Ler Laços profanos – Capítulo 01 Online

Modo Claro

 

    1. Ah… os humanos, sempre tão previsíveis. São capazes de arruinar as próprias vidas por pura ganância e, quando se veem diante da morte, rastejam até o altar do divino, implorando por clemência diante de seus pecados.

Durante séculos, nós — os demônios — fomos retratados como criaturas cruéis, semeadores da dor e da discórdia. Porém, os verdadeiros monstros dessa história são os próprios humanos: matam por fé, escravizam por medo e roubam por ganância. Esses, sim, são os verdadeiros demônios — criados por um Deus que fecha os olhos para os pecados do mundo e dita regras que nem mesmo Ele é capaz de cumprir.

E lá estava eu outra vez, no centro de uma matriz sangrenta, desenhada de forma grotesca com sangue humano. Ao redor, velas pretas choravam sobre o chão surrado, enquanto suas chamas dançavam alvoroçadas diante da minha presença.

Tomado pela forma humana de um belo homem de pele negra e cabelos crespos, cuidadosamente trançados em um coque alto, meus olhos — vermelhos como sangue — brilhavam sob a luz das velas daquele altar mal erguido.

Sob meus pés, dois humanos saudavam minha presença como se estivessem frente a frente com o Todo-Poderoso. Aquilo era deveras engraçado — afinal, eu podia sentir todo o medo que aqueles seres exalavam junto ao aroma adocicado e fétido do sangue seco em suas mãos e rostos.

— Salve o deus do submundo! Por favor, tome nossas almas em troca de favores.

O homem esbravejou em um ato de coragem e se curvou junto à sua esposa. A mulher, por outro lado, estava com o corpo trêmulo; sua voz não saía, mesmo que ela estivesse gritando internamente. Ver a humilhação em seus corpos sujos e surrados pela idade tornava-se deveras engraçado aos meus olhos. Todavia, havia algo ainda mais interessante naquela casa — algo que poderia apimentar ainda mais as coisas naquele circo de horrores.

O demônio deu um passo à frente, e logo todas as velas em volta do pentagrama se apagaram, deixando o ambiente completamente escuro.

Dentro daquela densa escuridão, um par de olhos vermelhos brilhantes se destacava, ficando cada vez mais próximos do casal. Eles se encolheram sobre o chão frio de madeira velha; enquanto a mulher tremia, o homem começou a rezar, pedindo a Deus por clemência.

Próximo o bastante, o demônio abriu um pequeno sorriso macabro enquanto ditava em um tom calmo, porém carregado de cinismo:

— “Perdoe os meus pecados”? Isso é algum tipo de brincadeira?

De repente, o pescoço da mulher foi agarrado por dedos fortes e longos, que o apertaram até o ar faltar em seus pulmões. O homem, vendo o perigo iminente diante de si, esbravejou com o último pingo de coragem que lhe restava:

— Pare agora mesmo! Fizemos um contrato com você, e até que nossas exigências terminem, você não tem o direito de matar nem a mim, nem à minha esposa!

O silêncio perdurou por alguns instantes, até que, de repente, uma risada macabra ecoou por todos os cantos da casa. As velas, antes apagadas, acenderam-se repentinamente com uma luz forte e intensa.

A face do demônio continuava sorridente. Seus dentes brancos e pontudos eram perfeitamente alinhados, destacando-se em sua epiderme escura. A mulher continuava a se debater na mão do homem, enquanto uma espécie de espuma saía de sua boca e seus olhos se reviravam, indicando que logo partiria dali.

O homem tentou empurrar o demônio, mas foi inútil. O corpo forte do rapaz parecia duro como pedra e não se movia nem um milímetro. A face enrugada do velho se retorceu em puro pavor ao ver sua esposa já desacordada ser arremessada ao chão. Com o impacto, o piso — já desgastado — rachou, enquanto uma pequena quantidade de sangue escorria pelo nariz da mulher.

— Você… você matou ela!

O homem esbravejou com os olhos cheios de fúria, partindo novamente para cima do demônio. Sua tentativa de atacar falhou, resultando apenas em uma dor tremenda no pescoço, quando aquele belo homem o agarrou da mesma forma que fizera com sua esposa.

Os olhos vermelhos do demônio continuavam a brilhar enquanto penetravam mais a fundo na alma daquele velho, vendo cada um de seus pecados. Por fim, aquele homem sorriu e voltou a falar em um tom sarcástico:

— Patético… está chorando por ela por quê? Se sua amante é muito mais jovem. Aliás…

Ele deu uma pausa enquanto passava sua unha pontuda sobre o peito peludo do homem. Quando chegou à altura do coração, o demônio novamente sorriu e invadiu o corpo do velho com aquele mesmo dedo. O homem gritou de dor, implorando por clemência. Mas aquilo era música para os ouvidos do demônio, que novamente sorriu e falou com seu típico tom:

— Sabe o que eu acho mais engraçado?… Vocês humanos são tão podres e hipócritas que se aproveitam dos mais frágeis. Mas sabe de uma coisa? Eu, Theros, não vou cair nesse seu joguinho… Afinal, todo esse sangue nem é seu ou daquela mulherzinha ali.

