Ler Lamba-me se puder – Capítulo 241 – Extra 15 Online


Modo Claro

Dia do Casamento (continuação)

 

De repente, o silêncio tomou conta do ambiente. Diante daquela quietude sufocante, Koy chegou a se arrepender por um instante. Mas logo mudou de ideia.

Preciso falar disso agora.

Talvez nunca mais tivesse outra oportunidade. Ele queria parar de ficar  se encolhendo e de se sentir intimidado toda vez que a encontrasse. Ela continuava exatamente igual a antes, mas era só Koy quem permanecia acuado, inseguro e magoado — e isso parecia injusto. Já estava na hora de conseguir encará-la sem medo.

Pensando assim, Koy reprimiu com todas as forças a vontade de simplesmente se levantar e fugir dali. Seu coração batia enlouquecidamente, porque ele não fazia ideia do que Bernice responderia. Mesmo assim, estava decidido a finalmente encerrar aquela questão entre eles. Ele abriu e fechou as mãos suadas algumas vezes antes que, por fim, Bernice falasse:

— Em algum momento.

A voz baixa fez Koy prender até a respiração enquanto escutava atentamente. Seu coração batia tão forte que ele chegou a pensar que talvez não conseguisse ouvir a voz dela por cima do próprio nervosismo. Claro, isso não aconteceu.

—Eu imaginei que um dia chegaria o momento de falar sobre aquilo. E, quando esse dia viesse, pretendia conversar com você… Acho que a oportunidade finalmente apareceu.

Sem perceber, Koy tensionou os ombros.

O que será que ela vai dizer…?

Lentamente, Bernice abriu os lábios. Então, as palavras finalmente vieram:

—Eu estava errada. Me desculpe.

—…Hã?

Com a reação inesperada, Koy piscou os olhos, atordoado. Ela vai se desculpar tão facilmente? Como se não fosse nada?

Ao mesmo tempo em que sentia um estranho vazio, Koy também ficou sem reação. Ele tinha carregado aquelas palavras como uma ferida durante todo esse tempo. E, no entanto, para ela, parecia algo tão pequeno. Mas, ainda assim, Koy não sabia mais o que responder. Ela pediu desculpas. O que mais ele poderia dizer? Que aquilo não foi um pedido de desculpas? Que ela deveria implorar por perdão com mais sinceridade?

Qualquer coisa que dissesse agora pareceria apenas birra, e isso o deixou ainda mais frustrado. Sentindo o nariz arder, Koy puxou o ar apressadamente, mas Bernice voltou a falar antes que ele dissesse qualquer coisa.

—Eu disse coisas cruéis. E sei que ultrapassei os limites.

O tom dela continuava tão profissional quanto sempre. Isso só deixou Koy ainda mais confuso.

Ela realmente está arrependida? Então por que isso ainda parece tão estranho…?

Sem perceber, ele acabou franzindo a testa. Depois de um breve silêncio, Bernice continuou:

—Eu nunca me casei. Tenho um gato e um cachorro. Eles são a minha única família.

A declaração repentina fez Koy arregalar os olhos.

O que isso tem a ver…?

A expressão dele provavelmente deixou seus pensamentos óbvios, porque Bernice continuou sem esboçar sequer um sorriso.

—Não é que eu nunca tenha tido alguém. Claro, não legalmente… mas… sim. Eu acreditava que era um casamento.

Ela enfatizou as últimas palavras de propósito.

Mesmo sem entender direito, Koy permaneceu em silêncio. Teve a sensação de que devia haver uma razão para ela começar a contar essa história.  Ao perceber que ele continuava ouvindo sem interromper, Bernice prosseguiu:

—Eu me apaixonei aos quinze anos. Éramos colegas de escola. E eu realmente achei que jamais voltaria a amar alguém daquela forma tão intensa e desesperada pelo resto da vida.

Ela fez uma pequena pausa antes de continuar:

—E eu não estava errada. Nunca mais amei ninguém daquele jeito.

Era praticamente a mesma idade que Koy tinha quando se apaixonou por Ashley. Descobrir que Bernice também carregava um passado parecido o deixou estranhamente desconcertado. Ainda mais porque não parecia ter sido apenas um romance adolescente qualquer. Para ela, aquela pessoa tinha sido alguém inesquecível.

—Nós planejávamos nos casar assim que nos formássemos. Conversávamos sobre quantos filhos teríamos, como decoraríamos a casa… Fazíamos planos detalhados para o futuro. Aquela foi, sem dúvida, a época mais feliz da minha vida.

A voz dela permaneceu calma e contida.

—Infelizmente, também foi a mais infeliz.

Bernice continuou falando tranquilamente. Koy apenas escutava em silêncio.

—Meu pai era um homem extremamente rígido. Muito religioso… naturalmente, acreditava em abstinência antes do casamento.

