Ler Mind The Gap (Novel) – Capítulo 15 Online


Modo Claro

❖ Capítulo 04 – Cross the yellow line

Ele havia aprendido algo sobre o cérebro.

O cérebro humano elimina circuitos que não são usados. Para lembrar de algo, é necessário tornar o circuito mais espesso através de aprendizado repetido. Os momentos que não são lembrados, os rostos, os lugares, tornam-se nebulosos como pequenas partículas de poeira e, no fim, desaparecem. Como objetos esquecidos, deixados no subsolo.

Nathan queria esquecer Alex assim.

Desde os dezessete anos, quando trocou de escola e desceu para Oxford, Nathan dormia quatro horas por dia. Nos dias em que os remédios não faziam efeito direito, às vezes dormia três horas.

Havia uma infinidade de razões para não conseguir dormir. O garoto que havia trocado de escola antes de ingressar na universidade tinha muito o que acompanhar. Precisava estudar várias matérias que não havia ouvido antes, e também precisava se familiarizar com novos rostos. O uniforme novo era desconfortável, e a cidade tranquila, onde não havia um rosto conhecido, também o irritava. Portanto, não havia tempo para dormir.

Sua mãe, Nora, percebeu que algo estava errado com Nathan na noite de um mês após a mudança para Oxford. Ela encontrou o filho, que havia ido para a cama mais cedo, na cozinha às 3 da manhã. Nathan estava com um leite achocolatado na mão. Lembrando-se de que o filho costumava comprá-lo frequentemente no passado, a mãe havia comprado leite achocolatado no supermercado naquela noite.

Nathan estava abrindo a porta da geladeira, segurando a caixa de leite com tanta força que sua mão ficou branca. Foi só quando Nora, assustada, tocou cuidadosamente no ombro de Nathan que ele virou a cabeça. O rosto de seu filho, sempre bonito, estava pálido.

Quando ela perguntou o que havia acontecido, Nathan perguntou se podia jogar fora o leite que ela havia comprado hoje. Na memória de Nora, Nathan sempre foi uma criança calma e racional. Não era um garoto que dissesse coisas sem sentido assim. Naquele dia, Nathan acabou jogando todo o leite fora.

O comportamento estranho não foi só aquele. Nora logo percebeu que Nathan não estava dormindo. As luzes do quarto raramente estavam apagadas, e mesmo quando estavam, não passavam de quatro horas. Depois que viu Nathan, que estava indo para a escola, ter uma hemorragia nasal que não parava, ela o levou ao hospital, chorando.

O médico diagnosticou insônia devido ao estresse. Preocupada com a doença de seu filho quieto, que cresceu sem ter com o que se preocupar, ela pediu licença do trabalho. E então, ficou ao lado do filho, preenchendo seus momentos vazios.

À medida que o tempo que passava ao lado do filho aumentava, Nora percebeu que Nathan não era mais o mesmo de antes. O filho não trazia amigos para casa. E não havia momentos em que ele sorrisse, nem que fosse um pouco.

Finalmente, Nora fez uma pergunta a Nathan. À pergunta da mãe sobre por que ele tinha dificuldade para dormir, Nathan não respondeu. Porque havia muitas razões para não conseguir dormir. Era melhor estudar mais no tempo que passaria dormindo, e só assim ele conseguiria acompanhar o ritmo –.

Quando fechava os olhos, ele não conseguia ignorar Alex, que vinha à mente.

Quando sua consciência estava prestes a mergulhar no sono, a mente de Nathan gravava o rosto de Alex diante de seus olhos, como uma tarefa programada. Quando o rosto frustrado de Alex, segurando o choro, vinha à mente, seu coração fervia como chamas, enlouquecendo-o. Ele nem sequer sabia se aquela emoção era raiva.

Nathan queria apagar Alex de si. Por isso não conseguia dormir. Porque se continuasse a vê-lo em sonhos, nunca conseguiria apagá-lo. Para não se lembrar, ele não deveria pensar em Alex em nenhuma circunstância.

O sentimento ao qual ele atribuiu o nome de “gostar” pela primeira vez era teimoso como erva daninha. Mesmo depois que a insônia melhorou muito lentamente, e que o tempo passou a ponto de não afastar mais as pessoas que se aproximavam, Nathan ainda encontrava vestígios de Alex no mundo vasto.

Ele nem olhava para as partidas de futebol.

Não queria andar de metrô porque era sujo.

