Ler Caminhando sobre às águas – Capítulo 33 Online

Modo Claro

Um mau cheiro emanava de um caminhão cheio de lixo perto do parque próximo ao shopping center. Eu olhei para os antebraços musculosos dos trabalhadores que prendiam a respiração enquanto colocavam rapidamente grandes sacos de lixo no caminhão.

Há cerca de seis anos, desempenhei um papel em um drama e apareci pela primeira vez na televisão como um faxineiro.

Em uma rua deserta, dois trabalhadores de uma equipe que estavam colocando sacos de lixo no caminhão, gritaram de repente. No saco de lixo havia um jovem que estava morto com os olhos ainda abertos.

Era um começo comum para um drama policial. Eu preferia ter feito esse tipo de papel secundário em um drama. Representar um cadáver é incômodo, mas se tivesse que fazer o papel de um homem morto, teria tido um tempo maior de aparição na tela. Naquela época, dei um tapa no joelho enquanto sentia um grande sentimento de decepção.

Enquanto olhava para eles, estremeci com a sensação fria que tocou o meu corpo. Quando virei a cabeça, vi que o braço de Janine deslizou e envolveu meu braço, que logo se entrelaçaram.

— Estava observando suas belas costas há um tempo.

Quando me virei com as palavras dela, um homem loiro de pele bronzeada estava olhando para mim encostado em sua bicicleta estacionada na beira da estrada. Quando nossos olhos se encontraram, ele ergueu a mão e disse olá. Ele era um jovem que aparentava ter cerca de vinte anos. Quando acenei com a cabeça, o homem sorriu.

Olhei de volta para Janine. Ela baixou os óculos de sol até o meio do nariz e olhou para mim.

— Com que frequência?

— Às vezes. Eu não digo “olá” como hoje.

— Às vezes, ou quase sempre?

— Não tenho uma cota.

— Não sei o que acontece, mas as estatísticas mostram que os homens gastam mais dinheiro em pornografia e sexo do que em esportes. Além disso, há muitos gays em Nova Iorque.

Janine de repente soltou estas palavras quando passava perto do jovem loiro que caminhou para o outro lado da rua. Na tentativa de fingir ser minha namorada, Janine apertou ainda mais o meu braço. Colocou o rosto no meu ombro e levantou a cabeça.

— Você já viu o fórum?

—  Fórum?

— …Você não sabe?

Ela murmurou algo sério para si mesma.

— Bem, não podemos fazer nada quanto a isso.

Janine entrelaçou o braço no meu novamente e com a outra mão apontou para o prédio do outro lado da rua.

— Pronto. Estamos quase lá.

Janine apontou para um prédio de ferro cinzento, um dos prédios que havia sido convertido de uma fábrica para uma galeria. A combinação da loja de ferragens com a marcenaria no canto da galeria era interessante.

— Vim aqui para te encontrar.

Vendo Janine conversando animadamente, a equipe sorriu amigavelmente.

— Espere um minuto, quer um café?

— Sim. Duas bebidas, por favor.

Janine, que pegou o copo e o estendeu para mim, pareceu preocupada por um momento.

— Você não bebe nada com cafeína.

Sinto muito calor, me embebedo facilmente e odeio cafeína. Sou surpreendentemente sensível. Sorri ao olhar para Janine, resmungando enquanto puxava o copo.

— Você pode apenas dar para mim.

Se for esse café levemente torrado, a cafeína não teria efeito em mim. Enquanto tomava um gole do café gelado, Janine tirou alguns papéis de sua bolsa.

— Olha. O que você acha?

O pedaço de papel que ela me entregou tinha dois chifres em espiral desenhados que pareciam pertencer a um íncubo ou a um dragão. O ângulo, comprimento e espessura dos dois chifres foram delicadamente registrados. Quando virei o papel, o esboço do chifre estava desenhado.

— O que é?

— São chifres. Fiz em casa derretendo cera. A loja de ferragens daqui faz o molde se a arte for modelada em cera. Recebi uma ligação ontem dizendo que poderia ser fundido em metal.

Olhei para baixo para ver um par incomum de chifres, ergui os olhos e vi o rosto de Janine. Não tive coragem de perguntar qual era o propósito daquilo, então tomei um gole de café e esperei o funcionário voltar.

Os chifres trazidos por um homem de boa aparência e cabelo cacheado eram bastante pesados. Havia várias mensagens escritas nos chifres e, de acordo com Janine, alguns versos foram retirados da versão do purgatório da Divina Comédia de Dante. De um homem cego pela loucura à figura de um demônio. Eu não queria nem imaginar o quão longe Janine levava seu trabalho.

— Você gostou?

