Ler Cão Real. – Capítulo 56 Online

Modo Claro

Tomado pela surpresa, ele começou a falar de forma atrapalhada, enquanto tentava apoiar Pavel para ajudá-lo a se levantar. Foi então que Pavel moveu os lábios e sussurrou baixinho:

— Afaste-se…

— O quê?

— Afaste-se. O Rut está…

Foi nesse momento. Swish – um leve ruído foi percebido de algum ponto próximo. Mesmo naquele momento, Hayul detectou instintivamente o som suspeito. Imediatamente, ergueu o rifle e mirou na direção de onde o ruído vinha. Pouco depois, vários homens armados emergiram da floresta, seis no total. Vestiam roupas térmicas brancas, que se camuflavam com a neve, e até as armas eram pintadas de branco. Entre eles, havia um rosto conhecido, o espião de Dmitri, aquele que antes havia procurado Hayul.

Devem ter apagado os rastros e ficado escondidos, observando de longe. Desde o início, queriam matá-lo, independentemente do assassinato ser sucedido ou falho. Ele já esperava por isso. Não havia como o homem simplesmente deixá-lo ir. Ainda assim, a traição o enfureceu. Felizmente, havia se preparado bem: trouxe na mochila armas, facas e granadas, pronto para detonar tudo se algo saísse do controle. Foi uma boa escolha, pensou.

Os homens avançaram decididos na direção dele e de Pavel. Hayul, por sua vez, mirou sua arma neles enquanto recuava hesitantemente. Então, colocou a mão no ombro de Pavel, que ainda estava sentado no chão, ofegante.

— Você está bem?

No momento em que a mão de Hayul tocou o ombro de Pavel, ele estremeceu. Um arrepio percorreu seu corpo, como se tivesse levado um choque elétrico. Do corpo de Pavel emanava um calor intenso. A origem desse calor eram os feromônios. Como uma represa que se rompe, o feromônio começou a se espalhar em ondas poderosas, quase palpáveis. Era sufocante, como se gás tóxico tivesse sido liberado no ar.

Foi então que Hayul se lembrou do que Pavel murmurou antes – algo sobre o Rut.

Hayul rapidamente se afastou dele, tapando a boca com uma das mãos trêmulas,  enquanto tentava tirar a máscara de gás da mochila. Havia trazido uma, junto com as granadas de gás lacrimogêneo, prevendo uma emergência. Mas antes mesmo de conseguir colocá-la, lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos, e o sangue desceu do nariz. O feromônio era tão forte e agressivo que a cabeça girava, o corpo inteiro parecia ceder.

Os homens à frente também estavam sendo afetados. Mesmo usando máscaras, tossiam e se contorciam de dor. O feromônio de um Alfa Real não podia ser bloqueado por um simples filtro. Todos tentavam tapar a boca, tossindo e gemendo, e um deles chegou a vomitar no chão.

De repente, o estouro dos feromônios sacudiu a floresta. Pássaros levantaram voo em desespero, e animais uivaram ao longe. O próprio ar tremia; todo o bosque vibrava. Naquele momento, Pavel era como uma calamidade ambulante.

A desvantagem numérica de Hayul desapareceu em segundos. Os inimigos, que tinham clara vantagem pela quantidade,  estavam sendo dominados por um único Alfa Real. Afinal, quem poderia resistir a uma força assim?

Era esse o verdadeiro poder de um Rut? Era uma explosão tremendamente poderosa, incomparável ao Rut de sete anos atrás.

Quando finalmente conseguiu colocar a máscara, Hayul recuperou o fôlego e a lucidez o bastante para observar o entorno. Viu Pavel se levantar lentamente. O olhar dele cruzou o de Hayul, os olhos do homem brilhavam em um roxo.

O coração de Hayul bateu forte. Tum-tum, tum-tum. Uma existência que liberava feromônios agressivos e venenosos, como se fosse queimar tudo ao redor, mas ainda era absurdamente linda. Aquele homem era Pavel, mas ao mesmo tempo não era. Parecia uma criatura diferente do Pavel que ele conhecia. O corpo de Hayul tremia. Era o medo instintivo diante de um predador. Os dentes batiam, o coração martelava. Pavel olhou para ele com seus olhos roxos, e sorriu.

— Está tudo bem.

Ele moveu os lábios e sussurrou. A voz era baixa, mas penetrou com clareza em seus ouvidos.

— Atirem!

