Ler Cão Real. – Capítulo 46 Online
— Bom dia.
Uma voz desconhecida ecoou, seguida pelo som das cortinas grossas sendo puxadas, fazendo com que a luz inundasse o quarto. Hayul, ainda enterrado sob os cobertores, gemeu e se remexeu. Ele até abriu os olhos, mas a dor de cabeça era tão intensa que parecia que seu crânio ia rachar. Era a ressaca. No dia anterior, ele e Oleg Kirov haviam esvaziado cinco garrafas de vinho. E, como se o vinho não fosse suficiente, Oleg ainda trouxe um whisky.
Embora a resistência de Hayul para a bebida fosse alta, não conseguiu competir com Oleg. Ele ficou completamente bêbado; não se lembrava do que conversaram, nem de como foi parar no quarto.
Quando finalmente conseguiu se levantar com dificuldade, e se sentou na cama, com os cabelos despenteados, Lock – o mesmo homem que o cumprimentara no dia anterior – abriu um suporte de bandeja sobre a cama e serviu-lhe um chá quente. A cabeça latejava tanto que Hayul fez caretas e, ao tomar um gole do chá, quase o cuspiu. O sabor era horrível.
— O que é isso?
— É um remédio caseiro especial da família para ressaca. Mesmo que seja ruim, por favor, beba. O efeito é excelente.
Falando de forma seca, Lock se virou e começou a limpar o quarto, movendo-se rapidamente. Como o homem disse que era eficaz, Hayul decidiu suportar o gosto ruim e foi bebendo aos poucos. Quando recuperou um pouco os sentidos, percebeu que o lugar da cama ao seu lado estava vazio.
Será que Pavel tinha dormido ali ontem? Não lembrava. Tentou forçar a memória, mas a dor de cabeça não permitiu.
— O jovem mestre saiu logo cedo para tratar de alguns assuntos. Só retornará em dois dias. — Lock informou o paradeiro de Pavel sem que ele perguntasse. E ainda acrescentou, desnecessariamente, notícias sobre Oleg Kirov. — O mestre e o senhor Dmitri estão se preparando para caçar.
Beberam a noite toda e ainda tinham energia para isso.
— Hoje, o alfaiate virá para tirar as medidas das suas roupas.
— Que roupas?
— O traje de cerimônia que o senhor Jin usará no casamento. O jovem deseja que o casamento seja o mais rápido possível. Assim que ele retornar, irão direto à igreja para registrar o matrimônio. E nessa mesma noite, o senhor deverá comparecer a uma recepção social para cumprimentar os convidados. Será uma agenda bem agitada. Peço desculpas, sei que ainda deve estar cansado da viagem.
— Eu nunca… Ahh. Vou tomar um banho primeiro
Hayul pensou que não adiantaria discutir com um empregado, afirmando que nunca concordara em se casar. Ele terminou o chá, levantou-se com dificuldade e quase rastejou até o banheiro. Passou um longo tempo mergulhado na banheira, aproveitando o banho até ficar inchado pela água, amolecer por completo.
Seja por causa do chá para ressaca, ou por ter relaxado o suficiente na banheira, a dor de cabeça diminuiu um pouco. Pensando que precisava comer algo, saiu da banheira e, ao olhar casualmente para o espelho na parede do banheiro, levou um susto. Seu corpo estava coberto de marcas vermelhas. Especialmente o pescoço, tomado por hematomas profundos.
O hematoma no pescoço tinha uma forma roxa-escura, como se tivesse sido mordido e chupado com força. As marcas em outras partes do corpo desapareceriam logo, mas a do pescoço parecia que ia deixar uma cicatriz. Não entendia por que a fixação justamente naquela região.
Além do pescoço, até os mamilos estavam marcados de sangue preso. Ele só pôde suspirar. Suas costas também estavam doloridas, mas ele não tinha coragem de verificar.
Seu corpo estava um caos, mas o rosto parecia ótimo. Ele estava se alimentando bem, dormido profundamente… embora seu corpo inteiro estivesse dolorido por causa do sexo intenso. Sua face estava radiante, suas bochechas, antes finas e encovadas, agora estavam mais cheias, e sua pele estava lisa.
Mas, no fim, ainda era um rosto masculino. Distante da beleza delicada. Cabelos pretos comuns, sobrancelhas escuras, olhos negros, pele bronzeada, traços rústicos no nariz e lábios cerrados com teimosia. Por mais que olhasse, era no máximo um rosto bonito, mas a palavra ‘lindo’ não surgia.
