Ler Blood Poker (Novel) – Capítulo 03 Online

Blood Poker 03
A diferença de temperatura entre o dia e a noite de Ji Seunghyun era extrema.
— O que… você está fazendo?
Quando Jaeil murmurou com um tom visivelmente irritado, Seunghyun, que estava com a bochecha encostada na barriga dele, girou a cabeça suavemente. Ele chegou a esfregar a bochecha macia como se o abdômen do outro fosse um travesseiro. Esboçando um sorriso sonolento, Seunghyun parecia não se importar se Jaeil estava bravo ou não. Ele estava em meio a um sonho e não percebia a presença de Jaeil; estava em um estado relaxado e confortável.
— Você acordou?
— …….
Dava para notar apenas pelo tom brincalhão. Jaeil relaxou o corpo rígido na cama e esfregou as pálpebras. Sentia como se todo o sangue tivesse escapado de seu corpo.
— Haa…
Ele soltou um suspiro profundo, mas seu coração assustado não se acalmava nem um pouco.
Haon não era mais uma zona de segurança. Recentemente, até Oni de nível 6 estavam aparecendo, deixando o trabalho dos Espers muito atarefado. Pulsos emitidos por Oni de nível 3 ou superior eram detectados com frequência, exigindo mobilização pelo menos uma vez ao dia. Até o momento, o processamento dos Oni era relativamente fácil, pois os “Gon”, de nível superior, ainda não haviam surgido, mas a aparição frequente de Oni significava que o dia em que os Gon apareceriam não estava longe.
Os Espers estavam em constante estado de tensão. Hoje, um grande número de Oni de nível 4 apareceu e causou um alvoroço; por coincidência, um Esper de sistema mental de classe A havia ido dar suporte a outra cidade, o que causou um trabalho imenso.
Graças aos cuidados dos guias gêmeos e de Seunghyun, o risco de amplificação de Jaeil, que flutuava entre 20% e 30% há algum tempo, ultrapassou 80% apenas hoje. Por conta disso, os gêmeos tiveram o trabalho de realizar o guiding no campo de batalha. Isso porque, se o risco de amplificação ultrapassasse 95%, discussões sobre execução seriam iniciadas, então era necessário contê-lo enquanto estivesse minimamente baixo.
No entanto, como os gêmeos não estavam em boas condições, desta vez demorou muito para baixar o risco até 40%. Quando Joy desistiu primeiro, Rowan, que conseguia aguentar um pouco mais, também foi forçado a parar. Vendo o estado insatisfatório de Jaeil mesmo após o guiding, Daniel chamou apressadamente Ji Seunghyun. Ele chegou a pedir que, desta vez, eles dormissem bem grudados.
Assim, era mais uma noite que passavam juntos. Ji Seunghyun quebrava a cabeça sobre como diabos deveria ficar grudado na cama para que fosse minimamente melhor. No início, ele pediu a mão de Jaeil e a segurou em silêncio; sobrepôs as palmas, entrelaçou os dedos e até segurou o pulso. Mas, no fim, parecia não estar satisfeito com nada e pediu permissão para encurtar um pouco mais a distância.
— Esper Ha Jaeil.
— Sim.
A expressão de Ji Seunghyun refletida na luz fraca estava mais séria do que nunca. O pedido de Daniel parecia ter jogado óleo em alguém que já era entusiasmado.
— Acho que a área das mãos é muito pequena. Não deveríamos encostar os ombros e os braços?
Ao encontrar os olhos despertos de Ji Seunghyun, Jaeil assentiu sem muita resistência. Ele estava preocupado com seu próprio cio e com o distúrbio de sono de Ji Seunghyun, mas não conseguiu recusar o apelo fervoroso dele. Além disso, os sintomas não haviam aparecido na noite anterior em que estiveram juntos e, acima de tudo, Jaeil estava exausto.
— Que seja.