Nesse instante, um dos inimigos gritou. Logo em seguida, o som dos disparos ecoou pela floresta. As balas, no entanto, erraram o alvo – as mãos tremiam demais para mirar direito. Pavel partiu para cima deles, como quando perseguiu o tigre antes.

Ele pegou uma faca de caça do coldre na perna da calça e, segurando-a, abaixou o corpo e correu a uma velocidade incrível. Aquilo não era um movimento humano, era uma velocidade próxima à de uma fera. Os inimigos tinham armas de fogo, e Pavel estava armado apenas com uma faca, mas nem isso os tornava adversários. Os feromônios que o corpo de Pavel liberava  já eram uma arma formidável.

Logo o campo coberto de neve se transformou em um cenário de carnificina. Não era uma luta – era um massacre unilateral. A diferença de nível entre eles era tamanha que sequer poderia se chamar de combate. Os inimigos, por mais que fossem soldados treinados, como Hayul, não tinham a menor chance contra uma criatura como Pavel.

Pavel massacrou seis homens armados usando apenas uma faca. Em poucos minutos. Os adversários desabaram um a um sem sequer conseguir disparar direito. Não conseguiram nem mesmo arranhar o rosto de Pavel. O campo de neve, antes imaculado, ficou vermelho num instante.

Pavel não parou por aí. Ele pegou uma arma caída no chão e puxou o gatilho impiedosamente contra aqueles que ainda se contorciam vivos. Logo, não se ouviu mais gritos, nem gemidos de agonia. Um silêncio sepulcral preencheu todos os lados.

Depois de eliminar os seis em um piscar de olhos, Pavel jogou a arma no chão e também lançou para o lado a faca ensanguentada. Calmamente enxugou as gotas de sangue do próprio rosto e se virou para encarar Hayul. Ele parecia um demônio coberto de sangue. Era como ver uma fera que, após provar do gosto de sangue, perdera qualquer traço de razão.

Os olhos violetas que fitavam Hayul brilhavam de forma arrepiante.

‘Esse maldito enlouqueceu de vez.’ Hayul percebeu intuitivamente. Coberto de sangue, ele estava claramente fora de si. ‘Isso é perigoso.’ No momento em que pensou nisso, como era de se esperar: Pavel, encharcado de sangue, correu na sua  direção, como uma besta abrindo a boca para atacar.

Hayul mordeu o interior de sua boca com tanta força que sangrou, recuperou o controle de si mesmo e puxou a pistola do coldre no peito. Num piscar de olhos, Pavel atacou. Ele mordeu o pescoço de Hayul. No momento em que seu pescoço foi mordido, Hayul disparou contra o ombro de Pavel. Bang! O som do tiro ecoou e o corpo do alfa estremeceu.

Quando o rosto de Pavel se desprendeu, cheio de dor, Hayul empurrou o ombro dele com uma das mãos e, com a outra, disparou outra vez. Pavel deu um grito agonizante e cambaleou. Aproveitando a brecha, Hayul o golpeou na cabeça com o cano da arma.

No instante em que a cabeça do sujeito girou violentamente, ele empurrou Pavel com toda sua força e recuou.

— Recupere a razão, seu desgraçado.

Ele xingou, mantendo a arma apontada para Pavel, e estava disposto a atirar mais uma vez se ele fizesse alguma bobagem. —Ah…— Um gemido escapou dos lábios de Pavel. Ele cobriu a própria cabeça com uma mão e lentamente ergueu o rosto.

— Isso dói…

O rosto que virou, reclamando de dor, estava todo ensanguentado. Não dava para dizer se era sangue de outra pessoa ou se era o sangue que escorria de sua própria cabeça ferida. O braço pendente também gotejava sangue, manchando a neve branca.

Entre o rosto coberto de sangue, apenas suas pupilas brilhavam intensamente. Ainda eram roxas, mas não se via mais a ferocidade de antes em seus olhos.

— Dói, hyung.

Ele gemeu, contorcendo o rosto e fazendo uma cena.

— Pare de frescura.

— Realmente dói.

Pavel murmurou, fraco, e vacilou de verdade. Hayul estendeu a mão rapidamente e o amparou. Não parecia fingimento; o corpo dele estava mole, sem forças. Seu estado estava péssimo, ele nem conseguia controlar minimamente seus feromônios, que fluiamde forma opressiva implacavelmente. Hayul tentou se proteger com a máscara de gás, mas ainda assim era difícil respirar.