‘O que afinal Pavel via de bonito ou fofo nesse rosto?’
Sem saber por quê, Hayul passou a mão pelo próprio rosto, virou a cabeça de vários ângulos diante do espelho, piscou, tentou sorrir, até fez caretas. Não importava o quanto observasse, não havia nada de “fofo” em sua aparência.
O problema só podia ser nos olhos dele. Porque, de fato, quem era belo ali era Pavel.
“Jin hyung. Jin Hayul.”
Pensar naquele sujeito fez até com que ouvisse vozes. A imagem do rosto sorridente de Pavel, chamando por seu nome, veio à mente junto com o perfume cítrico que parecia se espalhar por todo lugar.
“Você é fofo, hyung. É lindo.”
Se ele estivesse ali, com certeza teria se aproximado silenciosamente por trás, abraçado Hayul e sussurrado docemente ao seu ouvido.
“Eu te amo.”
E não deixaria de repetir essas palavras.
Hayul conseguia recordar com facilidade surpreendente o tom de voz, a expressão, o olhar, a intensidade dos feromônios e até o calor da respiração de Pavel quando sussurrava “eu te amo”. Mesmo sem ele estar presente, parecia que ainda estava ao seu lado. Era como se o cheiro característico dele ainda formigasse na ponta do seu nariz, e quase podia ouvir a voz baixa do homem chamando: “Jin hyung.”
‘Quando foi que ele se infiltrou tanto assim na minha vida?’
As palavras que Oleg dissera durante o jantar na noite anterior vieram à tona e pairaram em sua mente.
Ele dissera que, quando alguém deixa de ser um simples alvo a ser eliminado e se torna um ser significativo, vivo e pulsante, puxar o gatilho se torna impossível.
Até agora, nunca havia passado por isso. Um alvo era apenas um alvo. Nada além de algo a ser abatido.
“Quantas oportunidades você não teve para matar Pavel? Você é um assassino, não?”
A voz de Oleg Kirov, seu olhar que parecia saber de tudo, vieram à mente. Sim. Ele era um assassino. Nunca havia falhado em eliminar um alvo designado. A última missão, o assassinato de Steve Tavière, ele tinha fracassado, mas aquilo foi inevitável.
Aquela foi sua primeira e última falha.
Não. Pensando bem, também falhou em assassinar Pavel Kirov.
“Então, você conseguiria matar Pavel Headington?”
De repente, ele se lembrou das palavras de Marco. Na época, o fato de ele ter dito isso significava que alguém havia encomendado o assassinato de Pavel. Depois disso, uma série de eventos se desenrolou em rápida sucessão, deixando-o tão atordoado que se esqueceu disso, mas agora pensando bem.
Se uma série de variáveis imprevisíveis não tivessem ocorrido em sequência, Hayul teria lidado com Steve Tavière sem problemas e Pavel teria se tornado o próximo alvo.
‘Quem foi? Quem encomendou a morte de Pavel a Marco?’
A dúvida que lhe veio levemente à mente logo se transformou em suspeita. Hayul ficou parado em frente à pia por um momento, imerso em pensamentos. Havia algo que o incomodava, como uma pedrinha rolando dentro do sapato, desde que ele chegou ali.
O que era? Algo que ele deixou escapar sem perceber, enquanto estava distraído com Pavel e Oleg Kirov.
— Senhor Jin, já terminou o banho? Trouxe sua refeição.
A batida de Lock na porta do banheiro interrompeu seus pensamentos. Sem alternativa, Hayul terminou de se enxugar, vestiu o roupão e saiu. Não havia outra roupa para colocar.
Ao sair do banheiro, viu que não apenas Lock estava lá, mas duas empregadas também haviam entrado e estavam arrumando a mesa com a comida. Lock estendeu-lhe roupas limpas. Quando Hayul pegou as roupas e se virou para voltar ao banheiro, ele perguntou, com um ar de estranheza:
— Por que o senhor está levando as roupas para dentro?
— Para me trocar, é claro.
Só então Lock sorriu.
— Pode se trocar aqui mesmo.
— Mas há mulheres presentes.
Com as roupas nos braços, Hayul indicou discretamente as criadas, que estavam ocupadas preparando a mesa.
— Não se preocupe com elas. O grande mestre e o jovem mestre trocam de roupa diante de dezenas de pessoas sem problema algum.
Bom, aqueles caras são Alfas Reais sem vergonha na cara, então é compreensível. Ele, por outro lado, não conseguia. Segurando firme as roupas, voltou ao banheiro.