Janine respondeu “sim” friamente para o homem sorridente e se virou para mim.

— E se o título da obra fosse < Em Tributo a Jennifer>?

Eu não pude concluir se aquele título seria interessante para Janine ou apenas uma afronta para Jack Black.

— … Eu não sei.

Janine inclinou o rosto em direção ao ombro e sorriu silenciosamente em resposta às minhas palavras ambíguas.

Saímos da loja e caminhamos pelo parque próximo. Sentamos em um banco, comemos um hambúrguer enquanto ela me contava as histórias sobre as filmagens no Reino Unido. Embora o cronograma estivesse apertado, as filmagens na Inglaterra foram concluídas sem problemas sérios.

— Janine.

— Sim.

— O fórum sobre o qual falamos mais cedo.

— Hm…

—  O que fala sobre o episódio que fiz com McQueen. Soube que todo mundo está comentando…

— O que você quer dizer com todo mundo?

Janine olhou para mim enquanto tirava o canudo da boca.

— Eu encontrei Kyle e Levi.

— Sério? Onde?

— Na rua, por acaso.

— Vocês conversaram sobre o fórum?

— Mais ou menos.

Janine franziu os lábios. Através dos óculos escuros, seus olhos taciturnos me encararam por um longo tempo sem piscar. ‘Estou louco? Falando essas bobagens.’ Ela murmurou em voz baixa.

— Não há muito o que falar. Se você estiver curioso, acesse sites como Gay.com ou Gay.Lounge. No fórum da McQueen Entertainment tem mais detalhes sobre as filmagens… Mas há muitas conversas explícitas lá, então se você só quiser entrar por uma questão de curiosidade, basta acessar os outros dois.

— O que você quer dizer explícitas?

Ela empurrou com o dedo os óculos de sol que deslizou até a ponta do nariz e pegou o hambúrguer. Murmurando com a boca cheia, ela disse com a voz embargada.

— Normalmente em sites pornôs, os homens héteros dizem o que gostariam de fazer com as atrizes. Gays também são homens, então eles fazem o mesmo.

A voz de Janine era contundente como se ela estivesse lendo notícias em um jornal, mas ela não conseguia destacar a preocupação enquanto olhava cuidadosamente nos meus olhos.

— Você se sente mal com isso?

— Não. É só que…

— …

— É estranho me ver como objeto de desejo.

Coloquei o restante do hambúrguer na boca e mastiguei com força. Bebi a coca e olhei para Janine, que não havia terminado nem a metade.

— Por que isso de repente?

— A reação é um pouco… me pergunto se foi algo específico que gerou isso.

— Bem, é.

Com um sorriso forçado, Janine continuou chupando o canudo. Então olhou para mim e tossiu, então disse:

— Mas estou curiosa sobre uma coisa.

— Sim.

— Pode ser um assunto delicado, posso perguntar mesmo assim?

Assim que assenti, Janine limpou meticulosamente os lábios com o guardanapo que veio com o hambúrguer. Janine, que embrulhou a metade do hambúrguer em papel e o colocou no banco, se virou completamente para mim.

— Onde você gasta seu dinheiro?

Olhei para ela por um momento. Não era porque ela tocou em um assunto que não gostei. Acontece que era difícil escolher palavras certas para fazê-la entender. Também sabia que era por consideração que Janine não perguntara a razão que me fez filmar pornografia nesses últimos dois meses. Além disso, isso não era tão especial a ponto de mantê-lo em segredo.

— Pago minhas dívidas.

Os lábios de Janine se separaram lentamente com minhas palavras. Mas logo, seus lábios se fecharam, como se quisesse esconder seu sentimento de surpresa.

— De alguma forma, eu tinha uma dívida muito grande e preciso pagar imediatamente.

Me senti patético e sorri sem jeito, e Janine mordeu o lábio inferior até que ele ficou branco e falou.

— É um empréstimo bancário?

Balancei a cabeça.

— Eu não sou qualificado para conseguir um empréstimo desses.

— É *usura?

(Usura: Contrato de empréstimo com cláusula de pagamento de juros por parte do devedor.)

— … Sim. É um empréstimo com usura.

“Com usura.” Janine repetiu minhas palavras lentamente e franziu as sobrancelhas. A vida dela também não foi fácil, mas não o suficiente para entender que há situações em que essas coisas simplesmente acontecem. Na verdade, eu não queria que ela entendesse. Não importa como me avalio, o olhar dela não mudaria nada. O único problema é o peso da realidade diante de mim.

— É uma dívida que tenho devido a um acidente. Eu estava ferido.

— Onde você se machucou?

— Na perna.