Ao receber o consentimento de Jaeil, Seunghyun se aproximou aos pouquinhos. Ele continuava se sentindo constrangido pela situação de ter que dormir na mesma cama e com contato de pele com um homem com quem mal conseguia conversar, mas cumpria seu dever com firmeza. Mesmo sendo guia há pouco tempo, sua ousadia de avançar sem saber de nada e seu senso de responsabilidade eram dignos de nota.
Nos dias em que o nível de amplificação não se acalmava, o corpo doía muito. A dor de cabeça também era severa. Exausto pela batalha feroz, a visão de Jaeil estava turva. Após confirmar que Seunghyun se deitava ao seu lado com um “Com licença”, ele caiu no sono imediatamente.
Não sabia quanto tempo havia passado. Com uma pressão estranha sentida no abdômen, Jaeil abriu os olhos assustado. Como não sabia o que estava grudado em seu corpo, ele entrou em guarda primeiro. Jaeil, que emanava hostilidade como se fosse atacar a qualquer momento, arregalou os olhos ao descobrir Seunghyun. Por pouco não o chutou para longe. Ele estava com as duas mãos educadamente postas sobre a barriga de Jaeil, com a bochecha profundamente enterrada ali.
Mesmo que ele rosnasse perguntando o que diabos estava fazendo, Ji Seunghyun não dava a mínima. Diante da atitude absurda de cumprimentá-lo com um sorriso radiante perguntando se ele tinha acordado, Jaeil perdeu todas as forças.
— …….
Ele pensou que os sintomas não apareceriam contanto que não se afastassem, mas parecia que não era bem assim. Usando o teto como refúgio, Jaeil fixou o olhar ali, mordendo o lábio inferior e balançando a ponta dos pés. Sua energia estava sendo sugada através das palmas de Seunghyun. Uma vez consciente disso, ele não conseguia mais empurrá-lo. No momento, Ji Seunghyun estava dormindo e realizando o guiding diligentemente.
— Doeu muito hoje, não foi?
— …….
Como Jaeil teimosamente não respondia, Seunghyun baixou o olhar. Ele piscou os olhos grandes, observando as pontas dos próprios dedos, e assentiu sozinho.
— Vou fazer sumir logo.
Dizendo isso com determinação, ele levantou a camiseta de Jaeil de uma vez. Jaeil, que estava ignorando Seunghyun, baixou a cabeça ao sentir uma sensação fria abaixo. E ficou horrorizado. Para Ji Seunghyun, para quem o guiding era a prioridade absoluta, não havia limites. No momento em que ele beijou o abdômen firme e definido, Jaeil rangeu os dentes.
Abusar da sorte tem limite.
Jaeil estendeu a mão e o puxou pelo colarinho. O punho enfurecido não conseguiu controlar a força. Seunghyun, sendo arrastado, segurou o colarinho torcido junto com a mão de Jaeil.
— …Acorde.
Jaeil torceu o colarinho com força, pretendendo acordar Seunghyun. Sendo tratado de forma tão bruta, era de se esperar que ele acordasse, mas Seunghyun apenas olhou para Jaeil fixamente com olhos surpresos. Um breve silêncio passou. Percebendo que Jaeil não tinha intenção de aceitar, ele baixou o olhar e murmurou tristemente.
— Eu só queria fazer parar de doer…
O rosto de Seunghyun se contorceu em choro e o canto de seus olhos ficou vermelho.
— Como ali estava bloqueado… eu tentei abrir…
— …….
Lágrimas que se acumularam rapidamente ficaram penduradas nos olhos e caíram pesadamente. Percebendo que estava chorando, Seunghyun levantou a mão e pressionou as pálpebras com força. Suas unhas se enterraram, ferindo a pele. Como era um método masoquista para tentar impedir que as lágrimas saíssem, Jaeil segurou as duas mãos dele e as abaixou de uma vez.
Como Seunghyun começou a chorar do nada, o plano de Jaeil de acordá-lo e expor a atrocidade de agora foi arruinado. Ele sentiu o peito apertado. Respirando fundo, Jaeil disse, suprimindo a raiva a todo custo:
— …Então apenas faça o guiding. Sem gracinhas.
