Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 121 Online


Modo Claro

⚝ Capítulo 121

— … E então?
Camar perguntou, parecendo achar aquilo absurdo. Era uma reação tão natural que Yohan também não soube o que dizer.
— É só isso — eu disse cautelosamente. — Meu pai gostava de ajudar os outros.
Estranhamente, ao ouvir minha própria voz calma, tive a sensação de que era outra pessoa quem falava.
— Ele sempre me dizia para ajudar o próximo também, e foi assim que eu cresci. Quando ele via alguém em necessidade, nunca passava direto.
— E então?
Asgyle franziu o cenho. Era como se ele não entendesse o propósito daquela conversa. Continuei em voz baixa:
— Naquele dia… meu pai me levou para sair com ele. Não me lembro bem do que aconteceu antes. Acho que fomos comprar algo, mas lembro que minha mãe ficou em casa porque não estava se sentindo bem. Eu estava ótimo.
Asgyle esperou que eu continuasse, sem me apressar. Lambi os lábios, buscando as memórias.
— Havia muita gente na rua naquele dia. Muitos carros, então meu pai teve que estacionar bem longe. E ele foi caminhando pela rua comigo.
A lembrança daquele dia era tão nítida que, por mais que o tempo passasse, não podia ser apagada. Mordendo o lábio, prossegui. Surpreendentemente, minha voz permanecia estável.
— Estávamos parados juntos para atravessar a rua, e havia um homem ali… Ele estava apenas encarando o chão. Por algum motivo, não conseguia desviar o olhar daquele homem, eu não conseguia parar de olhar para ele. Papai perguntou por que eu estava fazendo daquela forma, então apontei para o homem, e de repente surgiu um caminhão enorme.
Após exalar o ar, parei e fechei os olhos. Asgyle, que estava em silêncio, perguntou:
— … O que aquele homem fez?
Abri a boca com dificuldade.
— Ele estava prestes a cometer suicídio.
Asgyle calou-se novamente. Eu continuei:
— O veículo veio em alta velocidade e o homem pulou na frente. Mas, quando meu pai o viu…
Ao relembrar aquele momento, tive dificuldade para respirar. Camar deu tapinhas nas minhas costas, como se dissesse que estava tudo bem. Mal consegui recuperar o controle e continuei:
— Ele saltou para salvar o homem. E… ele o empurrou para longe.
Minha voz foi sumindo gradualmente.
— O carro… atingiu meu pai.
Aquele foi o fim. O corpo do meu pai ficou destroçado, e eu não consegui recolher tudo dele. Minha mãe desmaiou várias vezes e meu pai, que sempre amou as pessoas, partiu. Pouco tempo depois, minha mãe o seguiu e eu tive que ir embora.
E então, conheci o Camar.
Por um instante, pareceu que todo o passado se desenrolava diante dos meus olhos de uma só vez.
— … E por que isso? — Asgyle perguntou.
Respondi com esforço:
— Meu pai sempre me dizia: se eu ajudar os outros, os outros me ajudarão.
— E você acha que vão ajudar? — Asgyle interrompeu, quase como se estivesse zombando, mas balancei a cabeça.
— Ele dizia que, assim, eu poderia proteger quem eu amo.
Asgyle olhou para o meu rosto sem dizer uma palavra. Reuni coragem para encará-lo.
— Se eu proteger alguém que é precioso para outra pessoa, outros farão o mesmo por mim.
— Você realmente acredita nisso? — Asgyle perguntou, como se fosse um absurdo. Mas fui honesto.
— Mais do que acreditar… eu espero que seja assim.
E meu pai estava certo.
Asgyle, em silêncio por um momento, falou: — … O que aconteceu com aquele homem?
— Quem? Aquele homem que meu pai salvou? — Ele assentiu com a cabeça. — Não sei. Nunca mais tive notícias dele.
— Quer que eu te fale sinceramente? — Asgyle perguntou subitamente. Ao olhar para ele confuso, ele estreitou os olhos e acrescentou: — Aquele homem não deve ter sentido gratidão nenhuma. Tiveram sorte que ele não guardou rancor de vocês.
— Rancor? Por quê?
Diante da minha perplexidade, o Príncipe Herdeiro disse com indiferença:
— Porque você o impediu de morrer.
— … O senhor quer dizer que o que meu pai fez foi em vão?
O silêncio caiu entre os dois por um tempo.
— Então — Asgyle foi o primeiro a falar. — É seu desejo viver como seu pai?
Olhei para ele em silêncio.
