Ler Beije o canalha. – Capítulo 07 Online

Modo Claro

Desde a manhã, Winston não estava de bom humor. Já fazia muito tempo que sofria de insônia, mas passar a noite inteira sem dormir sequer um minuto era algo raro. Ele costumava ter ao menos trinta  minutos ou uma hora de sono fragmentado, mas na noite passada passou a noite em claro. Winston sabia exatamente o motivo disso, mas ninguém mais percebeu. Nem mesmo a senhora Campbell, que entre seus filhos o amava de forma especial, suspeitou da verdadeira razão. Ela apenas presumiu que o semblante cansado e irritadiço do filho se devia a outro motivo.

Depois que Harold se foi, ele passou a assumir tudo sozinho. Era natural que estivesse exausto.

Ainda assim, Winston estava dando conta. Na verdade, já fazia um bom tempo que Harold havia se afastado da linha de frente dos negócios, então não era exatamente algo novo. A diferença estava no peso que agora pressionava seus ombros. Harold não existia mais neste mundo, e o filho deixou de ser apenas “o substituto de Harold” para se tornar “o chefe da família”.

Sentada do outro lado da mesa de chá, a senhora Campbell observou o filho, que apoiava um braço no encosto da cadeira e massageava a testa com ar cansado. Com um sorriso cheio de ternura, falou:

— Aguente só mais um pouco. Quando a leitura do testamento terminar, tudo vai se resolver.

Winston interrompeu o movimento da mão na testa e olhou para a mãe por entre os dedos. Ela o encarou com um rosto cheio de amor e disse:

— Não há nada com o que se preocupar. Não é óbvio qual será o conteúdo do testamento que Harold deixou? Ele pode dar uma parte adequada aos seus outros irmãos, mas serão apenas migalhas. Você ficará com tudo. Confie em mim.

Ela falou com um tom cheio de convicção, tentando animá-lo, mas estava completamente fora do ponto. Winston pensou que, tanto no passado quanto agora, sua mãe nunca o havia compreendido de verdade. Ainda assim, já tinha passado da idade de reclamar disso, e para ele pouco importava. O problema que ocupava seus pensamentos naquele momento era outro.

— Mãe.

Sem mudar de postura, Winston falou. Diante da atenção imediata da senhora Campbell, ele perguntou com a voz fria de sempre:

— Foi a senhora quem ordenou que Yujin fosse conduzido ao meu quarto?

— O quê?

A pergunta totalmente inesperada deixou a Sra. Campbell visivelmente perturbada, e essa era a reação que Winston já esperava. Percebendo que seu palpite estava correto, ele franziu ainda mais a testa.

— Mãe, não faça esse tipo de coisa infantil.

— Eu não sei do que você está falando.

Ela rebateu com firmeza, tentando negar. Mas ambos sabiam que já era tarde demais. Sem saída, a senhora Campbell acabou confessando.

— Pensei que, ao sentir seus feromônios, ele perderia o controle e faria papel de ridículo diante de você. Só queria que você visse a verdadeira face daquela coisa imunda, caso ainda estivesse correndo o risco de se deixar abalar outra vez.

Ela despejou uma série de justificativas, mas Winston apenas suspirou profundamente, com o rosto ainda mais fechado.

— A senhora fez isso para me dar um choque de realidade? Mãe, e se eu tivesse perdido a cabeça por causa dos feromônios e feito alguma besteira?

Diante da observação de Winston, a senhora Campbell retrucou com expressão dura:

— Isso não faria sentido. Ele é apenas um ômega comum. Você é um Alfa dominante. Além disso, você já deve ter extraído feromônios suficientes na festa. Não há como você ser afetado pelos feromônios de alguém tão insignificante?

Isso também estava exatamente dentro das expectativas de Winston. Se ele não tivesse ido à festa de feromônios na noite anterior, ela jamais teria feito algo assim. Ainda assim, sua mãe superestimava demais o próprio filho.

— O filho da senhora não passa de um alfa comum.

Winston disse isso, mas a senhora Campbell imediatamente negou, com o rosto sério.

— Não é verdade. Você é um alfa dominante, assim como seu pai.

Agora o único alfa dominante da família.