— O senhor Jin é mais tímido do que parece.
Ouviu Lock murmurar atrás dele, seguido das risadas das criadas. Ele quis dizer que isso era perfeitamente normal, mas engoliu as palavras e vestiu-se rápido. Depois de colocar a roupa íntima e as peças sobrepostas, sentiu-se melhor. Prepararam para ele um pijama de material grosso e quente, adequado para o clima frio.
Ele saiu novamente e se sentou à mesa redonda colocada diante da janela, começando sozinho um tranquilo café da manhã. Num instante, devorou apressadamente a comida toda e até limpou a sobremesa. Foi uma refeição bastante satisfatória. Cada prato estava delicioso.
As criadas recolheram os pratos vazios, e Lock serviu-lhe o chá após a refeição.
— O inibidor deve ser tomado todas as manhãs sem falta.
Enquanto dizia isso, ele colocou o frasco de inibidores ao lado da xícara de chá. Se havia algo que Hayul nunca esquecia de tomar, era o inibidor. Era questão de sobrevivência. Ele engoliu o comprimido do dia com um gole de chá morno.
— Como não posso estar sempre acompanhando, vou preparar um estojo para que leve com você. Este é o inibidor de uso diário, este é o neutralizador de feromônio, e aqui está uma injeção com alta concentração de inibidor. Em uma emergência, basta aplicar e o efeito será imediato.
Lock retirou de uma pequena bolsa de couro dois frascos e uma seringa. Hayul pegou a seringa, examinou-a com cuidado e perguntou:
— Que tipo de situação seria considerada emergência?
— Omegas com ciclos de cio irregulares podem ter surtos repentinos. Nesses momentos, os inibidores comuns não conseguem suprimir os feromônios. Quando os feromônios explodem subitamente, a situação fica muito complicada. Muitos acabam sendo estuprados nessa situação. Por isso, a maioria dos ômegas anda sempre com uma injeção de inibidor concentrado.
— A vida dos ômegas parece bem miserável.
Hayul murmurou, olhando para a seringa como se estivesse falando de outros. Lock poderia muito bem retrucar “você também é um ômega”, mas apenas pegou a seringa de volta, guardando-a na bolsa sem dizer nada.
— Ainda bem que o senhor Jin não reage aos feromônios de outros alfas reais além do jovem mestre. Os feromônios do grande mestre e o jovem mestre são tão intensos que até Ômegas Reais sofrem para suportá-los.
— E quanto a Dmitri Kirov?
Com a pergunta de Hayul, Lock piscou os olhos, surpreso.
— O senhor Dmitri é irmão do senhor Oleg, certo? Se ele também é da linhagem dos Kierov, seus feromônios devem ser igualmente fortes.
— Ah, está falando disso. Em nosso país, os Alfas Reais são classificados e gerenciados por níveis. O grande mestre e o jovem mestre estão no nível A. O jovem mestre, inclusive, recebeu neste ano a pontuação mais alta do sistema de compatibilidade. Já o senhor Dmitri, talvez por ter uma mãe diferente do grande mestre, é classificado como nível B. O senhor Dmitri sempre quis herdar os negócios do grande mestre, mas, sinceramente, ele não tem capacidade para isso. É uma sorte imensa que alguém tão brilhante como o jovem mestre Pavel vá sucedê-lo.
Lock não poupou críticas ao falar de Dmitri Kirov. Ele até se parecia com Oleg e Pavel, mas havia algo sutilmente diferente nele. Aqueles cabelos brancos como a neve, o olhar penetrante que encarou Hayul, e o tom de voz peculiarmente afiado. Era um homem que Hayul tinha certeza de já ter visto em algum lugar.
Ele bateu os dedos na mesa, perdido em pensamentos, quando Lock voltou a encher sua xícara e comentou:
— O senhor Jin disse que é um caso de mutação, de sub-beta para ômega, não foi?
Hayul apenas assentiu com a cabeça, tomando o chá.
— Então deve ser por isso que o senhor tem características diferentes de outros ômegas. Um corpo que só reage aos feromônios do jovem mestre… que romântico.
Apesar da aparência fria, Lock era surpreendentemente emotivo e falador.
— Meu Deus! Isso não é destino?
Uma das criadas, que ouvia em silêncio, aproveitou a deixa para se intrometer. Destino? Que piada. Hayul esboçou um sorriso irônico por dentro, mas apenas continuou a beber seu chá. Quando ele não respondeu, a outra criada também entrou na conversa.
