Ler Beije o Estranho (Novel) – Capítulo 57 Online

⚝ Capítulo 57
— Não, Yohan! O que você está fazendo aí?!
Assim que abriu os olhos pela manhã, o doutor me encontrou e gritou, puxando o próprio cabelo num fôlego profundo e assustado. Mas eu estava prestes a sufocar, então, em vez de responder, me concentrei em tentar respirar. O doutor, vendo o meu estado, correu em minha direção e segurou cuidadosamente os ombros de Camar, que estava deitado pesadamente em cima de mim, e o levantou com esforço. O pequeno espaço que ele abriu me deu a chance de finalmente puxar ar para os pulmões; eu mal consegui mover o corpo dormente e me arrastei para fora debaixo dele.
— Cof… cof…
Uma tosse áspera irrompeu com a entrada repentina de oxigênio. Eu despenquei pela beirada da cama como se estivesse nadando, escapando por um triz, e caí sem forças no chão acarpetado.
— Yohan!
O doutor correu apressado e me examinou. Em vez de dizer que eu estava bem, apenas levantei a mão, mas não consegui evitar que meu corpo inteiro tremesse a cada tosse. A cada respiração, eu estremecia da cabeça aos pés. Eu não sabia por quantas horas havia ficado esmagado sob Camar, mas a sensação repentina do sangue voltando a circular pelos meus membros e a onda de oxigênio me deixaram tonto.
O doutor, que me observava com preocupação por um momento, se virou, foi até a janela, abriu-a de par em par e respirou fundo o ar da manhã. Através da minha visão ainda embaçada, vi ele esfregar o rosto e os ombros algumas vezes antes de se virar abruptamente e caminhar de volta para mim.
Depois de finalmente recuperar o fôlego, o doutor, que estava esperando, abriu a boca.
— O que aconteceu? Por que vocês estavam daquele jeito?
Respondi com dificuldade à voz impaciente:
— Ele… ele pareceu recobrar a consciência por um momento durante a madrugada e… de repente…
Enquanto falava, algo me veio à mente de supetão e eu travei. Steward ergueu uma sobrancelha e me perguntou se eu havia notado algo estranho.
— O que foi? Há algum jeito de contornar isso?
— Ah… não… Não foi isso…
Pude sentir o calor subir violentamente pelo meu rosto. A expressão de Steward escureceu e ele estreitou os olhos, desconfiado. Fiquei terrivelmente envergonhado e, sem saber onde focar o olhar, evitei o contato visual. Só agora meu coração começava a bater acelerado. Parecia que meus lábios estavam pegando fogo. O interior da minha boca, que a língua ardente de Camar havia invadido com tanta fome, ainda estava úmido com a saliva dele. Quando senti uma pontada de dor no pescoço, Steward de repente arregalou os olhos.
— Yohan… tem cheiro de feromônios.
— O-o quê?!
Confuso, enterrei o nariz no meu próprio braço. Além do perfume denso e doce de Camar impregnado na minha pele, o doutor podia sentir o cheiro dos meus próprios feromônios Ômega vazando. Arregalando os olhos de surpresa, Steward disse atônito:
— Você não tomou o seu remédio?! Eu vi você tomar os inibidores!
— Sim, eu tomei! — me defendi, em pânico. — Mas como…?
Vendo que eu não sabia o que fazer, Steward se levantou às pressas. Ele foi direto até o carrinho médico, tirou outro frasco de inibidores da gaveta, pegou uma pílula e me entregou.
Coloquei rapidamente a pílula na boca, e Steward me entregou um copo d’água. Foi só depois de eu ter engolido o comprimido completamente que o doutor suspirou e bagunçou o cabelo em alívio e frustração.
— …Talvez tenha sido por causa do cheiro intenso dos feromônios do Príncipe. O seu corpo foi estimulado pelo rut dele e o efeito do seu inibidor foi quebrado precocemente. Mas o que diabos aconteceu à noite para o quarto estar tão empesteado de feromônios?
Ele exigiu, me olhando fixamente:
— Por favor, me conte tudo em detalhes.
Engoli a seco e abri a boca para responder à voz dele, que havia se acalmado para um suspiro.
— Eu estava apenas observando ele… Camar pareceu acordar ofegante de repente e… então ele me puxou e eu caí na cama.
— E?
— Depois disso… ele começou a me cheirar por toda parte como se procurasse meu cheiro… e perdeu a consciência de novo ali mesmo em cima de mim. Depois disso, ficamos do jeito que o senhor nos encontrou.
Steward olhou para mim por um longo momento sem dizer uma palavra. Por trás daquela expressão complicada, todo tipo de dúvida parecia estar se formando.
— É só isso mesmo?… Não, espere, você ficou preso embaixo dele a noite toda?! Por que não me acordou?! Eu devia ter imaginado quando vi que o seu rosto estava azul de falta de ar. Por que as pessoas são tão teimosas? Se eu não tivesse acordado na hora certa…
Sem vontade de brigar mais, ele respirou fundo, tentando se acalmar.
— De que adianta eu falar agora? Tudo bem, vamos deixar isso para lá.
Sentindo-me um pouco envergonhado e culpado, apenas abaixei a cabeça. Steward foi até a cama sem dizer mais nada, desta vez para verificar o estado de Camar. Enquanto eu aguardava ansiosamente pelo diagnóstico dele, o doutor, que parecia estar examinando tudo com atenção por um tempo, virou-se para mim com o cenho franzido.
Meu coração afundou por um instante, e ele disse num tom grave:
— …Ele está dormindo. E não é um coma inconsciente.
— O quê?
Surpreso, me aproximei cautelosamente. Ele olhou de volta para Camar, endireitou as costas e assentiu, confirmando.
— Sim. Ele caiu no sono. Um sono profundo e natural.
Eu não sabia como reagir, então apenas fiquei olhando para o príncipe de forma inexpressiva. Steward também coçou a cabeça, claramente constrangido, e continuou:
— Não… a pessoa que não conseguia dormir nem trinta minutos mesmo sendo dopada com todos os remédios do mundo… Ele era tão sensível à insônia que até o menor som do vento fazia os olhos dele abrirem instantaneamente. E eu não consegui acordá-lo mesmo levantando ele de cima de você assim.
Ele suspirou novamente e olhou para Camar com uma exclamação que soava como um alívio incrédulo.
Eu também olhei para Camar, perplexo. Como Steward havia notado, o estado dele era incomparável ao momento em que havia perdido a consciência e cuspido sangue no dia anterior; sua pele tinha uma cor saudável e a sua respiração estava serena. Ele, sem dúvida, estava dormindo profundamente. Encarei aquele rosto com um misto de vergonha pela noite passada e uma sensação de profunda sorte por ele estar bem.
Mas aquele momento de alívio não durou muito. De repente, vi Camar franzir a testa. Steward também notou o movimento, e meu corpo inteiro enrijeceu.
— …Ugh.
Ele abriu os olhos lentamente, soltando um gemido baixo. A minha imagem se refletiu naqueles olhos que se abriam devagar, mas não estava claro se eles estavam me reconhecendo. Eu só consegui focar naqueles olhos roxos e escuros que piscavam sob as pálpebras, fechando e abrindo como se tentassem focar a visão.
Camar abriu a boca para falar. Meu coração começou a bater como louco no peito.
“Por favor, diga: Yohan.”
— …O que aconteceu?
Ah.
Eu, que estava tremendo de pura expectativa e esperança, murchava meus ombros imediatamente. O meu Camar desapareceu naquele instante, e o gélido Príncipe Herdeiro Asgyle estava me encarando. Com aqueles mesmos olhos frios e calculistas.
Steward falou com ele primeiro enquanto se levantava devagar.
— Vossa Alteza bebeu vinho no serviço de oração e sofreu um colapso repentino. O senhor ficou inconsciente por quase 24 horas.
Enquanto falava, ele imediatamente se corrigiu.
— Na verdade, Vossa Alteza ficou inconsciente no começo, mas depois dormiu profundamente por várias horas. Como está se sentindo fisicamente?
A pausa de Asgyle foi claramente visível. Ele perguntou com uma voz num tom mais alto do que o normal, chocado.
— Eu dormi? Eu?
Eu me encolhi involuntariamente ao ouvir o tom incisivo do Príncipe Herdeiro naquela manhã, mas Steward assentiu sem nenhuma agitação.
— Sim. A um nível tão profundo que não acordou mesmo quando Yohan e eu estávamos conversando em voz alta bem ao seu lado.
— …
— Eu também não consigo acreditar — confessou o doutor. — Nunca vi Vossa Alteza dormir de forma tão profunda e contínua, nem mesmo com o uso de todos os tipos de sedativos que testamos. E, ah, isso foi totalmente diferente do seu desmaio por envenenamento de ontem. Vossa Alteza realmente teve uma ótima noite de sono.
Ainda assim, o rosto de Asgyle estava cheio de pura descrença. No entanto, vendo que ele não conseguia refutar Steward e chamá-lo de mentiroso, pareceu considerar que talvez fosse verdade. Steward notou o conflito e perguntou novamente:
— Como está a sua dor de cabeça? Como está o seu corpo? Terei que fazer alguns exames de sangue imediatamente, mas, por enquanto, presumo que o senhor esteja se sentindo bem melhor do que antes, certo?
Asgyle não respondeu de imediato e, após um momento de silêncio denso, ele finalmente abriu a boca.
— …Você realmente está me dizendo que não me injetou nenhum tipo de droga nova?
— Não usei nada de novo, Majestade. Digo isso sob juramento médico.
Steward olhou para mim rapidamente como testemunha. Eu também balancei a cabeça discretamente para confirmar que não tínhamos feito nada. Asgyle olhou em silêncio para o próprio braço, onde havia as marcas de agulha do soro de ontem, e logo mudou de assunto.
— Muito bem, então. Os exames deverão ser feitos no período da tarde. Por favor, diga a Muhammad para entrar primeiro. Preciso revisar minha agenda para hoje.
Tendo ordenado que chamassem seu secretário, ele imediatamente se sentou e tirou as pernas da cama. Ao me lembrar de como ele, há menos de um dia, havia caído no chão cuspindo sangue e agora estava voltando à vida bem na minha frente como se nada tivesse acontecido, estendi a mão na direção dele sem perceber.
Mas Asgyle olhou para mim com um olhar tão cortante e aterrorizante que o sangue congelou nas minhas veias. Num instante, a ameaça que ele havia me feito na biblioteca passou pela minha mente como um relâmpago:
“Se você tentar tocar no meu corpo de novo, então…”
Em pânico, recolhi minhas mãos rapidamente e abaixei a cabeça, curvando-me. A memória da humilhação daquele dia voltou com força, e meu corpo inteiro tremeu. Mas a coisa mais dolorosa era o olhar frio e sem vida dele ao olhar para mim. Olhos que não continham absolutamente nenhuma emoção, eram simplesmente… indiferentes.
De repente, meus olhos começaram a arder e as lágrimas que eu estive segurando durante tantas horas começaram a se acumular. Eu não sabia se estava feliz por estar com a cabeça abaixada para esconder meu rosto ou se isso só piorava tudo.
Pude esconder as lágrimas dos olhos dele, mas, em compensação, ficou ainda mais difícil segurá-las. Enquanto a primeira lágrima pesada caía no tapete do chão, os passos de Asgyle, que estava prestes a passar por mim, pararam abruptamente.
— …Vossa Majestade! — o doutor Steward gritou, alarmado.
Mas Asgyle, de repente, estendeu a própria mão. Ele franziu a testa, dobrou os dedos sob o meu queixo e, com um movimento leve, mas firme, ergueu o meu rosto à força.
Entrei em pânico e arregalei os olhos. Asgyle abriu a boca enquanto encarava o meu rosto molhado em silêncio por um momento.
— …Por que você está chorando?
Pisquei atônito pela vergonha, e as lágrimas que haviam se acumulado rolaram soltas por minhas bochechas. As rugas marcadas na testa de Asgyle se aprofundaram ainda mais. Ficou claro que ele estava ofendido por alguma coisa. E se eu respondesse errado? Eu estava bem com as punições, mas e o doutor?