— Mas é que… assim é mais rápido…
Quem não sabe disso? Jaeil, franzindo o nariz, estava prestes a colocar força na mão que segurava o colarinho para acordá-lo quando Seunghyun soluçou e pressionou as pálpebras.
— Você não sabe de nada… seu estúpido…
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Por algum tempo, seguiram-se dias tranquilos, sem ataques de monstros. Joy, que dava apenas aulas teóricas, disse que já era hora. No caminho para a sala designada para mostrar uma demonstração de guiding, Joy mostrou seu tablet para Seunghyun e disse:
— O Esper que receberá o guiding hoje é o Full House, classe B do sistema físico. Uma taxa de compatibilidade de 70% é considerada alta. Entende agora o quão alta é a sua com o Jaeil?
— Sim, entendo.
— Se ele não usar a habilidade excessivamente, o nível de amplificação não sobe muito, mas a manutenção periódica é essencial.
Abrindo a porta da sala de guiding, ela cumprimentou o Esper.
— Oi.
— Oi, Joy.
Um homem branco de cabelos castanhos claros sorriu suavemente com os olhos. Seu físico era semelhante ao de Jaeil, mas sua expressão era mais gentil. Os dois pareciam ter amizade, trocando saudações familiares. Ela se aproximou e deu um beijo curto na bochecha do homem. Após receber o cumprimento afetuoso, o homem lançou o olhar para Seunghyun. Seunghyun imediatamente se curvou em cumprimento.
— Quem é? Um guia?
— É o meu aluno sob supervisão. O Backspell classe A que entrou agora. Vim mostrar uma demonstração.
O homem arqueou as sobrancelhas e sorriu. O canto de sua boca subiu de forma charmosa.
— Ah, por acaso… Ha Jaeil?
— Sim, exatamente.
Joy assentiu. O olhar do homem ainda estava voltado para Seunghyun. Ele o observou de cima a baixo com um rosto levemente malicioso.
Joy verificou os valores no dispositivo que o homem usava. Movendo o dedo, ela chamou Seunghyun, que estava parado atrás.
— Novato, venha aqui.
— Sim.
Seunghyun verificou o dispositivo ao lado de Joy. Estava em 15%. Seunghyun ficou surpreso internamente com o valor muito mais baixo do que esperava. Como disseram que haveria um guiding, ele pensou que estaria alto, mas não estava. O Esper Ha Jaeil nunca baixou de 20%… Seunghyun ficou com uma expressão séria.
— Até quantos por cento baixa quando se faz o guiding?
Joy respondeu à pergunta de Seunghyun:
— Dependendo da condição, pode baixar para menos de 5%. Hoje parece que será tranquilo.
— Qual é o valor considerado seguro?
— 40%. Se subir acima disso, eles sofrem muito. Dor de cabeça, hemorragia, explosão psicocinética. É variado.
— O Esper Ha Jaeil subiu para quase 80% há alguns dias.
Seunghyun estava lançando uma bomba de perguntas, a ponto de Joy não conseguir nem começar o guiding.
— Foi mesmo. Ele aguenta aquilo porque é um monstro. Normalmente não é assim. Ugh, eu achei que ia morrer naquele dia.
Joy estremeceu ao lembrar daquele dia. O homem, que observava o rosto de Seunghyun fixamente, interveio subitamente na conversa.
— Como você derrotou o Lee Jae-jin? Aquele cara, apesar da aparência, tem habilidade de nível de competição.
— ……?
Por causa da pergunta repentina, o assunto mudou em um instante. Joy olhou alternadamente para os homens com um rosto de quem não entendia nada, e Seunghyun levantou o olhar em silêncio. Ele costumava responder diligentemente às perguntas recebidas, mas desta vez também não conseguiu falar prontamente. É difícil explicar algo que foi feito por reflexo.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Joy.
O homem respondeu com um sorriso largo:
— Esse cara aqui nocauteou o Lee Jae-jin. Enquanto treinavam luta.
