Ler Deflower Me If You Can (Novel) – Capítulo 127 Online


Modo Claro

. Capítulo 127

Um silêncio gélido e sepulcral rastejou pelo ambiente. Com as feições completamente desprovidas de cor, os funcionários trocavam olhares desorientados, sem que nenhum deles ousasse sequer respirar direito, muito menos tomar a iniciativa de falar.
— C-Conde…
— Veja bem, a nossa intenção não era, sabe…
Alguém finalmente balbuciou algo, mas aquela tentativa de justificativa passou longe de ser o que Cassian exigia. Bem naquele instante catastrófico, Penelope, que havia saído para procurar Bliss, retornou ao corredor e correu na direção do grupo ao notar a aglomeração.
— O que vocês estão fazendo aqui reunidos…?
— Falem de uma vez! — Cassian esgoelou-se.
No segundo em que o habitualmente elegante e imperturbável Conde Heringer explodiu em fúria, liberando aquele rugido colérico, todos os presentes encolheram-se, completamente aterrorizados e paralisados. E, como se a própria natureza resolvesse manifestar a magnitude daquela indignação, um clarão violento rasgou o céu do lado de fora da vidraça, seguido pelo estrondo ensurdecedor de um trovão e pelo desabar abrupto de uma tempestade torrencial.

