Ler Cão Real. – Capítulo 57 Online

Modo Claro

— Como era o papai?

Hayul fez essa pergunta à mãe quando era pequeno. Diante da pergunta do filho, ela sorriu suavemente e respondeu:

— Ele era um homem egoísta. Um humano cheio de complexo “de povo escolhido”.

— O que é complexo “de povo escolhido”?

Ainda jovem, Hayul não entendeu as palavras da mãe e perguntou novamente.

— Sabe o Tom, o dono da mercearia lá na esquina? Ele é tomado pela própria soberba, ignora todo mundo além dele mesmo e menospreza os outros, como se todos fossem insignificantes, não é?

— Sim. Ele me chama de mestiço imundo e nem deixa eu chegar perto da loja dele. Não gosto daquele homem. Mesmo sendo um Alfa, no final das contas é só um Alfa fraco.

— Esse pensamento é o que chamamos de complexo da raça superior. É quando a pessoa se ilude achando que é uma criatura especial escolhida por Deus, acreditando que só ela é superior.

— Que cara chato.

A mãe riu baixinho.

— É, chato mesmo. Aliás, todos os Alfas são uns chatos. Seu pai também era. Mas eu não sei por que, acabei me apaixonando por aquele homem egoísta e chato.

Ela virou o rosto enquanto sorria e pareceu mergulhar nas próprias lembranças. O sorriso tranquilo dela era sereno. Hayul achava estranho como ela conseguia sorrir ao lembrar de seu pai, já que junto deviam vir lembranças tão dolorosas quanto pesadelos.

A mãe, que não era uma “ômega real”, contou que fugiu enquanto estava grávida dele. Deve ter sido horrível. Carregando no ventre o filho de um alfa real e sendo caçada pela família daquele homem, que queria eliminá-la.

— Será que o papai sabe que eu existo?

Ao ouvir a dúvida, o olhar da mãe voltou-se para ele.

— Acho que não. Seu pai provavelmente nem sabia que eu estava grávida. Mesmo que soubesse, como é raro alguém que não é um Ômega Real dar à luz o filho de um Alfa Real, ele deve pensar que eu morri. Bom, e aquela mãe dele certamente inventou alguma história e ele acreditou, porque seu pai era um filhinho da mamãe.

A mãe sempre foi sincera. Nunca escondeu nada de Hayul. Mas também nunca xingou sem motivo o pai ou a família dele. Mesmo não sendo de família nobre e nem ômega real, para Hayul não existia mulher mais elegante e digna no mundo do que a sua mãe.

Ela tinha dito que, quando trabalhava na mansão do pai dele, tinha apenas vinte e dois anos. Se ela era tão bonita agora, imagine naquela época. Aos olhos de Hayul, os cabelos pretos e brilhantes da mãe eram muito mais belos do que os cachos loiros das mulheres da nobreza inglesa. Sua pele saudável, de tom dourado, era sempre firme, e seus olhos negros transbordavam vivacidade.

Mas aquela beleza não durou para sempre.

Um dia, a mãe simplesmente desmaiou e começou a definhar rapidamente. Naquele período, Hayul fez outra pergunta:

— Mamãe… você já se arrependeu de ter me tido?

— Nunca. Nem uma única vez.

Ela respondeu sem a menor hesitação. Não era uma pergunta que tivesse surgido do nada; era algo que Hayul carregava há muito tempo.

Se ela não tivesse engravidado dele, quão livre ela teria sido? Sua mãe era tão inteligente… poderia ter conseguido um emprego muito melhor, poderia ter encontrado um bom parceiro, casado e vivido feliz. Não teria precisado fugir, nem viver escondida num bairro pobre por ter dado à luz um “mestiço mutante”.

Hayul sentia rancor do pai, que provavelmente vivia bem, comendo bem e desfrutando da vida como um Alfa Real, enquanto havia lançado sua mãe no abismo. Como se soubesse o que se passava em seu íntimo, a mãe acariciou a cabeça do filho, que agora era maior que a dela.

— Hayul, você quer conhecer seu pai?

Hayul balançou a cabeça com força enquanto respondia.

— Se eu conhecer o meu pai, aquelas pessoas da família dele vão tentar me matar.