Odiando tudo o que um dia gostou, Nathan tentou esquecer a existência que mais amava. Então, certamente conseguiria parar de se assustar e desviar o olhar toda vez que visse cabelos pretos andando na estrada em um dia chuvoso.

E, certamente, funcionou. No ano em que se formou na universidade, Nathan finalmente parou de sonhar. A memória daquele dia, do beco escuro e estreito, onde experimentou a violência real pela primeira vez, também ficou enterrada em algum lugar distante de sua consciência. O cheiro de terra molhada de sangue, o dorso da mão vermelho por bater na pele, palavras cruéis e nojentas, o som da sirene… Tudo isso desapareceu.

Ele também parou de acordar com sobressaltos, ofegante. Ainda se sentia mal em dias de chuva, e ainda não conseguia ter um sono profundo, mas isso não era nem um nível de desconforto. A existência de Alex Yeon estava, certamente, desaparecendo dentro de Nathan White.

Até cinco semanas atrás, antes de reencontrar Alex.

Na noite no hospital em que viu Alex novamente, Nathan pensou que tinha se saído bem. Sua mente estava fria, como se recompensasse os esforços que fizera ao longo dos longos anos para esquecê-lo. Mesmo vendo a estrutura física quase inalterada desde a infância e a alegria tênue surgindo em seus olhos arregalados e surpresos, Nathan pensou que ele era alguém que não tinha nada a ver com ele. Assim, o ignorou.

No entanto, no momento em que “olhou de cima” para Alex, que encontrou no corredor, sentiu uma pequena fissura em sua razão. Seus olhos, que sempre precisaram ser olhados de baixo para cima, agora podiam ser vistos corretamente apenas com ele inclinando levemente a cabeça. Será que os olhos castanhos que o olhavam tão diretamente eram assim? Tão…

Uma faceta de sua memória profundamente enterrada surgiu como labaredas. Lembrou-se de si mesmo naquela época, acreditando que ele realmente seria alto, e Alex, sorrindo radiantemente com aquela frase, surgiu de repente. Para apagar as brasas que insistiam em se espalhar dentro dele, Nathan relembrou as regras. As regras que ele mesmo estabeleceu ao cortar Alex de sua vida.

Esqueça Alex.

Esqueça a dor que aquele garoto lhe causou, as palavras que ele disse, as consequências que ele escolheu.

Só assim ele parecia poder viver. A memória daquele dia era tão terrível, insuportável, que Nathan descobriu pela primeira vez que podia ser tão fraco. Bater em uma pessoa comum, e não em um parceiro de treino, era algo de uma dimensão completamente diferente. Mesmo tentando esquecer, e realmente esquecendo aos poucos, a sensação daquela época muitas vezes vinha até Nathan à noite, junto com a memória de Alex.

As palavras ditas pelo instrutor de artes marciais da época, Yona, nem sequer permaneciam em sua mente. Ele tinha dito algo como “não se deve usar força contra alguém que não foi devidamente treinado”.

No momento em que ouviu que Alex o havia feito fazer aquilo, seu corpo fugiu ao seu controle. Seu punho esmagou a carne viva, e testemunhar o medo surgindo nos rostos que o olhavam com desdém era algo tão terrível que ele jamais poderia ter imaginado. Sangue jorrava e escorria, e a sensação de sujar as mãos era nojenta.

Não havia o Nathan White racional. Ele só voltou a si depois de quebrar os dentes do agressor que tentou atacá-lo. Havia sangue por toda parte.

“Quer se tornar um policial depois de ferir alguém assim?’”

Diante do resultado que ele mesmo criou, Nathan ficou paralisado. Para alguém que sempre viveu de forma racional e lógica, era algo inesperado. A repulsa por si mesmo corroía sua alma como fogo. Esse também era um sentimento que Nathan nunca havia sentido por si mesmo.

Tudo o que veio depois foi assim. A sua própria reação às palavras cruéis que Alex, com o rosto pálido, lhe disse quando veio procurá-lo, o desespero que o sufocava como se fosse estrangulá-lo, tudo isso Nathan nunca havia experimentado.

E não foi só isso.

Mesmo tendo se machucado com as palavras de Alex sobre uma genética que ele nunca poderia entender, Nathan logo depois voltou a pensar em seu rosto. Não conseguia esquecer. Aquele rosto, com olhos marejados de lágrimas, mordendo os lábios com força.

“Será que ele tinha algum motivo?’”

