Ler Roses And Champagne – Capítulo Side Story 03 – Parte 9 Online


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❬ Side Story 03 – Parte 9 ❭

⌽ Roses and a Kiss ⌽

No dia seguinte, Won decidiu investigar enquanto ele e Mikhail tomavam café da manhã no quarto deste.

— Leonid? — Mikhail pareceu desconcertado por um momento. — Ah, sim, você perguntou sobre contatá-lo, não foi? Meu assistente deve ter as informações dele. Vou pedir que passem para você.

— Obrigado. — Won deu uma mordida em suas panquecas, mastigou e engoliu. — Ouviu algo sobre a investigação?

— Não muito, receio. — Mikhail suspirou. — Digitais e afins foram todas destruídas no incêndio, pelo que me disseram, então sem sorte ali. E sem endereço de retorno ou carimbo postal, provavelmente foi alguém que colocou na sua caixa de correio sem ser notado.

Won refletiu sobre isso entre outra mordida de panqueca. Pelo menos sabiam que o ataque fora direcionado a ele e não a outros no prédio, então Leonid ainda era um suspeito em potencial.

— Leonid parece saber muito sobre esse tipo de coisa, sendo um profissional — Won comentou, tentando ser sutil em sua sondagem. — Ele poderia ajudar?

Mikhail pareceu pensativo, mas acabou balançando a cabeça. — Não saberia dizer, honestamente. Mas pelo que sei, assassinos podem ser bem particulares em seus métodos, e Leonid não é de preferir explosivos. Ele gosta mais de facas, creio.

Won acenou. Não era uma prova concreta, mas tirava Leonid da lista de suspeitos por enquanto. Fazia sentido, realmente. Bombas não pareciam o estilo de Leonid. Bagunçado demais. Impreciso. Desprezível.

Ele preferiria mortes limpas, decisivas. E estaria lá pessoalmente para assegurá-las.

Won estremeceu, lembrando como Leonid dissera claramente que o cortaria em “pedacinhos minúsculos” e lamentara “destruir um corpo tão bonito”. Definitivamente não fora Leonid, então, quem enviara a bomba. Jesus.

Mas tudo isso provava era que havia um terceiro interessado na vida de Won, e ele não fazia ideia de quem pudesse ser.

Talvez Leonid soubesse…

Ele teve que guardar esse pensamento quando Leo espiou para dentro e, vendo os dois acordados e conversando, entrou e ocupou uma das outras cadeiras à beira da cama de Mikhail.

Por um momento, Won presumira que Vladimir acompanharia Leo como de costume; mas Leo fechara a porta atrás de si. Curioso.

Mikhail expressou a pergunta na mente de Won. — Volodya não virá mais, então? — Não, não, ele vem. — Leo sorriu, balançando a cabeça. — Ele teve alguns assuntos para resolver esta manhã, então combinamos de fazermos turnos. Ele virá à tarde enquanto eu lido com outros negócios.

Mikhail franziu os lábios. — Ficarei perfeitamente bem sem um de vocês me vigiando a cada hora do dia. — Ele pegou uma das mãos de Won e a segurou entre as suas, apresentando-a a Leo enquanto acariciava o dorso da mão de Won. — Não definharei sem um de vocês dois para conversar. Tenho Won aqui comigo agora, não tenho?

Um sorriso indulgente apareceu no rosto de Leo. — Certamente, certamente. — Ele ergueu as mãos em um pequeno encolher de ombros e fez uma careta teatral. — Longe de mim atrapalhar o vínculo entre pai e filho. Certificarei de marcar uma visita da próxima vez.

Os dois homens riram, então passaram a tópicos mais mundanos, como velhos amigos fazem, fluindo naturalmente para qualquer assunto que lhes viesse à mente, do clima aos méritos de certas raças de cães. E você viu a vizinha preparando seu jardim para o ano? Sempre tem as flores mais lindas, não é? Há um novo restaurante ao lado…

Won os ouviu em silêncio, sem querer se intrometer na conversa descontraída, seus tons suaves formando o zumbido perfeito ao fundo. Ele se acomodou na cadeira e deixou os sons o envolverem. E de repente, veio a ele quem enviara aquela bomba.

Quando Leo decidiu que era hora de partir, Won disse a Mikhail que já voltava e correu atrás do conselheiro. Tinha perguntas que precisavam de respostas.

— Desculpe — ele disse, esticando-se para tocar o cotovelo de Leo e chamar sua atenção — mas posso te perguntar uma coisa?

Leo terminou de ajustar seu chapéu fedora enquanto se virava, com um ar perplexo.

— Eu tinha algumas perguntas sobre o que aconteceu, — Won continuou. — Não vou tomar muito do seu tempo.

— Oh, mas eu disse ao Sr. Lomonosov-…

— Sim, ele falou comigo — Won interrompeu educadamente. — Mas há algo que queria perguntar a você, especificamente.

Uma cautela tingiu a expressão de Leo, mas ele esperou que Won explicasse.

— Obrigado — Won disse. — Eu queria saber se você poderia me dizer quem tem acesso aos meus arquivos.

— Arquivos? — Leo inclinou a cabeça.

— É, minha agenda, perfil, histórico, essas coisas. Há alguém que diz a vocês aonde vou, com quem me encontro e tal, não há?

— Não, não há nada disso, Mestre Won.

— Não há?

Vendo que Won estava à beira de um descrença estupefata, Leo explicou hesitante: — O jovem mestre é um civil; não há necessidade de invadir sua vida pessoal.

“Bom, pelo menos alguém aqui sabe o que é privacidade”, Won escarneceu internamente, recordando sua conversa ridícula com Caesar e Dmitri semanas atrás.

E ainda assim o fato de não estar sendo seguido só levantava mais questões.

— Então como você soube vir me encontrar? Eu não tinha avisado ninguém.

— Ah… — Leo fechou os olhos e baixou a cabeça, compreendendo a confusão por fim. — Vladimir me avisou.

— Como é?

O sorriso de Leo era pesaroso ao elaborar: — Ele me ligou depois de te visitar, dizendo que você recebera um pacote estranho e que tinha um mau pressentimento sobre isso. Ele me pediu para ir te ver, já que você provavelmente confiaria mais em mim do que nele.

Os olhos de Won cravaram-se no rosto de Leo. “Ele tinha dito o quê?” Won ficou tão pasmo que mal conseguia fazer mais do que ficar boquiaberto.

Leo murmurou, ainda sorrindo. — Suponho que, já que estamos falando nisso… melhor contar tudo. Na verdade, tínhamos alguém te seguindo.

Isso, pelo menos, fazia algum sentido, e Won agarrou-se à lógica como um salva-vidas.

Sim, claro que eles o tinham seguido.

— O Sr. Lomonosov ordenou a vigilância pessoalmente. Ele estava preocupado, sabia que qualquer um ligado a nós poderia estar em risco, então quis alguém lá para garantir sua segurança. O pequeno chefe, porém, removeu o acompanhamento.

Won acenou até a última frase, quando empalideceu, recuando. — O quê? Por quê? — Ele achou que não era certo violar sua privacidade assim, especialmente sem você saber. — Leo suspirou. — Tem sido… difícil. Ele se culpa, sabe? Se sente terrível. Disse que queria ter deixado a vigilância, mesmo que fosse errado.

Won observou Leo balançar a cabeça, sentindo como se o chão desabasse sob seus pés.

✦ ✦ ✦

Sozinho no quarto de hóspedes, Won finalmente teve tempo para pensar.

E pensar, ele pensou.

Sentado na beirada da cama, refletiu sobre suas ações das últimas semanas.

“O viés é uma coisa aterrorizante”, concluiu.

Ele sabia disso, é claro. Viés e preconceito podiam ser ferramentas poderosas de ilusão e ódio; mas isso era algo em uma escala muito mais traiçoeira, algo que ele nem havia considerado. E talvez fosse ainda pior por isso.

Todo esse tempo, Vladimir tinha se importado.

Eles começaram mal quando se conheceram nas fontes termais, e pela forma como Vladimir o repreendia, Won não tinha intenção de se aproximar dele depois. De fato, parecia que toda vez que se encontravam, Vladimir tinha algo desagradável a dizer.

Mas Won também não tentara muito ser amigável, não é?

E, sinceramente, ele não deveria precisar, não havia razão para forçar um relacionamento cordial que nenhum dos dois queria.

Mas havia mais do que isso. Se não houvesse, Won não estaria tão obcecado com isso.

Vladimir tinha se importado.

Mesmo pensando pela segunda vez, a ideia era tão estranha; mas ele sabia que Won não confiaria nele, então enviou Leo em seu lugar. Não era que ele quisesse que Won se machucasse; era que ele sabia que seu único poder para evitá-lo estava em enviar Leo.

Won sabia que Vladimir também não confiava nele, e ele não perderia sono por causa disso, mas isso não importava agora. Desde que se conheceram, Won desgostara de Vladimir, pensara mal dele, acreditara que ele poderia plantar uma bomba… ainda assim, Vladimir considerara seus pensamentos e sentimentos o tempo todo, mesmo não gostando de Won como pessoa.

Vladimir fizera muito por ele, Won decidiu, e querendo ou não, ele devia a Vladimir sua gratidão, no mínimo.

Nenhum dos dois era completamente inocente no desenvolvimento da rixa entre eles, mas talvez isso pudesse ser uma chance de começar do zero, sem essas noções preconcebidas os atrapalhando. Ter menos gritaria em sua vida seria um bônus, de qualquer forma.

Suspirando, Won caiu de costas no colchão, novamente se perguntando onde sua vida tinha dado tão errado. Primeiro Leonid, agora bombas pelo correio…

E, claro, tudo isso levava de volta a um certo loiro irritante com uma tendência a fazer o que bem entendesse.

“Urghhhhhh”, Won gemeu, esfregando uma mão enfaixada no rosto. Tentou socar o colchão também, mas foi longe de ser satisfatório, então resignou-se a apenas esconder os olhos sob o cotovelo.

Mas logo o som de seu telefone o arrancou de seus devaneios melancólicos. Seu braço caiu do rosto, e ele esticou o pescoço em direção ao barulho. Sentando-se, checou o número e soltou um longo suspiro.

Ele atendeu a chamada.

Vladimir entrou no quarto de Mikhail já no final da tarde, parecendo muito respeitável em um terno bem cortado. Para um estranho, Won imaginou que ele pareceria um jovem empresário administrando um negócio limpo. Tudo em ordem e acima de qualquer suspeita.

“Mas aparências enganam, não é?”

E ninguém personificava essa verdade como Caesar.

Falando nele…

Preocupado com seu pai e Vladimir, o silêncio de Caesar escapara da mente de Won por um tempo, e houve uma pontada amarga em seu peito ao se lembrar. Caesar devia saber sobre a bomba, ele sempre sabia de tudo. Por que ele não ligou?

Won tirou o telefone do bolso para encarar a falta de chamadas perdidas, como todas as outras vezes que checou.

— Você não precisa se preocupar em vir me ver se estiver ocupado-…

— Não estou.

Won manteve a cabeça baixa, espiando o par sob seus cílios. Era como assistir a um pai e seu adolescente mal-humorado, muito orgulhoso para ser qualquer coisa além de contrariado. Não ajudava muito a retificar sua primeira impressão de Vladimir como uma criança petulante em um corpo grande, apesar da revelação de que havia um homem muito mais introspectivo e atencioso dentro dele do que ele percebera.

Fingindo estar ocupado com suas próprias reflexões, Won esperou enquanto os outros dois trocavam cumprimentos. Previsivelmente, Mikhail pediu que Vladimir ficasse para o jantar, ao que Won recebeu um olhar relutante de Vladimir, como se ele achasse que Won se oporia à ideia. Ou talvez fosse o contrário, Won pensou ironicamente.

De qualquer forma, Won decidira ser mais receptivo à companhia de Vladimir, e não havia momento melhor do que o presente. — Fique — ele disse com um encolher de ombros indolente. — Por mim, tudo bem.

— Viu? — Mikhail cantarolou. — Perfeitamente bem. Fique e jante.

Com os dois insistindo, Vladimir teve pouca escolha. Seu olhar heterocromático saltou entre eles antes que ele cedesse com uma tentativa fracassada de aceno. — Obrigado.

Vendo o leve rubor em suas bochechas, ocorreu a Won que Vladimir estava constrangido. “Ele não recebe muitas gentilezas, recebe?”

De qualquer forma, suas reações espinhosas quando eram gentis com ele (e, de fato, sua própria reticência com os outros) pareciam algo que poderia facilmente ser mal interpretado como desdém.

Com um aceno mental, Won decidiu mais uma vez dar a Vladimir um pouco mais de margem. Suas novas suposições sobre a personalidade de Vladimir poderiam estar erradas, mas o estado atual das coisas era insustentável. Melhor ser pelo menos cordial um com o outro do que continuar como estavam.

Eles acabaram jantando, e Vladimir não disse uma palavra a ele.

Quando as louças foram recolhidas, Vladimir e Won deixaram Mikhail descansando em seu quarto enquanto se dirigiam a uma das salas de estar. Won não seguira Vladimir com qualquer propósito em mente, mas achou que poderia ser uma boa chance de ter uma conversa amigável, pela primeira vez.

Surpreendentemente, Vladimir foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Aqui — ele disse, estendendo algo. — Me disseram para te dar isso.

Won pegou o objeto, que se revelou um pedaço de papel dobrado ao meio. Ao abri-lo, viu um endereço de e-mail e um número de telefone anotados em letra elegante.

Vendo a expressão curiosa de Won, Vladimir explicou: — Você perguntou sobre contatar Leonid. — Ele ergueu o queixo em direção ao papel. — Esses são os contatos dele. Eu recomendo não usar o número do celular. Ele não gosta de ser perturbado e responderá em até vinte e quatro horas se você mandar um e-mail.

Vladimir colocou as mãos nos bolsos e observou Won por um momento, inclinando a cabeça. — Se não se importa que eu pergunte, o que um cidadão exemplar como você quer com Leonid, de todas as pessoas? Está encomendando um assassinato?

— O oposto, na verdade.

A boca de Won se fechou com um estalo audível, sua mente acelerando sobre o que fazer com sua admissão acidental. Ele precisava explicar? Talvez devesse pedir ajuda à Bratva? Mesmo que Leonid não tivesse colocado a bomba, ele ainda deveria matá-lo, e Won duvidava que Leonid tivesse uma mudança de coração repentina. Ele encarou o pedaço de papel, buscando respostas que ele nunca daria.

— Se Leonid está atrás de você — Vladimir começou devagar —, você não vai sair vivo. — A cabeça de Won ergueu-se bruscamente. — Ele é o melhor por um motivo — Vladimir acrescentou. — No que exatamente você se meteu? Seja o que for, é melhor encontrar uma saída, e logo. Só vai piorar daqui para frente.

Won mordeu os lábios. — Eu sei… — Ele engoliu em seco. — Aconteceu meio que sem querer. Mas obrigado — ele acrescentou. — Pelo conselho.

Até para seus próprios ouvidos, ele soava distraído.

— Ah, hum, claro…

Prestes a sair, Won parou após alguns passos e se virou.

— Foi por isso que você veio hoje, não foi? Para me dar isso?

Ele olhou para cima e viu Vladimir balançando levemente nos calcanhares. — É…não foi problema. — Vladimir limpou a garganta. — Eu já estava vindo para… — Seus olhos vagaram pela sala, como se as paredes lhe dessem um destino falso para usar como desculpa. Ele tossiu novamente. — Eu tinha que me encontrar com o Sr. Lomonosov, então não foi nada demais… É bom que você tenha conseguido o que precisava. Espero que tudo dê certo…

Won teve a sensação de que Vladimir estava procurando uma maneira de encerrar a conversa graciosamente e não fazia ideia de como. Como se não tivesse sido socializado direito na infância e ainda não entendesse interações sociais. Tipo Mogli ou Tarzan.

Talvez a completa ignorância do comportamento humano normal fosse uma coisa da máfia.

Comparar Vladimir a Caesar deu a Won uma inexplicável sensação de afeto, como se o entendesse um pouco melhor agora. Ele não tinha certeza se gostava disso.

— Ouvi dizer que foi você quem cancelou a vigilância que meu pai colocou em mim.

Um lampejo de choque cruzou o rosto de Vladimir antes que sua expressão se fechasse.

— Eu queria te agradecer por respeitar minha privacidade — Won acrescentou, sorrindo.

Vladimir piscou para ele, parecendo quase em pânico. — Não, foi… — ele conseguiu dizer por fim. — Não foi nada.

— Minha privacidade não é ‘nada’ — Won repreendeu, então acrescentou ironicamente: — Fiquei surpreso que alguém aqui respeitasse minha autonomia, pra ser honesto.

— Qualquer um faria o mesmo — Vladimir protestou, olhando-o.

Won apenas sorriu de volta, e o silêncio desceu mais uma vez. Por um breve momento, Won considerou agradecer a Vladimir por ajudá-lo com a situação da bomba e seguir seu caminho, mas Vladimir foi novamente o primeiro a falar.

— Eu exagerei… na sua casa, antes. — Won ficou surpreso, mas Vladimir continuou, seus olhos novamente vagando pela sala com desconforto. — Eu não deveria ter dito tudo aquilo. Eu estava… um pouco alterado.

Won acenou, dedicado a seu objetivo de ser amigável. — Compreensível.

Um silêncio pesado caiu entre eles, com Vladimir o observando. A expressão no rosto de Vladimir era uma que Won não conseguia nomear.

Finalmente: — Você está mesmo vendo ele?

— Estou. — A resposta de Won foi imediata. — Estou com o Czar, e daí?

A franqueza de Won pareceu pegar Vladimir desprevenido por um instante, mas seu desconcerto foi rapidamente substituído por um cenho. — Como você consegue dizer isso com uma cara séria?

— Você está na máfia. — Won soltou uma risada. — Diferente de ser parte do crime organizado, estar apaixonado não é um crime. Do que eu deveria ter vergonha?

Vladimir ficou boquiaberto antes de se recompor. — Você deveria ter vergonha de amá-lo, é disso! — Ele parecia horrorizado e visivelmente estremeceu. — Ele tentou matar o Sr. Lomonosov.

— E meu pai tentou matá-lo. Várias vezes. Qual a diferença?

— Ele é seu pai!

Won endireitou os ombros e olhou Vladimir nos olhos. — Sinto te decepcionar, mas não somos tão próximos assim.

Vladimir engasgou. — O quê?!

— Meu pai faz parte da minha vida há menos de um ano. Eu nem sabia se ele estava vivo, e não teria me importado em procurá-lo se não fosse pelo último desejo da minha mãe de dizer a ele algo que ela não pôde antes de morrer.

O desconforto irradiava de Vladimir, mas ele foi quem abriu a Caixa de Pandora, então Won não ia deixá-lo escapar.

— Eu faço o melhor pelo meu pai — Won declarou. — Talvez não seja suficiente pelos seus padrões, mas não devo justificar nada a você. Reconhecer que nosso relacionamento é independente do que você tem com ele estaria incluso em respeitar minha privacidade, não acha?

Sentindo-se claramente desequilibrado, Vladimir umedeceu os lábios, procurando por uma réplica, mas incapaz de encontrar uma. Ele estivera tão certo de que estava certo, você deveria apoiar sua família, não é? Ele presumira que tinha a moral superior e foi completamente derrubado pela presunção.

Como isso sempre parecia acontecer? Era específico de suas interações com Won. De alguma forma, ele acabava parecendo ridículo, suas críticas torcidas em intromissão. Talvez porque ele fosse advogado…

Mas até Vladimir podia admitir que a lógica era sólida. Ele não estava caindo em nenhum sofisma pretensioso. Havia algo em interagir com Won que realmente o irritava, e ele não conseguia entender por quê.

Poderia ser que sua própria animosidade em relação a Won o tornasse mais suscetível a reagir exageradamente, ele supôs, e quase estalou a língua em voz alta. Desde quando ele era tão impulsivo? Ele nunca se considerara uma pessoa imprudente, e nunca ouvira isso de mais ninguém.

“Era só com ele.” Por algum motivo, Won sabia exatamente como pressionar seus botões. Vladimir suspeitava que o advogado já tivera que falar sua saída de situações complicadas várias vezes antes.

“Esses tipos de língua afiada eram sempre os piores.”

Tendo chegado a uma conclusão plausível para seu dilema, Vladimir balançou a cabeça e decidiu que gostaria de ir embora.

— Desculpe. Só… esqueça que eu disse algo.

Se Vladimir achava que era hora de ir, Won não iria detê-lo. Vladimir hesitou por um momento descoordenado, esperando para ver se Won diria algo, mas quando ele não o fez, Vladimir finalmente se dirigiu à porta.

Só para parar um segundo depois.

Sem se virar, ele falou alto o suficiente para Won ouvir:

— Cuide-se; quando Leonid aceita um trabalho, ele sempre o conclui.

“Significando que eu sou um homem morto”, Won pensou com amargura enquanto Vladimir se retirava.

Quando finalmente ficou sozinho, Won se jogou em uma das cadeiras e estudou o pedaço de papel em sua mão. Quanto tempo passou, ele não saberia dizer, mas eventualmente se viu encarando seu telefone em vez disso.

“Caesar.”

Aquele que não mudava por nada nem por ninguém; aquele que sabia de tudo que acontecia na vida de Won, quer ele quisesse ou não. Ainda assim, não havia nada há mais de uma semana.

Won mordeu o lábio. Ele dissera que sua linha do escritório estava grampeada…

O número na tela o encarou, então Won guardou seu telefone.

✦ ✦ ✦

Em uma tarde não muito depois, Vladimir fez outra visita enquanto Mikhail estava dormindo. Vladimir vinha quase todo dia, então Won não estava particularmente surpreso com sua presença, e em nome de ser amigável, Won convidou Vladimir para esperar com ele.

— Talvez você pudesse agendar suas visitas; assim evitaria a viagem desperdiçada — Won comentou, levando Vladimir para uma das salas de estar. — Ah, mas sua agenda provavelmente é bem espontânea, suponho, então talvez não…

Eles se sentaram um de frente para o outro na mesa de reuniões.

— Não sei se vale a pena esperar — Won observou. — Ele adormeceu não faz muito tempo, então pode demorar. Mas tome um chá antes de ir, pelo menos.

Ele virou para pedir a um dos funcionários que lhes trouxesse chá.

Quando olhou novamente, porém, Vladimir estava com uma expressão estranha.

— Era algo importante? — ele perguntou. Essa parecia a razão mais provável para Vladimir parecer contrariado.

Vladimir encolheu os ombros, os olhos fixos em um ponto no chão.

— Talvez. Não realmente…

Won se inclinou um pouco para captar o olhar de Vladimir.

— Se você só precisa de um ouvido amigável, estou sempre disponível.

— Você? — Olhando para Won, o cenho de Vladimir ficou ainda mais pronunciado.

— Claro, sou advogado, lembra? Sou pago para ouvir pessoas. Não posso prometer que resolverá algo, mas posso sempre ouvir.

Para grande surpresa de Won, Vladimir soltou uma pequena risada e sorriu para ele. Pela contagem de Won, esta era a primeira vez que via Vladimir sorrir. Sim, houve aquela outra vez antes, mas como foi direcionado a Mikhail e não a ele, Won decidiu que não contava. “Ele deveria fazer isso mais frequentemente”, Won pensou consigo mesmo enquanto tomava um gole de seu chá. Isso o fazia parecer mais jovem, mais despreocupado.

— Então — Won começou, colocando sua caneca na mesa e entrelaçando os dedos. — O que está te incomodando?

Com um espasmo, Vladimir olhou para ele, parecendo um coelho encurralado. Gradualmente, ele se relaxou, mas demorou um pouco para começar a falar.

— Bem… eu… — Vladimir murmurou. Won esperou. Ele poderia ser paciente se Vladimir precisasse. Enquanto isso, especulou sobre o que poderia estar perturbando tanto Vladimir. Uma mulher? Ou a Bratva, talvez.

Um suspiro resignado saiu dos lábios de Vladimir e ele pareceu se fortalecer.

— Quando… quando você soube que era gay?

— O quê?

“Era sobre isso que Vladimir queria falar?”

— É… — Vladimir limpou a garganta. — Quero dizer… quando você descobriu? Você namorou mulheres, então como… como você soube que era… assim?

“Assim…” Won não estava especialmente encantado com a escolha de palavras, mas optou por ignorar. Muito do mundo o desprezaria por sua sexualidade, então a aparente pena de Vladimir não era tão estranha. De qualquer forma, isso também não era algo que ele jamais antecipara em sua vida, então preferiu explicar para que Vladimir pudesse entender ao invés de ficar bravo.

Coçando a nuca, Won considerou por onde começar.

— Bom, acho que antes de tudo, eu nunca fui homofóbico nem nada; eu só nunca tinha realmente… pensado sobre isso. Nunca tinha conhecido um homem com quem quisesse ficar antes dele, mas na época pareceu tão natural. Acho que é mais que eu gosto de estar com ele, do que de estar com homens em geral. Então, menos descobrir uma orientação, mais encontrar a pessoa certa para mim.

Vladimir pareceu estarrecido.

— Então você não se importa de namorar um homem porque é o Czar?!

— Parece que sim. — Won deu um encolher de ombros travesso. — Quero dizer, sinto dizer, mas se alguém me dissesse para beijar você agora, eu ficaria um pouco relutante, francamente. Imagino que seria meio horrível para você também.

Tentando garantir que Vladimir soubesse que ele falava da melhor forma possível, Won riu e olhou para Vladimir, esperando que ele também risse.

Exceto que… ele não riu.

Vladimir parecia bastante sério, na verdade. “Uma pena”, Won lamentou. “Vladimir era bem bonito quando sorria.” Mas Won não o pressionou a falar.

Eventualmente, em um murmúrio quase inaudível:

—…Não seria tão horrível.

Espere, o quê?

Won sentiu de repente um sinal de alerta soar em sua mente. Ele piscou, então acrescentou rapidamente:

— Não que eu esteja sugerindo que você saia e experimente com qualquer um, mas se você algum dia sentir isso por alguém no futuro…

— Mas isso não significaria que há uma tendência subjacente se acontecer? — Vladimir perguntou persistentemente.

“Que tipo de resposta ele está procurando?” Won ponderou por um momento. Se dar a ele a resposta que queria ajudaria, não seria muito difícil.

— Suponho que poderia ser o caso.

Won concordou simplesmente, e por um breve instante, viu uma luz estranha cintilar nos olhos de Vladimir.

— Ser gay significa gostar de homens, certo?

— Geralmente, significa se atrair pelo mesmo sexo.

Won fez uma pequena correção, e Vladimir ficou em silêncio novamente, sua expressão ficando séria. Won o observou em silêncio enquanto ele baixava a cabeça pensativo. Embora isso fosse melhor do que quando ele estava rosnando, ainda era estranho à sua própria maneira. Passar tempo com alguém que você não conhece bem nunca é fácil.

Foi então que um empregado entrou na sala para informar que Mikhail estava acordado. Won sentiu um alívio ao se levantar.

— Perfeito timing; quase desperdiçamos o dia.

— O quê?

Vladimir finalmente olhou para cima, claramente absorto em seus pensamentos, já que nem tinha ouvido o anúncio do empregado. Won sorriu ironicamente e repetiu a notícia.

— Meu pai está acordado.

— Oh…

Vladimir, parecendo atordoado, levantou-se desajeitadamente. Won não pôde evitar sorrir enquanto dava um tapinha no ombro de Vladimir.

— No que você estava pensando tão intensamente?

Era para ser um comentário descontraído, mas a resposta foi silêncio, acompanhado pelo rosto agora inexpressivo de Vladimir. Won, sentindo-se envergonhado, recuou. Sem dizer mais nada, Vladimir seguiu o empregado até o quarto de Mikhail. Deixado sozinho, Won finalmente soltou um suspiro profundo e balançou a cabeça.

Depois que Vladimir saiu, Won jantou sozinho com Mikhail em seu quarto. Desde aquele dia, Mikhail não havia saído de sua cama.

— Na minha idade, leva mais tempo para se recuperar.

Mikhail disse com ar de desculpas, mas Won apenas respondeu brevemente:

— É mesmo?

Ele não mencionou que suspeitava que Mikhail estava fingindo uma recuperação prolongada para mantê-lo por perto. Afinal, não havia mal algum em ir junto – ele não tinha mais para onde ir de qualquer maneira.

— Você parece estar se dando melhor com Vladimir.

Diante do comentário do pai, Won respondeu despreocupadamente:

— Eu não sou uma criança, e não podemos ficar rosnando um para o outro para sempre. Estamos nos dando bem o suficiente.

— Isso é bom de ouvir.

Mikhail sorriu calorosamente antes de continuar:

— Vladimir teve uma vida difícil desde criança. Seus pais biológicos o maltrataram tanto que ele quase morreu. Quando foi encontrado, os médicos disseram que ele não sobreviveria mais do que alguns dias. Nós realmente colocamos todo nosso esforço para salvá-lo. Ele ainda sofre de asma. Tenta esconder porque acha que mostrar fraqueza não combina com um chefe, mas todos sabem disso.

— Entendo.

Won respondeu suavemente:

— Ele é uma pessoa forte, forte o suficiente para liderar uma organização.

— Sim.

Mikhail acenou com satisfação.

— Eu costumava me preocupar que ele fosse muito apegado a mim, mas é um alívio vê-lo lentamente saindo da minha sombra.

Won respondeu com um sorriso gentil em vez de palavras. Ele não sabia muito sobre a organização ou Vladimir, então em situações como essa, sorrir era a melhor resposta. Enquanto retomavam a refeição, Mikhail, que estava observando Won em silêncio, falou novamente.

— Você ainda está vendo ele?

— Hmm?

Won fingiu não entender.

— Quero dizer o Czar.

Parecia que Mikhail não ia deixar o assunto passar. Desta vez, ele perguntou diretamente, deixando Won sem escolha a não ser responder.

— Ele não está aqui, então não nos vemos há algum tempo.

— Entendo…

Mikhail, incapaz de esconder sua satisfação, acrescentou:

— Sabe, há um velho ditado: ‘Longe dos olhos, longe do coração.’

Won pausou, com a faca no meio do corte do bife, e olhou para Mikhail. O homem mais velho, percebendo seu próprio desconforto, partiu um pedaço de pão, evitando contato visual.

— Eu apenas pensei nisso… A vida é parecida para todos, não acha?

— Sim.

Won respondeu indiferentemente.

— É por isso que nem minha mãe nem você jamais se casaram novamente e viveram sozinhos a vida toda.

Mikhail não conseguiu encontrar palavras para responder desta vez. Por um tempo, o único som no quarto foi o tilintar dos talheres.

— …Realmente tem que ser aquele homem?

Mikhail falou novamente quando estavam terminando a refeição.

— Há muitos outros homens por aí.

— Pai.

— E Vladimir? Se fosse ele, eu poderia…

— Pai.

Won interrompeu, sua voz mais alta desta vez, olhando para Mikhail com um olhar incomumente forte.

— Por favor, não me force a fazer algo que você mesmo não pôde fazer.

Isso encerrou a conversa. Mikhail, visivelmente desconfortável, tomou um gole de água em silêncio. Won sentiu um aperto de amargura, mas sabia que não poderia dizer algo que não sentia apenas para apaziguar seu pai.

— Descanse bem, então.

Depois de se despedir, Won foi direto para seu quarto. Ele verificou seu telefone na mesa de cabeceira, mas ainda não havia mensagens de Caesar.

✦ ✦ ✦

— Sim, olá, Sra. Nabokova… É ótimo saber que você está bem. Eu estou bem, obrigado… Sim, sobre seu processo. Infelizmente, qualquer resolução pode demorar um pouco. Algumas coisas aconteceram, e houve uma explosão no meu escritório… Sim. Todos meus arquivos estão inacessíveis no momento… Eu gostaria de ter melhores notícias também; obrigado por ser tão compreensiva… Na verdade, eu ia colocá-la em contato com uma conhecida minha. Posso atestar pela expertise legal dela…

Quando a chamada terminou e ele riscou o último nome em sua lista de clientes, Won soltou um longo suspiro e afundou na cadeira. O descanso foi breve, porém. Após cerca de um minuto de descansar os olhos, Won se sentou novamente e virou o papel, revelando uma segunda lista – de advogados desta vez. Levou a manhã inteira e mais um pouco para lidar com seus clientes, então ele esticou os braços e girou o pescoço, se preparando para outra longa sessão de ligações.

Embora transferir todos seus casos para outros advogados não fosse ideal, estava levando mais tempo do que ele esperava para voltar à vida normal, então ele determinou que o melhor curso de ação era garantir que seus clientes tivessem seus processos atendidos mais cedo ou mais tarde – especialmente se a maioria das evidências e pesquisas tivesse sumido, como ele suspeitava. O caso teria que começar do zero, não importa quem o assumisse.

Ele estava prestes a discar o primeiro número quando alguém bateu em sua porta.

— Tem alguém aqui para vê-lo, senhor.

“Me ver? Por que alguém me visitaria na casa de Mikhail? Quase ninguém sabe que estou aqui.“

Sem saber quem encontraria, Won seguiu lentamente atrás da governanta até chegarem ao hall de entrada, onde parou abruptamente.

Uma figura muito familiar se virou ao som de sua chegada, cumprimentando Won com um sorriso radiante que ele conhecia muito bem quando seus olhos se encontraram.

— Ora, olá. Que bom te ver novamente.

— O quê… — Won murmurou, incapaz de elevar a voz além disso devido ao puro espanto. Caesar não falava com ele há mais de uma semana, mas de repente aparece no hall da casa de seu pai, agindo como se nada tivesse acontecido?

Won não estava preparado para processar isso e seu cérebro engasgou antes de travar completamente.

Caesar, no entanto, levou a não-reação de Won na esportiva, abrindo os braços. — Você não vai me dar um beijo de boas-vindas? — Ele ergueu as sobrancelhas expectante.

Finalmente, o cérebro de Won voltou a funcionar e foi para lhe dizer que não, isso não é um sonho. Nenhuma fantasia de sua imaginação poderia esperar transmitir esse tipo de pretensão absoluta, a autossatisfação pomposa que o verdadeiro Caesar possuía. Nem sua mente poderia fazer justiça à beleza sobrenatural de Caesar, mas isso não vinha ao caso no momento.

Olhando com raiva através do hall, Won cruzou os braços e firmou os pés. — Venha você aqui, se quer tanto assim.

Caesar balançou a cabeça, mas um vestígio de sorriso brincou em seus lábios, como se não esperasse menos de seu pequeno advogado, e caminhou em direção a Won.

Enquanto as longas pernas de Caesar o aproximavam, a respiração de Won falhou, e ficou cada vez mais difícil respirar quanto mais perto Caesar chegava, até que Caesar estava sobre ele e os restos murchos de seus pulmões o forçaram a ofegar em uma tentativa fracassada de evitar a asfixia.

— Senti sua falta.

E então ele estava no abraço de Caesar, cercado pelo calor e pelo forte aroma de colônia, e os lábios de Caesar estavam sobre os seus. Won não precisou de incentivo para deslizar sua língua no calor da boca de Caesar, ficando na ponta dos pés para aproximar seus corpos enquanto Caesar o envolvia com os braços, tão apertado, como se quisesse fundi-los.

Era em momentos como esses que Won mais percebia o quanto estava perdido. Não importava quantas dúvidas tivesse, quanta raiva ou irritação, um toque de Caesar e tudo isso se dissolvia. Ele era massa nas mãos perfeitas de Caesar, e Won pouco podia fazer além de admitir que devia realmente amar o patife para aturar suas travessuras.

Com um suspiro resignado, Won se afastou, abaixando os calcanhares mas mantendo as mãos nos ombros de Caesar. Ele olhou para cima, dezenas de perguntas lotando sua língua; mas apenas uma saiu.

— Onde você estava?

Era uma pergunta muito simples para abranger todas as curiosidades de Won; nem mesmo era muito educada, do jeito que ele perguntou. Mas Caesar não pareceu se importar.

— Ocupado — ele respondeu e beijou a ponta do nariz de Won. — Sua casa foi restaurada — ele acrescentou antes que Won pudesse perguntar se ele estava bem. Won ficou imóvel, de olhos arregalados. — Tudo está novo em folha, você não precisará mais se preocupar com bombas ou invasores. Todos seus papéis e arquivos de trabalho também devem estar lá.

— O quê… — A voz de Won soou muito pequena em seus ouvidos. Ele… Caesar tinha… — Espere — Won disse com mais força, balançando a cabeça para se recompor. — Então você descobriu quem fez isso? Foi Leonid? Não foi ele, foi?

— Leonid? — A testa de Caesar se franziu. Isso pareceu resposta suficiente para Won. Mas se não foi Leonid…

— Talvez possamos continuar essa discussão em minha casa. Consegui uma garrafa de Château Lafleur 1982.

Won poderia ter revirado os olhos. Caesar falou como se o vinho fosse a cereja do bolo que o convenceria a ir, como se fosse um agrado. Ele esqueceu que Won era “inculto”? Uma garrafa de vinho de trezentos rublos deixava um plebeu como ele bêbado da mesma forma que qualquer vinho chique pelo qual Caesar pagou uma quantia exorbitante.

Lembrar Caesar desse fato, no entanto, não valia a energia ou o tempo desperdiçados. Assim, Won acenou com a cabeça, ficando novamente na ponta dos pés e deslizando uma mão pela nuca de Caesar para puxá-lo mais perto, podendo então mordiscar seu lábio inferior.

Eles mal tinham se tocado quando um clique horripilante veio de algum lugar atrás de Won, e ele girou a cabeça para encontrar Mikhail parado em uma das portas, olhando diretamente para ele.

“Oh não.”

O som que escapou de Won foi algo semelhante ao estertor de um pequeno mamífero, mas era o melhor que ele podia fazer com a enxurrada de puro pânico que o engolia.

Caesar, incorrigível como sempre, assumiu as formalidades. — Sr. Lomonosov, parecendo tão vigoroso como sempre; muito bom. — E só para colocar a cereja no bolo, ele puxou Won e o espremeu contra seu lado, colocando um beijo altamente autos satisfeito no topo da cabeça de Won.

— Você-! Como ousa-!! — Mikhail avançou furioso, mas estava tão vermelho no rosto que foi pouca surpresa quando houve gritos de “Sr. Lomonosov!” e “Senhor!” após apenas alguns passos, já que seu acesso de raiva quase induziu outro colapso, e sua equipe correu para mantê-lo em pé.

Won pensou que aquilo poderia ter sido o pior. Ele deveria saber que poderia piorar. Com toda a equipe convergindo para um lado, ele agora tinha uma visão clara de outro homem logo atrás deles.

Vladimir.

Depois de colocar Mikhail de volta na cama, Won encontrou Caesar relaxando em uma das salas de estar, tomando chá, com um tornozelo apoiado no joelho oposto. Toda sua postura irradiava presunção indiferente. Won parou por um instante, segurando a ponte do nariz entre o polegar e o indicador. “Um dia de paz seria pedir demais, não é?” A simples presença de Caesar exigia crise.

Won podia sentir uma enxaqueca chegando.

Soltando um suspiro cansado, Won se endireitou e foi lidar com seu namorado problemático.

— O que você está fazendo aqui? — ele exigiu, com os braços cruzados.

— Para buscá-lo, naturalmente.

— Por que agora?

— Quando mais? — Caesar arqueou uma sobrancelha e tomou outro gole de chá. — Estive bastante ocupado, como você deve se lembrar.

Os olhos de Won se estreitaram. — Mas agora você está aqui para me buscar.

— Apesar de minha agenda meticulosa, sim.

Won lhe deu um olhar sem graça, não particularmente apreciando seu “discurso espirituoso”. Caesar tinha muito a responder e uma discussão séria estava em seu futuro próximo, mas não era o momento nem o lugar. Teria que esperar.

Sempre tinha que esperar…

Won mordeu o canto interno do lábio. Desaparecer e reaparecer, aparentemente do nada, parecia ser uma especialidade de Caesar. Tinha sido o mesmo quando Caesar fingiu seu assassinato… deixando Won acreditar que Caesar estava morto até que ele reapareceu miraculosamente um dia. Ele brincava com as pessoas, e Won nem tinha certeza se Caesar sabia que estava fazendo isso. Emoções não faziam parte de seus planos.

— Você poderia ligar primeiro — Won disse por fim, sentindo-se muito cansado. — Por favor. Da próxima vez.

Os lábios de Caesar se curvaram. — Não estávamos brigando?

— Minha casa explodiu. — Won realmente precisava ensinar etiqueta de visitas e preocupação com o bem-estar alheio a Caesar?

Precisava, não é?

Ele suspirou. — Você deveria perguntar se pode ir à casa de alguém, não simplesmente aparecer. E você deveria ligar e perguntar se a pessoa está se sentindo melhor antes disso.

— Mesmo se formos inimigos?

— Mesmo se forem inimigos.

Caesar não parecia convencido, mas não fez objeções. — Você vem comigo ou fica? — foi o que ele perguntou em vez disso.

Won o encarou. Não era como se ele realmente tivesse escolha, mas Caesar gostava de agir magnânimo e dar a ilusão de escolha, independentemente.

— Espere — Won ordenou. — Preciso pegar minhas coisas.

A parte sarcástica de Won comentou que parecia que ele estava dando ordens a um cachorro gigante. Claro, ele sabia melhor do que ninguém que Caesar estava tão longe de ser o melhor amigo do homem quanto uma pessoa poderia estar.

Por um lado, Caesar de fato tinha o dom da fala humana, e Won precisava que ele usasse essa habilidade pela primeira vez na vida e respondesse algumas perguntas.

Won também teria que perguntar o que fazer sobre Leonid. Isso era algo que Won esperava que Caesar soubesse. Ele teria alguma ideia do que fazer. Mikhail obviamente também teria, mas dado seu coração fraco, Won achou melhor não incomodar seu pai com algo assim.

Perdido em pensamentos, Won não percebeu o médico da família vindo do outro lado do corredor até que quase colidiram.

— Ele está bem. — O médico sorriu. — Na verdade, não era tão sério antes, mas ele pareceu querer passar mais tempo com você.

Won lhe ofereceu um pequeno sorriso e agradeceu por cuidar tão bem de seu pai. O médico acenou com a cabeça e seguiram caminhos separados. Logo, Won estava de volta em seu quarto.

Não havia muito para Won arrumar. Alguns minutos foram suficientes para reunir a maioria de seus pertences na cama ou em seus bolsos. Assim que ele se ajoelhou para pegar os últimos itens de uma gaveta inferior, alguém bateu na porta.

Sem qualquer reconhecimento de sua parte, Won ouviu a porta se abrir e olhou por cima do ombro. Ele ficou intrigado ao ver Vladimir entrando.

Won se levantou e virou para encarar seu visitante. Seus olhos se encontraram enquanto Vladimir fechava a porta atrás de si, o pequeno clique quando a tranca se encaixou anunciando o silêncio subsequente.

A tensão pairava no ar, nenhum dos dois homens disposto a fazer mais do que observar o outro por um momento.

Vladimir foi o primeiro a falar.

— Você vai embora com Sergeyev?

Mais afirmação do que pergunta, e Won supôs que não adiantava fingir o contrário depois do que Vladimir testemunhara antes. “Eles também vão precisar conversar”, Won reafirmou para si mesmo. Vladimir não precisava saber disso, no entanto.

— Cuide do meu pai enquanto eu estiver fora. Vou tentar visitar quando puder, mas ele realmente conta com você, sabe?

Vladimir apenas murmurou em resposta, e Won teve a impressão de que ele não estava feliz com algo. O quê, ele não fazia ideia; mas enquanto observava Vladimir, o homem franziu a testa e apoiou o queixo na mão, pensativo, e Won sentiu um leve arrepio de pressentimento.

Finalmente, Vladimir soltou um suspiro resignado. Parecia ter resolvido qualquer que fosse seu dilema. Ele olhou Won diretamente nos olhos.

— Eu faço.

Essa declaração fervorosa foi recebida com ceticismo por Won.

— Fazer o quê?

Vladimir fez uma careta, mas não estava menos decidido quando disse:

— Namorar você. Já que você disse que gosta tanto de homens.

Won sentiu o queixo cair em completo desnorteio. Como? Quem…? O quê—? Ele nem conseguia começar a processar o que Vladimir acabara de dizer, muito menos identificar todos os problemas naquela afirmação. “Fazia tempo que algo não o deixava tão estupefato”, ele reconheceu com lentidão.

Forçando-se a respirar fundo e devagar, Won reuniu presença de espírito para formar algumas palavras.

— Mas… por que você…?

Não era seu momento mais eloquente, mas teria que servir. Vladimir ainda parecia bastante contrariado, de qualquer forma.

— Você pode dizer que gosta de homens o quanto quiser, mas só teve esse caso com Sergeyev. Você precisa pensar no Sr. Lomonosov e se estabelecer com alguém sério. E já que você insiste que seja um homem, eu me ofereço. Você pode ter seu homem e o Sr. Lomonosov ficará feliz. Problema resolvido.

Se possível, o queixo de Won caiu ainda mais. “Ah sim, claro, nenhuma necessidade de pensar na terceira pessoa nessa equação! Eu tenho alguma voz nisso?!”

Os últimos minutos atingiram um nível de absurdo que Won não tinha certeza se conseguia compreender. Reunindo o pouco de sanidade que lhe restava, ele se propôs a dissuadir Vladimir de seus planos malucos.

— Ei ei, espera aí. — Ele agarrou a própria testa e estalou a língua. — Não é assim que a sexualidade funciona. É como se eu dissesse que você gosta de todas as mulheres do mundo só porque é heterossexual. E antes, isso nem foi o que eu disse mesmo! Eu te falei que não me importo que o Caesar seja homem.

Ele olhou para Vladimir, orando por algum sinal de compreensão, e… não tinha certeza. “Ótimo.” Andando de um lado para outro em pura angústia, ele engoliu algumas respirações e continuou.

— Olha, eu sei que meu pai é contra meu relacionamento com Caesar. Estou bem ciente, acredite. Independentemente disso, Caesar é com quem eu quero ficar. É um ponto de discórdia, mas é uma questão que envolve apenas nós três, então embora eu aprecie o sentimento-…

Won se interrompeu e fez uma careta. “Ele realmente apreciava o sentimento?” Vladimir estava metendo o nariz onde não era chamado; não havia motivo para Won agradecê-lo, não importa quão automáticas fossem essas gentilezas. Dizer isso por educação, nesse caso, não levaria a lugar nenhum

— Bom, você deveria pelo menos tentar primeiro.

— Tentar primeiro? — Won exigiu, a raiva ardendo com a implicação. — Que diabos isso significa?

— Significa exatamente o que parece — Vladimir respondeu. — Eu vou experimentar essa coisa de “ser gay” e você tenta namorar comigo. Não importa o que aconteça, o mais importante na vida é que você tentou.

“Sim, mas como tentar qualquer coisa disso é remotamente necessário?!”

Won se perguntou se encontraria uma pedra grande o suficiente no jardim da frente para se apedrejar até a morte. “Sinceramente, qualquer coisa seria melhor do que tentar argumentar com Vladimir agora.” Ele já havia lidado com alguém tão insuportavelmente obtuso?

Seus lábios se estreitaram e seus olhos se estreitaram quando seu cérebro imediatamente lhe forneceu uma imagem de Caesar. “Certo. Ele tinha o ápice da insensatez com ele quase o tempo todo.”

— O que exatamente — uma terceira voz. Won e Vladimir se viraram — você pensa que está fazendo com meu noivo?

Won não fazia ideia de quanto tempo a porta estivera aberta com Caesar encostado na ombreira, bisbilhotando; nem sabia por que Caesar insistia nessa história de noivo, mas não teve chance de perguntar.

— Com o que parece que eu estou fazendo? — Vladimir retrucou.

— Hmm… — Caesar olhou Vladimir de cima a baixo, fixando-o com um olhar perigoso. — Alguém nunca aprendeu boas maneiras. Não se deve pegar coisas que não lhe pertencem.

— Olhe para você mesmo — Vladimir zombou.

O olhar de Caesar se voltou para Won, uma demanda tácita por explicações.

— Eu… bem… — Won atrapalhou-se para encontrar algo a dizer, mas não conseguiu. Ele bateu o dedo indicador no polegar como válvula de escape para sua energia nervosa. “Caesar poderia ter me esperado na sala de estar, mas teve que vir me procurar, e agora toda essa situação com Vladimir estava se transformando em um enorme problema sem motivo.”

— Ah, entendi o que aconteceu — Caesar falou arrastado. — Você está apaixonado. Que encantador. — As palavras eram dirigidas a Vladimir, mas os olhos de Caesar nunca se afastaram de Won.

— Não há paixão nenhuma — Vladimir pareceu ofendido. — Estou apenas disposto a tentar pelo Sr. Lomonosov.

— Tentar? — Caesar questionou, o olhar ainda fixo em Won. — E como você fará isso?

— Aparentemente, homens são melhores — o nariz de Vladimir se enrugou — então eu disse que assumiria esse papel.

— Assumir esse papel? — Caesar repetiu, os olhos se voltando bruscamente para Vladimir. — O que isso significa, exatamente?

Por mais desprovido de emoção que estivesse, o tom de Caesar era afiado o suficiente para cortar; tanto Won quanto Vladimir se tensionaram ao ouvi-lo.

Inclinando a cabeça, Caesar direcionou a Vladimir o tipo de sorriso feito para esfolar inimigos vivos.

— Continue. Estou morrendo de curiosidade.

“Merda merda merda” Won precisava desarmar essa situação agora ou um deles não sairia vivo desse quarto, e o nome dele provavelmente começava com V.

— Calem a boca, os dois! — Won pulou entre eles e começou a falar antes que Caesar pudesse continuar. — Minha vida é meu negócio. Meu. Entendido? Então os dois parem com isso ou eu juro…

Por apenas um segundo, Won hesitou. Ele precisava de alguma ameaça que funcionasse com Vladimir e Caesar, e na pressa, usou a primeira coisa que lhe veio à mente.

— Ou…ou eu juro que vou beijar meu pai. Na boca. — Ele cruzou os braços e olhou para os dois com superioridade.

Foi ao mesmo tempo surpreendente e satisfatório ver o sangue drenar de seus rostos e um silêncio completo pairar sobre o quarto. Eles realmente o tinham ouvido.

Ainda assim, a ameaça que escolhera não fez nada para aliviar a culpa que já sentia. Então, com um pedido de desculpas silencioso a Mikhail e um quieto “Vamos embora”, ele enganchou Caesar pelo braço e começou a arrastá-lo para longe.

A princípio, Caesar se recusou a sair do lugar, e Won sentiu uma onda de pânico. “Ele iria…?”

Mas então Caesar começou a andar sem uma palavra de protesto, permitindo que Won o guiasse pelo corredor.

Por mais que Won soubesse que deveria agradecer por pequenas vitórias, algo na obediência de Caesar disparou alarmes em sua cabeça; e ele não pôde evitar os fios de suspeita que se infiltraram em seu coração, cavando e apertando.

Ele ficou muito aliviado quando conseguiram sair da casa sem mais incidentes.

Continua…

⌀ ⌀ ⌀

✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna

Ler Roses and Champagne Yaoi Mangá Online

Ler o Manhwa Roses and Champagne Completo em Português Grátis Em um mundo de alto risco, Lee Won, um advogado lutando para sobreviver, se vê enredado em uma teia de intriga e perigo. Quando ele cruza o caminho de Caesar, um formidável chefe da máfia, descobre uma conexão oculta entre o Conselheiro Municipal Zdanov e o crime organizado. À medida que Lee Won se aprofunda no caso, desvenda uma conspiração sinistra que ameaça despedaçar o frágil equilíbrio da cidade. Preso entre a lei e o submundo, ele deve navegar por um jogo mortal de poder, decepção e desejos proibidos. A cada passo, o mundo de Lee Won se entrelaça com o de Caesar, enquanto ambos enfrentam seus próprios motivos ocultos e tentações proibidas. Em meio a noites regadas a champanhe e o aroma de rosas em flor, uma atração perigosa surge entre eles. À medida que os riscos aumentam e o perigo se intensifica, Lee Won deve escolher entre seus princípios e o fascínio do proibido. Em um mundo onde lealdade e traição se confrontam, ele precisa encontrar uma maneira de expor a verdade e proteger a si mesmo e aqueles que ama. Nesta envolvente história de amor, traição e a intoxicante luta pelo poder, Roses and Champagne explora a intricada dança entre desejo, dever e a frágil linha entre o bem e o mal.
Nome alternativo: Rosas Y Champagne Rosas E Champanhe Roses

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