Ler Jardim de Maio – Capítulo 02 Online

— O Barão Howard chegará amanhã à noite.
Era para ser um jantar em comemoração ao vigésimo aniversário de Vanessa. A garota interrompeu com perplexidade o corte do pato no meio do movimento, encarando o tio, sentado à cabeceira da mesa. O cheiro de uísque e vômito ainda impregnava suas roupas desde sua chegada na madrugada, trazido pelos guardas da casa de apostas. Ele engoliu o vinho como se fosse água e então arrotou alto.
Já fazia três anos desde o último encontro deles, após a formatura de Vanessa no Internato Saint Louis na tarde anterior, mas o tio parecia alterado. Vanessa baixou os olhos discretamente para o prato.
— Ele vai ficar muito tempo?
— Acredito que sim. A Baronesa Howard faleceu há alguns meses.
‘Ah, aquela pobre senhora.’
Vanessa havia lido sobre a morte trágica da mulher no jornal alguns dias antes. Atropelada por uma carruagem enquanto atravessava a rua. Embora os jornais retratassem o caso como um acidente lamentável, os relatos das testemunhas contavam outra história. Diziam que a Baronesa fugia de medo, levada ao desespero pela bengala do marido aleijado.
Os que a viram se lançar diante da carruagem afirmavam que ela parecia estar se atirando para a morte em busca de salvação. Vanessa não sabia qual versão era verdadeira, mas qualquer uma delas bastava para manchar a reputação do Barão Howard.
— Precisaremos de roupas novas e jóias para receber adequadamente o velho. — Seu tio, após esvaziar a taça de vinho, puxou o prato para mais perto. — Pegue o talão de cheques. Use com moderação. Nada de extravagâncias.
Vanessa o encarou, perplexa. A morte da Baronesa foi uma tragédia terrível, mas roupas e joias novas para receber o Barão? O que aquilo tinha a ver com ela? Sua linha de raciocínio perfeitamente lógica foi interrompida abruptamente quando uma percepção assustadora surgiu. Sua mão pálida, segurando os talheres, tremeu levemente.
— O que está querendo dizer?
— Sim. Ele está procurando urgentemente uma nova esposa. Administrar uma propriedade sem uma senhora da casa é bastante trabalhoso, sabe? — disse Wyatt, servindo-se de uma generosa porção de pato gorduroso e mastigando com entusiasmo. A carne avermelhada era despedaçada sem cerimônia sob o garfo e a faca afiados. — Claro, não pretendo casá-la imediatamente. Se alguém oferecer condições melhores que as daquele velho, terá prioridade. Você precisará conhecer o maior número possível de homens, então ficará bastante ocupada por um tempo.
O significado das palavras do tio era claro. Uma transação. Uma transação matrimonial, na qual ela própria era a única mercadoria exposta. O enjoo revirou seu estômago quase vazio. Percebendo os olhares ansiosos das criadas, Vanessa mordeu o lábio. Contrariar o tirano do Castelo Gloucester seria imprudente, tanto para ela quanto para os empregados. Respirando fundo para se acalmar, forçou um tom casual:
— Se ele chegar amanhã, isso coincidirá com a visita dos meus convidados.
— Seus convidados?
Os olhos de Wyatt se arregalaram, fingindo surpresa. Sua expressão, uma mistura de suspeita e cautela, exigia explicações.
— Os gêmeos Winchester, como mencionei na minha última carta. — Vanessa falou rapidamente, reprimindo a ansiedade. — Eles planejam fazer um grande Tour após a formatura, mas queriam passar um mês aqui visitando amigos antes disso. O senhor deu sua permissão da última vez… lembra?
O rosto de Wyatt, inicialmente preparado para recusar, transformou-se em uma expressão pensativa. O nome ‘Winchester’ surtira efeito.
— …Tudo bem. Faça como quiser. — O conde resmungou, apontando um dedo engordurado em advertência. — Mas nem pense em negligenciar nosso convidado por causa dos seus amigos.
— Claro que não.
Satisfeito com a resposta dócil, Wyatt alcançou o próximo prato. O tilintar dos talheres preencheu o silêncio seguinte. Quando um jovem criado apresentou a sobremesa, Vanessa levantou-se da cadeira. Já suportara o jantar tempo suficiente para não ofender o tio.
— Com licença.
Como esperado, Wyatt apenas assentiu sem sequer olhar para ela. A última coisa que Vanessa viu antes de sair do salão de jantar foi o tio despejando uísque sobre o creme de baunilha. Mantendo um passo calmo até alcançar as escadas, ela acelerou assim que passou pelo hall de entrada, começando a correr. Precisava chegar ao jardim. Era o único lugar do Castelo Gloucester onde conseguia se recompor sem ser observada.
— Minha senhora. — Harold, o mordomo, bloqueou seu caminho. Os olhos enrugado do velho examinaram atentamente seu rosto pálido. — Correr assim é perigoso. Aconteceu alguma coisa?
Harold, com uma longa cicatriz que ia da sobrancelha esquerda até o queixo, era um mordomo contratado por Wyatt sete anos atrás. Parecia mais um capanga da máfia do que um criado experiente. Vanessa balançou a cabeça levemente.
— Não, está tudo bem. Obrigada pela preocupação.
Ela forçou um sorriso enquanto Harold continuava observando-a, as mãos cruzadas atrás das costas. Aparentemente não encontrando nada estranho, o mordomo torceu os lábios em desaprovação.
