer o hyung para ser meu servo real. Quis isso desde o momento em que te vi pela primeira vez no estádio de canoagem. Eu gostei de você, hyung.
O rosto de Hayul ficou ainda mais distorcido.
— …Me viu e ficou com tanto tesão assim?
Era como se dissesse que, desde o primeiro momento, tinha vontade de tratá-lo como um cachorro e obrigá-lo a se ajoelhar debaixo dele. Hayul não conseguia entender o que em si poderia ter despertado esse desejo sexual em Pavel. O rosto sorridente do outro se aproximou, e aqueles lábios vermelhos e úmidos roçaram suavemente nos seus com um beijo rápido.
— Obrigado. Acho que, graças a você, encontrei a resposta.
Beijos curtos e seguidos, smack, chuac, macios e gentis. Os olhos azuis que brilhavam ao sol eram tão bonitos que Hayul, sem perceber, se perdeu neles, e, por reflexo, moveu os lábios, recebendo o beijo de Pavel. A mão que acariciava sua coxa pressionou descaradamente o interior de sua perna. Suas partes íntimas, pressionadas pela ponta dos dedos brancos, tensionaram e estremeceram.
Dos lábios colados escapou um pequeno gemido. Hayul sentiu o olhar do motorista pelo retrovisor, mas os beijos se tornaram ainda mais intensos.
Ele realmente beija muito bem. Talvez não tivesse feito sexo, mas beijos certamente já havia experimentado. Cada vez que aqueles lábios macios como seda se entrelaçavam aos seus e a língua quente roçava na sua, sua mente ficava turva.
— Realmente, trazer o hyung foi a melhor escolha que eu já fiz.
Lambendo os lábios entreabertos de Hayul, Pavel sussurrou docemente.
***
Sete anos atrás, Hayul não passava de um garoto impulsivo, cheio de energia e arrogância. Naquela época, ele pensava que era bastante esperto, mas olhando para trás agora, não poderia ter sido mais estúpido.
Não sabia controlar suas emoções e se inflamava mais rápido do que qualquer um, explodindo em fúria. Quando se irritava, saía batendo sem pensar, recorrendo logo à violência. Nunca pensava em treinar seu corpo de forma disciplinada. Ele apenas agia como um animal, pulando e se debatendo.
Quando ele matou Pavel, fugiu para os Estados Unidos e viveu de forma miserável, até se alistar no Corpo de Fuzileiros Navais, foi justamente por isso que sofreu tantas derrotas. O exército não era um lugar onde se podia perder a cabeça e agir como um louco. Todos os dias levava bronca, rolava pelo chão, recebia exercícios punitivos até quase vomitar e desabava de exaustão. Com o tempo, aquele corpo e aquele espírito bruto e desordenado foram sendo forjados e endurecidos.
Felizmente, sua energia transbordante acabou se tornando sua maior vantagem no exército. Como não era nem alfa, nem beta, nem ômega, mas um híbrido, era livre da influência dos feromônios. Isso também se tornou uma imensa força, permitindo-lhe suportar a vida militar melhor do que qualquer um.
Foi lá que ele descobriu seu talento para tiro e foi imediatamente recrutado como atirador de elite. Passou até mesmo pelo rigoroso treinamento das forças especiais, onde até os membros da unidade conhecidos por sua boa condição física levantavam as mãos e os pés em sinal de desistência.
O motivo de Hayul ter se alistado no exército, e depois ter se candidatado às forças especiais, foi apenas um: dinheiro. O exército garantia salário e uma vida estável. E a razão de, após dar baixa das forças especiais, ter migrado para uma empresa de mercenários também era o dinheiro.
Seu plano era simples: enquanto pudesse, ganharia o máximo, mesmo que fosse às custas de seu corpo, e então pararia. Seu próximo objetivo era modesto: construir uma casa em uma vila tranquila no interior e viver sossegado até a velhice. Para ele, isso bastava.
No fim, acabou sendo capturado por um cartel de drogas e forçado a viver como o cão da organização, mas, ao menos, os sete anos de sobrevivência e quedas o fizeram crescer.
Ele já não era mais o Jin Hayul de sete anos atrás.
Agora sabia controlar as emoções e jamais perdia a calma, não importava a situação. Nada era impossível. Descobriu que, em qualquer adversidade, se mantivesse a mente firme, encontraria uma saída.
*
Quando Hayul abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o teto de um quarto de hospital. Estava deitado de costas na cama, com um soro preso ao braço. Apesar de recobrar a consciência, não se moveu de imediato. Apenas piscou algumas vezes, observando os arredores.
Era um quarto individual e não havia ninguém por perto. A terrível dor de cabeça que o atormentava antes de desmaiar havia sumido – provavelmente lhe aplicaram analgésico. Deitado, moveu o corpo com cuidado, todos os membros respondiam bem, mas seus músculos enfraquecidos ainda precisariam de tempo para recuperar a força.
Mexendo os dedos dos pés e abrindo e fechando os punhos, organizou os pensamentos. Havia sido capturado por Steve, que lhe injetou uma droga capaz de intensificar os feromônios de um ômega. Ele quase foi estuprado por Steve, e então Pavel Headington, aquele filho da puta, desceu do céu como um salvador.
Sem hesitar, Pavel estourou os miolos de Steve com um tiro. Os capangas de Steve que estavam no galpão também foram todos executados a sangue-frio.
Assim como ele já não era o Jin Hayul de sete anos atrás, aquele também não era mais o mesmo Pavel Headington de sete anos atrás, o universitário de vinte anos. Sua mira era precisa, seus tiros revelavam experiência; não era a habilidade de alguém que havia atirado apenas uma ou duas vezes. Eram movimentos de alguém que passou anos treinando e sendo moldado.