Graças a isso, Winston acabou herdando a maior parte dos bens da família, apesar de ser o caçula. A senhora Campbell já esperava que Winston, o mais brilhante dentre os filhos que dera à luz, assumisse a linhagem, mas quando ele se manifestou como um alfa dominante, essa expectativa virou certeza. Seu filho mais novo era perfeito. O parasita que por um momento se agarrou a ele não passava de uma mancha insignificante em sua vida.

No entanto, a sagacidade do filho, da qual tanto se orgulhava, acabou se tornando um obstáculo em momentos como aquele. Winston sempre percebia com facilidade as trapaças e maquinações alheias, a ponto de ninguém conseguir realmente manipulá-lo.

Ainda assim, até Winston caiu em um ardil uma única vez. Em parte porque fora um plano arquitetado com todas as forças pela senhora Campbell e pelos demais, mas a razão definitiva para o sucesso estava em outro lugar. Esse motivo sempre pesou no coração da senhora Campbell. Embora tentasse se consolar pensando que, no fim, conseguiu o que queria, e isso bastava.

Se Winston não amasse tanto aquela coisa imunda, não teria caído em um truque tão superficial.

Cego de amor, ele não conseguiu fazer um julgamento racional e acabou cometendo um erro colossal. E ainda não havia se dado conta disso. Se tudo tivesse seguido conforme o planejado, ele teria passado a vida inteira sem perceber, e assim teria terminado.

‘Quem imaginaria que Harold lançaria um golpe desses no final.’

A senhora Campbell voltou a nutrir ódio pelo marido falecido.

‘Será que sentiu, às vésperas da morte, ao menos um fiapo de culpa? E os filhos que ficaram para trás? E eu?’

Até o último instante, ele humilhou a senhora Campbell antes de partir. Se pudesse, ela gostaria de trazer Harold de volta à vida apenas para matá-lo com as próprias mãos.

— De qualquer forma, esqueça aquela coisa imunda. Não aconteceu nada de grave, então está tudo bem, não está? Daqui para frente, tudo vai dar certo.

Dizendo isso, ela se levantou e beijou a cabeça de Winston. Ele não gostou da ação dela, tratando-o como uma criança, mas não disse nada.

Depois que a mãe saiu, Winston ficou sozinho na sala de café da manhã. Afundou as costas na cadeira e olhou para fora pela enorme janela que ocupava toda a parede. Entre as árvores, por onde soprava uma brisa fresca, via-se pássaros cantarolando. Era uma manhã tranquila. O completo oposto do caos dentro dele.

‘Droga.’

Só de lembrar, a parte de baixo de seu corpo voltou a latejar, quente e pesada. “Você já descarregou os feromônios, então está tudo bem”? A fala despreocupada da mãe fez sua irritação ferver por dentro. Era o tipo de comentário estúpido que apenas um beta, que nunca experimentaria algo assim na vida, seria capaz de dizer. Sim, se fosse qualquer outro ômega, ela estaria certa. Mas quem estava deitado naquela cama era Yujin.

Aquele mesmo Yujin que um dia foi seu Ômega.

Nu, completamente exposto, dormindo profundamente, alheio ao mundo.

Quando o viu pela primeira vez, Winston chegou a pensar que sua cabeça estava alucinando por causa dos feromônios. Ou talvez, devido à insônia crônica, tivesse finalmente começado a sonhar de olhos abertos.

Mas misturado ao aroma familiar de seus próprios feromônios impregnados no quarto, havia outro cheiro. Um cheiro que deixava claro demais que aquilo era real. O aroma de ômega de Yujin.

Não havia como confundir. Mesmo em festas transbordando com o cheiro de feromônios de Ômega, Winston nunca ficou excitado. Pelo contrário, aquele cheiro o enojava a ponto de quase fazê-lo sair dali diversas vezes. Apenas um aroma o excitava assim.

‘Yujin.’

No momento em que percebeu, ele quase perdeu a razão. Seu coração disparou como louco e seu baixo-ventre esquentou intensamente.

‘Isso é real? É mesmo o Yujin? Yujin realmente voltou para mim?’