O corpo pesado e maciço, dependendo totalmente dele e pendurado mole, era imensamente pesado. Por dentro, Hayul só queria largar tudo e seguir sozinho.

Mas se o deixasse ali, Pavel morreria de hemorragia. Ou poderia ter novamente um princípio de parada cardíaca. ‘Droga. Merda. Maldito seja. Que azar é esse!’ Resmungando xingamentos consigo mesmo, Hayul apoiou Pavel e o arrastou até o snowmobile.

Depois de jogar Pavel no banco de trás do snowmobile, seus joelhos fraquejaram, talvez porque a tensão tivesse diminuído. Ele sentiu como se fosse desmaiar a qualquer momento. ‘Malditos feromônios.’ Já era difícil respirar, usar a máscara de gás estava piorando as coisas. Hayul arrancou a máscara antigás, jogou-a fora, pegou o neutralizador de feromônios de sua mochila e despejou tudo em sua boca.

Sentiu o sangue do nariz escorrer de novo. Limpou-o às pressas com a mão e subiu na moto, ligando o motor.

— Se eu morrer aqui, todos os meus bens vão para o hyung, não é bom?

Pavel, deitado no banco de trás como um saco, resmungou sem força.

— Pare de conversar merda. Você não pode morrer até que eu te mate. Quem disse que você pode morrer assim? — Hayul resmungou as palavras como se estivesse cuspindo e dirigiu o snowmobile. Mesmo depois de falar, sua irritação não diminuiu, então ele soltou mais um comentário. — Vai se foder, seu filho da puta.

Atrás dele, ouviu a risada abafada de Pavel. A moto de neve cortava o caminho de volta em alta velocidade. Quando chegaram ao castelo, Pavel já havia perdido completamente a consciência e Hayul também estava prestes a desmaiar.

Reunindo as últimas forças, ele arrastou o corpo mole de Pavel para dentro.

— Meu Deus… Senhor Pavel! Senhor Jin! O que aconteceu?! — gritou Lock, correndo junto com os criados.

Todos gritaram e correram para fora. Mas ninguém se atrevia a se aproximar de Pavel, que, mesmo inconsciente, liberava feromônios involuntariamente. Por fim, Oleg Kirov apareceu e pegou o neto nos braços.

— O que diabos vocês fizeram lá fora?

— Tivemos uma… briga de casal.

— O quê?

Foi uma tentativa de piada, completamente fora de hora. Logo depois de dizer isso, Hayul desabou no chão. Oleg o segurou com um braço antes que caísse totalmente.

— Senhor Jin! O que está acontecendo?!

Ouvindo o alvoroço de Lock e dos criados, Hayul permitiu que a corda da consciência se soltasse com o coração em paz. Estava em um lugar onde podia finalmente desmaiar sem medo.

Afinal, aquele agora era o seu lar.

 

***

Hayul sonhou. Sonhou que estava no meio de um interminável vinhedo. A brisa agradável que soprava suavemente trazia o aroma intenso de uvas maduras. E, de vez em quando, exalava um fresco aroma cítrico.

Enquanto observava o vinhedo sob a luz dourada do sol, Hayul se virou na direção de onde vinha aquele toque cítrico no ar.

Ali estava Pavel. De pé no campo, com os cabelos negros balançando ao vento, sorria com um rosto mais brilhante que o próprio sol. Os olhos, da cor de um céu sem nuvens, estavam fixos nele. Desde quando o olhava assim? Talvez desde sempre – Pavel nunca desviara o olhar.

O homem levantou lentamente uma das mãos e o chamou com uma voz suave:

— Venha aqui, hyung.

Assim que ouviu aquilo, Hayul deu o primeiro passo. Depois outro. E mais outro. Avançava na direção da luz que era Pavel – o único ser no mundo que olhava só para ele, que pensava só nele, que exalava aquele perfume cítrico irresistível feito especialmente para ele e mais ninguém.

 

***

 

Hayul ficou de cama por três longos dias devido ao choque de feromônios. Pavel, por estar no período de Rut, foi colocado em isolamento e permaneceu doente por uma semana inteira. Em circunstâncias normais, ele teria sido capaz de controlar seus feromônios sozinho, mas o problema eram as drogas ilegais que ele havia ingerido. E, como foi o próprio Hayul quem deu o Heaven, ele não tinha do que reclamar.

É claro que o casamento foi adiado.