A mãe não confirmou nem negou. Hayul se enterrou no colo da mãe, agindo de modo dengoso como uma criança. Seu coração se apertou ao sentir o corpo debilitado da mãe, que parecia ter ficado tão pequeno.

— Antes que aquela família tente me matar, talvez eu mate o meu pai primeiro.

A mãe não o repreendeu por proferir tais palavras assustadoras. Ela apenas acariciou a cabeça de Hayul em silêncio com sua mão ossuda e magra. A garganta dele travou, e o nariz ardeu.

Embora a mãe negasse, o médico tinha dito que a doença dela também era causada pelo acúmulo de feromônios de Alfa Real no corpo. Uma pessoa que não fosse uma Ômega Real não tinha como suportar os feromônios de um Alfa Real sem sofrer nada. Mesmo que não houvesse uma reação imediata, os feromônios que se acumularam em seu corpo lentamente danificaram seus órgãos internos.

“Sua mãe engoliu veneno. Na verdade, o fato de ter dado à luz a você em segurança e ainda estar viva até hoje é um milagre. Ela só resistiu até agora porque a vontade de viver dela é muito forte.”

O médico disse isso enquanto dava tapinhas nos ombros caídos de Hayul.

“Prepare-se. Ela não vai aguentar por muito tempo.”

Hayul perguntou se não poderiam juntar mais dinheiro e tentar uma cirurgia em um grande hospital, mas o médico disse que não adiantaria. Ele disse que os órgãos  internos dela já estavam completamente destruídos, a ponto de não haver mais o que fazer.

‘Merda. Maldito Alfa Real. Quando eu encontrar aquele desgraçado do meu pai, vou matar ele.’

Ao sair do hospital com a mãe, Hayul continuou despejando insultos. Amaldiçoava, repetidas vezes, o homem que ele jamais tinha visto na vida.

— Mãe, por que você se apaixonou por alguém assim? Por que justamente por um Alfa Real…?

A garganta ficou tão apertada que ele não conseguiu continuar.

Alfas Reais. Criaturas que se orgulhavam de serem escolhidas por Deus e se consideravam superiores a todos. E não era só delírio de grandeza. Eles realmente pareciam seres escolhidos pelos deuses. Eram superiores e ocupavam o centro do mundo. Aparência perfeita, inteligência, força física e, junto disso, a riqueza e o poder que naturalmente acompanhava a classe dos Alfas Reais.

Todos olham para aqueles Alfas Reais brilhantes no topo com admiração. Ao mesmo tempo em que os idolatravam, também os temiam. Sempre irradiando luz, cercados por pessoas. Desde o nascimento, envoltos em ouro, vivendo a vida inteira banhados em brilho. Seres capazes de fazer todos se ajoelharem aos seus pés com o poder da riqueza, da posição social e de seus feromônios inatos.

É por isso que não se pode amar um Alfa Real. Porque lindas flores costumam ter veneno.

— Pois é. Mas ele apareceu de repente. O amor é assim.

Hayul se irritou com a mãe, que falava de amor mesmo que isso a estivesse matando.

— Mãe nunca pensou que aquele desgraçado ia acabar com a sua vida?

— Se esse pensamento importasse… isso seria amor?

— O que é isso? Então o amor é uma merda, é isso?

A mãe riu com um som fraco, o corpo magro sacudindo, e então disse:

— Eu fui feliz por ter conhecido você. Eu me arrependo do meu amor impulsivo do passado, mas não me arrependo nem um pouco de ter te tido. Então viva uma vida sem arrependimentos. Viva muito, muito tempo, aproveitando a própria vida.

***

Rustle.

Um pequeno ruído fez Hayul abrir os olhos de repente. Despertou de repente do sonho em que estava aninhado no colo da mãe como uma criança. Assim que abriu os olhos, o que viu primeiro foram dois olhos azul-vivo brilhando no escuro. Recobrou o juízo imediatamente ao perceber que o dono daqueles olhos estava montado sobre ele.

Ao abrir os olhos completamente e inspirar, um aroma cítrico encheu suas narinas. ‘Quando foi que ele entrou sorrateiramente neste quarto? Era de cair o queixo.’ Era absurdo.

— Agora você ataca até pessoas dormindo? Seu animalzinho?

Quando Hayul franziu o rosto e lançou um olhar fulminante para Pavel, o sujeito curvou os lábios e sorriu. Os dentes brancos, expostos, brilhavam exageradamente. Como o nível de feromônios de Hayul andava extremamente instável, Natasha recomendou que ele não ficasse exposto aos feromônios de Pavel por um tempo. Por isso, Hayul o havia expulsado naquela noite e dormia sozinho.

Fazia alguns meses que ele passou a usar como espaço próprio o prédio anexo chamado Castelo de Lavanda, localizado ao sul da mansão Kirov. Era um lugar bonito, cercado por flores de lavanda. Diziam que era o anexo pessoal que a esposa de Oleg Kirov costumava usar.

Para chegar ali vindo do prédio principal onde Pavel morava, era uma distância considerável. Como ele tinha se esgueirado até ali sem que ninguém percebesse? Hayul se remexeu e disparou novamente:

— Sai de cima. Eu disse para você não invadir este lugar sem permissão.

— Shhh.

‘Shhh o quê?’

Hayul estava prestes a dizer para ele parar com as gracinhas, mas fechou a boca quando sentiu, misturado ao cheiro cítrico de Pavel, um odor estranho. Não era desconhecido para ele. Era cheiro de sangue. A questão era: por que o cheiro de sangue estava dentro do quarto?

Conforme seus olhos se acostumaram ao escuro, ele viu manchas avermelhadas espalhadas ao redor dos olhos e das bochechas de Pavel.

— Alguém invadiu a mansão, rompendo o sistema de segurança.

Ele não perguntou quem havia feito aquilo. Não era o mais importante no momento. O problema era que o sistema de segurança impenetrável dos Kirov tinha sido violado.

— E os funcionários da mansão?

— Estão todos escondidos no bunker subterrâneo.

Respondendo assim, Pavel se moveu devagar e silenciosamente, descendo da cama. O enorme corpo envolto em um robe preto movia-se com a graça e astúcia de uma pantera negra. Hayul sempre se perguntava como aquele brutamontes conseguia se mover sem fazer barulho.

Hayul também girou o corpo depressa e puxou a arma escondida dentro do travesseiro.

— Você dorme com uma arma no travesseiro?

— Também tem uma faca.

Quando Pavel perguntou, ele enfiou a mão dentro do travesseiro e puxou uma faca militar.

— Quem entrar escondido aqui vai morrer.

Hayul ignorou o comentário murmurado por Pavel, levantou-se rapidamente segurando a arma e a faca, uma em cada mão. Abriu a gaveta do criado-mudo ao lado da cama e tirou uma bandoleira para coldre. Abriu o robe, colocou a bandoleira na cintura, prendeu-a à coxa e encaixou a faca no coldre da perna. Em seguida fechou o robe e amarrou firme o laço. Assim, poderia sacar a faca a qualquer momento.

Fazia cerca de um mês que Hayul vinha deixando armas ao lado da cama para se armar rapidamente em emergências.

“A situação não está boa. Precisamos aumentar o número de seguranças. Meu filho, você também deve tomar cuidado.”

Oleg Kirov disse isso durante uma refeição. Se ele dizia que não estava bom, era porque estava realmente grave.

“Não se preocupe. Eu protegerei o hyung.”

Quando viu Pavel responder com um sorriso elegante, Hayul tomou uma decisão: ele mesmo protegeria seu próprio corpo. Poderia depender de Pavel, mas era uma questão de orgulho. Era uma sorte que tivesse preparado tudo no quarto naquela época.

Hoje, Oleg Kirov tinha ido visitar parentes em outro país. A equipe de guarda-costas que o acompanhava também se ausentou da mansão. O inimigo claramente sabia disso quando decidiu invadir.

Pavel já estava junto à porta, segurando uma arma e em posição de alerta. Hayul se colocou do lado oposto, grudado na porta, prestando atenção nos sons do lado de fora.

— Hyung, você está mesmo tentando me matar?

Era o momento em que todos os sentidos deveriam estar focados, mas Pavel murmurou isso. O olhar luxurioso dele se fixava na coxa de Hayul, exposta pela abertura do robe. Agora que Hayul reparava, até a mão que segurava a arma estava coberta de sangue.

— Eu estou me forçando a ficar em abstinência por causa da sua condição… isso é tão injusto.

Os feromônios de Pavel, que até então sopravam suavemente, começaram a esquentar e ficaram mais doces. Era sinal de que ele estava excitado. O centro do robe de seda preto estava visivelmente erguido. Ficar com o pênis duro  enquanto estava totalmente ensopado de  sangue que nem se sabia de quem era – era assustador. Pavel só podia estar louco.

— Ha… Eu não vou aguentar.

— Cala a boca.

— Isso é trapaça. Cinta de liga é golpe baixo, o estímulo visual é forte demais.

Seu maluco. Isso aqui parece uma cinta de liga para você? No instante em que Hayul ia retrucar, algo se moveu do lado de fora. Ao mesmo tempo, os inimigos do lado de fora abriram fogo. Pavel e Hayul se encostaram reflexivamente na parede e se agacharam o máximo possível. Com o barulho estridente dos tiros, buracos apareceram na porta e os objetos do quarto atingidos pelas balas ficaram totalmente destruídos. O mesmo aconteceu com a cama onde Hayul estava deitado até pouco tempo, se ele ainda estivesse dormindo profundamente, teria virado uma peneira.

Logo depois, os inimigos arrombaram a porta que já estava caindo aos pedaços, e uma granada de gás lacrimogêneo rolou para dentro. Uma fumaça árida encheu o quarto em um instante. Hayul rapidamente tapou a boca com a mão, mas não pôde evitar que as lágrimas escorressem dos olhos.

Através da fumaça densa, era possível ver os intrusos armados entrando. Pavel foi o primeiro a se mover. Um tiro curto ecoou, e o intruso na frente caiu com a cabeça jogada para trás. “Bang, baang.” Com dois disparos, os dois intrusos que vinham atrás também caíram instantaneamente.

Para não aspirar ainda mais gás lacrimogêneo, Hayul prendeu a respiração e atirou na cabeça do bandido que estava mirando em Pavel. Desta vez, Pavel retribuiu: eliminou o inimigo que tinha acabado de avistar Hayul e estava prestes a atirar nele. Com a faca, Pavel cortou a artéria carótida do homem, fazendo-o cair imediatamente.

Não houve nem tempo para um grito. Antes que pudesse abrir a boca, o homem já tinha caído sob o ataque de Pavel. Era impressionante: aqueles brutamontes fortemente armados não conseguiam deter um único homem que portava apenas duas armas – uma pistola e uma faca – mas que se movia como se estivesse voando. Os inimigos desabavam sem sequer conseguir montar um ataque decente.

Pavel, com o rosto completamente coberto de sangue e os olhos azuis brilhantes, avançava entre um inimigo e outro, tirando-lhes a vida sem hesitação.

Mais uma vez, Hayul percebeu o óbvio: Pavel Kirov era uma verdadeira arma humana. Como um Alfa Real, nascido com excelentes habilidades físicas e intelecto,  somando-se a isso o rigoroso treinamento de Oleg Kirov e inúmeras experiências de combate, ele havia se tornado um monstro formidável com quem ninguém podia rivalizar.

Ele nem parecia ser afetado pelo gás lacrimogêneo. Um desgraçado assustador. Hayul estalou a língua por dentro, irritado, enquanto atirava mecanicamente no homem que corria em sua direção. Em poucos instantes, cerca de dez inimigos estavam caídos, restando apenas um.

— N-não se aproxime! Eu vou atirar!

O homem recuou tremendo, apontando a arma para Pavel. Ele estava fora de si e parecia prestes a puxar o gatilho de verdade. No exato momento em que ia disparar, Pavel avançou. Num piscar de olhos, ele neutralizou o inimigo e pressionou o cano da arma contra sua têmpora.

— Quem te mandou?

A voz gelada de Pavel fez com que um calafrio percorresse o corpo do outro.

— Vai se foder.

O bandido soltou o insulto cheio de falsa coragem. Pavel, sem a menor hesitação, abaixou a arma e atirou no pé dele.

— Aaaagh!

O homem soltou um grito dilacerante, mal se aguentando de pé, então Pavel o segurou pelo colarinho e voltou a encostar a arma na cabeça dele.

— Quem te mandou? Se não responder, o próximo tiro vai arrancar o seu pau.