— Então o senhor Jin só consegue sentir a fragrância de rosas do jovem mestre?
— Ora, não sejam inconvenientes. — Lock acabou repreendendo as criadas. Mas desta vez, Hayul não ficou apenas ouvindo calado.
— Fragrância de rosas?
Diante da pergunta dele, as criadas se animaram e começaram a tagarelar todas ao mesmo tempo.
— Sim! O senhor Pavel emana feromônios incrivelmente intensos, como se tivesse sido encharcado com perfume de rosas.
— Isso mesmo. Quando eu senti o feromônio do senhor Pavel pela primeira vez, achei que tinha sido jogada bem no meio de um jardim cheio de milhares de rosas em plena floração. O feromônio do grande mestre é bem forte e pesado, mas o do jovem mestre tem um efeito viciante. É tão inebriante que minha mente ficou turva como se tivesse inalado uma droga, de tão extasiante que era.
— Mary, naquela vez você acabou desmaiando, não foi?
— Sim, sim. Minha mente ficou turva e, de repente, eu estava caída. É difícil porque precisei tomar mais do que o dobro da dose do neutralizador de feromônios.
— É uma droga, uma droga mesmo!
As criadas se entreolharam, balançando a cabeça em concordância. Mas na mente de Hayul só surgiam pontos de interrogação.
‘O Pavel exalava cheiro de rosas?’
Para Hayul era um aroma cítrico. Tanto sete anos atrás quanto agora, o cheiro daquele sujeito sempre foi um fresco e vibrante aroma cítrico.
— Sr. Lock, o feromônio de Pavel é percebido por você como cheiro de rosas?
— Sim, para o senhor Jin não?
— Para mim é cítrico. O feromônio de Pavel tem cheiro cítrico.
Diante das palavras de Hayul, Lock arregalou os olhos. As empregadas, de repente, correram simultaneamente para a mesa e começaram a tagarelar excitadas entre si.
— O senhor Jin sente o feromônio do senhor Pavel como cheiro cítrico?
— Então é verdade! Vocês dois realmente devem ser almas gêmeas predestinadas pelo céu!
A reação era tão exagerada que chegou a ser sufocante.
— O… o que é isso, afinal?
— Já ouvi dizer que quando um Alfa Real encontra seu verdadeiro parceiro, o feromônio passa a exalar um aroma especial exclusivo para essa pessoa. Não é como contratos ou casamentos arranjados. É quando realmente se encontra alguém que ama de verdade. Quando o sentimento é genuíno, o corpo naturalmente gera um cheiro que só essa pessoa pode sentir.
— Ahhh! Que romântico!
— Não sabia que o senhor Pavel era tão romântico e puro. Não é surpresa que alguém com a aparência de um protagonista de romance também ame como num romance.
As duas falavam ao mesmo tempo, deixando a mente de Hayul completamente confusa. No fim, a conclusão foi que o aroma cítrico de Pavel era algo que só ele podia sentir.
A primeira vez que Hayul sentiu aquele cheiro foi há sete anos. Desde então, ele conseguia sentir o feromônio daquele sujeito. Na época, pensou que fosse perfume. Agora, uma dúvida natural lhe veio à mente.
— O senhor Lock é Alfa, não é?
Mesmo sem ouvir a resposta, ele já sabia desde o primeiro encontro. O homem exalava aquela aura típica de um Alfa. Lock respondeu com um breve “Sim” e olhou para Hayul.
— Então o senhor Lock consegue sentir meu feromônio?
— Sim consigo. Mas como o senhor está tomando inibidores constantemente, seu feromônio é muito suave.
— E qual é o cheiro do meu feromônio?
— É como o doce aroma de chocolate típico de um Ômega. Nada fora do comum. Durante o ciclo de cio seu feromônio se tornará mais intenso que agora, mas provavelmente não vai chegar ao nível de um Ômega Real.
— Por acaso não sente cheiro de uva vindo de mim?
— Hein? Não, de jeito nenhum.
Diante da resposta de Lock, Hayul franziu a testa. Pavel definitivamente disse que sentia cheiro de uva nele. As empregadas, que haviam ficado em silêncio por um momento, logo se intrometeram de novo. Elas não eram do tipo que ficavam só ouvindo.
— Por acaso foi o senhor Pavel quem disse isso? Que o senhor Jin tem cheiro de uva?
Mesmo sem responder, o silêncio foi interpretado por elas como uma confirmação, e mais um coro de exclamações ecoou.