Incapaz de acreditar, ele ficou paralisado no lugar, sem nem piscar, apenas olhando para Yujin. A luz do luar, especialmente brilhante, revelava seu corpo por completo. As linhas suaves de seus lábios, o pescoço longo, os pequenos mamilos levemente salientes sobre o peito magro, a cintura esbelta fluindo para os quadris firmes e as pernas… Winston não conseguia se concentrar. Tudo era igual. Igual àquele dia em que Yujin se entregou a ele pela primeira vez. O mesmo dia em que se embriagou com a sensação de possuir o mundo inteiro, tomado por satisfação e triunfo. À medida que a lembrança emergia, sua mente ficava em branco. Aquele corpo que brilhava branco sob a luz do luar estava novamente tentando seduzi-lo.

“Winnie.”

Da ponta dos cabelos até as unhas dos pés, não havia nada nele que não fosse belo.

Winston se lembrou, mais uma vez, de o quanto havia se afundado nele. Nu, sentado na cama, Yujin sussurrava o nome de Winston e abria os braços, como quem pede para ser abraçado. E, claro, ele jamais conseguiu resistir àquele Yujin, e a partir dali, tornou-se completamente escravo dele. Fazia qualquer coisa por Yujin. Se ele dissesse para se matar, provavelmente se enforcaria sem hesitar. Amou de verdade e entregou toda a sua confiança. Até o momento em que descobriu o quanto vinha sendo enganado.

Mas aquele Winston já não existia mais. O Yujin que ele havia amado também não era real. Quando percebeu tudo, acreditou que a ilusão tinha se despedaçado por completo e que, junto com ela, todo o amor por ele também havia sido destruído e desaparecido.

Para sua frustração, o corpo de Yujin ainda tirava seu fôlego. Já fazia quantos anos? Depois de ter sido ferido de forma tão cruel e de não vê-lo havia tanto tempo, Yujin ainda conseguia abalar Winston apenas por existir. Não estendeu a mão, não sorriu, não fez nada. Apenas dormia nu sobre a cama, completamente indefeso.

O fato de ter apontado uma arma para Yujin movido pela raiva naquele instante também provava sua derrota.

Se tivesse cedido ao desejo e simplesmente o abraçado, teria sido melhor. Nesse caso, poderia culpar os feromônios, dizer que alguém deitado nu na cama obviamente estava esperando esse tipo de consequência, ou ainda pensar que, sendo ele um promíscuo, não faria diferença nenhuma tê-lo possuído outra vez. Teria inúmeras desculpas.

Mas Winston não fez isso. Enfurecido, apontou a arma para o outro e isso  apenas evidenciava que ele ainda não havia esquecido Yujin. Nem as lembranças do amor intenso, nem o coração dilacerado pela traição, nada. Ele não conseguiu esquecer nada. Ainda estava completamente preso e acorrentado a Yujin.

‘Desta vez será a última.’

Winston esfregou o rosto com as duas mãos como se lavando a seco e soltou um curto suspiro. Ele não valia o esforço. Agora sabia que ele até teve um filho, carregando a semente de sabe lá quem.

Ao lembrar dessas palavras, seus dedos se fecharam sozinhos em um punho apertado. As unhas cravaram na palma da mão e, só então, a razão voltou por completo. Para esfriar a cabeça, bebeu de uma vez só um copo inteiro de água gelada.

Agora, não seria mais enganado por ele. Nunca mais, de jeito nenhum. Uma vez já tinha sido o suficiente. Cair duas vezes seria prova de uma estupidez tamanha, seria melhor explodir a própria cabeça com uma bala.

‘Após a leitura do testamento, Yujin irá embora, certo?’

Era uma conclusão óbvia. Ele não tinha nenhum motivo para permanecer ali. E, então, realmente nunca mais se encontrariam. Bastava aguentar até lá.

‘Só preciso vê-lo mais uma vez.’

Naquele dia, seria diante de todos. Encontrá-lo em público era completamente diferente de vê-lo sozinho, de madrugada, nu e indefeso sobre sua cama. Haveria situação mais segura do que essa? Entrar em cio em plena luz do dia, cercado de tantas pessoas, só um animal seria capaz de fazer.

Além disso, evitá-lo naquela mansão enorme seria fácil demais. Convencido de que todas as condições estavam finalmente reunidas, Winston decidiu pressionar o advogado para apressar a leitura do testamento e repetiu para si mesmo que, até aquele dia, não cruzaria com Yujin de jeito nenhum.

***

Depois de confirmar que Winston havia saído da mansão, Yujin deixou o quarto levando Ângela pela mão e seguiu para a cozinha. Pediu algo para comer, recebeu um pouco de pão e sopa, e então voltou com ela para o quarto. Só então conseguiram matar a fome e conversar com calma.

— Papai, até quando vamos ficar aqui?

Depois de tomar banho no banheiro de hóspedes e escovar os dentes, Ângela perguntou. Yujin sentiu um aperto de culpa e acabou hesitando.

— Então… o dono desta casa faleceu e deixou um testamento. E parece que o nome do papai está nele. Então viemos ouvir. Você sabe o que é um testamento?

Ao ouvir a pergunta, Ângela assentiu rapidamente com a cabeça e respondeu:

— É quando a pessoa deixa dinheiro quando morre. Então a gente também pode ganhar dinheiro, não é?

— Ah… sim. É mais ou menos isso. Mas nem sempre deixam dinheiro…

Yujin hesitou com a resposta ousada da filha e então concordou, sem ter outra escolha. Não era uma afirmação errada. Afinal, esse também era o propósito deles estarem aqui.

— Então, temos que ficar aqui até o anúncio do testamento. Não vai demorar tanto.

— Quanto tempo?

— Bom… não sei ao certo, mas eles vão tentar fazer o mais rápido possível, então vamos esperar só um pouquinho, tá bom?

A senhora Campbell e todos os outros provavelmente só desejavam que Yujin fosse embora o quanto antes. Sendo assim, a leitura do testamento certamente aconteceria em breve.

Mais do que ninguém, Winston deveria querer isso. Mesmo se tivesse que pressionar o advogado, ele trataria de encerrar tudo rapidamente.

Antes que o peito começasse a doer, Yujin se recompôs.

‘Vamos pensar apenas no motivo pelo qual eu vim até aqui.’

— A gente também pode comprar uma casa com jardim? E criar um cachorrinho?

Ângela perguntou com os olhos brilhando. Mais uma vez, Yujin só conseguiu responder com um vago “bom…”. Talvez, ao incluir o nome de Yujin no testamento, Harold estivesse tentando se redimir à sua maneira, mas dificilmente seria algo grandioso. Yujin só desejava que fosse dinheiro suficiente para sobreviver por, no máximo, três meses.

A única coisa que o incomodava de verdade era Winston. Depois do constrangimento absurdo do dia anterior, Yujin renovou sua determinação. ‘Vou resistir sem encontrá-lo até o anúncio do testamento.’ Só de imaginar reencontrar Winston, seu peito doía. Felizmente, havia uma forma de evitar isso. Pela manhã, bastava se esconder no quarto até Winston sair para o trabalho. À noite, assim que visse o carro dele entrando, era só se refugiar novamente no quarto.

E foi exatamente isso que Yujin fez depois disso, evitando Winston ao máximo. Por sorte, o homem saía de casa antes de Yujin acordar e só voltava depois que Ângela já tinha dormido. Com o esforço dos dois lados, eles não se encontraram nenhuma vez e, finalmente, três dias depois, o dia chegou.

***

Desde cedo, sedãs luxuosos começaram a chegar à mansão, um após o outro, com pequenos intervalos. Os membros da família Campbell se reuniam para ouvir o conteúdo do testamento.

Como esperado.

Três dias não era tanto tempo assim. Comparado à semana inteira que ele havia se preparado para enfrentar, foi até rápido. Como imaginava, Winston devia ter pressionado o advogado.

‘Agora posso ir embora daqui.’

A leitura do testamento não levaria mais do que uma hora. Depois disso, haveria alguns procedimentos burocráticos, mas tudo seria resolvido rapidamente. O advogado faria o possível para se livrar de Yujin o quanto antes.

‘Então, no máximo mais um dia?’

Observando pela pequena janela do quarto apertado, Yujin viu as pessoas descendo dos carros que contornavam a enorme fonte no centro do jardim e engoliu em seco sem perceber.

— Papai.

Como se tivesse notado algo, Ângela segurou sua mão com cuidado. Yujin afastou o olhar da janela e sorriu para a filha. Sempre que pensava nela, todo o medo desaparecia e a coragem brotava dentro dele. Desta vez não foi diferente. Ele apertou a mão da menina quando alguém bateu à porta. Ao virar o olhar, após uma breve pausa, uma voz feminina soou do lado de fora.

— Senhor Yujin Sol, já está pronto? Vou acompanhá-lo até o escritório.

‘Finalmente.’

Depois de inspirar fundo uma vez, Yujin se ajoelhou, abraçou Ângela com força e beijou sua bochecha.

— Já volto, Angie.

— Sim. Força, papai.

Sentindo o peito se encher com o incentivo da filha, ele saiu do quarto. O sorriso feliz em seu rosto desapareceu no instante em que entrou no corredor e fechou a porta atrás de si. A criada que aguardava um pouco afastada manteve o rosto inexpressivo, virou-se primeiro e começou a andar. Com uma expressão endurecida, Yujin respirou fundo, endireitou as costas e fixou o olhar na direção em que ela seguia.

‘Vamos lá. Para o campo de batalha.’

Logo em seguida, Yujin alongou o passo e atravessou o corredor em uma caminhada rápida, como quem, por vontade própria, oferecia o pescoço em meio a uma alcateia de feras à espera de rasgá-lo, preparado para isso.

O ponteiro dos minutos deslizou mais uma vez. Winston conferiu o relógio no pulso e, em seguida, pegou a taça de vinho que estava sobre a mesa lateral e a levou aos lábios. Antes dele, o restante da família Campbell, que já aguardava no escritório, trocava olhares inquietos, os rostos rígidos pela tensão. A senhora Campbell permanecia sentada com a postura impecável de sempre, as costas eretas e o olhar baixo, mas por dentro estava tão ansiosa quanto os outros filhos. Todos pensavam na mesma coisa.

O que Harold teria deixado para Yujin?

Dinheiro? Títulos? Ou talvez apenas alguma lembrança insignificante. Fosse o que fosse, aquilo terminaria naquele dia. Convencida de que tudo acabaria sem maiores incidentes, a senhora Campbell reprimiu a inquietação e dirigiu um sorriso caloroso ao filho mais querido.

— Depois que isso acabar, que tal fazermos uma festa? O que você acha?

Como se as palavras fossem um sinal, Gordon se apressou em falar:

— É, já está na hora de mudar um pouco o clima da família e também de anunciar oficialmente que você assumirá os negócios.

Embora fosse o filho mais velho, não parecia demonstrar nenhuma hostilidade ou ressentimento. Na verdade, não era que ele não tivesse ambições, mas já havia desistido há muito tempo. Nem o pai, nem mesmo a mãe, jamais haviam concedido qualquer oportunidade aos outros filhos, tampouco toleravam que demonstrassem cobiça. Assim, desde cedo, eles passaram a se concentrar não em herdar o controle dos negócios, mas em garantir o máximo possível das migalhas. Em certo sentido, era uma escolha sensata. Por isso mesmo, com exceção de Winston, todos os filhos se esforçavam para agradar aos pais, sempre prontos para fazer qualquer coisa que lhes fosse ordenada.

Winston, por outro lado, desde criança tinha um senso de identidade forte e jamais recuava daquilo que considerava certo. Se fosse apenas a teimosia tola de uma criança, seus pais o teriam excluído sem hesitar. Mas Winston sempre fora sagaz, e essa inclinação também contribuiu para que fosse escolhido. Por isso, não havia motivo para dobrar a própria vontade apenas para agradar aos pais. O filho que sempre os deixou satisfeitos os desapontou apenas uma vez, e como o incidente desagradável foi rapidamente corrigido, no final, a escolha não estava errada.

Ainda assim, mesmo após a morte de Harold e às vésperas da leitura do testamento, havia claramente outro motivo para o primogênito concordar tanto com a mãe. Apesar disso, Winston decidiu não se aprofundar nisso. Antes como agora, sua atenção estava voltada para outra coisa.

— Faça como achar melhor.

Embora respondesse de maneira indiferente,  lançou um olhar de soslaio para a porta. Em breve, ele apareceria. Ainda assim, Winston permanecia tranquilo. A luz do sol que entrava pelas janelas que ocupavam toda uma parede deixava o ambiente intensamente iluminado. Além disso, havia sete pessoas reunidas ali, contando com ele. Em uma situação dessas, entrar em Rut era simplesmente impossível. Os lábios pousados na borda da taça desenharam um sorriso tênue. Winston estava confiante.

Diante dessa atitude despreocupada, até Lady Catherine resolveu se intrometer.

— E se convidássemos a Evelyn também, o que acha? Para cumprimentá-la depois de tanto tempo? Faz muito tempo que não a vê.

A senhora Campbell apenas tomou um gole de chá, como se não tivesse interesse algum, mas Winston já sabia muito bem porque tinham começado a falar de festa. ‘Será que meus parentes são todos incapazes de esconder intenções tão óbvias assim?’ Por dentro, sentiu-se um pouco aborrecido, mas não deixou transparecer. Como das outras vezes, limitou-se a responder:

— Como queira.

Ao ouvir isso, Lady Catherine não conseguiu conter a satisfação e, com a voz mais alta do que o habitual, acrescentou de forma espalhafatosa:

— Ora, que ótimo! A Evelyn ainda está solteira, não é mesmo?

Como se pedisse confirmação, ela olhou para o marido, George, que assentiu rapidamente.

— Claro. Esta é uma boa oportunidade para um reencontro, não acha?

Esperando apoio, ele dirigiu a pergunta a Winston, mas o outro não respondeu. Apenas esvaziou a taça de vinho. Ainda assim, aquela indiferença era típica dele, como sempre fora, e todos se sentiram aliviados. Tudo estava correndo bem. De forma extremamente tranquila.

Nesse momento, ouviu-se uma batida à porta. Os olhares reunidos convergiram de uma só vez para o mesmo ponto. Do outro lado da porta, a voz da empregada continuou.

— Trago o senhor Yujin Sol.

Ao ouvir isso, a Sra. Campbell lançou um olhar furtivo ao filho. Winston, sem demonstrar qualquer reação especial, apenas pousou a taça de vinho vazia. Logo a porta se abriu e, no silêncio absoluto, o ponteiro dos minutos do relógio pendurado na parede se moveu de lado com um leve clique. A criada afastou-se para um canto, e o homem que estava atrás deu um passo à frente. Finalmente, ele adentrou o escritório onde nem mesmo a respiração parecia audível. Um passo, depois outro. A cada passo lento que dava, a luz do sol subia por seu corpo como se subisse degraus.

Talvez não tivesse condições de comprar sapatos novos, pois os velhos e gastos haviam sido bem engraxados, mas sob a luz intensa do sol até os menores arranhões eram visíveis com nitidez. O terno pronto, que não valia sequer o preço de uma única gravata das pessoas reunidas ali, parecia ter sido comprado às pressas em alguma loja barata de beira de estrada, escolhido entre os mais baratos, e nem sequer caía bem em seu corpo. A gravata de cor destoante, a camisa branca cujo colarinho não se mantinha ereto, tudo estava fora de lugar. Qualquer um podia perceber. Era óbvio que ele havia comprado algo às pressas para o evento, procurando algo minimamente adequado, mas ainda assim o mais barato possível. Ajustar o tamanho sequer deve ter lhe passado pela cabeça.

Mesmo assim, como se não se importasse com nada disso, ele entrou no escritório de ombros erguidos, com dignidade. expunha sua pobreza sem filtro, mas ele não estava envergonhado.

A luz do sol subiu pelo pescoço até seu rosto. A pele lisa, excepcionalmente branca e sem uma única pinta, refletiu o sol e pareceu quase translúcida. Quando ele piscou, os longos cílios, da mesma cor do cabelo escuro, desceram levemente antes de voltar ao lugar. Yujin, como se estivesse incomodado, passou a mão pelos fios que caíam sobre a testa. A testa arredondada e branca ficou brevemente exposta antes de ser novamente coberta pelos cabelos que caíram.

Por fim, ele parou de andar, e a luz intensa que entrava pelas inúmeras janelas iluminou todo o seu corpo, como se fosse um holofote.

Ha…

Um suspiro que ninguém ouviu escapou dos lábios de Winston. Naquele instante, Winston esqueceu completamente a presença de todas as pessoas ali. Até mesmo a da própria mãe. Num piscar de olhos, caiu na ilusão de que só restavam ele e Yujin no mundo. Diante de seus olhos, só existia Yujin. ‘Meu Deus.’ Winston, tomado pelo desespero, buscou Deus, mas nada mudou.

Quantos anos haviam se passado? O rosto juvenil de outrora já não existia mais; em seu lugar, havia uma maturidade plenamente assentada. Era impossível desviar o olhar. Seu coração disparou como louco, e a parte inferior de seu corpo começou a inchar, latejando.

Em um instante, o cheiro do feromônio de Winston ficou várias vezes mais intenso.

— Cof, cof.

O som repentino de uma tosse forçada o trouxe de volta à realidade. O advogado McCoy estava de pé, segurando uma pasta de documentos que parecia conter o testamento. Seguindo o gesto silencioso dele, Yujin sentou-se em uma cadeira vazia. Era o lugar mais distante de Winston. O homem o observou atentamente enquanto ele unia as pernas com cuidado e mantinha as costas eretas. Desde que entrou na sala até aquele momento, Yujin não havia olhado uma única vez na direção de Winston. Quando a testa dele se franziu levemente, a voz de McCoy ecoou.

— Já que todos estão presentes, iniciarei agora a leitura do testamento. Antes de tudo, peço mais uma vez que guardemos um momento em memória do senhor Harold Campbell.

Ele colocou uma mão sobre o peito e inclinou a cabeça. Após um breve momento de silêncio, o advogado abriu a pasta. Na frente de todos, ele cortou a parte superior do envelope lacrado com um corta-papel e, com movimentos cuidadosos, retirou o conteúdo. Dentro havia outro envelope de documentos e um pequeno envelope de papel. Ao abrir o envelope menor do mesmo modo, revelou-se um pen drive. Todos prenderam a respiração enquanto observavam ele conectar o dispositivo.

Enquanto essa sequência de ações se desenrolava, a atenção de Winston voltou-se novamente para Yujin. Tentou ignorá-lo, mas foi impossível. Sem perceber, seus olhos já estavam fixos nele, incapazes de se mover.

Yujin permanecia na mesma postura de antes, olhando fixamente para um ponto à frente. Provavelmente observava a tela onde o conteúdo do testamento estava sendo exibido. Mas para Winston, o conteúdo do testamento pouco importava. Sua atenção estava inteiramente voltada apenas para Yujin. A imagem do corpo nu que vira dias antes ressurgiu com nitidez diante de seus olhos.

Ele, sem esforço algum, despiu Yujin diante de seus olhos. Ao imaginar o ômega completamente nu, sentado no sofá com naturalidade e fingindo desinteresse, sua parte inferior, que mal havia se acalmado, reagiu instantaneamente. Justo no momento em que o testamento do pai estava prestes a ser revelado, Winston, de maneira absurda, estava violentando com os olhos o antigo amante do próprio pai.

Ele cruzou lentamente as pernas, apoiou o cotovelo no braço do sofá e sustentou o queixo com uma das mãos. Por causa do penis inchado, a calça esticava perigosamente. Ainda assim, em sua mente, ele já havia jogado Yujin sobre a grande escrivaninha do escritório. Na imaginação, o corpo nu do outro estava plenamente à vista. Winston olhava para ele de cima, apenas puxando o zíper da calça. Não havia qualquer consideração ou respeito por Yujin.

‘Sim, você merece ser tratado assim. Afinal, já deve ter oferecido esse buraco barato a outros homens também. Esse corpo doce foi mordido e chupado por inúmeros homens. Seu buraco não deve ter tido um momento de descanso. Claro que não, quem seria capaz de rejeitar um corpo desses? A menos que fosse impotente.’

‘Vagabunda vulgar, prostituto, banheiro público, depósito de sêmen.’

Mesmo ouvindo tamanhas humilhações, Yujin ficaria encharcado lá embaixo. O aroma de seus feromônios também se tornava mais intenso. Era óbvio, afinal ele era uma vagabunda. Mesmo agora, Winston sentia sua mente turvar com o leve aroma de ômega que emanava dele. O motivo de ele estar tendo pensamentos tão absurdos também era culpa dos feromônios.

‘Então ele não tomou o medicamento e está liberando esse perfume para me seduzir. Assim como fez naquela noite, no meu quarto. Isso mesmo, é isso que você quer.’

A fantasia começou a se misturar com a realidade. Na imaginação, Yujin estava completamente nu, sentado no sofá. Winston segurou suas pernas e as ergueu. Com as mãos elevadas e agarradas ao encosto da cadeira, o corpo de Yujin deslizou, e as nádegas tocaram a virilha de Winston. Com uma mão, o homem segurou a parte de trás do joelho de Yujin, expondo o buraco, e puxou para fora o membro rígido tenso. Yujin, com o rosto tomado por uma mistura de excitação e medo, assistia ao pênis completamente inchado do alfa penetrar seu buraco. No instante em que Winston franziu a testa e conteve um gemido, teve a ilusão de ouvir o grito quase histérico do prazer de Yujin ecoar em seus ouvidos.

De repente, Yujin olhou para ele.

‘Talvez tenha reagido ao cheiro dos feromônios. Sim, claro que sim. Você é o meu ômega.’

‘— Winnie.’

Pareceu ouvir a voz de Yujin. A boca ficou seca, ardendo, e ele mal conseguia respirar. Merda, repetiu para si mesmo. Não importava quantas pessoas houvesse ao redor, nem o quão claro estivesse o mundo. Aos seus olhos, só existia Yujin.

‘Yujin.’

Os lábios dele se moveram. Sem emitir som algum, chamou seu amante.

‘Venha para cá.’

‘— Winnie.’

Yujin sorriu de forma inocente e abriu os braços. Agora ele viria correndo em sua direção. E, finalmente, Winston transformaria a imaginação em realidade. Abriria aquelas pernas longas e elegantes e, de uma só vez, afundaria o membro ardente…

— Isso não pode ser verdade! É mentira!

De repente, o grito angustiado de Yujin ecoou. No mesmo instante, Winston despertou como se levasse um choque e retornou bruscamente à realidade. Dentro do escritório, havia várias outras pessoas além dele. Yujin não estava nu, e Winston confirmou que ele vestia perfeitamente aquele terno barato. Em seguida, ao ver seu rosto congelado em choque no campo de visão, Winston franziu as sobrancelhas tarde demais.

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Continua…

Ler Beije o canalha. Yaoi Mangá Online

Interesse Romântico Seme / Gong: Winston Campbell (terceiro filho e caçula. Alfa dominante. Herdeiro do conglomerado familiar. 28 anos) Protagonista masculino. 198 cm/90 kg. Cabelo castanho-escuro. Olhos roxos. Homem de físico enorme e musculoso.
Há cinco anos, manteve um relacionamento amoroso com Seol Yujin, mas acabou se separando ao acreditar que ele havia cometido adultério com seu pai.
— Querido, ninguém neste mundo sabe melhor do que eu que tipo de vadia barata você é.
***
Personagem Principal Uke/Su: Seol Yujin (ômega. 28 anos) 178 cm/60 kg. Órfão. Corpo magro, de ossatura longa. Cabelo castanho-claro. Olhos castanhos. Pele branca. Teve uma filha, Angela, com Winston, mas é acusado de que a criança seria de outro homem.
— O que aquele homem faria se soubesse que Angela é filha dele?
***
— De quem é essa criança?
Eles foram um casal apaixonado cinco anos atrás, mas se separaram devido a um grave mal-entendido. Winston ainda acredita que Yujin manteve um caso com seu próprio pai. Após ser descartado de forma cruel, Yujin passou a viver acreditando que nunca mais voltaria a encontrá-lo e, enquanto lutava para sobreviver com a filha, acabou perdendo tudo quando um incêndio destruiu seu apartamento, deixando-os na rua.
Em meio ao desespero, ele descobre que Harold Campbell, pai de Winston, deixou um testamento em seu nome. Na esperança de conseguir ao menos alguma ajuda, Yujin decide retornar à mansão.
O reencontro com Winston é marcado por ódio ainda mais intenso. Enquanto Winston continua desprezando-o, Yujin deseja apenas receber rapidamente a herança e ir embora. Para sua surpresa, Harold lhe deixou uma herança muito maior do que o esperado. No entanto, há uma condição.
Ele deve se casar com Winston e engravidar dentro de um ano.
Yujin tentou recusar, mas a realidade não era tão simples. Como forma de vingança pelas humilhações constantes que sofre de Winston, ele acaba aceitando o casamento. O alfa, por sua vez, deixa claro que tudo não passa do cumprimento do testamento e que entre eles não resta absolutamente nada.
No entanto, contra suas expectativas, eles não conseguem controlar a atração constante que sentem um pelo outro. Ambos tentam ignorar isso, convencendo-se de que não passa de desejo carnal…
mas será mesmo?
Nome alternativo: Kiss The Scumbag

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