Em algum lugar de seu coração, esse pensamento surgiu. “Será que ele não estava sendo sincero?” Os comportamentos ansiosos que Alex demonstrou, e as ligações perguntando se ele o perdoaria mesmo que ele errasse, tudo se sobrepunha. Seu cérebro não aceitava a realidade e continuava criando razões. Razões para continuar gostando de Alex.

A razão e o coração colidiram e se despedaçaram. A razão não conseguia entender um coração que não seguia seu julgamento. Às vezes, sentia que ia enlouquecer. As bases sólidas que sustentavam a pessoa chamada Nathan estavam desmoronando visivelmente. Ele não conseguia dormir, e sua mente continuava voltando para aquele dia. Para sobreviver, Nathan precisava esquecer Alex.

Agora, de volta ao presente, Nathan tentou manter essa regra. Ignorou Alex e também se afastou dele. Mas não adiantava. Sua mente dizia para não se importar com ele, mas quando se dava conta, estava segurando o pulso de Alex. Seu corpo se movia primeiro. Antes que a razão pudesse decidir.

Quando se envolvia com Alex, os padrões e regras que ele havia estabelecido sempre perdiam o sentido. Foi Alex quem o fez, a ele que não gosta de coisas incertas, pensar em se encontrar com alguém de outra genética. E foi Alex o único que o fez voltar atrás no que disse. O garoto que era o único em sua vida ainda o comandava, mesmo tendo se tornado um jovem adulto.

— Nathan, não é o seu celular que está tocando?

O foco voltou aos olhos que estavam fixos no vazio. Virando a cabeça lentamente, viu o rosto de sua mãe. Sua mãe, que subiu depois de arrumar o porão, o observava com uma expressão de estranheza.

Ele ergueu o corpo que estava recostado frouxamente no sofá e esticou o braço. O celular que estava sobre a mesa vibrava ruidosamente. Ele olhou fixamente para o nome que aparecia na tela. Jude Lawrence.

— É Nathan White.

Mesmo sendo um nome conhecido, Nathan atendeu o telefone com uma apresentação seca. Então, uma voz animada ecoou do outro lado da linha.

— Nathan, oi! Como você tem passado?

No momento em que ouviu a pergunta “como você tem passado”, sua expressão vazia se desfez um pouco. Foi porque lembrou-se de Alex, que com as sobrancelhas caídas sem forças, mordia os lábios tentando conter as emoções. Isso era um domínio incontrolável, que nem sua razão nem sua consciência podiam dominar.

— Sim. O que houve?

Ao contrário da sua incapacidade de responder prontamente, Nathan confirmou as palavras de Jude. Apesar da resposta seca, Jude respondeu com uma voz amigável.

— Você vai vir à reunião de ex-alunos hoje, não vai? Você prometeu da última vez.

Nathan havia retomado contato com Jude apenas alguns meses atrás. Depois que se mudou de escola e o contato se perdeu naturalmente, eles não tiveram notícias um do outro até se encontrarem por acaso em uma conferência médica em Londres alguns meses atrás. Naquela época, Jude perguntou sobre a reunião de ex-alunos que ele estava organizando há um ano, e Nathan respondeu que sim, porque seria mais trabalhoso dizer não.

Ele ergueu a mão lentamente e esfregou a testa. Esfregando com a ponta dos dedos o osso da testa lisa, ele disse com uma voz grave:

— Desculpe, mas acho que não vou poder.

Em outras circunstâncias, talvez, mas não seria uma escolha sábia ir a uma reunião de ex-alunos neste estado. Seu ânimo estava baixo e ele não dormia há três dias. Desde que rejeitou Alex, sua antiga insônia piorou muito. Participar de um encontro que o fizesse lembrar de Alex nesse estado era uma atitude estúpida.

— Por favor, Nathan! Sei que não éramos da mesma turma, mas a Tina também vai. Faz quanto tempo que não nos vemos? Por favor, por favor, por favor, hein?

— Jude.

Quando ele chamou seu nome com firmeza, Jude respondeu com uma voz visivelmente desanimada.

— Você não pode mesmo? Eu e a Tina estávamos muito animados.

Era um tom de voz que não tinha absolutamente nada em comum com Alex, mas apenas pelo fato de soar sem ânimo, Nathan hesitou. Em um instante, sua mente ficou complexa. Passando a mão pelo rosto com uma tez cansada, depois de um longo silêncio, ele abriu a boca.

— Tudo bem, então. Era às 7 hoje?

— Você se lembra! Obrigado. Então nos vemos à noite, certo?

Jude fez mais algumas recomendações e desligou.

Nathan colocou o celular de volta na mesa e se levantou. Hoje era fim de semana, e ele havia ajustado sua agenda no hospital para ajudar a mãe com a mudança. Também havia se ausentado de ir ao instituto para colaborar com Eli Walker por causa do caso. Mesmo sendo um feriado que ele tinha depois de muito tempo, não se sentia descansado. Estava cansado.

— Nathan, isso é seu?

Nora, que trouxe outra caixa do porão enquanto ele falava ao telefone, perguntou. Ele inclinou levemente a cabeça. Nora apontou para o bicho de pelúcia no topo da caixa.

— Você gostou tanto dele no dia em que o trouxe, ainda me lembro. Você não era de ter bichos de pelúcia, então me marcou. Lembro que você o deixava na mesa e olhava para ele, mas parece que o colocou na caixa e esqueceu quando se mudou. Vai jogar fora?

O bicho de pelúcia tinha a forma de um cachorro. Era um husky branco adorável, com olhos levemente levantados que, curiosamente, pareciam muito dóceis. Tirando a poeira acumulada, quase não havia marcas do tempo. Exceto pela parte superior da cabeça, o corpo estava surpreendentemente limpo.

Nathan piscou lentamente. Exalou um suspiro fino e se levantou. Parou na frente de sua mãe, que havia crescido tanto que agora ele a olhava de cima, e esticou o braço longo para pegar o bicho de pelúcia.

“Alex.”

Ele repetiu o nome do bicho de pelúcia mentalmente. Como se respondesse, os olhos negros olhavam fixamente para Nathan. Ele viu seu próprio rosto refletido neles.

Ele não estava feliz como o garotinho de antes. Não estava tenso com a emoção da alegria do primeiro encontro, nem tinha a expressão calma de quem nunca havia sofrido uma ferida. Tanto tempo havia passado que parecia que o Nathan White do passado não existia mais no mundo, mas mesmo assim…

Na sua própria imagem refletida nos olhos negros, ele encontrou a si mesmo do dia em que recebera o bicho de pelúcia.

Antes e agora, Nathan sempre foi terrivelmente fraco para a pessoa chamada Alex.

— Nathan, você está bem?

A voz chamando seu nome dispersou seus pensamentos.

— Você parece não estar bem ultimamente. Está dormindo direito?

Uma preocupação se instalou no rosto de sua mãe.

— Sim.

Ele mentiu com naturalidade. Enquanto Nora o observava como se tentasse avaliar a verdade, ela suspirou e perguntou:

— Quer que eu jogue esse bicho fora?

A mão que segurava o bicho de pelúcia apertou. A resposta era uma só. Não havia razão para guardar um bicho de pelúcia desses. Não foi esquecido todo esse tempo? Era um lixo desnecessário.

— Não.

No entanto, a boca de Nathan deu outra resposta.

— Vou levá-lo.

Como alguém que não queria que tirassem seu bicho de pelúcia, ele abaixou o braço. O bicho era tão pequeno que cabia facilmente em sua mão grande. “Deveria jogar fora”, pensava, mas Nathan já estava pensando em onde colocá-lo.

— Que coisa.

Nora o olhou como se achasse estranho, depois encolheu os ombros e bateu levemente no braço de Nathan.

— Tudo bem, fique com ele. Já estamos quase terminando de arrumar, você pode me ajudar mais um pouco?

— Sim.

“Mesa.”

“Sim, em cima da mesa seria bom.”

Porque talvez ele visse quando Alex viesse de novo. Provavelmente ele gostaria. Enquanto fazia uma expressão de bobo, incapaz de esconder direito, incapaz de demonstrar que gostava.

Nathan fechou a boca. Os cantos de seus lábios, que estavam duros, lentamente se torceram. Algo quente subiu dentro dele. Teve um pensamento idiota.

“Ele nunca mais virá.”
“Porque eu o rejeitei.”
“Você, que disse que gostava de mim, eu… rejeitei.”

Seu corpo ficou pesado. Uma dor de cabeça começou a surgir, e Nathan ergueu a mão e pressionou as pálpebras. O ar que escapou sob seus lábios pálidos estava um pouco úmido.

Durante todo o caminho até o local combinado por Jude, Nathan relembrou suas próprias ações. O que ele disse a Alex não estava errado. Pelo menos, era o que sua razão julgava. Era uma resposta como uma linha de defesa para conter as ações de seu corpo, que traía sua vontade e agia por conta própria.

O melhor seria fingir que nada aconteceu, mas a situação continuava a enredá-los. Depois que Alex, que seguiu suas palavras à risca, quase se machucou, ele acabou nem conseguindo fazer isso. Agarrou Alex porque ele lhe chamava a atenção. Recuando passo a passo, Nathan se chocou contra uma parede.

O significado do muro erguido pelo garoto ferido era apenas um.

Ele não queria se machucar novamente. A ferida que o desmoronou completamente e o abalou era tão intensa e aguda que seria demais passar por ela duas vezes, mas, com um pequeno descuido, parecia que o muro desabaria. Parecia que ele se perderia, adentrando um mundo onde nem razão, nem intelecto funcionavam.

Foi por isso que ele rejeitou a confissão.

Mesmo se importando com Alex a ponto de ser tolo, ele julgou impossível superar aquela questão: confiar em Alex. Alex frequentemente escondia seu interior até mais do que ele mesmo. Por que ele disse aquelas palavras? Por que ele teve que afastá-lo daquela maneira? Por que disse que gostava dele se não confiava nele? Nenhuma das ações daquele garoto fazia sentido.

A essência de uma pessoa não muda muito, e o comportamento cultivado ao longo da vida também não muda facilmente. Há uma tendência a voltar ao ponto de partida, como a inércia.

Isso não era um problema apenas de Alex. Provavelmente, Nathan nunca entenderia as ações de Alex. Portanto, essa decisão estava correta. Assim como Alex não confiou nele, ele também não confiava em Alex. Simplesmente, eles não combinavam. Era o destino.

Ignorando a emoção que vinha como um gosto amargo, fingindo que não sentia, Nathan desligou o motor. Eram 6h55. Depois de estacionar o carro no estacionamento do restaurante que Jude havia alugado para a reunião, ele parou em frente ao elevador. Alguém parou ao seu lado, que encarava o vazio sem expressão. Mesmo com o som dos saltos, Nathan não desviou o olhar.

Foi quando entrou no elevador, com a porta se abrindo, que ele viu o rosto da outra pessoa. Não foi intencional; foi a etiqueta aprendida pelo corpo que o fez se mover. Foi quando ele esperava que a pessoa entrasse, pressionando o botão, que seus olhos se encontraram. Ela abaixou a cabeça por um momento, e ele viu cabelos cacheados avermelhados. Seus olhos arregalados eram estranhamente familiares. Depois de alguns segundos, Nathan lentamente se lembrou do nome da pessoa.

‘Jessica Bundy.’

Era um nome assim. Com olhos que não demonstravam nenhum interesse, ele entrou no elevador. Não havia nostalgia ao ver um rosto que não via há muito tempo.

No entanto, Jessica Bundy não parecia estar na mesma sintonia, pois o olhou de baixo para cima com olhos muito surpresos, seus lábios tremendo. Então, como quem se lembra de algo, ela deu um passo para trás, assustada, e se encostou na parede do elevador. Um silêncio se instalou. Nathan desviou o olhar frio dela e observou a porta se fechar.

Jessica Bundy continuou a agir de forma estranha depois disso. Repetidamente, ela o olhava de relance, como se estivesse excessivamente preocupada com ele, e assim que a porta se abriu, seus pés se moveram rapidamente como se estivesse fugindo, desaparecendo. Suas costas que se afastavam poderiam ser objetivamente consideradas bastante atraentes, mas Nathan a observava com olhos de quem olha para uma massa inorgânica.

Vestindo um terno casual azul-marinho, ele caminhou pelo corredor com uma expressão sem emoção. Seguindo o som barulhento, encontrou uma placa de orientação. ‘Reunião de Ex-Alunos da Clary Wood School, Turma A.’ Quando o nome da escola entrou em seus olhos, sua garganta ficou apertada. Mesmo sem gravata, sentiu a nuca comprimida. Ele ergueu os dedos longos, esfregou levemente a garganta e depois abaixou o braço.

O restaurante, em estilo salão, tinha o teto alto. Um enorme lustre tingia o interior de vermelho, e várias mesas ovais redondas estavam dispostas no centro do amplo salão. Cerca de vinte pessoas já haviam chegado e tomavam uma bebida no bar. Em meio ao clima animado, Nathan estava sozinho, sem expressão.

“Se Alex estivesse aqui, teria sido divertido?”

Enquanto tinha esse pensamento sem sentido, Nathan avistou Jude. Seu rosto não era muito diferente do que vira na última conferência. E, poucos segundos depois, Jude também o avistou. Um sorriso surgiu em seu rosto branco, levemente sardento, e ele a viu acenar alegremente. Ao lado dela, havia uma mulher de longos cabelos loiros. Provavelmente era Tina.

— Nathan, você veio na hora certa!

Jude correu e pegou em sua mão. Tina, que se aproximou lentamente, olhou para ele como se estivesse admirada e sorriu.

— Há quanto tempo!

— Não foi o que eu disse? Ele cresceu muito mesmo, né?

As duas ainda eram melhores amigas, e Jude sussurrou para Tina, enganchando o braço no dela.

— É mesmo. Você deve fazer ainda mais sucesso agora, Nathan.

— Né!

Jude riu com um som alto, achando graça de algo. Nathan, que os olhava de cima com um rosto seco, abriu a boca. Apesar de serem amigos mais antigos que Alex, nenhuma emoção forte surgiu em Nathan. Uma leve sensação de alegria apareceu.

— Oi.

No entanto, Jude pareceu satisfeita até com a breve resposta, sorrindo com os olhos. Desta vez, sentindo uma certa nostalgia, Nathan olhou para o vazio, sem saber exatamente o que estava sentindo falta.

A festa era moderadamente chata. As pessoas trocavam apresentações profissionais sem sentido, tentando transformar o passado em novos contatos. Ao ouvirem que sua profissão era médico, muitos se aproximaram, mas quando ele mencionava que sua especialidade seria genética, metade se afastava naturalmente. Como nunca foi muito de falar, ele aprendeu com experiências cansativas que, se ficasse calado, geralmente as pessoas se afastavam dessa forma.

Jessica Bundy estava sentada no lugar mais distante de sua mesa. Ele ficou sabendo disso porque Jude sussurrou em seu ouvido.

— Nathan, a Jessica não para de olhar para você. Será que ela ainda tem sentimentos por você porque te viu depois de tanto tempo?

— Não me parece.

Tina rebateu com cautela. Sem nem virar a cabeça, Nathan tomou um gole de martini. O tempo passava devagar. Sentia uma impaciência sem motivo. Era um sentimento que vinha esporadicamente desde que rejeitou Alex.

— A Jessica tem o orgulho alto. Não acho que ela iria atrás do Nathan, que terminou com ela.

— É, faz sentido. Por causa do Alex…

Jude, que estava respondendo a Tina, fez um som de “ah” e calou a boca. Parecendo envergonhada, ela rapidamente verificou sua reação, e Nathan esfregou a testa.

— Podem falar. Nos encontramos recentemente.

Não querendo deixar o clima mais pesado, ele deu uma resposta curta. Uma expressão de surpresa surgiu nos rostos dos dois ao mesmo tempo.

— O quê?!

Jude se abaixou e soltou um grito agudo. Tina foi direto ao assunto.

— Nossa, sério? Que bom. Fiquei muito triste por não poder ver você nem o Alex depois daquele dia, sem nenhuma notícia.

Jude ainda piscava os olhos, incrédula, e se aproximou de Nathan.

— Então vocês se reconciliaram? Posso perguntar o que aconteceu?

Era uma pergunta ambígua. Sobre a reconciliação, ele não conseguiu responder de imediato. Reconciliação significa resolução, mas a relação entre eles ainda estava estagnada. Mesmo tendo perdoado Alex.

— Se não quiser falar, não precisa!

Jude acrescentou rapidamente. Tina acenou com a cabeça.

— Alex disse que errou com você, mas eu estava curiosa porque era difícil de acreditar. Você também sabe, Alex gostava muito de você.

Nathan olhou para o rosto de Tina, que sorria suavemente como se estivesse relembrando o passado, e ficou em silêncio. O momento que ele temia havia chegado. Ouvir histórias sobre Alex era mais incômodo do que ele imaginava. Uma mistura de sentimentos desconhecidos – culpa, arrependimento, apego – começava a tingir seu interior de preto. Depois de mais um gole de martini, ele pediu licença.

— Desculpe interromper a conversa, mas vou sair um pouco.

— Sim, vai lá.

Jude acenou com a mão cuidadosamente. Ele empurrou a cadeira silenciosamente e se levantou, afastando-se do lugar. Seus passos longos se tornaram cada vez mais largos.

Ao abrir a porta de madeira com dobradiças antigas rangendo no final do corredor, encontrou o banheiro. Movendo-se lentamente, parou em frente à pia. Sua tez fantasmagórica era bem ridícula. Lavou as mãos por um longo tempo em água fria. Só quando as deixou frias a ponto de não sentir mais nada, ele saiu do banheiro.

E então, por uma coincidência desagradável, ele se deparou novamente com Jessica Bundy. Seu rosto estava corado, como se tivesse bebido bastante. Mais surpresa e nervosa do que quando se encontraram no elevador, ela recuou. Uma reação hipersensível, como alguém com algo a esconder.

— O quê?

De repente, ela fez uma pergunta afiada. Nathan olhou para ela de cima sem dizer nada. O banheiro tinha uma estrutura onde, ao entrar, você escolhia a porta conforme o gênero, e quem bloqueava a porta que levava ao corredor era Jessica Bundy.

— Para de me olhar com essa cara.

Uma voz histérica ecoou no ar e Jessica Bundy saiu rapidamente pela porta. Achando um pouco irritante a maneira como ela agia sem motivo, Nathan olhou na direção em que ela havia desaparecido.

Nesse momento, a porta do banheiro feminino se abriu novamente. Uma mulher de cabelo curto e preto saiu de repente. Ele a tinha visto algumas vezes andando com Jessica Bundy na escola. Nunca perguntou seu nome.

— Jessica! Esqueceu seu celular!

Ela estava com dois celulares na mão. Sem saber que havia alguém na frente, a mulher ergueu a cabeça com uma expressão surpresa e imediatamente fez uma cara de choque. Era visível como sua tez empalidecia.

— N-Nathan.

Diante de dois comportamentos anormais consecutivos, Nathan finalmente reagiu. Menos por irritação e mais porque a situação era suspeita. Era realmente estranho que até uma mulher cujo nome ele nem sabia agisse como se tivesse visto um fantasma. Quando ele olhou de cima com olhos frios, ela desviou o olhar visivelmente e disse:

— Ouvi dizer que você veio. B-Bem, como você tem passado?

Sua voz tremia terrivelmente. Era um nível constrangedor até para chamar de atuação tentando fingir calma. Embora achasse essa situação incômoda, Nathan concluiu que se envolver nisso o faria pensar menos em Alex. Com uma expressão entediada, ele contra-perguntou:

— Sei lá. Como acha que estou?

Em vez de demonstrar a cortesia de perguntar seu nome, ele contra-perguntou. Com sua voz seca e sem inflexão, a mulher pareceu ficar confusa. Ela abriu e fechou a boca, agarrou a maçaneta da porta que dava para o corredor e, como se estivesse desabafando, gritou uma frase:

— E-eu realmente não sabia que o David usaria as fotos daquele jeito. Desculpa. A Jessica não disse para não mostrar!

“Fotos?”

Não associando o nome de Jessica Bundy com a palavra “fotos” a nada, Nathan franziu a testa. Parece que havia alguma coisa. Pensando em como elas estavam agindo de forma estranha, algo não parecia certo. Com um pressentimento não muito bom, ele cerrou os lábios e estendeu a mão para a mulher.

— Me dá.

— O quê, o quê?

— O celular. Vou entregar.

— Mas…

Em vez de apressá-la, ele apenas olhou calmamente, e a mulher, hesitante, colocou o celular em sua mão. Uma emoção, que não se sabia se era culpa ou consolo, ondulava no rosto da mulher.

— Devo agradecer?

Quando ele perguntou com uma voz monótona, a mulher balançou a cabeça, empurrou a porta que segurava e saiu rapidamente. Enquanto ouvia o som alto dos saltos preenchendo o corredor, ele esperou um pouco e também saiu para o corredor.

Quando voltou ao salão principal, Jessica Bundy havia se mudado para outro lugar. Vestindo o casado, parecia que estava prestes a sair. Depois de se despedir de Jude e Tina, Nathan caminhou lentamente até Jessica.

Jessica estava conversando com outro homem. Quando ele parou na frente dela, que falava animadamente, os olhares dos dois se voltaram para ele ao mesmo tempo. Esboçando um sorriso suave em seu rosto branco, Nathan inclinou o corpo, apoiando os cotovelos na mesa.

— Acho que temos o que conversar.

Jessica, que provavelmente não esperava que ele sorrisse, o olhou com os olhos arregalados.

— Ah, é o Nathan. Por acaso, estou atrapalhando?