* * *

“Inferno! Malditos sejam!”
Praguejando entre os dentes, Cassian afundou o pé contra o acelerador sem a menor hesitação. O santuário onde haviam isolado Bliss permanecia completamente abandonado durante a maior parte do tempo, recebendo alguma movimentação apenas uma vez por mês, quando um clérigo visitava a propriedade. Saber que os criados haviam se valido justamente daquele isolamento para trancafiar o garoto despertou nele uma indignação tão profunda que fazia seus dentes rangerem.
“Eu vou acabar com cada um de vocês.”
Se dependesse estritamente de sua vontade, ele faria questão de fazê-los pagar caro por aquela audácia ali mesmo, mas a integridade e o bem-estar de Bliss eram sua prioridade absoluta. Enquanto manobrava o veículo veloz pelas estradas internas da propriedade em direção à capela isolada, seu peito ardia em uma aflição tão severa que o fazia fechar e abrir os olhos repetidas vezes. O trajeto a pé até o castelo demandava cerca de trinta minutos; Bliss não possuía a menor familiaridade com os caminhos daquela região e, sob um temporal daquela magnitude e a escuridão que já havia se consolidado, o garoto jamais reuniria o discernimento necessário para tentar retornar sozinho.
“O quão aterrorizado ele deve estar agora?”
Para piorar o cenário, a temperatura havia despencado drasticamente nas últimas horas, a ponto de fazer o próprio Cassian experimentar um leve calafrio sob suas vestes. Como a capela estava em desuso, o sistema de calefação do local com certeza encontrava-se desligado. Movido pela urgência, ele acionou o painel e ligou para Penelope.
— Eleve a calefação de todo o castelo ao nível máximo imediatamente. Deixe bolsas de água quente preparadas sobre a cama; o Bliss pode acabar desenvolvendo um resfriado severo…
— Sim, Conde. Vou providenciar um chá quente e uma refeição leve para quando retornarem. Também já deixei uma pilha de toalhas de prontidão. O senhor já está próximo do local? — Penelope questionou, adiantando-se às coordenadas.
No exato instante em que ela verbalizou a pergunta, um relâmpago cortou a escuridão, iluminando a silhueta da cruz no topo do santuário a poucos metros de distância.
— Sim, acabei de chegar.
Sem estender o diálogo, Cassian encerrou a chamada. O carro esportivo derrapou levemente ao fazer a curva final e estancou com precisão cirúrgica bem diante da entrada da capela.
— Bliss!
Exibindo uma fisionomia transtornada pelo pânico, ele praticamente saltou para fora do veículo em movimento, mas paralisou por uma fração de segundo ao alcançar a entrada principal. Cruzada bem abaixo da maçaneta, encontrava-se a haste de uma pá de metal. Aquilo funcionava como uma tranca improvisada, impedindo terminantemente que qualquer pessoa abrisse a porta pelo lado de dentro. Mentalizar a cena de Bliss chorando desesperado enquanto esmurrava aquela madeira fez o sangue de Cassian ferver instantaneamente.
— Vermes desgraçados… Eu vou matar todos vocês.
Soltando um xingamento ríspido, ele agarrou a ferramenta com violência, arremessou-a para longe e puxou a maçaneta de uma vez, escancarando o acesso.
— Bliss!
Bradando o nome do garoto em tom de urgência, ele invadiu o recinto e passou a correr os olhos freneticamente por toda a extensão do santuário. Onde ele estava? Em qual canto? Será que o pânico o havia feito procurar algum esconderijo?
Imaginar Bliss encolhido em alguma fresta, debulhado em lágrimas e trêmulo de pavor, era o suficiente para levá-lo à loucura. Controlando o impulso de chutar e despedaçar qualquer mobília que cruzasse seu caminho, ele avançou capela adentro com passos largos.
— Bliss, sou eu! Está tudo bem agora, pode aparecer! Bliss!
Enquanto vasculhava cada fileira de bancos e gritava de forma obstinada, sua mente era bombardeada pelas suposições mais catastróficas. Será que ele havia desmaiado devido ao estresse? Por qual razão não emitia um único som? Seria por ressentimento contra ele? “Não importa, Bliss. Você pode me bater, pode me xingar se quiser. Eu aceito qualquer punição, apenas me dê um sinal de que está bem. Por favor, que nada tenha acontecido a você…”
“O que exatamente eu estive fazendo todo esse tempo?”
Em meio àquele cenário que roçava o desespero absoluto, uma voz de autocensura ecoou subitamente em sua consciência, apontando-lhe o dedo. “O que você fez até agora? A culpa por esses funcionários terem cruzado essa linha não é inteiramente sua? Tudo isso aconteceu porque você se recusou a definir de forma clara a sua postura em relação ao Bliss.”
Incapaz de estruturar qualquer argumento de defesa contra aquela constatação, Cassian cobriu o rosto com uma das mãos, deslizando os dedos pelas feições de forma agoniada. Enquanto examinava cada canto remanescente da capela com o semblante contraído de ansiedade, o tribunal de sua própria mente continuava a bombardeá-lo sem trégua: “Se você tivesse assumido os seus sentimentos por ele desde o primeiro instante, nenhum desses insolentes teria ousado erguer a mão contra alguém precioso para o senhor do castelo. Eles o trataram com tamanho desdém unicamente porque viram você fazer o mesmo.”
“Mas o que eu poderia fazer? Ele é doze anos mais novo do que eu… Como eu poderia ter a audácia de…”
“Até quando você vai continuar se esquivando com essas desculpas esfarrapadas, Cassian Strickland?!”
A voz interna ecoou com a força de um trovão em sua mente.
“Deixe o orgulho de lado e encare a realidade de uma vez. Pare de infligir sofrimento ao Bliss e confesse logo o que o seu coração sente!”
Foi precisamente naquele milésimo de segundo. Estagnado no mesmo lugar como se tivesse sido atingido por um raio, um gemido baixo e abafado chegou aos ouvidos de Cassian, quebrando a linearidade do temporal.
— Uuumn…
— Bliss?
Tomado pelo sobressalto, ele girou o corpo de forma abrupta na direção do som. Contudo, o ambiente retornou à sua calmaria habitual, restando apenas o ruído constante da tempestade que fustigava o telhado.
“Com certeza veio desta direção…”
Cassian avançou passo a passo com extrema cautela, aproximando-se do altar principal. Aquele era o único quadrante que restava inspecionar. “Por favor, esteja aí, Bliss. Eu imploro…”
Nutrindo uma súplica genuína e fervorosa como há muito tempo não experimentava, ele repetiu o mesmo apelo mentalmente até que, ao inclinar o corpo para verificar o vão sob a estrutura do altar, soltou um longo e profundo suspiro de puro alívio, como se finalmente recuperasse o fôlego que havia prendido.
Acomodado bem ali, com o corpo encolhido de forma confortável, Bliss dormia o mais profundo e sereno dos sonos.
— Bliss…
Praticamente desabando de joelhos diante do garoto, Cassian estendeu a mão com lentidão. Por alguma razão, as pontas de seus dedos oscilaram de forma sutil antes de roçarem suavemente na bochecha alheia por duas vezes.
— Uuung… — Bliss murmurou, contraindo levemente as sobrancelhas enquanto erguia a mão para coçar o local, entregando-se ao sono profundo logo em seguida.
Contemplar aquela fisionomia totalmente alheia ao Caos ao redor desarmou toda a tensão acumulada no corpo de Cassian, arrancando-lhe uma risada genuína e contida. Foi somente ao amparar o rosto do garoto entre as palmas das mãos que a realidade finalmente se estabeleceu em seu peito.
“Que bom…”
Um suspiro trêmulo e prolongado escapou por seus lábios. Estava tudo bem; Bliss encontrava-se são e salvo. A sensação de alívio foi tão avassaladora que ele sentiu os músculos do corpo perderem as forças por um instante. Movendo-se com o máximo de cautela para não quebrar o repouso alheio, ele acolheu o garoto nos braços, trazendo-o contra o peito. Ao sentir o calor acolhedor daquela temperatura corporal, Cassian experimentou a nítida sensação de que, finalmente, cada engrenagem de seu mundo retornava ao devido lugar.
“Aceite a realidade de uma vez.”
O sussurro repetiu-se em seu íntimo mais uma vez. E, de forma inédita, ele optou por não oferecer nenhuma resistência àquela voz.