— O quê? Mas por que eu não soube disso?
Era uma notícia inédita para Joy. Seunghyun coçou a testa, parecendo bastante encabulado com a situação.
— Por que será? O guia do Lee Jae-jin se esforçou tanto para calar a boca dos Espers esse tempo todo. Eu estava lá na hora. Uau, fiquei surpreso.
O olhar do homem fixou-se novamente em Seunghyun. Seu rosto sorridente estava cheio de curiosidade pura.
— É verdade? Quando?! — disse Joy com um tom animado.
— …Faz alguns dias — Seunghyun, tentando lembrar a data, respondeu de forma vaga.
— O seu lábio cortado naquela época foi por causa disso?
— Sim.
— Aquele sujeito chamou para a briga primeiro, não foi?
— Sim.
— E acabou levando a pior? E depois ficou andando por aí mandando todo mundo calar a boca de vergonha. Ai, que patético. Patético.
Uma mão larga e grande foi estendida para Seunghyun, que respondia honestamente a cada pergunta. O homem pediu um aperto de mão.
— Sou Luis Winter.
— …Prazer. Sou Ji Seunghyun.
Tendo aprendido que o aperto de mão que eles pediam era a maior cortesia para com um guia, Seunghyun segurou a mão dele sem hesitar. A energia do homem, assim como a de Jaeil, apenas tremulava levemente ao redor da mão de Seunghyun. Talvez por o nível de amplificação estar baixo, não era nada ameaçador. A energia de tom suave era semelhante à personalidade maleável do homem.
Luis, que segurava firmemente a mão de Seunghyun e acariciava lentamente o dorso da mão dele com o polegar, inclinou a cabeça.
— Ué? Não sinto nada?
— É porque ele ainda não consegue nem abrir o canal — disse Joy, como se fosse óbvio.
Luis soltou um “Ah” de exclamação e soltou a mão.
— Vai ter que crescer muito ainda.
— Pois é. Vou começar agora.
A mão pequena de Joy foi colocada sobre o coração de Luis.
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Após almoçar e sair do treinamento da tarde, Seunghyun recebeu uma mensagem de Daniel. Dizendo para ele passar por lá se não estivesse ocupado, ele apenas trocou de roupa e seguiu caminho.
Ao abrir a porta da sala de consulta e entrar, Daniel recebeu Seunghyun com o mesmo sorriso amigável e limpo do primeiro dia em que se conheceram.
Assim que Seunghyun se sentou, Daniel apoiou os cotovelos na mesa, descansou o queixo na mão e encontrou o olhar dele suavemente.
— Tem passado bem?
— Sim.
— Graças a você, o risco de amplificação do Jaeil baixou bastante.
— Não foi nada.
Ser elogiado apenas por ter dormido junto o fazia se sentir como se estivesse recebendo dinheiro sem trabalhar, o que o deixava muito sem graça. Seunghyun baixou a cabeça e coçou a nuca. O olhar de Daniel pousou na ponta de suas orelhas avermelhadas e em suas bochechas antes de se retirar.
— Como está a vida no Centro? Não está sendo difícil?
— Está tudo bem. Muito melhor do que eu temia. Tem muita gente cuidando de mim.
Os rostos de Joy, Rowan e Jaeil passaram pela mente de Seunghyun. Lembrando subitamente da temperatura do dedo que examinava o interior de sua boca, Seunghyun esfregou a bochecha com o dorso da mão. Mesmo pensando agora, estava quente demais.
— Não tem nada te estressando?
— ……?
Para uma pergunta de cortesia, parecia um pouco persistente demais. Seunghyun arregalou os olhos e encarou o rosto de Daniel. Daniel mantinha o sorriso, apenas esperando que Seunghyun abrisse a boca. Diante da pressão gentil e difícil de entender, Seunghyun balançou a cabeça.
— Não tem nada. É um nível suportável.
“Entendo”, murmurou Daniel baixinho. Ele inspirou profundamente, fazendo seu peito plano sob o jaleco inflar e desinflar.