— Mesmo assim, esse comportamento não é apropriado, especialmente com convidados chegando.
— Vou me lembrar disso… Todos os preparativos para meus amigos já estão prontos?
— Seus convidados ficarão na ala oeste para evitar encontros com os outros hóspedes. Dois quartos foram preparados.
— Outros hóspedes? Mais pessoas vão chegar?
— Ah, e mais uma coisa. — Harold a deteve novamente quando ela tentou passar. Vanessa o encarou com curiosidade, e ele balançou a cabeça firmemente. — Não vá ao jardim por enquanto. Estão fazendo instalações elétricas, e o chão está perigoso. Também trouxeram novos trabalhadores de fora.
— Novos trabalhadores?
— Sim. Eles vão reformar o anexo abandonado, os campos de caça e os jardins.
— Reformar? De repente?
Vanessa piscou, surpresa. Seu tio gastava sem limites nos próprios prazeres, mas economizava cada moeda em qualquer outra coisa. Ele até vendera as terras arrendadas da família para pagar dívidas, então de onde vinha esse dinheiro…?
— Os aposentos dos hóspedes terão prioridade. Primeiro serão a sala de recepção da ala leste, os campos de caça, o jardim frontal e o lago de pesca. Depois o jardim do labirinto, o quintal, a ala oeste e, por último, o jardim de rosas. Fica mais afastado, então quase ninguém vai lá.
Harold explicou, contando cada local nos dedos. De repente, uma janela se abriu e ele franziu a testa. Gritos abafados tornaram-se mais altos. Parecia que uma briga havia começado entre os trabalhadores recém-contratados.
Homens cobertos de poeira se agarravam e rolavam pelo chão, segurando-se pelas golas. Eles acabaram colidindo contra uma carroça carregada de materiais, fazendo os objetos empilhados perigosamente balançarem.
— Ei! Isso vai cair! — Os trabalhadores que observavam a luta com diversão finalmente se aproximaram lentamente. Harold suspirou e balançou a cabeça diante da cena.
— Parece que este verão será tudo, menos tranquilo.
Vanessa concordou em silêncio. Aquele verão prometia ser longo e barulhento.
Os rostos dos soldados que enchiam a antiga estação de trem brilhavam com a expectativa de uma longa licença. Trens chegavam de todas as direções, paravam brevemente para engolir ondas de homens e então partiam apressadamente para seus respectivos destinos.
Theodore permanecia afastado da multidão agitada, recebendo uma carta de um mensageiro. A testa lisa do jovem oficial se franziu enquanto lia. O sargento River Ross, atento ao desagrado do superior, perguntou cautelosamente:
— Más notícias, senhor?
— Não.
A resposta foi casual, mas a carta amassou-se impiedosamente em sua mão grande. River Ross, com expressão de quem havia engolido um sapo, olhou preocupado para o superior.
Se a carta fosse uma das incontáveis cartas de amor que bombardeavam diariamente a caixa postal do Almirantado, causando tantos problemas, ela não provocaria uma reação tão visível. A maioria acabava no lixo sem sequer ser aberta. Esta não carregava o brasão real dos Ingram no selo.
— Correspondência para soldados é sempre igual. Perguntas sobre saúde, se houve ferimentos. Esse tipo de coisa.
— Mas o senhor parece bem…
— Hmm?
— …descontente.
Theodore soltou uma breve risada, jogando a carta amassada nas mãos estendidas do mensageiro junto com uma reluzente moeda de ouro. Poderia facilmente ter desconversado com outra explicação, mas seu sargento sempre optava pela honestidade direta. No mundo de Theodore, aquilo era uma qualidade valiosa. Um homem constante, quase estupidamente íntegro. Muito mais confiável que os tipos calculistas e frívolos.
— Minha avó é bastante persistente. Parece que ela ainda não desistiu.
— É sobre uma proposta de casamento, senhor…?
— Um ritual anual que sou obrigado a suportar em toda licença. Sermões sobre casamento, noivado, até mesmo namoro.
As palavras tinham gosto de cinzas em sua boca. Ele não se importava com a companhia feminina, mas a perspectiva de um relacionamento sério lhe causava profunda aversão. Havia abandonado qualquer esperança de um romance normal ou de um casamento respeitável aos oito anos de idade. No mesmo dia em que sua mãe morreu tentando fugir com o motorista da família.
Nada era tão horrível e vazio quanto a palavra ‘amor’. Theodore aprendera essa lição mais cedo do que a maioria. Seus pais haviam se casado após seis anos de namoro, primeiro amor um do outro, mas a história terminou em ódio amargo e morte.
— Parece que a Duquesa Viúva de Batenberg está determinada a empurrar seu neto herói de guerra para dentro da corte real.
Theodore sentiu o frio persistente do cinismo enquanto colocava um cigarro fino entre os lábios. Gostava bastante daqueles cigarros baratos distribuídos pelo exército. Resistiu ao impulso de acendê-lo imediatamente, segurando a ponta firmemente entre os dentes.
O céu estava excepcionalmente limpo. A luz do sol atravessava a enorme janela em arco, enquanto os gritos distantes das gaivotas ecoavam pelo ar. Theodore contemplou a paisagem ofuscante por um momento e então ajustou o quepe branco da marinha.
— Oficial River Ross, quais são seus planos para as férias de verão?
Continua…
Tradução: Elisa Erzet
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Em breve será disponibilizado uma sinopse!