* * *

— …Portanto, o novo… o prazo… o máximo possível…
Fragmentos de uma conversa ecoavam de forma intermitente pelas redondezas. Bliss demandou alguns segundos adicionais de processamento mental para associar aquela tonalidade de voz à figura de Penelope. Ele manteve as pálpebras cerradas, limitando-se a monitorar o diálogo em silêncio. Suas orelhas ergueram-se sutilmente em sinal de alerta, um movimento tão discreto que passou totalmente despercebido pelos demais ocupantes do cômodo. Logo em seguida, a voz firme de Cassian preencheu o espaço:
— Não me importo com o tempo que isso venha a demandar, Penelope, mas faça questão de recrutar funcionários que sejam de extrema confiança e devidamente qualificados. Afinal de contas, você também compartilha de uma parcela de responsabilidade pela conduta inadmissível que o atual corpo de funcionários demonstrou.
— Sem sombra de dúvidas, Conde. Aceitarei qualquer que seja a sua determinação a meu respeito de bom grado.
“Hum? Responsabilidade? Por qual motivo?”
Bliss uniu as sobrancelhas de leve sob as pálpebras fechadas, concentrando toda a sua atenção na conversa. Penelope deu sequência ao diálogo utilizando uma entonação séria e rigorosa, algo que ele jamais a vira adotar até então:
— Independentemente de eles alegarem total desconhecimento sobre o real status do jovem Bliss, arquitetar uma armadilha dessa natureza é uma atitude que ultrapassa qualquer limite aceitável. O fato de eu não ter sido capaz de prever e interceptar essa conduta previamente configura uma falha monumental de minha parte. Estou plenamente ciente das consequências. Por favor, aplique a punição que julgar adequada.
“Hein? Sobre o que exatamente eles estão falando?”
Bliss continuava completamente alheio ao contexto daquela situação. O teor daquela conversa parecia grego para ele.
Abrindo as pálpebras de forma milimétrica para sondar o terreno, o vislumbre de um teto bastante familiar começou a ganhar contornos em seu campo de visão. Após repassar os últimos acontecimentos na memória por alguns breves instantes enquanto permanecia estendido, a ficha finalmente caiu: era o quarto de Cassian!
E se aquele era o quarto de Cassian, significava que ele estava deitado diretamente na cama do próprio Conde. Como diabos ele havia parado ali?
Mantendo os olhos fechados para sustentar o disfarce, ele buscou resgatar o fio da meada em suas lembranças. Ele recordava-se do momento em que Dorothy havia surgido em seus aposentos, alegando que ele precisava realizar uma limpeza no santuário da propriedade.
“Mesmo que o jovem Blair seja um parente distante da governanta Penelope, as obrigações da casa ainda precisam ser cumpridas, não acha?”
A sutil conotação de censura presente na fala da mulher havia despertado em Bliss uma pontada de remorso na ocasião. Pensando bem, desde que havia assumido aquela função disfarçada de criado, ele praticamente não havia movido um único dedo para justificar o emprego. Sob a perspectiva da criadagem regular, aquela disparidade de tratamento de fato poderia soar injusta e gerar ressentimentos.
“Sim, compreendo. Então eu preciso apenas higienizar o santuário, correto?”
“Exatamente, apenas aquela área.”
Logo em seguida, outro funcionário havia se encarregado de transportá-lo de carro até as dependências da capela. Embora fosse um pavilhão de proporções modestas, a estrutura ainda ostentava capacidade para acomodar cerca de vinte pessoas sentidas, o que significava que não era um espaço exatamente pequeno…
“Acredito que duas horas sejam mais do que suficientes, não? Retornarei para buscá-lo assim que o prazo expirar.”
Com essa promessa, o funcionário havia se retirado do local sem olhar para trás. E Bliss fora deixado completamente sozinho no interior do santuário, munido apenas de alguns utensílios de limpeza.
Naturalmente, o plano daquele grupo jamais envolveu retornar para buscá-lo após o término das duas horas. Sabendo de antemão através das previsões meteorológicas que uma tempestade severa desabaria durante a noite, a real intenção dos criados era deixá-lo isolado no santuário escuro até o amanhecer para que ele recebesse uma lição inesquecível. O plano meticuloso consistia em aguardar o raiar do sol para então recolher um Bliss completamente exausto e debulhado em lágrimas após passar a noite em claro pelo pavor. Contudo, por uma ironia do destino, existia um detalhe crucial que aquele grupo ignorava por completo:
Eles não faziam a menor ideia de que o alvo daquela armadilha era ninguém menos que Bliss Miller.

 

 

• Continua…

• Raws, Revisão & Tradução: Othello&Belladonna

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Sinopse:
Bliss Miller, o filho mais novo da família Miller e um ômega dominante, apaixona-se à primeira vista por Cassian Strickland quando ainda era criança. Chega até a pedi-lo em casamento com a inocência da sua idade.
Cassian, herdeiro da poderosa família Strickland, não leva a sério essa promessa e eles se separam após um ano. No entanto, Bliss nunca esquece o que aconteceu.
Anos depois, ao ver por acaso o rosto de Cassian no noticiário, lembra-se de tudo o que aconteceu entre eles. A promessa, a traição e a humilhação que sofreu. Decidido a se vingar, Bliss toma uma decisão extrema: infiltrar-se na casa de Cassian como empregado para fazer com que aquele homem arrogante acabe de joelhos pedindo perdão.
Mas o reencontro entre ambos não será tão simples como ele imaginava.

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