Ela abaixou ligeiramente os olhos antes de continuar:

—Mas nós não conseguimos nos conter. Nós nos amávamos demais… e nos desejávamos na mesma intensidade.

Depois de uma breve pausa, acrescentou:

—Claro que meu pai acabou descobrindo.

De alguma forma, Koy sentiu que já sabia o que viria depois. Aquele desfecho parecia óbvio demais. Mesmo assim, embora tivesse se preparado mentalmente, a continuação da história foi muito mais cruel do que imaginava.

—Meu pai o denunciou por estupro. Então nós fugimos juntos. Eu não podia deixá-lo ir para a prisão. Na época, me parecia mais assustador nos separarmos do que vê-lo virar um criminoso. Nós nos amávamos tanto.

A voz dela continuava serena.

—E, naquele começo… fomos muito felizes.

—Então por que…?

Koy acabou interrompendo sem conseguir se conter. Se ela tinha vivido algo assim, não deveria compreender Ashley e Koy melhor do que ninguém? Não deveria torcer pelos dois? Bernice continuou olhando para ele com a mesma expressão inalterada enquanto prosseguia:

—Então a realidade nos atingiu. Como um desastre.

Ela continuou calmamente:

—O dinheiro acabou rápido. Precisávamos fazer qualquer trabalho que aparecesse para sobreviver, mas ninguém queria contratar adolescentes que nem tinham terminado o ensino médio. Passamos fome. Chegamos a roubar comida de lojas.

A voz dela não tremia nem um pouco.

—Aos poucos, o amor começou a esfriar. Começamos a brigar cada vez mais. Ficamos cansados um do outro.

Foi então que Bernice sorriu pela primeira vez para Koy. Ainda assim, foi apenas um pequeno movimento nos lábios.

—É ridículo quando penso nisso agora. Como fomos ingênuos.

Depois de um breve silêncio, ela continuou:

—Mesmo assim, nenhum de nós conseguia ir embora. Porque, se desistíssemos naquele momento, parecia que eu estaria admitindo que tinha perdido… que minha escolha tinha sido errada. E eu não conseguia aceitar isso.

Os olhos dela se perderam por um instante enquanto repetia as próprias palavras de anos atrás:

—“Eu nunca vou me arrepender. O meu amor não estava errado…”

Ao ver a expressão surpresa de Koy, Bernice soltou uma pequena risada torta pela primeira vez. Então continuou:

—E, um dia, descobri que estava grávida.

Koy prendeu a respiração.

—No dia seguinte, depois que contei isso para ele… quando acordei, eu estava sozinha.

Dessa vez, Koy arregalou os olhos, sem conseguir dizer nada. Aquilo estava muito além do que ele imaginava. Por um breve instante, um vazio profundo atravessou o rosto de Bernice.

—Ele fugiu, me deixando sozinha… e grávida.

Bernice soltou outra breve risada. Mas o som parecia completamente vazio.

—No começo, eu não consegui acreditar. “Ele foi embora? Me abandonou?”… “Então meu amor… minha escolha… estavam errados?”

Depois disso, ela concluiu a história num tom seco:

—O resto aconteceu exatamente como você deve imaginar. Voltei para casa sozinha… e aquela confusão toda terminou assim. Nunca mais o vi. E, desde então, vivi desse jeito… sem conseguir amar mais ninguém.

Como se dissesse “olhe para mim”, Bernice abriu levemente as mãos diante do corpo antes de voltar a encarar Koy. Havia algo pesado naquele olhar. Mesmo desconfortável, Koy aguardou o que viria a seguir.

—Quando olhei para vocês dois, consegui enxergar a mim mesma quando era jovem.

Ela olhou para Koy com um olhar indiferente.

—Parecia ridículo ver vocês se agarrando tanto a um amor cujo final já estava condenado desde o começo. Pensei que, como alguém mais velha, eu devia fazê-los enxergar a realidade.

Ela fechou os olhos por um instante.

—Foi extremamente tolo da minha parte. Porque vocês não eram nós.

Koy permaneceu em silêncio. Não porque não tivesse nada para dizer. Na verdade, havia muitas coisas entaladas dentro dele. Mas faltava coragem. Durante toda a vida, Koy raramente dizia o que realmente sentia. Ele não queria machucar ninguém. E, acima de tudo, tinha medo de ser rejeitado. Mas desta vez ele precisava falar. Precisava provar que o amor entre ele e Ashley tinha sido verdadeiro desde o começo. Então Koy finalmente conseguiu falar:

—Não foi só isso… foi?

Bernice vacilou levemente. Mesmo assim, Koy continuou:

—Você… queria de verdade que nós fracassássemos, não queria?

A voz dele tremia um pouco, mas ele não parou.

—Porque, se nós déssemos certo… então o fato de vocês dois terem fracassado ficaria ainda mais miserável.

Koy respirou fundo antes de continuar, agora com emoção clara na voz:

—Quando aconteceu exatamente o que você esperava… você deve ter sentido alívio. Deve ter olhado para nós pensando nas mesmas coisas que pensava naquela época. “Viu? Eu não estava errada.”

Bernice não emitiu nenhum som. Mas Koy percebeu claramente que ela estava abalada. Os lábios dela se abriram algumas vezes, apenas para voltarem a se fechar sem som algum. Só depois de repetir isso algumas vezes ela finalmente conseguiu falar, como se arrancasse as palavras à força:

—…Sim. Eu perdi.

A voz de Bernice saiu dolorida, como se estivesse sendo espremida.

—Eu sinto muito, de verdade. Eu fui arrogante.

Dessa vez, Koy conseguiu sentir sinceridade naquele pedido de desculpas. A estranha sensação amarga que ainda restava dentro dele finalmente desapareceu. Seu coração ficou muito mais leve.

—Não existe vencedor nem perdedor aqui.

Koy falou calmamente. Sua voz já não tremia mais.

—O seu amor e o nosso amor só eram diferentes. Nem vocês nem nós fizemos nada de errado. Acho que cada um apenas fez a melhor escolha que conseguia naquela época.

Bernice permaneceu em silêncio, olhando para ele. Então Koy continuou:

— Eu aceito suas desculpas. O passado não pode ser mudado.

Tentando sorrir, Bernice ergueu os cantos dos lábios de forma desajeitada.

—Obrigada.

Depois de finalmente admitir sua covardia do passado, ela parecia mais aliviada. Mas, ao mesmo tempo, parecia culpada por sentir esse alívio. 

Foi então que Bernice falou de repente:

—Se o Sr. Miller soubesse que você era uma Ômega, ele não teria sido tão duro.

As palavras escaparam da boca de Bernice. Talvez tenha sido uma tentativa de confortá-lo, ou talvez nem ela mesma soubesse. Mas não havia maldade em sua voz. Koy percebeu isso claramente no semblante dela e respondeu sem hesitar:

— Primeiramente, julgar o parceiro dos filhos pelo seu nível social ou gênero é que é estranho.

O tom firme era raro vindo dele. Bernice pareceu surpresa por um instante, mas logo um sorriso genuíno surgiu em seu rosto.

—Você tem razão.

Com uma atitude muito mais suave do que antes, ela finalmente abriu o catálogo e voltou a explicar os detalhes.

 

***

 

Quando Ashley estava saindo do escritório para ir embora, recebeu uma ligação inesperada. Ao conferir o nome no visor, ele arregalou os olhos — algo raro — e atendeu imediatamente.

—Koy?

Koy andava de um lado para o outro perto do elevador que dava acesso ao estacionamento, esperando. Assim que as portas se abriram, ele se virou. No instante em que viu Ashley, seu rosto se iluminou.

—Ash!

—Koy.

Ashley largou a pasta no chão e abriu os braços. Koy correu direto para ele. Ashley o puxou firmemente para junto do corpo e inspirou profundamente, como se quisesse absorver o cheiro dele por inteiro. Sentindo isso, Koy liberou naturalmente seus feromônios. Logo em seguida, ouviu Ashley suspirar, relaxado.

—O que houve? Você veio até a empresa…

Ainda abraçando Koy, Ashley perguntou em voz baixa. Koy respondeu sem hesitar:

—Eu estava vendo algumas coisas com a senhorita Bernice… mas senti saudade de você.

—É mesmo?

A voz de Ashley se encheu de satisfação imediatamente. Koy também, feliz ao ouvir aquilo, ergueu o rosto. Ashley, como se estivesse esperando exatamente por isso, uniu seus lábios aos dele. Fechando os olhos, Koy aceitou o beijo de bom grado. Então, de repente, um pensamento lhe ocorreu.

Diferente da senhorita Bernice…

Claro que era diferente. Eles tinham se reencontrado, e nunca mais se separariam. Agora e dali em diante, continuariam se amando assim. E, além disso… Eles teriam um filho.

Será que vai ser menina ou menino…?

Só de imaginar, Koy sentiu o coração acelerar de expectativa. Não sabia que tipo de criança nasceria. Mas havia uma coisa da qual tinha absoluta certeza:

Não importa a escolha que você faça… nós o apoiaremos.

Ao imaginar os três juntos, um sorriso surgiu sozinho em seus lábios.

Vai dar certo. Nós vamos conseguir.

Koy tinha certeza disso. Eles seriam diferentes dos próprios pais. Porque dariam ao filho amor e confiança sem limites.

 

°

°

Continua….

 

Tradução:  Ana Luiza

Revisão:  Thaís

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Em breve será disponibilizado uma sinopse!
Nome alternativo: Kiss Me If You Can

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