Ler No fim do inverno – Capítulo 05 Online
O Belo Monstro.
A Terra da Morte.
Esse era o nome do vasto ermo que dividia o Sul e o Norte.
Tão imensa era sua paisagem que, uma vez perdido em seu interior, alguém só veria horizontes áridos em todas as direções e, inevitavelmente, perderia toda a esperança.
Mesmo assim, apenas alguns anos, muitas crianças do Norte não tiveram escolha a não ser fugir para a Terra da Morte.
Dividido por inúmeras tribos e guerras constantes, o Norte produzia um fluxo interminável de órfãos que, sem refúgio, eram obrigados a buscar abrigo na própria terra que supostamente garantia a morte.
As razões para a guerra eram muitas: disputar os poucos trechos férteis de terra, roubar comida, atacar antes de serem atacados…
E as crianças indefesas eram as primeiras a sofrer.
Mas a tragédia não terminava aí, pois essas mesmas crianças cresciam e se tornavam soldados de guerra, perpetuando o mesmo ciclo de miséria.
Johannes era uma daquelas crianças que um dia haviam fugido para a Terra da Morte.
Viu seus pais serem massacrados diante de seus olhos, fugiu entre lágrimas e sangue, e se jogara no vasto deserto enquanto era perseguido por aqueles que queriam sua vida.
Ele correu para o sul. Apenas para o sul.
Acreditava que, se continuasse correndo, talvez um dia chegasse a terras desconhecidas. E se não houvesse nada além, apenas mais deserto, então que assim fosse.
Mas a vontade de viver de uma criança não o deixava desistir.
Talvez ele tenha sobrevivido porque não estava sozinho.
— É capim. Podemos mastigar isso para sobreviver.
— E se for venenoso?
— Se não comermos, vamos morrer de fome de qualquer jeito.
O pequeno Glenton encontrou o mato atrás de uma pedra. O jovem Lowell recuou, cauteloso e desconfiado. Mas quando Johannes mastigou e engoliu sem sofrer danos, os outros seguiram seu exemplo.
Tinha um gosto horrível, mas era comestível. A umidade era como um orvalho enviado pelos deuses.
Eles sobreviveram a incontáveis dias assim, avançando firmemente para o sul, sustentados por ocasionais tufos de mato. Quando a sorte estava ao seu lado, encontravam até frutinhas.
E no fim, alcançaram não mais deserto, mas um horizonte aberto e verdejante.
— Conseguimos! Nós realmente conseguimos!
Repetiram esse mesmo grito inúmeras vezes, mas nunca se cansaram dele. Era algo tão avassalador, tão alegre, que só podia ser real.
Aquela terra, souberam depois, era o reino do sul chamado Tranche, algo que descobriram enquanto mendigavam. Foi também onde aprenderam que órfãos não precisavam mais fugir e se esconder — podiam viver em orfanatos.
Assim, para Johannes, Tranche foi uma terra que havia salvado sua vida. Especificamente, a Casa Pavlone.
Mais precisamente, graças ao orfanato estabelecido por aquela nobre família.
— Tem algo estranho.
Johannes murmurou enquanto liderava a escolta real.
Eles haviam entrado na Terra da Morte, e ela não era como se lembrava. A terra, que deveria ser estéril, agora fervilhava com uma vitalidade estranha.
Com uma expressão séria e confusa, Johannes observou ao redor. Lowell, cavalgando ao seu lado, concordou com um aceno.
— Eu estive fora por tempo demais, ou minha memória está falhando?
— Não, também está diferente do que eu lembro.
Eles haviam cruzado a Terra da Morte quando crianças. Tinham dez anos quando chegaram ao Sul, doze quando retornaram ao Norte.
E mesmo assim, era a lembrança mais inesquecível de suas vidas.
O lugar deveria ser apenas areia seca e poeira sufocante…
— Então era isso que queriam dizer com “o mato está crescendo”?
— Difícil continuar chamando isso de Terra da Morte agora.
Johannes murmurou incrédulo, e Lowell concordou.
Mesmo naquela época, havia pequenos trechos de capim, mas isso era algo completamente diferente.
Agora havia pradarias, vastas e extensas.
— Quem diabos escreveu aquele relatório?
Johannes levou a mão na testa e suspirou. Lembrou-se do relatório, com uma caligrafia torta como minhocas, preguiçosa e quase ilegível.
Ele havia ignorado, pois parecia um problema menor.
Lowell riu com desdém.
— Agora dá até para criar gado aqui.
— Fiquei focado demais na região ártica e negligenciei isso.
— Pois é. Quem era o oficial responsável?
Claramente, ninguém levou a Terra da Morte a sério — nem o autor do relatório, nem o rei que usou isso como desculpa para vir até aqui, nem o mago arrastado para investigar.
Os olhos azuis de Johannes brilharam em confusão.
Ele ainda não sabia como interpretar essa mudança. Foi então que Lowell falou:
— Teremos que investigar mais, porém isso não parece ser um mau sinal.
— Por que você acha isso?
Johannes perguntou em um tom baixo. Lowell bateu na própria cabeça com um dedo.
— Seu cérebro é só enfeite, Majestade? Se a terra está se recuperando, fica mais fácil comercializar com o Sul, teremos mais recursos. A vida vai melhorar.
— …
— Você realmente não entende?
— Você não está vendo isso aqui?
Johannes levou a mão ao punho da espada na cintura. Lowell calou-se imediatamente.
Tendo lidado com seu amigo insolente, Johannes voltou o olhar para o horizonte. Em seus olhos azuis como gelo, a outrora cruel e vasta terra desolada, tão imensa e aterrorizante para uma criança, agora estava tingida de verde e reflexos.
O som de cascos ecoou pelo chão.
‘Talvez Lowell esteja certo. Pasto é bem melhor para o povo do que deserto.’
Com essa conclusão silenciosa, Johannes soltou um suspiro de alívio.
Ele carregava um fardo pesado e silencioso de preocupação.
Comparado a Tranche, tão quente e radiante de cores, Nordisch parecia terrivelmente sombrio.
O homem havia trabalhado incansavelmente para tornar seu reino habitável, mas ainda se preocupava como pareceria aos olhos de Eunice.
Temia que a atmosfera desolada se mostrasse cedo demais, começando pela Terra da Morte.
— Parece… mais próspero agora.
Vendo seu rei se perder em seus próprios pensamentos, Lowell estalou a língua.
— O que quer dizer com “próspero”? Você está delirando.
O máximo que podiam esperar era que essa nobre Pavlone não achasse tudo patético. A Terra da Morte, a capital Berzan, tudo.
Lowell tinha uma resposta afiada pronta, mas bastou um olhar para o próprio lábio machucado para decidir ficar quieto.
É avassalador.
Eunice passou os últimos dias olhando silenciosamente a paisagem infinita pela janela, engolindo o aperto no peito.
Ainda não conseguia acreditar que estava viajando tão ao norte. Mesmo com a carruagem avançando firmemente, tudo parecia surreal.
Devemos estar perto agora.
Ela apertou inconscientemente o tecido do vestido. Suas palmas estavam úmidas de suor.
Eles deveriam encontrar a escolta real de Nordisch em um ponto intermediário. O que significava que haviam cruzado apenas metade da Terra da Morte.
De repente, ela compreendeu o quão inacreditável era que “as crianças da morte” tinham conseguido chegar até Saint Laurent, sendo tão pequenas e indefesas.
Agora, com Nordisch unificado, uma rota comercial relativamente segura havia sido aberta entre o Norte e o Sul. Mas naquela época, ela não existia. Não havia marcadores ou guias através do vasto deserto.
Nesse momento, um pilar de pedra passou pela janela. Um dos marcadores espaçados regularmente, indicando a distância restante. Embaixadas diplomáticas esparsas, mercadores de pedras preciosas do Norte, comerciantes de luxo do Sul — todos dependiam desses pilares para se orientar.
A carruagem começou a diminuir a velocidade. Chegaram ao ponto de encontro designado. Eunice prendeu a respiração.
Murmúrios na frente da comitiva aumentaram. Cascos se aproximavam. Seus olhos verdes se voltaram instintivamente para o som.
E, naquele momento—
— Ah…
Eunice não conseguiu desviar o olhar do homem montado em um cavalo branco como a neve. Nenhuma apresentação era necessária — de alguma forma, ela sabia.
Era impossível o rei ter vindo pessoalmente… e mesmo assim.
“Dizem que ele é terrivelmente cruel e selvagem.”
“Foi assim que conseguiu unificar o Norte hostil.”
“Ele governa pela força e medo.”
Johannes Reinhardt.
Seu cabelo prateado brilhava como se tivesse sido talhado com a própria luz da lua, esvoaçando suavemente ao vento seco. Seus olhos azul como gelo a encaravam, frios o suficiente para se assemelharem a cristais. Ele não parecia humano — mais como uma estátua esculpida em gelo.
Se os rumores fossem verdadeiros, esse homem era, sem dúvida, um monstro.
Mas um monstro de beleza excepcional.
Continua…
Tradução Elisa Erzet
Ler No fim do inverno Yaoi Mangá Online
— Tenha um filho de Johannes, Reinhardt, e solidifique a aliança.
Ela estava prestes a ser enviada como uma espécie de refém para o infame governante do Norte, conhecido por sua crueldade.
— Por favor… Que ele não seja tão aterrorizante quanto dizem os rumores.
Com o coração cheio de medo, Eunice parte rumo à terra desconhecida do inverno…
— Perdão, sinto muito, não quis te assustar.
— Você é bonita mesmo sem maquiagem. Sinceramente, não consigo ver diferença.
— Quando estivermos só nós dois, me chame pelo nome.
O afeto inexplicável do rei… Seria apenas um capricho, ou algo genuíno?
Johannes, se lembra da garota como um raio de sol, e Eunice, não reconhece o menino antes tão mal-humorado.
Um doce romance de inverno sobre cura e reencontros, entre Eunice, que viveu uma vida inteira lutando para ser amada, e Johannes, que a ama incondicionalmente pelo que ela é.
Uma das frases favoritas dessa tradutora aqui.
— Está tudo bem se você não provar a sua utilidade.