Ler Cão Real. – Capítulo 38 Online
— Ha-ha. Está com bastante energia, realmente. Deve estar se sentindo bem depois de tanto tempo.
Pavel estava parado bem na frente de Hayul, sorrindo enquanto o encarava de cima.
— É assim que minha noiva deve ser.
— Essa maldita história de noiva…
Naquele instante, outro disparo ecoou. Era o último som que deveria surgir naquela situação. Um dos homens ao lado de Pavel caiu no chão, com o ombro atravessado por uma bala. Estava claro que alguém havia mirado em Pavel.
— Traditore! (Traidor!)
Do lado de fora do prédio, um homem gritou em italiano e saiu disparando a arma. Devia ser um dos membros do grupo do Marco.
Os subordinados de Pavel imediatamente se posicionaram à frente dele e abriram fogo em resposta. Com o corpo dos homens servindo de barreira, não dava para ver se o atacante tinha morrido ou o que havia acontecido.
Mas os capangas de Marco jamais agiam sozinhos, eles sempre andavam em bando. E, como esperado, alguns furgões pretos deslizaram até a frente do prédio; de dentro, homens começaram a atirar contra o grupo de Pavel. Alguns deles caíram na hora.
As vans pretas pararam em fila, os indivíduos dentro desceram pela porta oposta e, usando os carros como barricadas, continuaram atirando. Parecia que estavam determinados a acertar as contas de uma vez por todas hoje. O grupo de Pavel, exposto em uma área aberta de todos os lados, estava em desvantagem.
— Vermes miseráveis…
Pavel sorriu entre os dentes, sacou a pistola e de pé, em meio à chuva de balas, começou a atirar com incrível destreza. Sua voz soou calma quando chamou:
— Hyung.
Ignorando a voz, Hayul, que se levantou silenciosamente, aproveitou que todos estavam distraídos com o ataque súbito, e pegou uma pistola que estava rolando no chão.
— Hyung!
A voz de Pavel soou atrás dele, mas pouco importava. Ele virou as costas e fugiu daquele campo de guerra. Sim, era um ato covarde, mas quem ligava? Nem Pavel nem os Marco eram aliados dele. Pavel provavelmente tentaria persegui-lo imediatamente, mas seria difícil para ele se mover em uma situação onde todos estavam atacando, mirando nele.
Seus subordinados também não tinham tempo para nada além de protegê-lo, tentando cercá-lo e arrastá-lo de volta para dentro do prédio.
— Jin Hayul!
Mesmo em meio ao tiroteio, o grito de Pavel ressoou agudo. Hayul deixou o som entrar por um ouvido e sair pelo outro. Correu para os fundos do prédio, pulou a cerca de uma vez e correu para o estacionamento.
No estacionamento, ele viu o carro em que ele e Pavel tinham vindo. Por acaso, o motorista estava por perto, fumando um cigarro e falando com alguém pelo celular. No momento em que Hayul se aproximou dele por trás, o subjugou instantaneamente e o derrubou, pegou a chave do carro e se aproximou do veículo, foi quando…
Nesse momento, pessoas começaram a sair pela porta de emergência do prédio, tentando se refugiar no estacionamento. De repente, novos tiros ecoaram do outro lado, fazendo os que fugiam gritarem de pavor.
— Sean!
No meio da confusão, Jimmy avistou Hayul e gritou. Ao lado dele o diretor da filial do Sistema de Compatibilidade, o médico e alguns funcionários também murmuravam, olhando atônitos para Hayul.
— Sean! O que diabos está acontecendo? Isso tudo é por causa daquele cara que veio com você, não é?
Jimmy quase berrou a pergunta, mas Hayul o ignorou e apertou o botão da chave inteligente. Nesse instante, alguém agarrou seu ombro e o puxou bruscamente para trás.
Logo depois, BOOOOM! Um estrondo colossal sacudiu o ar. Foi tão repentino que ele ficou atordoado. Piiii – um zumbido agudo tomou conta de seus ouvidos, abafando todos os sons ao redor. No momento em que ele ligou o carro, o veículo explodiu.
No instante da explosão, alguém o envolveu pelos ombros, o derrubou no chão e o cobriu com o próprio corpo para protegê-lo.