O homem, que não entendeu a situação, disse isso. Nathan não retirou o sorriso e disse:

— Eu agradeceria se se afastasse.

Jessica, que finalmente percebeu a situação tarde, tentou segurá-lo com um “espera”, mas o homem primeiro se afastou. Vendo Jessica tentar segui-lo, desnorteada, Nathan disse calmamente:

— Tem que levar seu celular.

— O quê?

Ela rebateu asperamente e virou o corpo bruscamente. Os olhos puxados agressivamente encararam Nathan. Ele, que apagava o sorriso gradualmente, balançou o celular. Só então Jessica pareceu reconhecê-lo e mordeu os lábios com força. Enquanto observava de forma entediada o batom sendo borrado, ela abriu a boca.

— Já acabou tudo, por que você continua fazendo isso?

— O que foi que acabou?

Embora fosse algo incompreensível, Nathan perguntou calmamente com paciência. Então Jessica elevou o tom de voz irritadamente.

— Já apaguei todas as fotos e, para começo de conversa, aquela nem era a sua foto! O Alex Yeon veio e confirmou tudo, por que o escândalo agora?

“Alex?”

Nathan arregalou os olhos ao ouvir um nome que não esperava ouvir naquela situação.

Ele sabia que Jessica era vaidosa e que, por isso, considerava o relacionamento com ele como algo para se gabar. Ao ouvir sobre a foto, Nathan apenas pensou que ela teria usado uma foto que ele desconhecia em algum lugar irritante, nada mais.

No entanto, não esperava que o nome de Alex surgisse.

O rosto que ainda mantinha um vestígio de sorriso retorcido endureceu friamente. Com olhos verdes gélidos, Nathan olhou para ela de cima.

— Repita o que disse.

— Quem… quem você pensa que é para me dar ordens? Eu não fiz nada de errado. O Alex Yeon ou o David Mack, que acreditaram que a foto que encontraram era sua, eles que estão errados!

Seu coração começou a bater rápido. Seu corpo se aqueceu instantaneamente. Sentindo novamente o aperto no pescoço, Nathan massageou o pomo de adão com os dedos. O rosto de Alex, que implorava para que ele ouvisse o motivo apenas uma vez, veio à tona. As pontas de seus dedos formigaram.

— Fale direito.

↫─☫ Continua…

⌀ ⌀ ⌀

✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki, Othello&Belladonna

Ler Mind The Gap (Novel) Yaoi Mangá Online

Sinopse:  Obra do mesmo universo de Define Relationship
— Você disse que gostava de mim. Foi… tudo mentira?
— Como um Alpha poderia gostar de um Beta?
Entre uma mãe que o abandonou e um pai que o forçou a viver como Alpha, Alex cresceu sem nunca se apoiar em ninguém. O único que o confortava, independentemente do seu gênero secundário, era Nathan. Para proteger Nathan de um certo incidente, Alex o afasta com palavras cruéis.
Anos se passam, nove longos anos de penitência e saudade. Então, um dia, eles se reencontram na cena de um caso em que Nathan é a testemunha.
— Sr. Nathan, se não for incomodar… na verdade, se você não se importar, há algo que eu gostaria de dizer…
— Se você está pensando em se desculpar, não precisa se incomodar.
Alex fica ansioso ao redor de Nathan, desesperado para se desculpar, mas Nathan mantém tudo friamente dentro do estritamente profissional. Então, devido aos efeitos colaterais do uso prolongado de supressores, o desequilíbrio hormonal de Alex é exposto.
— Você poderia simplesmente dormir com uma Ômega. Por que está procurando outra coisa? Você gosta de Ômegas.
— É porque não estou saindo com nenhuma Ômega no momento. Acho que não consigo fazer isso com alguém que não conheço.
Alex tenta se esquivar e recusa, alegando que não quer. Nathan, que havia se afastado friamente, acaba voltando e faz uma oferta de ajuda.
— Você pode fazer sexo com alguém de quem não gosta. Não interprete demais. É só sexo.
— Você não precisa se forçar a fazer isso com alguém nojento como eu.
— Você não é nojento. Então pense direito e me responda.
Mesmo que Nathan diga que não quer se envolver, sua bondade o atravessa e Alex só quer chorar. “Será que eu… nunca serei perdoado por você? Você foi a minha única alegria neste mundo. Nathan, por favor… apenas uma vez… me ouça. Por que eu fiz o que fiz.”

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