— Então o senhor Jin também ama de verdade o senhor Pavel!
— Vocês enlouqueceram?
Desta vez, era simplesmente impossível aguentar. Sem perceber, sua voz saiu mais alta do que o normal. As empregadas, que estavam tagarelando animadamente entre si, se assustaram. Seus rostos jovens ficaram tensos, como se estivessem pensando que haviam dito algo errado. Sentindo que estava descontando sua raiva nelas sem motivo, Hayul baixou rapidamente o tom de voz.
— Desculpem. Mas não, não faz sentido nenhum.
— Mas parece que o senhor Jin também está liberando um feromônio que só o senhor Pavel pode sentir…
Uma das criadas tentou se explicar, olhando para ele. O rosto de Hayul se contorceu instantaneamente. Ele havia falhado novamente em controlar sua expressão. Ficou sério de repente; não tinha ânimo para forçar um sorriso e mudou de expressão de forma abrupta.
‘Amor? Amar o Pavel? Exalar um perfume especial que só ele pode sentir?’
A ideia o derrubou: ficou zonzo, atordoado com a surpresa.
Enquanto Hayul estava imerso em pensamentos profundos, Lock dispensou as criadas em silêncio. Mesmo depois que elas saíram, Hayul ficou ali parado, imóvel como uma estátua, por um bom tempo. Lock sozinho arrumou a mesa e colocou com eficiência a xícara de chá vazia e os pratos em um carrinho com rodas.
— Então descanse um pouco. Quando o alfaiate chegar, eu aviso.
— Sr. Lock.
— Sim, precisa de algo mais?
— Quero sair um pouco.
O que ele precisava naquele instante era de ar fresco e exercícios intensos. Ele queria se exercitar como um louco para tentar se livrar dos pensamentos intrusivos que ameaçavam explodir sua cabeça.
— Sair?
— Quero passear, nem que seja pelo jardim.
— O senhor quer dar uma volta pelo terreno do castelo? Devo preparar um cavalo? O jardim é muito extenso, não será fácil percorrê-lo a pé. Vou designar alguém para guiá-lo pela estrutura do castelo.
— Não, eu só quero sair para caminhar, está bem? Um passeio leve, para me exercitar também.
Lock pareceu contrariado, mas logo sorriu e tirou o celular do bolso.
— Tragam as roupas de frio para o senhor Jin.
Falou algo rapidamente ao telefone e desligou.
— Não preciso de roupa de frio.
— O senhor vai congelar até a morte. Não subestime o clima daqui, e, até se acostumar com a geografia deste lugar, nunca saia sozinho, de jeito nenhum. No ano passado, um convidado que veio de longe, bêbado, saiu sozinho para um passeio sem se agasalhar direito, se perdeu e não conseguiu voltar. Procuramos por dias, e o encontramos na floresta nos arredores do castelo, morto de forma horrível, dilacerado por animais selvagens famintos, seu cadáver estava tão mutilado que não dava nem para reconhecer o rosto.
Lock sorriu com afabilidade enquanto contava uma história horrível.
— Animais selvagens? No terreno do castelo?
— Sim temos. Já apareceu até um urso.
Que dimensão tinha esse castelo? Logo um criado entrou trazendo uma pilha de roupas grossas: casaco, gorro, luvas, botas forradas. Só depois de se equipar com tudo aquilo é que Lock aceitou deixá-lo sair. Vestido de modo que mais parecia um urso ambulante, Hayul saiu seguido pelo criado que trouxe as roupas.
— Ah, e não se aproxime das áreas externas do castelo. A cerca está eletrificada com alta voltagem. Se tocar nela por descuido, mesmo que levemente, vai acabar se machucando.
Lock aconselhou em voz baixa enquanto Hayul saía, cambaleando com as roupas. Incrédulo, Hayul virou-se e olhou para ele, perguntando:
— Para que foi instalada a cerca?
— Para evitar invasões. O grande mestre tem muitos inimigos. Tenha um bom passeio.
Lock sorriu e fez uma reverência. Claro: aquilo era a casa de Oleg Kirov. Sendo o chefe de uma organização mafiosa, era necessário ter uma segurança fortíssima. Mas uma cerca eletrificada com alta voltagem… Servia para impedir que os ratos entrassem e, claro, também para impedir que um certo rato escapasse.
— Filho da puta.
Quando ele resmungou um palavrão enquanto caminhava, o criado que o acompanhava deu um salto e fitou Hayul.
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Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog