Ler A Espada de Deus – Capítulo 03 Online

Modo Claro

Outra vida. Uma escolha diferente.

Clop, clop.

Do conforto da sua carruagem, Irene observava a fortaleza da Aliança dos Reinos — o lugar onde purificadores e cavaleiros se reuniam para firmar contratos, um local que  achou que nunca voltaria a ver em sua vida.  

— E, ainda assim, aqui estou eu.

Irene sorriu com amargura.

— Isso não é um retorno.

Esta era, sem dúvida, sua primeira visita nesta vida. Sem entender ao certo o que havia acontecido desde que abrira os olhos novamente, Irene suplicou ao Conde, assim como no passado.  

“Me dê seis meses. Seis meses para formar um par e ganhar dinheiro.”

Como esperado, o Conde — exatamente como ela se lembrava — explodiu de raiva, mas concedeu relutantemente o que considerava sua primeira e última chance.

Depois disso, Irene se trancou em seu quarto por um dia inteiro, pensando.  

Dizem que sua vida passa diante de seus olhos antes da morte, mas isso não foi apenas um vislumbre. Durante todo o dia, ela esperou que o sonho terminasse, que a ilusão se quebrasse.

Assim como antes, as empregadas traziam suas refeições como se as jogassem no lixo, e o mordomo deixou uma bolsa a seus pés, ordenando que se preparasse para partir.  

  

Ao ver o escárnio e desprezo vívidos em seus rostos, Irene percebeu:

Aquilo não era uma ilusão. Havia realmente voltado ao passado.

— Como?

O motivo era incerto, mas ela tinha suas suspeitas.

— Seria por causa disso?

Irene tirou do bolso um pedaço de metal aparentemente quebrado, como se tivesse sido partido ao meio. Sem dúvida, era um item que ela havia obtido na “Sala de Recompensas” daquela masmorra, pouco antes de morrer. O mesmo lugar para onde fugiu desesperada depois de ser gravemente ferida por um demônio.

A “Sala de Recompensas” ficava no fim da masmorra, onde os demônios jamais podiam entrar. Ali, havia baús de origem desconhecida, repletos não só de ouro e tesouros, mas também de artefatos de outros mundos.

Antes de morrer, Irene abrira um baú de madeira apodrecido ao seu lado. O tipo de baú que, claramente, conteria as recompensas mais inúteis — quinquilharias, penas estranhas ou pedras esquisitas.

Então, quando aquele fragmento de metal meio quebrado apareceu, Irene o aceitou com resignação.

‘Eu morri segurando isso.’

E, no entanto, de volta ao passado, sua mão ainda o segurava.

Após encarar o fragmento, Irene o devolveu ao bolso. Em seguida, voltou sua atenção ao papel em seu colo. 

Ela havia escrito nele todas as informações do passado que conseguia lembrar. Desde o momento em que percebeu que realmente havia voltado, registrou obsessivamente tudo o que sua memória permitia — quantas masmorras surgiram nas zonas de perigo, quais tinham as melhores recompensas, onde estavam localizadas e que poderes continham…

‘Não consegui esquecer.’

Sempre sozinha, Irene se cansava de apenas ficar em seu quarto, então lia os arquivos, desde registros de masmorras recentes até os mais antigos.  

Embora as masmorras em si fossem interessantes, o que mais a fascinava eram os itens que delas saíam. Um colar que impedia qualquer dano de demônios ao ser usado. Uma pedra preciosa que brilhava quando deixada imóvel. Uma estátua que permanecia intacta mesmo em meio às chamas. Esses objetos, dotados de habilidades misteriosas, eram conhecidos como artefatos — representavam as recompensas mais valiosas que se podia obter.

Por exemplo, o colar usado pelo Rei do reino Heron tinha o poder de retardar o envelhecimento do usuário. Graças a ele, o monarca de 80 anos parecia ter pouco mais de trinta.

‘Algo tão extraordinário podia aparecer até em masmorras de nível baixo e virar tudo de cabeça para baixo.’

As pessoas lamentavam, dizendo que, se soubessem o que havia lá, teriam feito de tudo para obtê-lo.

E agora, Irene sabia quais masmorras guardavam o quê. E não eram apenas as recompensas que lembrava. Ela recordava vividamente quais espíritos habitavam cada masmorra, suas forças, fraquezas e até mesmo seus atributos.

‘Então, se tudo ainda acontecer conforme minha memória…’  

Mesmo que firmasse um contrato desfavorável, poderia obter resultados favoráveis para si.