— Não é por nada, mas eu te chamei porque queria perguntar algumas coisas.
— Sim.
Após uma breve pausa, o homem olhou profundamente nos olhos de Seunghyun. A intenção de sondar seus pensamentos era evidente.
— Você também sofria de distúrbio do sono quando estava no Distrito 13?
— O quê?
Diante de Seunghyun, que tinha um rosto de quem não entendia o que ele queria dizer, Daniel acrescentou friamente:
— Coisas como dormir e acordar em outro lugar. Ter feridas no corpo. Objetos da casa estarem bagunçados.
— …….
— Ou você ter apenas a memória de ter dormido, mas outra pessoa dizer que você estava acordado.
Seunghyun, que apenas ouvia em silêncio, abriu a boca:
— Por acaso, você está falando de algo como sonambulismo?
Quando ele apontou diretamente o que o outro estava tentando dizer de forma indireta, Daniel sorriu. Seunghyun, a certa altura, ficou sem expressão.
— Não tinha nada disso.
— …Hum.
Daniel, mergulhado em pensamentos por um momento, acariciou o queixo. Em seus olhares de relance, sentia-se uma dúvida persistente. Seunghyun esforçou-se para vasculhar sua memória. Distrito 13. Se houvesse algo assim, ele teria avisado ao hospital antes de vir para cá. Debaixo da mesa, suas mãos se mexiam inquietas. Após hesitar algumas vezes, Seunghyun disse, observando a reação do outro:
— Parece que aconteceu alguma coisa quando passei a noite com o Esper Ha Jaeil. Estou certo?
O sorriso silencioso de Daniel era uma afirmação. Seunghyun sentiu um vazio na região do coração. Parecia que alguém tinha dado um soco na sua nuca. Então o tom frio e o olhar que o evitava constantemente eram por causa disso. Ao mesmo tempo que entendia as ações inexplicáveis de Jaeil, ele se sentia confuso. Eu com distúrbio do sono? Jamais imaginei. Seus olhos que olhavam para Daniel oscilaram como ondas na superfície da água.
— Por acaso eu cometi algum erro com ele?
— Não. Não foi nada disso.
Daniel balançou a cabeça com um olhar que pedia para ele se acalmar, mas Seunghyun soube instintivamente. Jaeil havia mentido.
— Já que você diz que não tinha sintomas antes disso, vou mudar um pouco a pergunta.
Seunghyun, com o olhar baixo, mordeu com força a parte interna do lábio. Ele não estava levando bronca, mas continuava ficando tenso. O espaço onde estavam apenas os dois tornou-se puramente desconfortável. As palavras que ele dirigia eram todas estranhas e desconhecidas. Era tão difícil quanto o interrogatório agressivo que recebeu antes de entrar em Haon, então ele colocou força nas mãos que se contorciam juntas.
— Aconteceu algo recentemente que te chocou muito?
— …….
— Algo grande o suficiente para mudar o seu estado emocional, Ji Seunghyun.
No momento em que reconheceu a pergunta, uma alucinação surgiu diante dos olhos de Seunghyun. Dedos brancos e secos. Pó dispersado pelo vento frio e forte. Uma dor no coração tão apertada que o sufocava. O corpo de Seunghyun começou a ficar visivelmente rígido. Seus dedos tensionados cravaram as unhas e enterraram-se no dorso da mão. Rapidamente a pele se soltou e a carne foi ferida. Um tremor inexplicável subia pelos braços.
— Não.
— …….
— Não aconteceu nada.
Seunghyun disse de forma cortante. O tremor, a essa altura, já havia rastejado até sua garganta.
— Nada mesmo?
— Sim, nada.
— Hum…
Daniel mergulhou novamente em pensamentos. Desta vez, ele desviou o olhar diagonalmente, caindo em profunda reflexão. No momento em que ele estava prestes a endireitar o tronco para examinar o prontuário de Seunghyun para ver se tinha deixado passar algo, Seunghyun se levantou abruptamente. Por causa do impulso, ele cambaleou por um instante e se apoiou na mesa.