O homem quis gritar, mas suas forças já haviam se esgotado junto à grande perda de sangue. O velho não demorou muito a morrer, tendo sua alma levada pelo demônio de preto. O mesmo aconteceu com a mulher e, em seguida, o tal “Theros” foi em busca de sua verdadeira presa.

Cantarolando entre os corredores escuros da pequena casa, Theros ia, pouco a pouco, sentindo uma energia vital forte, porém carregada de intenso rancor. O demônio não conseguia esconder sua euforia — fazia anos que não tinha um banquete banhado de tanto ódio.

No fim do corredor, uma porta trancada com travas de ferro e cadeados se destacava entre as outras. Sem ao menos pedir licença, o demônio quebrou as trancas e pôs a porta abaixo.

Do lado de dentro, iluminado apenas por uma luz fraca que vinha da janela, havia um humano completamente encolhido em algo que deveria ser um cobertor — mas estava mais rasgado que trapos velhos.

Quando ouviu a porta ser praticamente despedaçada, uma sensação de medo invadiu o humano, que se encolheu ainda mais no canto do quarto vazio. Conforme se aproximava, Theros notava sua condição deplorável: as roupas estavam rasgadas e sujas, seu cabelo era grande o bastante para cobrir os ombros, e seus membros exibiam cortes irregulares feitos por algum tipo de faca ou adaga. Além disso, a perna direita estava presa por uma corrente que já feria seriamente seu tornozelo.

Naquele instante, Theros se deu conta do porquê sentia aquela aura vinda daquele quarto. O rapaz — ou garota — estava em uma condição tão degradante que nem mesmo os animais eram submetidos a tamanha crueldade.

Theros agora tinha certeza: os humanos conseguiam ser ainda piores que os demônios de sua espécie.

— Ah, jovem… Tão novo e já passou por todo esse inferno? Eu vejo através de sua alma.

Sua voz agora estava mais calma, e seus passos sutis o levaram até o jovem, que continuava encolhido e trêmulo. Theros se ajoelhou e estendeu a mão para ele, que permanecia imóvel, sem qualquer tipo de reação — talvez por medo ou fraqueza, já que seu corpo mal tinha forças para ficar de pé.

Em silêncio, o demônio quebrou a corrente que envolvia o tornozelo do jovem de maneira grotesca e, em seguida, tomou o corpo magro e frágil do humano em seus braços. A pessoa, que parecia ser um rapaz, soltou um gemido agudo e tentou se afastar do ser que ali estava, mas sua tentativa foi em vão.

— Ah, pobre alma… Não adianta tentar fugir, pois eu estarei com você até o fim de seus dias.

Murmurou o demônio enquanto sentia a mão do jovem apertar suas vestes vermelhas, tom vinho. De repente, a voz do humano soou fraca, quase como uma súplica:

— Por favor… apenas… me mate…

Theros franziu o cenho. Agora sentia algo estranho em seu corpo, quase como um sentimento de ódio e repulsa — quase o mesmo que aquele ser humano carregava.

O demônio ficou em completo silêncio. Suas mãos estavam tensas, envoltas ao corpo frágil do jovem, que mal tinha forças para falar.

Então voltou a caminhar. Seus pés batiam com força sobre o chão de madeira, enquanto a aura negra ao seu redor se tornava ainda mais densa, como uma cortina de fumaça.

Theros passou com o jovem pela sala, onde os corpos de seus pais já estavam sem vida, largados sobre o assoalho. Ao sair da casa, o demônio estalou os dedos e, com um sorriso macabro nos lábios, deixou o lugar arder em chamas enquanto levava o garoto desacordado dali.

— Os humanos são os verdadeiros demônios. Jovem mestre, você tem muito o que viver… até que eu possa finalmente saborear uma deliciosa refeição.

Na escuridão da noite, o demônio desapareceu na companhia do garoto, deixando para trás uma casa ardendo em chamas vermelhas e dois corpos que apen

as serviram de aperitivo para abrir seu apetite.

Continua…

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Quando Alberth foi entregue pelas próprias mãos dos pais a uma entidade sombria, seu destino parecia selado em sofrimento e desespero. Mas o que deveria ser uma maldição eterna transforma-se em algo inesperado. Preso a um demônio que começa a experimentar emoções humanas, Alberth descobre que o verdadeiro inferno pode não ser aquele que o cerca, mas o que cresce dentro de si. Amor, dor e redenção se entrelaçam em uma jornada onde as almas podem ser negociadas, mas os sentimentos, jamais.
Nome alternativo: Laos Profanos

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