Overdose por substância ilegal, um rut explosivo, e um ferimento de bala no ombro… Pavel realmente escapou por pouco da morte. Mesmo inconsciente, continuou emitindo feromônios de forma tão intensa que apenas os Alfas Reais Oleg e Natasha podiam entrar na sala de isolamento.

— Se tiverem outra briga de casal, acho que o mundo acaba de vez.

Natasha, que ficou no castelo para tratar Pavel, foi direta em sua ironia. Isso aconteceu durante o chá da tarde, no sétimo dia após o incidente. Viktor, sentado ao lado dela, entrou na conversa:

— A única pessoa capaz de deixar o Pavel naquele estado é o Jin. Eu acho incrível que ele ainda esteja vivo depois de abrir dois buracos no ombro de Pavel, não acha?

— Que casal, hein? São exaustivos. Eu queria nunca mais ter que lidar com esses dois… mas o dinheiro é o meu carma.

— Ah, a propósito, senhor Jin, onde está o anel? O anel da Rainha. Não me diga que quebrou? Não pode! Aquilo é patrimônio cultural nacional!

— Se vão continuar me mantendo como médica da família, eu vou ter que cobrar mais. Esse casal é um verdadeiro desastre, você não acha?

— Senhor Jin, o anel. Onde está o anel?

Insistiu Viktor, inclinando-se à frente.

Natasha e Viktor, sem que percebessem, já estavam tagarelando, cada um falando apenas de si mesmo. Viktor ficava insistindo, perguntando onde estava o anel, e Natasha não parava de fazer comentários sarcásticos. O zumbido constante em seus ouvidos o incomodava. Se continuasse ouvindo aquilo, Hayul sabia que acabaria virando a mesa de chá. Então, levantou-se.

— O anel! O anel!

Viktor o perseguiu teimosamente enquanto Hayul voltava para o quarto. Sem paciência, ele acabou entregando-lhe o anel, que havia deixado no quarto, jogado de qualquer jeito. Estava cansado demais para lidar com aquilo. Mesmo assim, Viktor continuou resmungando sem parar.

— É certo deixar o patrimônio cultural de um país jogado assim? Meu Deus, será que o diamante não está riscado?

Hayul conteve o impulso de mandá-lo calar a boca e, esforçando-se para manter a calma, perguntou:

— E ninguém vai perguntar o que aconteceu na floresta?

Nem Oleg, nem Lock, ou mesmo os outros criados, tampouco Viktor ou Natasha, fizeram qualquer pergunta sobre o que ocorreu uma semana atrás. Quando Hayul deu a desculpa de que foi apenas uma briga de casal, todos pareceram aceitar. Mesmo sabendo muito bem que não foi apenas isso.

Seis corpos foram encontrados na floresta. E Dmitri Kirov morrera repentinamente em seu quarto, vítima de uma parada cardíaca. A causa oficial da morte: overdose de drogas. Mas Hayul sabia que ele foi assassinado. Assim como o duque de Headington.

Era evidente que Oleg Kirov havia dado um jeito em tudo desta vez também. Disseram que ele lidou com o corpo de Dmitri quietamente, sem realizar o funeral, dizendo que era uma vergonha para a família. Tudo isso aconteceu enquanto Hayul estava inconsciente; ele só soube depois, ao acordar, através de Lock.

Mesmo com uma morte repentina, ninguém se abalou. Todos continuaram tranquilos, cumprindo suas tarefas. O castelo permanecia calmo, sereno, como se nada tivesse acontecido.

— Seis corpos foram encontrados na floresta, e Dmitri Kirov também morreu de repente. Mas ninguém pergunta nada. Todos ficam calados, como se nada tivesse acontecido.

— É o que chamam de causa e efeito, Sr. Jin.

Os olhos de Viktor, que estavam examinando o anel, se voltaram para Hayul. Então, ele acrescentou:

— O Sr. Dmitri fez coisas que mereciam a morte, então morreu.

Era uma admissão de que ele sabia que fora assassinato. Hayul franziu o cenho, a expressão se contorcendo, e respondeu com dificuldade:

— Viktor… eu…

— Pavel está vivo.

Viktor o interrompeu e sorriu. Era um sorriso que parecia saber todos os detalhes do incidente.

— O Sr. Jin deve ter feito a melhor escolha para si, e,  de qualquer forma, Pavel sobreviveu. Então, é só se casar e viver bem. Simples, não é?

Ele falou de forma leve, com um sorriso simpático que enchia o rosto. O tom era tão exageradamente alegre que Hayul acabou rindo também.