— Eu já vou indo.
— ……?
Daniel fez um olhar intrigado, mas Seunghyun já não olhava para o rosto dele há algum tempo.
— Se você vai continuar perguntando essas coisas, eu não tenho nada a dizer. Não quero falar sobre isso.
Daniel acariciou o queixo, sondando a reação de Seunghyun. Ele parecia não perceber, mas sua declaração inicial de que “não aconteceu nada” havia mudado para “não quero falar sobre isso”.
— Não quer falar sobre isso?
— Sim, sim. É isso.
Ele nem sabia o que estava dizendo. Com o rosto pálido como cera, ele permanecia de pé a custo, como se fosse desmaiar a qualquer momento. A mão que se apoiava na mesa tremia freneticamente. No dorso da mão, gotículas de sangue haviam se formado de onde ele se arranhou. Ele emanava uma aura instável, como se algo fosse acontecer se não o deixassem ir. Daniel, julgando que continuar a consulta era impossível, deu de ombros levemente. Na verdade, observando a reação de Ji Seunghyun, nem precisava ouvir a resposta.
— Tudo bem, por enquanto. Conversamos na próxima vez.
Seunghyun saiu da sala de consulta como se estivesse fugindo.
Para sobreviver no Distrito 13, a primeira coisa que Seunghyun aprendeu foi a seleção seletiva. Agarrar o que era necessário, mas selecionar e cortar o que incomodava. Esse era um processo necessário para sobreviver em um ambiente árido.
Se você olha ou sente piedade por coisas podres e purulentas, você estagna ou, na pior das hipóteses, a doença se espalha para você. Mesmo que fosse cruel e frio, não havia outra escolha. Sentimentos de natureza que te deixam imerso ou mole deveriam ser especialmente evitados. Era melhor nem sequer olhar para eles desde o início.
Fechando a porta da sala de consulta, o olhar de Seunghyun voltou-se para suas mãos. Elas estavam tendo convulsões trêmulas. À primeira vista pareciam fracas, o que lhe causou repulsa. Ele cerrou o punho com força, como se fosse esmagar a vibração.
Seunghyun não entendeu a pergunta que Daniel fez agora pouco. As palavras dele perdiam o som antes de entrar em seus ouvidos, sua forma se desmanchava e sua cor desbotava. O que ele disse? Como nada o tocou, ele não pôde aceitar nem responder. O que ele quer que eu diga? Eu não tenho nada a dizer. Por que ele pergunta isso? Eu não quero falar. Não. Não é isso. Afinal, qual era a pergunta mesmo?
Os passos de Seunghyun, que caminhava sem rumo, tornaram-se pesados. Ficaram tão pesados que, ao olhar para baixo, o chão era um lamaçal. Lamas tão sujas quanto Oni estavam grudadas ao redor de seus pés. O cenho de Seunghyun se franziu violentamente. Um desconforto inexplicável se enroscava e fervia dentro de seu corpo. A força no punho pálido se soltou e subiu em direção à cabeça. Ele agarrou os cabelos desalinhados com irritação.
— O hyung está bem, então… recupere o juízo. Seu idiota.
Seu olhar, que não conseguia captar nada, vagava sem rumo. A mão que agarrava os cabelos desceu e pressionou dolorosamente uma das pálpebras. Em seu rosto que desmoronava lentamente, a expressão de sofrimento era evidente. A mesma cena estava sendo reproduzida em sua cabeça. Memórias daquela época, que ele ignorou por serem tão dolorosas, que tentou eliminar intencionalmente mas não teve coragem de descartar, começaram a revirar sua consciência. De seus lábios, que tremiam tanto quanto suas mãos, fluiu um murmúrio semelhante a um suspiro:
— Preciso dormir.
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22h43. Um pulso foi detectado na periferia da cidade. Por ser um local com pouca presença humana, o risco de baixas civis era baixo, mas, por outro lado, havia poucas estradas pavimentadas ou solo firme, o que significava que havia muitos buracos por onde Oni de alto nível poderiam sair. Jaeil, que já estava de serviço, não tinha reclamações, mas Kiju, que veio como suporte adicional, estava com o bico inchado.
Ao cair da noite, o poder dos Oni tornava-se ainda mais forte. No entanto, os Espers consideravam isso melhor. A maioria dos Oni não tinha olhos. Mesmo que tivessem, a visão era quase inútil. Em contrapartida, a audição e o olfato eram desenvolvidos, e apenas com isso eles conseguiam encontrar humanos perfeitamente bem. Como eram loucos especialmente pelo cheiro de sangue, nos dias em que um pulso era detectado perto de um hospital universitário, todos os Espers da região tinham que ser mobilizados.
Para os humanos que eram mais lentos que os Oni, a escuridão podia ser outro terror, mas para os Espers que eram tão rápidos quanto os Oni, ela se tornava, na verdade, mais um aliado.
Um Esper do sistema físico classe C, com pouca experiência real, estava tenso de uma forma que não condizia com seu porte físico. Ao lado dele estava Kiju, com o fuzil pendurado sobre a barriga e “estou muito entediado” escrito no rosto. Em seu olhar que patrulhava o campo amplo, não havia nem sinal de motivação. Apenas o desejo de voltar para casa preenchia sua mente.
O Esper do sistema físico classe C, incapaz de esconder seu nervosismo, falou com Kiju:
— Eu nunca encontrei um Oni acima do nível 4, senhor. Recentemente apareceu até um de nível 6, achei que ia desmaiar.
Diante da fala acuada do Esper físico, Kiju estalou a língua.
— Você está preocupado com os Oni?
— Sim. Do que o senhor tem medo?
— Eu tenho mais medo dos Gon.
— Gon? O senhor já encontrou um Gon?!
Foi uma reação lamentável. Kiju franziu a testa com um olhar de incredulidade.
— Você nunca enfrentou um Gon? Você nasceu em Haon?
— Vim de Erto.
Erto também era uma cidade que se desenvolveu sob princípios semelhantes aos de Haon, estabelecida em terras seguras onde a aparição de Gon e Oni era rara. Kiju deu uma olhada de relance no rosto do homem. Eram de equipes diferentes, então ele apenas conhecia o rosto, mas não tinham amizade.
— Que idade você disse que tem?
— Vinte e dois este ano.
Com essa cara? Como era jovem e tinha classe baixa, parecia não ter ido a missões em cidades perigosas.
— O tempo não está bom ultimamente, então se esforce nos treinamentos simulados.
Para que você morra pelo menos um pouco mais tarde. Ele não chegou a dizer essa última parte.
— Os Gon são tão incríveis assim? Não são apenas Oni mais rápidos? Nos treinamentos simulados, parecia que era só isso.
Kiju abriu a boca de espanto e encarou o homem. Estava prestes a despejar um sermão quando virou a cabeça. No fim de seu olhar estava Ha Jaeil, em uma postura ereta. Ele, que tinha muito interesse em armas de fogo, estava examinando de todos os ângulos o fuzil da empresa H que recebeu desta vez.
— Jaeil.
Jaeil nem sequer olhou para aquele lado, apenas deu de ombros. Mesmo que devesse ter ouvido a conversa por estarem perto, ele estava transmitindo claramente que não queria se envolver. Kiju, soltando um suspiro profundo e olhando para o homem, disse com um tom de quem estava morrendo de preguiça:
— Eu… vou te explicar um pouco, tudo bem?
— Sim, por favor.
Era absurdo que ele estivesse subestimando-os como apenas Oni mais rápidos. Ele se formou pelo rabo? Kiju limpou a garganta.
— Um Oni burro e lento, o sistema mental despedaça e o físico explode, certo? E quanto maiores eles são, maior a área de contato, então há muitas brechas para atacar. Mas os Gon não são assim. Os Gon têm isso aqui.