Enquanto eu engolia em seco, sem saber o que dizer, Asgyle, que estava examinando as marcas no meu pescoço, voltou o olhar irritado para o meu rosto.
Eu mal consegui abrir a boca e gaguejei um pedido de desculpas:
— S-sinto muito… Sinto muito… Eu só fiquei aliviado que…
— Yohan cuidou de Vossa Majestade a noite toda em claro, senhor — Steward interveio suavemente, como se já esperasse por aquela tensão.
No entanto, Asgyle manteve seu olhar fixo em mim, nem sequer se virando na direção do doutor. Definitivamente havia algo me perturbando, mas eu não conseguia descobrir o que era que estava incomodando tanto a ele. Enquanto meu peito se apertava de medo, Steward perguntou de repente, em tom de brincadeira:
— Senhor, por favor, recompense Yohan pelo cuidado sincero que ele teve com Vossa Majestade noite passada.
O olhar de Asgyle finalmente se desviou para Steward. Mas, sem demonstrar nenhum alívio e carregando o mesmo olhar cortante, ele voltou os olhos para mim.
— …?
Inesperadamente, as rugas afiadas marcadas em sua testa desapareceram.
Asgyle perguntou, olhando para mim em silêncio, como se estivesse pensando profundamente sobre algo:
— O que você quer?
Por um momento, olhei para ele de volta, sem entender do que ele estava falando. Asgyle perguntou de novo com uma voz calma:
— Como gostaria que eu o recompensasse por isso?
Desta vez, embora eu tivesse entendido claramente o que ele estava dizendo, minha mente ficou em branco pela incredulidade. Eu o encarei com os olhos arregalados, e Steward brincou de novo, sugerindo:
— Que tal aceitá-lo como sua esposa?
— D-doutor, o que o senhor está falando?! — me virei para ele em completo choque.
Graças à interrupção absurda, a mão de Asgyle largou o meu queixo e caiu para o lado. Percebendo a ausência do toque com atraso, olhei para Asgyle novamente. Ele estava olhando para a própria mão, a mesma mão que havia me tocado. Seria porque ele havia acabado de recobrar a consciência? Asgyle parecia um pouco atordoado.
Olhei para ele com uma expressão perplexa, e ele, de repente, abriu um sorriso divertido.
Enquanto eu ficava cada vez mais constrangido e confuso com aquela risada presunçosa, Asgyle falou lentamente:
— Se você fosse uma mulher, eu até pensaria em colocá-lo na posição da minha quarta esposa. Mas que pena.
Eu não sabia como reagir àquilo. Meu coração doeu, como se Asgyle o tivesse agarrado e esmagado cruelmente com a mão nua, mas, por outro lado, achei a rejeição tão natural da parte dele que a minha cabeça finalmente esfriou e o encanto se quebrou.
A disparidade daquela resposta absurda me fez questionar a realidade dele. Olhei em seus olhos e perguntei com firmeza:
— …Por que apenas a quarta?
O sorriso cínico desapareceu do rosto de Asgyle instantaneamente, e um silêncio pesado e perigoso caiu sobre o quarto.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna
Ler Beije o Estranho (Novel) Yaoi Mangá Online
Sinopse:
Em um país do Oriente Médio onde a discriminação contra ômegas é profundamente enraizada, Yohan, um ômega abandonado após a manifestação de seu gênero secundário, vive sozinho em um oásis com apenas um gato como companhia. Um dia, ele resgata um homem ferido que perdeu completamente a memória do seu passado. Conforme passam o tempo juntos, Yohan se apaixona por ele… mas, um dia, o homem desaparece subitamente, sem deixar rastros.
Depois de esperar por ele em vão por muito tempo, Yohan encontra inesperadamente o príncipe herdeiro, um homem exatamente igual àquele que um dia amou. No entanto, o príncipe não o reconhece de forma alguma…
Nome alternativo: Kiss The Stranger Beije O Estranho