Janine olhou para minhas pernas. Quando ela baixou a cabeça, pude ver seus olhos arregalados através dos óculos de sol. Ela olhou para minhas pernas envoltas na calça preta sem piscar e soltou um leve suspiro.

Pedi dinheiro emprestado não só por causa da minha perna, mas também para problemas complexos, mas era tedioso explicar um por um. Odeio a pena dos outros. Falar da realidade dos pobres é sempre patético.

— Você parece ter se recuperado bem.

Enquanto eu sorria casualmente com suas palavras, Janine esticou os lábios como se estivesse se forçando a sorrir. Ela virou a cabeça. Olhei para seu rosto preocupado e coloquei a ponta do pé direito no chão. Os dedos dos pés que pisaram na terra tremeram de tensão. Demorou muito e, embora tenha conquistado a compaixão de quem ouviu um pouco do meu passado, a perna que ainda estava presa no meu corpo não era uma prótese mecânica nem uma perna deficiente.

A razão pela qual posso rir casualmente é porque as memórias daqueles dias se tornaram triviais, como se uma amnésia tivesse tomado conta de mim. Mas, como sua expressão estava sombria, Janine não queria fazer mais nenhuma pergunta.

Havia uma pergunta que pairava na minha mente há várias semanas. O que os outros dizem sobre as pessoas que costumam filmar pornografia? Não precisa ser poético ou dramático, suas vidas de alguma forma se encaixariam na expressão das palavras. Embora isso também tenha se tornado a minha vida.

Claro que eu não queria desistir. Mas, vou sair disso com sabedoria para não depender mais do dinheiro fácil, para não ficar viciado antes que isso destrua minha vida.

— Vamos?

O rosto sorridente de Janine apareceu na frente dos meus olhos que estavam voltados para o chão.

Eu balancei a cabeça, levantei e peguei o lixo que estava ao lado do banco. Ela disse que tinha alguns livros para comprar, então passou por uma livraria que lida com estoque no Guggenheim e comprou um monte de pinturas.

— Que saco.

Parada no ponto de ônibus, Janine colocou todos seus pertences no chão, exceto a bolsa.

— Está pesado, você vai ficar bem?

— Eu me viro.

Janine deu de ombros e sorriu, esticando o pescoço para frente para ter certeza de que o ônibus estava chegando. O ônibus que ela estava esperando estava subindo a estrada íngreme à distância.

— Mas… e aquilo que você me pediu antes?

— O quê?

— Você me pediu para levar um DVD até a empresa.

Suas palavras me lembraram de algo que eu já havia esquecido. Vasculhei minha mochila e tirei o DVD que peguei emprestado de Glenn McQueen na semana passada. Faz um tempo que disse que o levaria, mas adiei voltar à empresa com o pretexto de estar trabalhando.

— Você tem muita bagagem, está tudo bem?

— Isso não é nada.

Ela empurrou a caixa do DVD na sacola, segurou o livro em uma mão e os chifres de ferro com a outra.

— Então eu já vou.

— Vá com cuidado.

— Eu te ligo.

Ela sorriu enquanto se sentava perto da janela. Peguei um lenço e olhei para o rosto de Janine enquanto enxugava o suor da testa, pouco antes de o ônibus partir, ela virou a cabeça. No momento em que nossos olhos se encontraram, ela abriu a janela do ônibus e disse.

— Você vai filmar no domingo?

A voz de Janine estava um pouco rouca. Eu não pude dizer nada enquanto olhava meu reflexo em seus óculos de sol que brilhavam como um espelho.

Vou sair disso com sabedoria para não depender mais do dinheiro fácil, para não ficar viciado antes que isso destrua minha vida. Apesar da promessa que fiz a mim mesmo há algum tempo, senti um leve sentimento de arrependimento. Faria alguma diferença continuar fazendo por mais um tempo? Não posso ganhar apenas um pouco mais? Depois de um tempo, balancei a cabeça, afirmando, enquanto observava o ônibus partir sem espaço para me envergonhar da decisão que havia tomado com tanta facilidade.

 

***

 

 

Ler Caminhando sobre às águas Yaoi Mangá Online

Este romance conta a história de Ed Talbot, um jovem de vinte e quatro anos que herdou uma dívida com um agiota.
Por acaso, ele acaba se envolvendo no mundo dos filmes pornôs gays amadores dirigidos por “Straight”.
Inicialmente, Ed pretendia se afastar da indústria após gravar apenas um vídeo de masturbação solo, mas sua mentalidade começa a mudar ao conhecer Glenn McQueen.
Glenn McQueen é um homem que comanda dezenas de produtoras de filmes pornográficos. E Ed, sem perceber, acaba se apaixonando por esse homem experiente e libertino.
Nome alternativo: Walk On Waterwow

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