As 100.000 moedas de ouro que precisava pagar ao Conde agora pareciam insignificantes.

Ela se lembrou do tapa que levou dele.

Naquela época, ele parecia impotente e intimidante, mas agora era diferente. Mesmo enquanto ele gritava para pagar “o valor de seu corpo”, não havia mais medo em seus olhos — apenas desprezo.

Não era só o Conde. As empregadas e o mordomo que a ridicularizavam na propriedade, agora lhe pareciam patéticos, não ameaçadores.  

‘Tudo parece tão ridículo depois de morrer uma vez.’

Nesse momento, o cocheiro gritou, interrompendo seus pensamentos.

— Ei! Estamos quase chegando à fortaleza! Prepare-se para descer!

No passado, até esse grito a faria se encolher de medo. Mas não agora.

Irene colocou calmamente o papel na bolsa que trouxera da propriedade e o deixou no assento ao lado. Depois de arrumar sua bagagem, levantou a cabeça.

‘Foi uma vida que falhou uma vez.’

E então, um milagre aconteceu, concedendo uma chance de recomeçar.

‘Por isso, não posso voltar a viver como a tola que fui.’

Depois de observar por uma semana, descobriu certos fatos. Os grandes eventos que lembrava do passado estavam se repetindo. Mas havia também mudanças. Por exemplo, quando exigiu comida decente do cozinheiro que, em sua vida anterior, só lhe dava pão velho, ele hesitou, mas acabou servindo uma sopa quente e pão fresco.

Antes, ela só recebia trapos como roupas, mas desta vez, usando o contrato como desculpa, conseguiu vestes decentes.

Era totalmente possível que suas escolhas levassem a desfechos diferentes.

‘Então…’

Ela refletiu enquanto observava a fortaleza se aproximar.

O primeiro erro que precisava corrigir nesta vida seria…

‘Não formarei um par com Michael.’

Irene ainda se lembrava claramente de como ele a olhou. O choque, a confusão e até a vergonha que invadiram seu rosto ao perceberem que haviam dormido juntos. 

Parecia uma reação natural. Apesar do desprezo evidente, Irene não guardava rancor. Mesmo que tivesse sido para salvar sua vida, as crenças dele foram completamente destruídas.

‘Se eu fosse uma purificadora mais forte, ele não teria acabado assim.’

Se a Princesa Cecília, considerada a purificadora mais poderosa do século, tivesse sido o par de Michael, poderia tê-lo curado apenas segurando sua mão. Talvez ele nem fosse excomungado do templo.  

Irene pensou em todas as escolhas erradas que fizera no passado e que machucaram a todos.

— Não posso repetir os mesmos erros.

Por isso, nesta vida, encontraria um par diferente. Não ele.

Ela tinha que fazer isso.

Na zona de perigo onde as masmorras apareciam, a fortaleza à sua frente era chamada assim apenas no nome — na realidade, assemelhava-se mais a uma enorme cidade.

‘Não é surpresa, considerando o dinheiro que ganham com as masmorras.’

Cada reino era obcecado em adquirir os tesouros das Salas de Recompensa. Por isso, ofereciam todo tipo de conforto e luxo aos cavaleiros e purificadores que os enfrentavam.

‘Não que isso importe para uma purificadora de baixo nível como eu.’

Irene ficou em um canto, observando os purificadores e cavaleiros trocando cumprimentos e procurando parceiros. 

  

Um “par” consistia em um purificador e um cavaleiro que firmavam contrato. Uma vez unidos, o purificador tratava unicamente aquele cavaleiro. E o cavaleiro, por sua vez, só recebia cura de seu parceiro.

Por algum motivo, a eficácia da cura aumentava significativamente quando restrita ao par. Claro, mesmo assim, não seria bem-visto ver pessoas solteiras dormindo juntas o tempo todo. Por isso, a Aliança dos Reinos rotulou tais relacionamentos de “pares”, e os reconhecia como casamentos temporários.

Era uma forma de salvar as aparências, mesmo que só mudasse os termos.

Diferente de sua vida passada, Irene observou o espaço glamoroso com calma, então desviou o olhar para os cavaleiros.

‘É estranho ver aqueles que já morreram, vivos novamente.’

Ela sorriu ironicao. Afinal, ela mesma era alguém que já havia morrido.

Irene tocou o fragmento de metal no bolso. Talvez, nesta vida, devesse descobrir o que aquilo realmente era.

Então, um cavaleiro chamou sua atenção. Ele ria e conversava despreocupado com seus companheiros.  

‘Apesar da aparência relaxada, ele era bastante habilidoso.’

Além disso, era um cavaleiro que não entrava em masmorras perigosas, extremamente preocupado com sua própria segurança. Por isso, foi um dos que sobreviveu até o fim.  

Ele havia se aproximado de Irene várias vezes no passado.

“Para ser honesto, estou meio arrependido. Se você fosse como eu, poderíamos ter desistido de explorar calabouços por um ano e apenas ter aproveitado a vida.”

Ele queria que Irene não tivesse sido a parceira de Michael, para poder tê-la escolhido.

‘Alguém que aceitaria até uma purificadora de baixo ranque, por sua mente aberta. Alguém com habilidade decente.’

Era isso que ela procurava agora. E o homem à sua frente se encaixava nesses critérios.

‘Honestamente… desde que não seja Michael.’

Irene se aproximou do cavaleiro. Em resposta, ele passou os olhos por seu corpo, lambendo os lábios.  

Ao invés de se sentir ofendida, Irene sentiu alívio.

Preferia um homem com desejos claros. Assim, poderia calcular o que dariam e tirariam um do outro, sem emoções envolvidas.  

— Quer fazer um contrato comigo?

— Você… obviamente é uma purificadora de ranque inferior, pelo que vejo.  

— Sim. Por isso estou disposta a abrir mão de muitas condições. Você pode ficar com todas as recompensas da masmorra. Só me dê uma recompensa de cada masmorra de nível baixo, uma vez por mês.

Os olhos do cavaleiro brilharam.

A proposta de Irene era realmente radical.

Normalmente, purificadores exigiam divisão igualitária nos contratos.  

Os cavaleiros odiavam, mas não tinham escolha. Sem um purificador, nem poderiam entrar nas masmorras, e se ofendessem seu parceiro, poderiam não ser curados adequadamente.  

E ali estava ela, apresentando condições boas demais para serem verdade.

‘Além disso, masmorras de nível baixo são fáceis, mesmo que as recompensas sejam lixo…’

De qualquer forma, sobre sua perspectiva, era vantajoso para ela.

— Sério? Isso é suficiente para você?

— Sim. Em troca, eu escolho as masmorras para minhas recompensas. Não há outras condições.

— Hum!

O cavaleiro a observou e fez cálculos rápidos em sua cabeça. Mesmo num canto, ela já havia chamado sua atenção. Estatura alta, corpo esguio, curvas bem posicionadas, rosto sereno que despertava desejo. Se não fosse tão mal ranqueada, seria bastante popular entre os cavaleiros.

— Certo. — Ele estendeu a mão. — Então gostaria de passar a noite com você, agora, e no futuro.

Irene engoliu um pequeno suspiro ao ver o desejo em seus olhos.

De repente, se lembrou de Michael, que nunca pedira nada. Um passado ainda mais miserável por causa disso. 

‘É melhor assim.’

Se ambos soubessem o que desejavam e o que ofereciam, pelo menos não sofreria com a culpa de arruinar alguém.

Quando Irene estava prestes a segurar a mão do cavaleiro—

Bang!

Com um estrondo, a porta do salão foi violentamente aberta.

Um homem entrou, coberto de sangue.

Os olhos de Irene se arregalaram, em choque.

A figura ensanguentada que adentrava o salão era…

Michael.

Continua…

Tradução Elisa Erzet 

Ler A Espada de Deus Yaoi Mangá Online

Esta noite, mais uma vez, ele ansiava pela purificação dela.  
Foi uma vida infeliz.
Apesar de possuir o poder de purificação, Irene era considerada rank inferior, nunca tendo recebido amor ou aceitação de alguém em seus poucos anos de vida. Até mesmo em seus momentos finais, ela morreu sozinha e solitária —mas, estranhamente, ela se viu de volta ao passado.
E não era um momento qualquer, mas logo antes de conhecer seu marido, Michael, o homem que ela arruinara.
‘Este é o primeiro erro que devo corrigir nesta vida. Ou seja… não devo me envolver com Michael.’
No entanto, Michael parece estranho.
— Eu… eu preciso de você. Por favor, me purifique.
Ele pediu pela purificação primeiro.
‘Um paladino — este homem sagrado —vem até mim todas as noites.’ 
— Irene. Minha esposa. Minha bela e adorável Irene. Esta noite, quero ser purificado por você.  Bem devagar e por muito tempo
‘Você com certeza era um paladino na minha vida passada, alguém que não ousava sequer me tocar, certo?’

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