— É verdade. É simples.

— Claro! As coisas do mundo costumam ser mais simples do que parecem.

Viktor deu dois tapinhas amistosos no ombro de Hayul, em seguida, ficou sério por um instante antes de murmurar:

— Vou doar esse anel ao museu, então peça para Pavel comprar uma nova aliança de casamento.

Hayul ficou boquiaberto. Ele só havia entregado o anel temporariamente porque estava sendo incomodado, e agora o homem falava em doá-lo. Enquanto ele o observava, atônito, Viktor lhe deu mais dois tapinhas no ombro e saiu apressado, como se estivesse fugindo.

Foi apenas um dia depois disso – uma semana e um dia após o ocorrido – que Pavel finalmente abriu os olhos. Com a permissão de Natasha para entrar no quarto, Hayul foi vê-lo.

Deitado na cama, Pavel tinha o rosto pálido, o ombro envolto em bandagens. Parecia um cadáver adormecido em um caixão – igual ao que Hayul certa vez viu em sonho. Temendo acordá-lo, ele se aproximou silenciosamente, sem sequer bater à porta.

Mas, mesmo assim, Pavel franziu o nariz e abriu os olhos, que brilharam intensos. Apesar do rosto sem cor, ele sorriu ao vê-lo. A pele pálida fazia com que seus olhos azuis parecessem ainda mais luminosos.

— Vem aqui, hyung.

Pavel levantou a mão, que tinha a agulha do soro, e chamou Hayul. Quando ele se aproximou lentamente, Pavel segurou a mão de Hayul. Sua mão, branca como a neve, estava quente. Como sempre.

— Tive um sonho. Sonhei que estava em um vinhedo com você.

Hayul ficou um pouco surpreso. Antes de recuperar a consciência, ele havia tido exatamente o mesmo sonho. Era uma coincidência arrepiante.

— O aroma de uvas maduras estava por todos os lados. Mas o seu cheiro de uva era o mais doce de todos. Quando envolvi seus ombros nos meus braços, você, por algum motivo, não resistiu e se entregou a mim. Então eu sabia que era um sonho, mas mesmo sendo um sonho, foi tão bom.

Pavel falou com a voz baixa enquanto continuava a mexer na mão de Hayul. Então levou a mão que segurava a dele até a própria bochecha.

— Está fria, sua mão.

Pavel esfregou a mão fria de Hayul em sua bochecha e soprou, como se estivesse tentando aquecê-la. A ponta do nariz do Omega formigou. Uma parte do seu peito doeu. Ele estava quase morto e, mesmo assim, não conseguia sentir raiva do sujeito que o deixara naquela situação.

Quem faria isso por alguém? Quem o amaria assim?

Por causa do estado frágil do  corpo, seu coração estava mais sensível. A vista de Hayul embotou; lágrimas ameaçavam cair. Ele conteve a emoção que subia até a garganta e falou com dificuldade.

— Pavel.

— Hum?

— Pavel.

— Sim.

Mesmo tendo chamado o nome dele, Hayul não sabia o que dizer. Havia tantas coisas para dizer, mas a boca permanecia fechada. Queria só fechar os olhos e, como um louco, soltar uma palavra doce. Mesmo que não conseguisse dizer algo embaraçoso como “eu te amo”, se ele dissesse “eu gosto de você” ou “eu me casarei com você”, o homem ficaria feliz. Ao menos um “sinto muito”, qualquer coisa.

— Vou te matar…

Depois de escolher suas palavras, o que ele finalmente cuspiu foi essa frase. Pavel sorriu e beijou o dorso da mão de Hayul.

— Eu também te amo.

— …

— Você vai casar comigo, não é?

Ele não deu nenhuma resposta. Mas também não negou, ficou apenas olhando para Pavel em silêncio.

— Fique comigo para sempre

A frase exigia uma resposta, então ele falou com voz pesada:

— Está bem, então levanta.

Ao ouvir aquilo, Pavel sorriu radiante. Como uma flor em plena floração. O aroma cítrico de Pavel, que enchia o ambiente, ondulou agradavelmente. Parecia que a primavera já havia chegado.

— Pavel, por acaso esteve em uma guerra ou algo assim?

A voz do Presidente, que compareceu ao casamento, perguntando a Oleg Kirov, era audível. Como a cerimônia foi realizada assim que Pavel acordou, ele ainda estava todo machucado, estava em um estado que não seria estranho se fosse hospitalizado naquele momento.

— Parece que foi uma briga de casal.

Oleg respondeu rindo.

— Briga de casal?

— O meu novo filho é um pouco… explosivo. Por isso as brigas também são intensas.

— Ah é? Desde que não morram, está tudo bem. Brigar só aprofunda o relacionamento, não é? É assim que funciona.

— Isso mesmo.

Os dois, sentados no lugar dos convidados, conversaram casualmente e deram  boas risadas. As pessoas desta família, ou aqueles associados a ela, tinham uma mente aberta: não importa o quanto atirassem, brandissem facas e lutassem, desde que não morressem, estava tudo bem.

Os convidados do casamento estavam reunidos no grande salão do castelo, brindando taças de champanhe e trocando conversas animadas. O número de convidados era pequeno, mas a cerimônia era absurdamente luxuosa. Todo o enorme salão principal fora decorado com rosas, e todos os tipos de ornamentos reluziam por todos os cantos. No centro, uma fonte de champanhe jorrava sem parar, e até os talheres, facas, garfos e copos sobre as mesas eram de grife.

Até o púlpito onde o oficial conduzia a cerimônia era extremamente luxuoso. E diante dele estava Pavel, sob seus pés, um tapete vermelho que se estendia, ladeado por fileiras de convidados. Hayul aguardava atrás da cortina, no fim daquele caminho. Vestia um smoking que nunca tinha usado antes e usava luvas brancas nas mãos. Ele se sentia estranho, desconfortável, a ponto de enlouquecer.

— Segure isto.

Já estava desconfortável, e então Lock estendeu um buquê de lírios-do-vale. ‘Quer que eu segure isso?’ Mesmo sob o olhar carrancudo e fulminante de Hayul, Lock, sem se importar, enfiou o buquê nas mãos dele. Quando ele tentou colocar um véu branco em sua cabeça, Hayul o impediu, dizendo que aquilo ele não aceitaria.

— Nem pense nisso. Se colocar isso na minha cabeça, eu rasgo na hora.

Ele rosnou, com voz baixa.

— Não poderia controlar um pouco o seu temperamento só por hoje? É um dia especial.

— É melhor o Sr. Lock se acostumar com a minha personalidade. Ela não vai mudar.

Locke estalou a língua e balançou a cabeça, desistindo do véu. Limitou-se a ajeitar cuidadosamente as roupas de Hayul, endireitando os detalhes amassados, e então o conduziu para fora da cortina.

Assim que ele apareceu, a orquestra começou a tocar. Crianças vestidas de branco correram à frente dele espalhando pétalas de flores no ar. Os convidados sentados de ambos os lados aplaudiram. Hayul, um tanto tenso, caminhava de forma rígida sobre o corredor coberto de pólen dourado e pétalas cintilantes. Segurando o buquê, que deveria ser segurado com ambas as mãos elegantemente, de qualquer jeito em uma só mão, ele se dirigiu ao púlpito.

Os criados riam, murmurando que aquilo era típico do senhor Jin. Sons de parabéns e palmas enchiam o ar. O salão inteiro estava repleto de rosas frescas, mas Hayul não sentia o perfume de nenhuma – o cheiro cítrico de Pavel dominava tudo.

Diante do altar, Pavel o esperava, sorrindo. O perfume do Alfa Real era inconfundível. Mesmo com o ombro envolto em bandagens e o rosto ainda pálido, ele estava deslumbrante, o ser mais brilhante naquele espaço opulento.

De repente, Hayul se lembrou do primeiro encontro entre eles, sete anos atrás, no estádio de canoagem. O ar daquele dia, o vento, a sensação da luz do sol tocando sua pele – todas essas memórias surgiram vividamente em sua mente. Como pode existir alguém assim? Ele pensou, olhando para Pavel com espanto e admiração. Foi provavelmente naquele momento que se apaixonou à primeira vista pelo Alfa Real sentado nas arquibancadas.

Aquele ser que antes parecia inalcançável estava agora ali, bem diante dele. Pavel sorria e estendia a mão, exalando aquele perfume cítrico que só Hayul podia sentir.

Venha até aqui, hyung.

Os lábios de Pavel se moviam, e Hayul pôde ler claramente as palavras. Então ele avançou sem hesitar, indo ao encontro do ser banhado em luz – seu Alfa Real.

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{Fim. } Obrigada por acompanhar Cão Real

 

 

 

Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online

(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
 
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog

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