Parecia ter aprendido da mesma forma que Hayul: apanhando, sobrevivendo e se forjando no exército.
Esse tipo de coisa não é simplesmente adquirida naturalmente por ser bom em esportes. Mesmo atletas de elite, representantes nacionais, desistiam aos montes durante o treinamento das forças especiais.
Disseram que ele esteve trancado em um mosteiro em uma ilha remota e depois desapareceu. Será que ele esteve em algum campo de treinamento de agentes especiais durante esse tempo?
Além disso, ouviu dizer que até a cobertura de Marco havia sido invadida.
‘Será que aquilo também foi obra de Pavel?’
‘E o que Steve quis dizer quando disse que eu cheirava a Ômega? Ele disse que a droga que injetou estava relacionada aos feromônios de um Ômega. Mas por que meu corpo reagiu daquela forma, ficando quente como se fosse um deles?’
Por um instante, ele se sentiu como um ômega vulnerável diante do feromônio de um alfa, atormentado, queimando por dentro. Não era desejo sexual. Era um calor arrepiante, uma chama que consumia todo o seu corpo. Só de recordar aquela sensação, sua pele se arrepiava.
De qualquer forma, não era hora de ficar deitado confortavelmente, apenas refletindo. Um inimigo ainda mais perigoso que Steve havia aparecido, ele precisava fugir.
Hayul se levantou, puxou a agulha do soro cravada no dorso da mão, calçou as pantufas hospitalares e saiu rapidamente do quarto. Pegou um casaco que não sabia de quem era, pendurado no cabide, e o vestiu sobre o uniforme de paciente.
O corredor do hospital estava vazio, como se fosse no meio da noite. Algumas enfermeiras estavam sentadas na recepção, cuidando de tarefas. Era hora de todos os pacientes estarem dormindo.
Ele abriu sorrateiramente a porta da saída de emergência e se esgueirou para fora. Desceu as escadas correndo até o primeiro andar. Pela saída de emergência, avistou uma porta que levava diretamente aos fundos do pronto-socorro, sem precisar passar pelo saguão. Abriu-a e foi recebido por uma rajada de vento frio que cortou seu corpo. Por um instante, pensou que a fuga estava sendo fácil demais.
— Onde pensa que vai?
Um homem robusto e forte, com físico de urso, surgiu de repente diante dele. Hayul não respondeu: simplesmente avançou contra o sujeito.
Seu soco foi bloqueado com destreza. O homem agarrou seu pulso, torceu-o com força e sussurrou, pressionando o cano de uma arma contra as costelas expostas dele:
— O senhor precisa voltar para o quarto.
Era um inglês carregado de sotaque russo. Hayul, com o pulso torcido para trás, levantou o tronco, que naturalmente se inclinou para a frente, com toda a força. A cabeça do homem, que estava bem perto sussurrando em seu ouvido, bateu com força em sua nuca. Sem perder a brecha no momento em que o sujeito cambaleou, Hayul girou o corpo e golpeou suas costelas com o punho. O soco tinha sido certeiro – provavelmente as costelas se quebraram – mas o homem contra-atacou, indiferente.
O sujeito era corpulento e tinha braços longos, o que lhe dava um alcance de ataque maior. Em comparação, Hayul, que era menor, desviava dos punhos rapidamente como um animal pequeno e se infiltrava nas brechas expostas para golpear o abdômen e a boca do estômago dele. Normalmente, quando se leva um golpe na boca do estômago, a pessoa vacila de dor, incapaz até de respirar, mas o homem simplesmente o envolveu num abraço com seus braços longos.
Braços grossos pressionaram o corpo de Hayul. Era uma força descomunal. Ele se debateu, chutando as canelas e batendo com a cabeça no rosto do homem, puk puk, mas o cara nem se mexeu, mesmo sangrando. Era um sujeito monstruoso. Ele era tão alto que os pés de Hayul mal tocavam o chão.
— O senhor precisa voltar para o quarto.
Ele repetia a mesma frase de antes, enquanto andava a passos firmes, carregando Hayul que se debatia no aperto. Hayul também era considerado um homem de porte grande, mas ele o carregava como se fosse uma criança, sem dificuldade, e se movia com naturalidade.
— Me solta, me solta!
Não adiantava se debater. Hayul nem queria imaginar o quão ridículo deveria parecer naquele instante.
— Fique parado. Você vai acabar caindo.
Mas ele não era do tipo que ficaria quieto só porque lhe mandavam. Ele se debateu desesperadamente e acertou uma joelhada certeira na virilha do homem. Seria impossível não reagir a um golpe desses. Um gemido escapou, e a força dos braços que o prendiam diminuiu. Libertando-se do aperto sufocante, Hayul aproveitou a chance, endireitou-se rapidamente e saiu correndo.
Nem sabia para onde tinham ido as suas pantufas. Com os pés descalços, correu sobre o asfalto úmido. Mas não foi longe: um carro surgiu e bloqueou seu caminho. Hayul não hesitou; saltou sobre o capô e passou por cima da carroceria. Os homens desceram do carro tarde demais, apontando armas contra ele, mas ele ignorou e continuou correndo. De qualquer forma, sabia que não atirariam.
‘Se é o Pavel quem está me perseguindo, aquele filho da puta não pode me matar. Não, ele não vai. Não assim tão facilmente.’
Como havia previsto, os homens apenas apontaram as armas, mas não dispararam.
Foi então que transeuntes nas proximidades, ao verem os homens armados, começaram a gritar em pânico. Em um instante, a área ficou tumultuada. Aproveitando a confusão, Hayul entrou em um táxi que parou bem na sua frente.
O destino era o restaurante italiano de Marco.
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Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog