Ler Oh my Sunshine – Capítulo 03 Online

Modo Claro

Após uma longa noite de descanso, era normal que a maioria das pessoas se sentissem revigoradas e prontas para mais um dia cheio, porém esse fato não se aplicava a mim. Na manhã seguinte acordei mais tarde que o habitual, tendo meus olhos surrados pela forte claridade que invadia o quarto sorrateiramente; abrindo meus olhos tive a visão do ambiente à minha volta, repleto de camas beliche e armários de ferro acinzentados. O local já estava vazio e estranhamente iluminado, indicando meu atraso. foi então que minhas orbes marrons escuras focaram sobre o relógio de ponteiro na parede, que marcava seis e dez da manhã, me dando a certeza de que eu havia me atrasado.

Suspirando cansado sentei-me sobre o estofado da cama, sentindo o peso exaustivo das minhas mágoas me consumirem mais uma vez. Junto a essa sensação, uma leve tontura fez minha visão girar, enquanto uma dor suave apertava meu estômago, lembrando-me de que eu não havia comido nada no jantar da noite anterior. Fechando meus olhos, respirei profundamente três vezes seguidas, reunindo coragem o suficiente para me levantar e ir na direção do meu armário. Abrindo suas portas de ferro, deparei-me com algumas roupas penduradas, outras dobradas nas prateleiras, além de itens de higiene e objetos pessoais.

Como não me restava muito tempo antes da aula começar, e sabia que se chegasse atrasado levaria uma bronca dupla ou até mesmo uma advertência, não tardei em reunir tudo que precisava e levar ao banheiro. No local, tomei uma ducha breve apenas para melhorar minha aparência cansada, oque não adiantou muito, afinal meus olhos continuavam inchados e sutilmente avermelhados. Depois de encarar meu reflexo por alguns instantes, finalmente comecei a vestir meu uniforme escolar e escovar meus dentes enquanto um turbilhão de pensamentos passavam por minha mente.

Deixando o banheiro a passos largos, voltei para meu dormitório onde deixei minhas coisas novamente largadas dentro do armário e peguei a sacola de papel que também estava ali. Nesse curto período, olhei novamente para o relógio no qual agora marcavam exatas seis horas e vinte e cinco minutos, me fazendo correr apressado para o andar de baixo. Meus passos ágeis estralavam por todo caminho até a cantina, chamando a atenção de alguns funcionários que estranharam a minha presença ali. Chegando à cantina, o vasto espaço cheio de mesas e cadeiras brancas com detalhes azuis já estava completamente vazio e bem arrumado, afinal, começavam a servir o café da manhã por volta das cinco horas, horário em que geralmente os moradores acordavam para irem à escola. Respirando profundamente para recuperar meu fôlego, fui até a área da cozinha e bati suavemente sobre a porta de madeira na tentativa de chamar a atenção de alguém ali dentro. Por conta do horário tardio, pensei que não haveria ninguém ali, mas por sorte, um senhor na casa dos sessenta anos abriu a porta e sorrio assim que me viu.

– bom dia meu filho, tudo bem com você?

O homem era simpático e tratava todos do orfanato da mesma maneira, com carinho e atenção. Meu corpo magro então se curvou em sua direção, enquanto minha voz rouca e afobada esbravejou sem pausa.

– me desculpe pelo atraso!! Perdi o horário hoje, eu sei que temos regras a seguir aqui, por isso peço desculpas ao senhor.

O homem mais velho deve ter achado minha atitude muito estranha, afinal suas sobrancelhas finas e esbranquiçadas se juntaram no centro de sua testa, enrugando ainda mais a pele da área. Logo após um instante de silêncio, o velho homem soltou uma risada anasalada e pousou sua mão sobre o topo da minha cabeça, afagando a área levemente.

– você não precisa pedir desculpas, somos todos humanos e humanos cometem erros, ou não? Você deve estar com fome, estou certo?

Meu corpo voltou a ficar ereto enquanto meus olhos brilhavam em sua direção, eu não podia negar, naquele momento eu estava morrendo de fome. O homem novamente rio e se virou, voltando para dentro da cozinha. Em poucos instantes o mesmo voltou carregando um embrulho de plástico filme no qual preservava duas fatias de pão recheadas com atum, uma maçã e uma caixinha de suco de pêssego. Assim que recebi o pacote em mãos, curvei brevemente meu corpo em agradecimento enquanto ditava.

– muito obrigado, tenha um bom dia senhor!

Depois de agradecer o mais velho e receber um sorriso em troca, voltei a correr dessa vez para fora do orfanato. Já na rua, Desembrulhei o alimento enquanto caminhava em passos firmes aproveitando o longo trajeto para me alimentar. Minha mente novamente começou a ficar turbulenta, me causando uma incomoda dor no centro da minha cabeça. Eu gostaria de não pensar muito em possíveis problemas que minhas atitudes poderiam causar, porém era quase impossível conter essa ansiedade que por si só controlava minha mente e fazia dela minha pior inimiga.

Depois de algum tempo caminhando constantemente por fim cheguei aos portões da escola, nos quais estavam prestes a fechar. Do lado de dentro não haviam muitas pessoas já que a maioria já estava em suas devidas salas de aula. Passando pelo portão de ferro, comecei a procurar Hoseok sem intenção alguma de encontrar-lo, porém ali estava ele encostado sobre a parede com seu típico uniforme escolar preto e seus cabelos vermelhos perfeitamente penteados. Seus olhos repentinamente encontraram os meus fazendo um sorriso surgir em seus lábios, o mesmo então começou a andar em passos rápidos em minha direção e logo estávamos frente a frente um com o outro; seus lábios continuavam a sorrir e repentinamente o som de sua voz foi ouvida pela primeira vez naquela manhã.

– bom dia Yoongi! Você está melhor hoje?

Engoli em seco antes de responder. Era estranho ter alguém que realmente parecia se importar comigo. Meu peito apertou por um instante, e um calor discreto subiu por todo meu corpo se concentrando especificamente sobre meu rosto – talvez pela vergonha de precisar da ajuda dele em um momento daqueles. Respirei fundo e soltei o ar devagar, tentando aliviar a tenção que ainda restava. Por fim tomei coragem para responder-lo.

– bem…sim, estou melhor hoje.

Meus olhos se desviaram para o chão por um momento, fixando-se na sacola que ainda segurava com as mãos. Estendi o braço em direção a Hoseok, sentindo seu olhar confuso sobre a embalagem de papel enquanto eu falava de forma sutil.

– são as suas roupas, muito obrigado por ter me emprestado elas ontem

Assim que terminei de falar, Hoseok sorriu novamente e estendeu o braço, dando leves tapinhas sobre meu ombro esquerdo enquanto falava em um tom animado.

– você não precisa agradecer por tudo, Yoongi. Eu fiz isso de bom grado. Agora é melhor irmos buscar nossas coisas na direção.

Por um instante, eu havia me esquecido que precisávamos buscar nossas coisas na secretaria – talvez porque a minha atenção estivesse presa à pessoa bem à minha frente. Um suspiro cansado escapou dos meus lábios, enquanto minha expressão apática voltava a dominar minha pele pálida. Eu estava preocupado. Com medo. Minha mente tornou-se turbulenta, inundada por mil e uma possibilidades. Mas, de repente, aqueles sentimentos sufocantes foram apaziguados por um calor sutil sobre minha mão, trazendo uma breve calmaria à tempestade dentro de mim.

Levantei o olhar e encontrei Hoseok, dono daquele calor incondicional que irradiava por toda minha palma. Seu toque, embora sutil, parecia dizer tudo oque eu precisava ouvir naquele momento, enquanto o brilho em seus olhos traziam a coragem que me faltava para seguir em frente. Estaria eu fazendo de Hoseok o meu porto seguro? Eu não tinha certeza. Ainda assim, por um breve momento, permiti-me ser guiado por aquela estranha sensação de impulsividade.

Sem soltar minha mão, ele deu um passo à frente, me guiando pelo corredor em direção à secretaria. Eu o segui sem preocupação alguma, como se uma névoa densa envolvesse meus pensamentos, me livrando das preocupações, ainda que momentaneamente. A secretária não ficava muito longe da entrada da escola, e logo nos vimos diante da temida sala com vidros fumê e uma porta marrom escura, sobre a qual prendia uma grande placa com as palavras ‘DIRETORIA’. Antes de bater na porta, engolimos em seco, cientes do que aconteceria quando entrássemos naquela sala. Obviamente, receberíamos uma bronca por cabular aula. Por fim, Hoseok tomou coragem e bateu na porta. Não demorou muito e a maçaneta de ferro dourado girou, abrindo a porta e revelando uma mulher de estatura média, com cabelos levemente ondulados e grisalhos. Ela usava uma saia longa preta, uma camisa branca e um casaco de lã na mesma cor. A secretária da direção nos observava com as sobrancelhas arqueadas, por trás das lentes de seus óculos. Hoseok logo tomou a frente, e com um sorriso no rosto, falou de forma respeitosa.

– bom dia senhora Kim, acredito que tenham deixado nossas mochilas aqui ontem, podemos entrar para buscar?.

A secretária cruzou os braços e nos deu passagem para entrar. Assim que adentramos o local, observei o ambiente repleto de mesas brancas com computadores, e estantes cheias de livros e documentos. As paredes, pintadas de branco, refletiam a luz fria do lugar, e o ar carregava um leve cheiro de livros antigos misturado com a tinta fresca das impressoras. Mais ao fundo, uma porta levava à sala do diretor.

Antes que pudéssemos falar ou fazer qualquer coisa, a voz rouca da mulher atrás de nós se fez presente pela primeira vez.

– Vocês são Yoongi e Hoseok, certo? O diretor quer conversar com vocês primeiro. Só depois poderão retirar seus materiais.

Naquele instante, olhei para Hoseok com os olhos trêmulos. Meu corpo vibrava em nervosismo, e minhas mãos suavam frias. Minha mente refletia o caos do meu corpo – pensamentos negativos e até mesmo um mini teatro se formavam no meu subconsciente.

A dor aguda de mais cedo voltou a latejar em minha cabeça, arrancando-me um suspiro e me forçando a apertar os olhos por um breve momento. Talvez Hoseok tenha percebido o quanto eu estava abalado, pois apertou ainda mais suas mãos em torno das minhas. Foi o suficiente para me lembrar que eu não estava sozinho.

– sigam-me

A voz da secretária soou rígida, e logo ela começou a caminhar em direção à sala do diretor. No trajeto, desviamos de algumas mesas pertencentes ao pessoal da secretaria. Os móveis, adornados com vasos de plantas e fotografias de família, traziam ao ambiente um ar acolhedor que contrastava com a tensão em nossos passos.

Em poucos instantes, paramos diante da porta do diretor. Feita de vidro fosco e emoldurada por ferro pintado de preto, sua presença era imponente. No centro do vidro escuro, letras grandes e marcantes formavam a palavra “DIRETOR”.

Eu e Hoseok nos encaramos por breves segundos. Seu rosto já não trazia o habitual sorriso. Em seu lugar, uma expressão neutra, carregada de incertezas, tomava conta de suas feições.

Ao nosso lado, a secretária bateu suavemente na porta – o som ecoou por toda a sala. Uma voz igualmente rígida respondeu de dentro, autorizando a entrada pela pesada porta de ferro.

– Com licença, senhor Kim. Os garotos Hoseok e Yoongi estão aqui.

Assim que a porta se abriu, fomos recebidos por um ambiente frio e organizado. As paredes brancas e vazias pareciam ampliar ainda mais o peso daquela sala. No canto, uma estante discreta exibia livros e troféus, mas nenhum deles conseguia desviar minha atenção da mesa de vidro no centro, cuja moldura de madeira escura reforçava a seriedade do lugar. Sobre ela, repousavam papéis, um computador e alguns adornos, todos impecavelmente dispostos.

Do outro lado, o diretor nos observava com olhos afiados. Trajava uma camisa branca impecável, coberta por um blazer preto, e sua postura rígida reforçava o clima de tensão. Os cotovelos apoiados na mesa e as mãos unidas diante do rosto davam-lhe uma aparência calculada, quase intimidadora. Sua pele pálida, os cabelos penteados para trás e a ausência de qualquer sorriso só contribuíam para o peso daquele momento.

Por fim, Hoseok e eu adentramos a sala sob o olhar intenso do diretor. Naquele instante, meu coração voltou a disparar enquanto sentia a mão de Hoseok suar contra a minha, revelando seu nervosismo. A secretária saiu em pleno silêncio, deixando apenas nós três ali.

Antes de qualquer palavra, curvamos nossos corpos em sinal de respeito ao homem mais velho à nossa frente. Foi então que ouvimos novamente aquela voz grave que nos causava arrepios.

– Acredito que saibam o motivo pelo qual os chamei aqui. Estou certo?

Endireitamos os corpos de imediato, cruzando as mãos para trás em um gesto de redenção. Ainda assim, Hoseok não soltou a minha mão, apertando-a suavemente, como se quisesse me dar apoio.

Mas, em vez de me acalmar, aquilo só fez meu peito apertar mais. Eu sabia que ele disse, na tarde anterior, que não sentia pena de mim, que só queria ser meu amigo – mas e se ele estivesse mentindo? E se estivesse apenas tentando ser gentil porque ficou assustado ao me ver daquele jeito?. Esses pensamentos me corroíam por dentro, e quanto mais tentava afastá-los, mais eles se aglomeravam na minha cabeça. Talvez ele só estivesse aqui porque sentia que devia fazer isso… porque achava que eu não conseguiria lidar com aquilo sozinho.

Respirei fundo, tentando sufocar os pensamentos. Precisava me concentrar no que realmente importava ali. Precisava falar alguma coisa antes que o silêncio piorasse a situação.

Abri a boca, reunindo o pouco de coragem que ainda me restava, mas, antes que eu pudesse pronunciar qualquer palavra, a voz calma e educada de Jung cortou o ar.

– Sabemos, sim, senhor. Gostaríamos de pedir desculpas e garantir que isso não voltará a acontecer.

Naquele momento, soltei o ar preso em meus pulmões e relaxei os ombros, alimentando a ilusão de que tudo poderia terminar ali. Porém, eu estava errado. Assim que Hoseok terminou de falar, suas costas se curvaram brevemente em sinal de respeito. Eu, obviamente, o segui, mesmo que em profundo silêncio. Mas parecia que nossa educação e nossos pedidos de desculpa não seriam suficientes. Quando os olhos de Hoseok se cruzaram com os meus, um ranger ecoou por toda a sala. E, ao voltarmos o olhar para a mesa à nossa frente, lá estava o diretor, em pé, ajustando suas vestes impecáveis. O olhar fumegante que ele lançou sobre nós provocou um arrepio em nossos corpos, antes que sua voz grave e rígida cortasse o silêncio do ambiente.

– Vocês acham que um simples pedido de desculpas será suficiente para saírem impunes? Antes de mais nada, quero lembrá-los de onde estão.

Com as mãos para trás, o homem de postura esbelta começou a caminhar calmamente, contornando toda a mesa até alcançar uma pequena estante encostada na parede. Dali, ele retirou um grosso livro de capa vermelha, com uma inscrição dourada centralizada que dizia: “Regras Escolares”. Voltando à mesa, ele se sentou e bateu o livro contra o tampo, produzindo um barulho alto que nos fez recuar, assustados. Apesar do gesto, sua expressão permanecia imperturbável, o que tornava o ambiente ainda mais sufocante. Então, seus lábios se moveram novamente, despejando palavras duras sobre nós.

– Sabem o que é isso?

– Sim, sabemos. – Hoseok e eu respondemos em uníssono. Nossos corpos tremiam de nervosismo, enquanto nossas palmas, unidas, suavam sem parar. Agora tínhamos certeza: a bronca seria inevitável.

Assim que respondemos, o diretor voltou a falar, e dessa vez parecia que não iria parar tão cedo.

– Vocês estão cientes de que esta é uma escola, onde regras e respeito andam lado a lado, correto?! Então, por que desrespeitaram a única lei mais importante daqui?! Cabular aula é um grande desrespeito com os professores, especialmente quando saem no meio de uma explicação.