“Foi por isso que eu salvei você.” Escondendo o que sentia no coração, respondi:
— … Eu só queria conversar. Provavelmente farei a mesma coisa se a mesma situação surgir novamente.
As bochechas de Asgyle tremeram. Estava claro que ele não gostou da minha resposta. Mas eu não podia fazer promessas que não cumpriria.
Asgyle ficou me observando sem dizer nada. Esperei sem sequer imaginar o que ele estava pensando. Ele ficou ali, me segurando por um tempo, como se estivesse perdido em reflexões. Até que uma batida foi ouvida e o atendente anunciou que o jantar estava pronto.
— Entre.
Assim que a ordem foi dada, a porta se abriu e o aroma de comida deliciosa preencheu o ar. Continuei sentado no braço de Asgyle observando os servos prepararem a mesa. Ele permaneceu ali até que eles recuassem e fechassem a porta, e só então me colocou no chão.
— … Vamos, coma.
Seguindo o comando silencioso, fiz uma oração de agradecimento e estendi a mão. Enquanto eu lavava as mãos na bacia com água e as secava no guardanapo, notei algo estranho. Vendo Asgyle partir o pão após lavar as mãos como eu, perguntei cautelosamente:
— Eu, ah… meu senhor, tenho uma pergunta… sobre aquilo.
Hesitante, Asgyle levantou a cabeça, incentivando-me a falar. Engoli em seco.
— Como o senhor sabia que a pessoa que eu salvei era um homem…?
Asgyle franziu a testa, como se não entendesse a dúvida. Expliquei melhor:
— Falo da pessoa que salvei antes… Como soube que era um homem?
Asgyle respondeu, ainda carrancudo:
— Você deve ter dito isso.
“Eu não disse.”
Eu apenas disse “pessoa”. Será que alguma memória dele estava voltando? Ou seria apenas uma impressão? Ocorreu-me de repente que ele já havia me reconhecido antes, ao pé da cachoeira. Foi por pouco tempo, mas a memória definitivamente voltou. Poderia ele estar recuperando o passado aos poucos?
Meu coração disparou de emoção, mas foi apenas por um instante. Memórias terríveis vieram em seguida.
“Pela lei, membros da realeza perdem seu status e são punidos quando matam três ou mais pessoas.”
Naquele momento, perdi o apetite. Se o que aconteceu quando Asgyle era o Camar for revelado… Senti como se tivesse recebido um banho de água gelada e um calafrio percorreu meu corpo. Apertei os punhos sobre os joelhos para esconder o tremor nas mãos.
— Eu, meu senhor… Ouvi dizer que, mesmo sendo da realeza, há punição se matar três ou mais pessoas. Isso é verdade?
Olhei para ele ansioso, esperando que ele negasse, mas Asgyle respondeu com indiferença:
— Sim, mas nunca houve um caso assim até hoje.
“Porque não é preciso cometer suicídio com as próprias mãos.”
Eu já sabia que era uma esperança fútil. No entanto, após receber essa confirmação, não pude evitar que um pedaço do meu coração se partisse.
“… Você não pode recuperar a memória.”
Compreendi de forma dolorosa. Ele não pode se lembrar. Não deve ser revelado ao mundo. Para mim, aqueles dias em que ele era o Camar… todos devem ser enterrados profundamente. Se for revelado, Asgyle perderá tudo. Talvez até a vida. Isso nunca pode acontecer. Deve ficar no abismo que ninguém no mundo jamais conhecerá. Tão profundo que nem eu mesmo consiga encontrar.
“… Eu tenho que esconder isso.”
Lágrimas brotaram e baixei a cabeça apressadamente. Fingi estar tomando a sopa para esconder o rosto com a colher, mas minha visão estava ficando turva.
“O Camar não existe mais.”
Admiti dolorosamente. O Camar desapareceu naquele dia e morreu. Fui negligenciando e neguei isso muito até agora, mas era apenas minha teimosia. Foi tudo um sonho, uma fantasia.
Fechei os olhos com força e os abri lentamente. As lágrimas caíram e minha visão clareou novamente. Quando olhei para cima com cuidado, vi Asgyle encarando o vazio, absorto em seus próprios pensamentos.
Que triste… Era o fim do meu amor.

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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna

Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho

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