Foi então que aconteceu. Alguém, mantendo o movimento furtivo, surgiu atrás de Hayul; agarrou-o num mata-leão e encostou uma arma em sua cabeça.

— Solta a arma.

O aviso atrás dele era claro. Hayul largou a pistola no chão e ergueu as duas mãos em rendição. Pavel virou o rosto ensanguentado na direção deles, olhando de relance e no meio daquela máscara vermelha, apenas os olhos azuis brilhavam, frios e terríveis.

— Você também, solte a arma, Pavel Kirov. A não ser que queira ver a cabeça da sua esposa virar uma peneira.

O inimigo pressionava o cano da arma contra o crânio de Hayul com tanta força que chegava a machucar, desesperado para parecer ameaçador. Pavel deu uma risadinha sarcástica.

— Se eu fosse você teria cuidado. Essa flor tem veneno.

— Eu mandei largar a arma!

O homem gritou como se estivesse com o sangue fervendo. Mas Hayul agiu rápido: abaixou uma das mãos, puxou a faca presa ao coldre na coxa e a cravou no antebraço do homem que o segurava pelo pescoço.

— Aaaaah!!

Enquanto o homem gritava e se desequilibrava de dor, Hayul escapou de seus braços. Em um movimento contínuo, agarrou o mesmo braço ferido, girou e torceu com força. Um estalo seco ecoou – o braço do bandido dobrou de uma forma grotesca. Fora de si, por causa da  dor, ele vacilou, Hayul agarrou seu cabelo, puxou sua cabeça para trás e sem hesitar, cortou sua garganta.

Assim que se livrou do agressor, os pulmões de Hayul se encheram de gás lacrimogêneo, queimando por dentro.

— Viu só? Eu falei que era uma flor venenosa.

Pavel zombou, rindo.

— Ca-cala a boca… cof, co, idiota…

Lacrimejando e fungando, Hayul tossiu violentamente enquanto resmungava xingamentos.

— Termina logo com aquele alí… cof, cof…

Assim que ele disse isso, o homem que estava preso na mão de Pavel começou a tremer de forma anormal, como se estivesse tendo convulsões. Pavel rapidamente arrancou o capuz do sujeito, mas já era tarde: ele espumava pela boca, com a língua pendurada e olhos se revirando – e então desabou, completamente imóvel.

Era evidente que ele havia mastigado uma cápsula de veneno escondida em sua boca.

Pavel largou o corpo sem vida como um saco de lixo e riu com incredulidade.

— Hahaha… esses filhos da puta, ousam invadir o meu território?

Seus olhos azuis estavam cheios de fúria enquanto ele olhava para os cadáveres espalhados pelo chão, rosnando insultos que normalmente não proferia. Um monstro de olhos azuis de pé em um inferno vermelho e sanguinolento. Uma existência perigosamente bela.

O ar estava saturado do feromônio Alfa dele, denso e venenoso. Um cheiro mais forte e letal do que o gás lacrimogêneo. Lacrimejando sem parar e tossindo a ponto de doer, ainda assim Hayul não conseguia desviar os olhos de Pavel.

“Mas ele apareceu de repente. O amor é assim.”

A frase que a mãe disse como se estivesse sonhando surgiu flutuando na mente febril de Hayul. No mesmo instante em que a lembrança veio, o calor tomou conta de sua metade inferior.

‘Droga.’

Ele queria beijá-lo. Queria abraçar aquele desgraçado. Seu buraco formigava de desejo para ser possuído e o líquido lubrificante se acumulava, escorrendo em ondas. Sentir esse tipo de tesão ali – naquela visão infernal cheia de sangue e cadáveres – só podia significar que ele estava mesmo ficando louco.

Pavel percebeu imediatamente o calor que subia de Hayul, como se tivesse um sexto sentido. Levantou o rosto.

— Por que está exalando um aroma tão provocante?

Ele sorriu, os olhos azuis brilhando de um jeito arrepiante. Os dentes brancos visíveis entre seus lábios reluziam deslumbrantemente. O coração de Hayeul disparou. Ele queria se jogar naquele monstro ensanguentado e se enroscar com ele até perder a razão.

“Mãe nunca pensou que aquele desgraçado ia acabar com a sua vida?”

“Se esse pensamento importasse… isso seria amor?”

A mãe estava certa. Se esse pensamento te fizesse parar, não seria amor. Amor já é, por si só, uma loucura. E agora Hayul estava cometendo a mesma loucura pela qual sua mãe havia sido condenada.

Vencido pelo impulso que explodiu dentro dele, Hayul correu em direção a Pavel mesmo enquanto tossia violentamente por causa do gás. O Alfa largou a arma na hora e abriu os braços, pronto para recebê-lo.

— Que milagre? O hyung veio correndo para mim primeiro.

— Cala a boca e abre a porra da boca.

Hayul mordeu os lábios de Pavel como uma fera esfomeada. O beijo tinha gosto de sangue. Mas os lábios dele eram macios, o ar quente e obsceno que trocavam deixava os dois tontos.

— Ha… meu Hyung entrou no cio direitinho.

— Eu disse para calar a boca.

Dessa vez foi Pavel quem mordeu os lábios de Hayul, mastigando-os com desejo, depois chupando-os e lambendo-os. A respiração de Hayul também ficou ofegante. As bocas se misturavam de forma confusa, esmagadas uma contra a outra; seus sopros quentes e línguas se enroscavam. Pavel envolveu a cintura de Hayul com força, e ele se agarrou ao pescoço grosso do outro.

Era um corpo firme e enorme. Um corpo duro como uma rocha, sem nenhuma suavidade. Braços grossos que o apertavam como se fossem esmagar seu corpo inteiro. Quando se beijavam assim, frente a frente, Hayul sempre precisava se pôr na ponta dos pés e até isso parecia estranhamente bom.

A saliva cheia de feromônios alfa parecia funcionar como antídoto. A tosse que quase rasgava seus pulmões cessou de repente. Ainda lacrimejava por causa do ardor nos olhos, mas já não era tão insuportável. Com os lábios ainda colados aos de Hayul, Pavel murmurou enquanto mordia e chupava sua boca.

— Me desculpa.

— Pelo quê?

— Eu não queria que o hyung tivesse que sujar as mãos de sangue.

Ele virou o rosto para aprofundar ainda mais o beijo. Enquanto ele mordia e chupava o lábio inferior de Hayul, deixando a respiração do outro trêmula, murmurou de novo:

— Eu queria que o nosso lugar… o nosso lar… fosse um paraíso.

O sopro quente sobre os lábios de Hayul queimava. Era engraçado. Pavel estava genuinamente arrependido. De verdade. Pelo sangue que manchava o lugar onde os dois viviam como recém-casados, e por ter feito Hayul matar alguém com as próprias mãos.

Mas ele era um soldado,  um assassino. Suas mãos nunca foram limpas. Ainda assim, Pavel sempre o tratava como se ele fosse um ser puro que nunca tivesse sujado as mãos com uma gota de sangue.

— Eu… haa… eu não sou nenhum ser puro. Minhas mãos também estão cheias de sangue.

Hayul murmurou isso ofegante, embriagado pela doçura do beijo.

Ele havia matado os inimigos sem um pingo de misericórdia e, no meio dos cadáveres, sentia desejo sexual incontrolável por Pavel, correndo até ele com o corpo completamente excitado, pisando nos corpos pelo caminho. Ele também não era normal. Não podia se considerar alguém limpo.

— Para mim, o hyung sempre foi um ser imaculado.

Pavel sussurrou aquilo com um calor intenso e ergueu Hayul nos braços com facilidade. Seu corpo flutuou no ar e num instante, ele estava seguro no colo de Pavel, como uma criança.

— Isso não vai acontecer de novo. Eu vou te proteger, hyung.

Ele murmurou em seguida, como se completasse o que queria dizer: “Não importa quem sejam esses desgraçados, vou matar todos. Então não se preocupe.” Pavel não sabia quem eram os invasores, nem quem estava por trás de tudo aquilo, mas naquele momento nada disso importava. Ambos estavam tomados pelo calor, completamente fora de si, tanto Hayul quanto Pavel.

Ainda segurando o ômega nos braços, Pavel caminhou a passos firmes, pisando nos cadáveres espalhados pelo chão enquanto seguia em direção ao quarto.

 

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Continua…

 

Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online

(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
 
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog

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