Ao terminar, seus olhos imediatamente recaíram sobre mim. Eu sabia que aquelas palavras duras eram direcionadas a mim. Naquele instante, meu coração fraquejou; as batidas apertadas fizeram surgir um nó na garganta, e tudo o que eu queria era desaparecer daquele lugar e nunca mais voltar. Eu tinha certeza de que o professor havia conversado com o diretor sobre meu comportamento, mas também sabia que ele estava exagerando ou até mentindo sobre a explicação. Afinal, ele apenas falava sobre as notas enquanto bajulava algumas garotas que, mesmo sem se esforçarem, recebiam pontuações altíssimas. Porém, de que adiantava retrucar naquele momento? Ninguém ouviria minha voz – a voz de um simples estudante.

Respirei fundo e reuni a coragem necessária para falar. Minha voz saiu baixa e trêmula, denunciando o quão nervoso eu estava. Assim que terminei, minhas mãos tremiam como galhos ao vento.

– Desculpe, senhor Kim… tudo isso é culpa minha. O senhor tem todo o direito de me punir… mas, por favor, deixe o Hoseok fora disso. Ele não tem culpa alguma.

Hoseok imediatamente olhou para mim com os olhos arregalados, seu rosto pálido e os lábios trêmulos, incapaz de reagir. Sua voz, baixa como um sussurro, rompeu o silêncio.

– Yoongi… não…

Eu sabia que não precisava carregar toda a culpa sozinho, mas toda aquela situação havia começado porque eu fugi, como sempre fazia quando enfrentava problemas. Com um leve suspiro, tomei a iniciativa de afagar suavemente a mão de Hoseok com o polegar, tentando transmitir que estava no controle da situação. Ou, pelo menos, era isso que eu queria acreditar.

– Acabaram com esse drama todo? Mostrem algum respeito a quem está na sua frente.

A voz cortante do diretor rasgou o breve clima de confiança entre Hoseok e eu, fazendo nossos olhares se voltarem novamente para ele. Sua face rígida parecia ainda mais severa sob o peso da situação.

– Ainda bem que sabe que a culpa é sua, Yoongi. Você é um dos piores alunos desta escola. Suas notas são péssimas e seu comportamento, pior ainda. Todos os professores reclamam que você nunca participa de trabalhos em grupo, apresentações ou aulas na quadra. Além disso, é um repetente. Por acaso quer repetir de novo? Ou será expulso de vez? Já parou para pensar em como seus pais vão reagir se você repetir de ano outra vez, ou, pior, for expulso?!

Suas palavras ásperas tocaram meu coração de forma cruel, rompendo minha cicatriz mais profunda e fazendo-a sangrar novamente. Naquele momento, a última coisa que eu queria ouvir era sobre meus pais e a possibilidade de decepcioná-los. Como poderiam se decepcionar comigo, se nem ao menos estavam ali? O nó em minha garganta apertava mais a cada segundo, dificultando minha respiração. O ambiente pesado não ajudava; eu podia sentir os olhos fumegantes do diretor fixos em mim, tornando meu corpo insuportavelmente pesado.

Pouco a pouco, eu me via caindo em um buraco fundo que eu mesmo havia criado. Memórias daquele dia fatídico voltavam para me atormentar, enquanto minha consciência se tornava distante. Queria correr dali, desaparecer para nunca mais voltar, mas meu corpo parecia não responder. Meus pés estavam colados ao chão, tremendo incessantemente. Meus olhos ardiam, cheios de lágrimas que teimavam em não cair, como se até isso fosse um esforço impossível.

Tentei ser forte. Tentei me manter firme. Mas a cada instante, o peso se tornava insuportável. Afundando naquele buraco, tudo ao meu redor parecia escurecer. Os sons ficaram tão distantes quanto meus próprios pensamentos. Meu coração acelerado fazia o ar faltar em meus pulmões, e, enquanto minha visão se apagava, eu percebi que já não tinha mais controle sobre mim mesmo.

De repente, minha visão se apagou por completo, e um baque forte sacudiu meu corpo. O ar já me faltava, e agora uma dor insuportável pressionava meu peito, como se estivesse me esmagando. Senti-me tão inútil. Sabia que estava entrando em uma crise, mas, mesmo assim, tentei ser forte. Queria evitar que tudo piorasse, mas acabei fazendo exatamente o contrário.

Não via nem ouvia mais nada, exceto o som irregular da minha respiração e as batidas frenéticas do meu coração, que pareciam querer explodir para fora do peito. Lembro-me vagamente de sentir meu corpo ser erguido, enquanto vozes distorcidas gritavam meu nome em desespero. No entanto, eu não conseguia reagir. Estava preso dentro de mim mesmo, incapaz de escapar daquele pesadelo que meu próprio corpo havia criado.

Acordei horas depois, com todo o corpo dolorido e uma dor de cabeça latejante que parecia me consumir. Minha mente, agora mais tranquila, começou a registrar sons suaves e intermitentes, um apito constante que vinha, ao que tudo indicava, de uma máquina de monitoramento de sinais vitais.

Meus olhos tentaram se abrir, pesados pelo cansaço e pelas lágrimas secas, mas logo foram atingidos pela luz forte acima de mim. Pisquei várias vezes até minha visão estabilizar, permitindo que eu observasse o ambiente ao meu redor. Tudo era branco, desde as paredes até o teto, iluminado por luminárias quadradas que projetavam uma claridade quase opressiva. O espaço era simples, com poucos móveis, e o cheiro penetrante de desinfetante hospitalar preenchia o ar.

Ao meu lado, um suporte segurava dois sacos de soro: um maior e outro menor. Atrás deles, notei um terceiro saco, de tamanho médio, contendo um líquido escuro e desconhecido, que despertou minha curiosidade. Ao lado do suporte estava a máquina que emitia aquele som constante, confirmando minha suspeita inicial. Aquela atmosfera asséptica e o zumbido dos aparelhos me lembravam, de forma quase cruel, onde eu estava e por que tinha chegado ali.

Fechei os olhos novamente e inspirei profundamente, soltando, junto ao ar, o peso que parecia sufocar minha alma. Minha mente, por um momento, estava estranhamente calma, quase silenciosa demais. Esse estado me impedia de pensar com clareza ou mesmo de sentir as emoções que normalmente me consumiriam. O efeito do medicamento, administrado no caminho ou já no hospital – não tinha certeza -, ainda dominava meu corpo.

De repente, algo me veio à mente. Sentei-me na cama num movimento abrupto, olhando ao redor, aflito, mas o quarto estava vazio. Então, a lembrança de Hoseok invadiu minha cabeça. Ele devia estar preocupado comigo, e provavelmente foi ele quem me pegou no colo e gritava daquela forma desesperada. Meu rosto ficou quente, minhas bochechas coraram suavemente, envergonhado pela situação que causei. Ao mesmo tempo, a preocupação crescia em meu peito. Como ele teria reagido? Como estaria agora?

Lancei um olhar pela janela ao meu lado esquerdo e notei que a noite já havia caído. Não fazia ideia de que horas eram. Meu celular não estava comigo e, para piorar, não havia um relógio no quarto. Enquanto esses pensamentos rondavam minha mente, a porta na extremidade oposta do quarto se abriu, revelando a figura de uma mulher de idade avançada. Seus cabelos brancos estavam presos em um coque desajeitado, e sua postura curvada carregava o peso dos anos. O semblante abatido em seu rosto e a linha contraída de suas sobrancelhas revelavam sua preocupação.

Ela era a mulher que eu considerava minha segunda mãe, a única pessoa que me deu amor e carinho nos momentos mais difíceis. Mas, ao vê-la assim, tão velha e cansada, um pensamento cruel cruzou minha mente: ela não deveria estar se preocupando com alguém como eu. Suspirei profundamente, tentando afastar essa ideia ingrata.

Assim que percebeu que eu estava acordado, ela correu em minha direção, seus passos ecoando no chão de azulejos claros. Sua voz rouca, porém gentil, me envolveu como um cobertor reconfortante:

– Yoongi, querido, como se sente? Fiquei tão preocupada quando a escola me ligou.

Demorei alguns segundos para responder à mulher, afinal, meu corpo e mente ainda estavam se acostumando a todas aquelas informações recém-captadas. Assim que minha mente assimilou o recado, meus lábios formaram um sorriso sutil, enquanto minha voz ecoava, mais rouca que o normal.

– Eu estou bem… Desculpa, eu te deixei preocupada novamente.

Assim que terminei de falar, uma leve coceira subiu pela minha garganta, provocando uma tosse seca. A senhora ao meu lado se apressou, pegando um copo e enchendo-o com água de uma jarra de vidro ao lado da cama. Ela me entregou o copo de plástico branco, e eu bebi o líquido, por fim acalmando a tosse.

A mulher se aproximou ainda mais e tocou meus cabelos, fazendo um carinho leve na área da minha cabeça. Não demorou muito para que ela voltasse a falar, ainda me acarinhando.

– Já te disse que não precisa pedir desculpas, querido. Você sabe que eu me preocupo com você, não sabe?

Mais uma vez, um sorriso surgiu em meus lábios pálidos e, tomado por um impulso, abracei a mais velha, que rapidamente retribuiu o gesto, afagando minhas costas. Aquele momento de carinho trouxe ainda mais calmaria. Meu coração, antes tão agitado, agora batia suavemente, acompanhado de uma respiração que já não doía mais. Meus olhos se fecharam enquanto meu rosto descansava sobre seu peito. Ali, eu podia ouvir as batidas do coração dela, calmas e suaves, tão tranquilas quanto eu me sentia naquele instante.

Repentinamente, a porta do quarto se abriu, revelando a figura alta e esbelta de um homem completamente trajado de branco. Seus cabelos castanhos-escuros, presos em um rabo de cavalo frouxo, caíam na altura dos ombros. Seu rosto, de traços marcantes, estava parcialmente escondido pela máscara cirúrgica. Ele se aproximou e sorriu com os olhos em minha direção enquanto dizia:

– Yoongi! Que bom te ver acordado. Como você está se sentindo?

Assim que o homem se dirigiu a mim, desfiz o abraço com a mulher e olhei para o médico, ainda um tanto anestesiado.

– Me sinto bem melhor agora, doutor. Quando posso sair?

O médico se aproximou da cama com uma prancheta em mãos. Seus olhos estavam fixos no papel enquanto respondia:

– Bem… Além daquela crise, você também está com anemia. Quero te deixar em observação por pelo menos três dias, enquanto toma remédios pela veia.

Obtendo a resposta, abaixei o olhar e soltei um longo suspiro. Eu detestava hospitais. Não queria ficar ali e, além disso, pensava em Hoseok. Não queria deixá-lo ainda mais preocupado do que já devia estar.

– E… Quanto ao meu coração, doutor?

Minha voz agora soava melancólica, chamando a atenção até mesmo do médico. Percebendo o clima apático que se formava no quarto, o homem de branco sorriu e respondeu com uma pontada de provocação em sua fala:

– Não se preocupe! Seu coração está bem. Vi que você tem histórico de um sopro cardíaco, mas parece que ele já está praticamente curado. Ei, garoto, não se preocupe tanto! Sua namorada não vai largar de você só porque sumiu alguns dias.

O médico finalizou a frase com uma leve risada provocante, me deixando completamente estático. Era comum que garotos da minha idade já tivessem uma namorada, mas isso obviamente não se aplicava a mim.

– Bem… Na verdade, estou preocupado com meu amigo. Eu não namoro.

Terminando de falar, pude contemplar a face surpresa do médico, mesmo que por baixo daquela máscara branca. Seus olhos agora estavam estatelados, enquanto a ponta de suas orelhas era tomada por um rubor avermelhado. O clima dentro do quarto repentinamente se tornou silencioso novamente, ouvindo-se apenas o barulho daquela máquina e os sons externos. O médico agora parecia sem graça; talvez não estivesse esperando por aquela resposta e, por isso, ficou assim, estático.

Passaram-se alguns poucos minutos e, por fim, o médico pigarreou, voltando a olhar a prancheta em suas mãos enquanto ditava:

— Bem… então… é só isso. Vamos cuidar da sua saúde física e mental aqui, e ainda vou te deixar livre por uma semana. Me parece que você não anda muito bem, estou certo?

Agora quem havia ficado em silêncio era eu. Realmente, eu admitia que não estava bem. Minha cabeça doía, e meu peito parecia sem ar só de pensar em voltar para aquela escola. Eu estava cansado, não apenas fisicamente, mas também emocionalmente. Ainda assim, não queria me consultar com um especialista; afinal, eles nunca entenderiam o que eu estou passando.

Respirando profundamente, soltei o ar enquanto tentava me livrar daqueles pensamentos problemáticos. Voltei a olhar para o homem à minha frente e respondi, tentando contornar a situação:

— Acho que uma semana já basta. Obrigado, doutor.

O médico pareceu entender que aquele era o fim da linha para a conversa. Baixando a pasta em suas mãos, o homem suspirou levemente. Seu rosto tinha uma expressão preocupada; seus olhos escuros estremeceram, talvez na procura de um meio-termo para aquela situação. Mas eu estava decidido: não queria terapia nem remédios que me deixassem chapado, pois sabia que a única resposta que dariam aos meus problemas seria: “É apenas uma fase da adolescência”.

Quando eu era criança, aquela senhora a quem eu considerava minha mãe de coração havia me levado a um especialista que dissera exatamente a mesma coisa. “Isso é uma fase…” Mas quanto tempo dura uma fase? Anos? Séculos? Quanto tempo mais vou ter que conviver com esse sentimento de peso dentro de mim? Falando a verdade, todos pensam que depressão, ansiedade, crises de pânico e outros problemas não passam de frescuras criadas para chamar atenção. Mas talvez esse não seja o ponto. Porque eu daria tudo para me ver livre dessa depressão e recriar em mim aquele garotinho de quatro anos, alegre e saltitante.

Só que eu não podia mudar o passado, nem voltar para ele. Mesmo que seja frustrante e impossível alterar o que aconteceu, o futuro, ainda que moldável, me assusta. Tenho medo do que ele tem a me proporcionar.

Na minha vida, eu nunca pedi nada demais, apenas amor, carinho e compreensão. Mas essas eram as coisas que eu menos tinha. Por quanto tempo ainda vou ter que aturar isso? Estou cansado de tentar e não sair do mesmo lugar.

— Tudo bem, tente dormir um pouco agora. Eu volto amanhã de manhã para ver como você está.

De repente, a voz serena do médico cortou meus pensamentos, trazendo-me de volta ao mundo real. Olhei para ele e respondi no mesmo tom tranquilo:

— Obrigado, tenha uma boa noite de trabalho, doutor.

O médico sorriu por baixo da máscara, e seus olhos acompanharam o gesto, tornando-se duas linhas tênues em seu rosto. Ele se virou e saiu do quarto, deixando apenas eu e minha segunda mãe ali. A mais velha sorriu em silêncio e, mais uma vez, levou a mão até o topo da minha cabeça, acariciando-a suavemente.

Aquela sensação confortável trouxe-me uma calmaria que eu não sentia há tempos. Aos poucos, uma leve sonolência começou a se intensificar. Voltei a deitar na cama nada confortável do hospital e me aconcheguei sob os lençóis azul-claro. A mão enrugada da mulher continuou o carinho por mais algum tempo, enquanto um sorriso sereno permanecia estampado em seus lábios rosados.

Não sei ao certo quando ela parou, muito menos quando adormeci. Quando me dei conta, já estava com os olhos fechados, enquanto a sensação de sonolência me carregava cada vez mais longe, rumo à terra dos sonhos. Por

fim, mergulhei em um sono profundo mais uma vez.

Continua…

 

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“A depressão é uma doença na qual atinge duas em cada cinco pessoas mundo a fora; dentre essas pessoas temos jovens, adultos, crianças e idosos. porém a maioria dos casos são levados como “frescura” e não são tratados como deveriam, OQue leva a milhões de suicídios principalmente entre o público jovem.”
Fora de artigos científicos, está é minha história dês de meus dez anos de idade, quando fui abandonado em um orfanato por meus pais…creci solitário e aprendi a ser solitário, foi quando as crises de anciedade e automutilações começaram a surgir.
Fechado em meu próprio mundo, sentia como se nada fizesse sentido a minha volta, ao mesmo, pensava ser invisível aos olhos dos outros; contudo, certo dia, meus olhos manchados de amargura encontraram os seus cheios de um brilho vivaz.
                                                      -Min Yoongi-

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