Kiju tocou a própria cabeça com o indicador.
— Eles sabem muito bem onde e como se transformar para ser mais fácil matar o oponente.
— …….
— Um Oni simplesmente avança loucamente se for um humano, mas um Gon usa a cabeça para conseguir o que quer. Você sabe o quão assustador isso é?
— …….
— Eles não olham apenas para os humanos. Eles eliminam primeiro quem está atrapalhando. Portanto, Espers como nós são o alvo número um. E a velocidade? Eles são tão rápidos que não dão brecha para o sistema mental usar a psicocinese. Eles abrem e fecham o corpo, e fazem isso com rostos humanos, ugh, que arrepio.
Quando Kiju estremeceu, o Esper físico finalmente percebeu a gravidade e ficou com o rosto choroso.
— Ou seja, quando enfrentar um Gon, se você apenas descarregar balas ou tentar resolver na base do soco bruto, sua vida pode voar longe. Pense que você está lutando contra outro Esper.
Kiju, como se tivesse lembrado de algo, deu um sorriso largo.
— Você já ouviu falar do Cubo Oni?
— Sim, senhor.
O Cubo Oni acontecia quando um bando de Oni cobria um prédio inteiro. Eles bloqueavam todas as saídas para que não entrasse nem um ponto de luz e caçavam os humanos. Dentro dele, os Oni que consumiam grandes quantidades de humanos evoluíam para Gon.
— Quando se enfrenta um Gon dentro do Cubo Oni, o sistema mental recua. A menos que seja um Esper treinado em um nível altíssimo, eles acabam atrapalhando. Pelo que vejo, não falta muito para vermos um Cubo Oni em Haon.
Diante do homem que ficou pálido, Kiju inclinou levemente a cabeça. Havia um ar brincalhão em seu rosto.
— Bem, pode aparecer agora mesmo.
A última frase era mentira, mas o homem parecia não estar ouvindo. Oh, se eu cutucar mais um pouco, ele chora.
— Quer ir para casa? Quer que eu chame sua mamãe?
Nesse momento, a voz de Berne soou no rádio. Era a notícia de que 5 Oni de nível 4 haviam aparecido no local onde o pulso foi detectado com força. Jaeil, ajustando o capacete, passou pelo Esper físico que estava petrificado sem saber o que fazer. O medo do homem não valia nem o esforço de se importar. Kiju, que o seguiu em pouco tempo, caminhou emparelhado com ele.
— Quanto você aposta?
Com a fala de Kiju, Jaeil hesitou. Seu olhar indiferente tocou o rosto brincalhão de Kiju e se retirou.
— Cem mil won em como você morre.
— Seu desgraçado.
Ele achou que Jaeil estava demorando para pensar, mas ele estava apenas soltando um absurdo. Quando Kiju se irritou, o canto da boca de Jaeil, que estivera rígido o tempo todo, desenhou um arco leve.
— Vamos apostar de novo. Dez mil won por cada núcleo.
Kiju era um Esper bem treinado para alguém do sistema mental. O “Esper treinado em um nível altíssimo” que ele mesmo mencionou referia-se a si próprio, mas Jaeil abriu a porta do carro com um rosto entediado.
— Não sei por que você aposta sua vida em um jogo que vai perder.
— Aaaa… que cara insuportável…
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby,Belladonna&Nala
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Sinopse:
Jaeil é um Esper Backsplash de nível A que vive em um estado sempre perigoso, pois não consegue encontrar um Guia compatível com ele. Devido a um incidente do passado, ele não confia facilmente nas pessoas e evita contato físico até mesmo com Guias. Mesmo nessas condições adversas, Jaeil tem pouco apego ao mundo e se leva ao limite. Até que um dia, ele recebe uma notícia: um novo Guia Backsplash de nível A virá ao centro. No entanto, esse Guia, Seunghyun, é do Distrito 13. O único problema? Ele não recebeu nenhuma educação e nem sequer sabe como ser um guia!?