O ar se encheu do cheiro de pólvora, metal queimado e fumaça sufocante. Mas, entre tudo isso, um aroma cítrico se destacou. Em meio ao silêncio surdo que se seguiu, apenas a voz de Pavel chegou nítida ao ouvido de Hayul:
— Está tudo bem, hyung?
Aquela fragrância fresca destoava totalmente daquele campo de batalha insuportável. Ao sentir o aroma cítrico, o pulsar acelerado do peito de Hayul foi acalmando e o zumbido nos ouvidos diminuiu. Ele tentou olhar para Pavel, mas a visão estava turva; precisou piscar os olhos com força várias vezes até focar.
— Está machucado em algum lugar?
A voz vibrante de Pavel soou novamente. Só então ele conseguiu sentir o cheiro de sangue misturado ao aroma cítrico. O rosto de Pavel, que sussurrava com doçura, estava ensanguentado. Sua cabeça estava cortada, e sangue escorria de uma ferida aberta, deixando seu rosto bonito completamente arruinado. Mesmo assim, seus olhos azuis brilhantes estavam cheios de preocupação.
— Hayul hyung?
Como Hayul apenas o encarava fixamente, Pavel perguntou preocupado, achando que ele pudesse estar ferido em algum lugar. Ele tocou o rosto de Hayul, que o encarava com um olhar vago, e varreu os cabelos grudados em sua testa. As pontas dos dedos brancos de Pavel também estavam encharcadas de sangue.
— Está tudo bem?
— Estou bem.
Hayul mal conseguiu responder, e Pavel sorriu aliviado.
— Que alívio.
Mas a pergunta “Você está bem? Está doendo?” Essas palavras não conseguiram sair de sua boca. Seria ridículo perguntar isso enquanto fugia dele. Assim que o zumbido praticamente cessou, os ruídos retornaram: gritos, gemidos, “chefe!” ecoando enquanto os capangas de Pavel reagiam.
Os homens ajudaram a levantar Pavel e Hayul. Quando Pavel se ergueu, a visão dele era ainda mais lastimável: parecia um soldado voltando de uma batalha brutal. As roupas, impecáveis pela manhã, estavam em farrapos; a pele à mostra carregava cortes e arranhões por todo lado. Parecia que sua cabeça não era o único lugar ferido.
— Vocês terminem a limpeza e nos sigam.
Pavel empurrou a mão do capanga que o segurava e deu ordens.
— Devemos eliminar todos?
O homem perguntou com calma – felizmente em inglês que Hayul conseguia entender.
— Mate os que resistirem e capture apenas os que se renderem. E já que estamos nisso, identifiquem todos os envolvidos com Marco. Varram tudo, até as raízes.
— Mas a raiz está na Itália.
— Então procurem lá. Onde quer que estejam, procurem e eliminem. Para que nunca mais façam isso de novo. Mexeram com a minha gente. Ninguém toca em alguém dos Kirov e sai impunemente.
— Entendido.
A cena parecia a de um chefe e seu subordinado conversando casualmente durante uma tarde de negócios – o tom calmo, mas palavras que não admitiam leveza alguma.
— E, chefe… o senhor não deveria ir ao hospital…?
— Pare de tagarelar e apenas faça seu trabalho direito.
O homem não disse mais nada, apenas acenou levemente com a cabeça e se afastou. Pavel ofegou e suspirou, então pegou seu celular do bolso mas o aparelho estava quebrado.
— Droga.
Ele jogou o celular no chão e xingou com raiva.
— Como ousam tocar no meu parceiro! Seus filhos da puta!
Ele gritou com o rosto todo contorcido e com ferocidade. Era um comportamento atípico dele. Por mais bravo que ficasse, ele nunca xingava. Com o rosto ensanguentado, bufando de raiva e queimando com fúria, ele parecia um demônio que fugiu do inferno. Isso era ainda mais evidente porque ele não conseguia controlar seus feromônios, que queimavam intensamente.
Curiosamente, não estava furioso porque atacaram a si – estava furioso porque atacaram Hayul.
‘Que homem estranho.’
Era ao mesmo tempo cômico e estranho vê-lo bufando e xingando numa mistura de inglês e russo. Sirenes de polícia e bombeiros uivavam ao longe. Não era hora de ficar ali. Ao olhar ao redor, notou que os homens ao lado dele se enrijeceram: talvez temessem que Hayul ainda tentasse fugir. De qualquer forma, fugir naquela situação era impossível.
— Ei.
Ele tentou chamar por Pavel, mas pareceu que o outro não o ouviu.
— Pavel.
Ao chamar de novo, ele finalmente virou a cabeça.
— Vamos ficar aqui parados assim?
Ele torceu o rosto, soltou um longo suspiro e começou a andar. Mas mal deu alguns passos e cambaleou. Era impressionante que ele tivesse se mantido em pé naquele estado. Os capangas correram para ampará-lo, mas ele os afastou irritado, fixando o olhar apenas em Hayul, e falou:
— Você me ajuda, hyung.
Hayul ficou pasmo e deu uma risada zombeteira.
— Me ajuda a levantar?
Ele repetiu com descaramento. Sua expressão, com o canto dos olhos caído, fingindo-se de coitado, era simplesmente irritante. Aguentou tanto até agora e, de repente, finge fraqueza. As sirenes da polícia se aproximavam. Sem alternativa, Hayul se aproximou, passou o braço de Pavel sobre o próprio ombro e o sustentou. O corpo grande do homem se apoiou inteiro nele pesado e ofegante. Por mais robusto que fosse, Pavel não era feito de aço.
Enquanto sustentava Pavel, Hayul lançou um olhar rápido para o rosto dele. Ver o perfil arruinado e coberto de sangue seco fez uma irritação estranha subir dentro dele ‘Tsc. Vai acabar com uma cicatriz nesse rosto bonito.’ Queria matá-lo, ele deveria se sentir satisfeito por ver o sujeito ferido, mas por algum motivo apenas se sentia incomodado.
— Está doendo?
— Dói sim.
— Não seria melhor ir ao hospital?
— Está tudo bem. Isso não é nada. Contanto que você esteja seguro, hyung.
— Você podia ter morrido.
— Não importa. Melhor eu morrer do que ver o hyung ferido.
As palavras, ditas entre suspiros pesados, soaram sinceras. O tom calmo dava peso à promessa. Hayul sabia: não era algo dito da boca para fora. Mesmo que perdesse um braço, acharia melhor isso do que ver Hayul ferido, e ainda sorriria com isso. Ele não sabia muito sobre o Pavel, mas o homem sempre foi sincero com ele. Desde o início, há sete anos atrás, Pavel só reagia a ele. Sempre, e apenas a ele.
Hayul o empurrou primeiro para dentro do banco de trás do carro e entrou em seguida. Durante o trajeto, Pavel pegou emprestado o celular de um subordinado, fez uma ligação em russo e limpou o rosto com um lenço umedecido. Em seguida, fez mais algumas ligações para algum lugar. Hayul apenas olhou para fora da janela do carro, com um olhar vago.
O carro já havia percorrido boa distância quando Hayul sentiu algo encostar em seu ombro. Pavel, adormecido, havia deixado a cabeça pender sobre ele.
— Que estranho. Ele nunca dorme assim fora de casa.
O motorista comentou olhando pelo retrovisor, em um inglês ruim. Para Hayul também era a primeira vez que Pavel dormia encostado nele assim. O jeito como ele cruzava os braços e inclinava a cabeça parecia desconfortável. Hayul baixou os olhos para observar o rosto dele adormecido.
Os cabelos embebidos em sangue seco faziam cócegas na bochecha e no queixo de Hayul. Os cílios longos se destacavam contra as pálpebras cerradas. A linha da testa, o nariz afilado, cada traço parecia pintado à mão. Apesar das manchas de sangue ainda visíveis, a pele do rosto brilhava suavemente.
Ele ficou maravilhado, como se o visse de novo pela primeira vez. Como alguém poderia ser tão bonito? Seu rosto adormecido parecia o de um anjo. Olhando de perto, ainda era possível reconhecer traços do jovem de sete anos atrás.
Como sua pele era naturalmente lisa e clara, os arranhões vermelhos em sua bochecha e testa pareciam particularmente proeminentes. A irritação subiu novamente dentro dele. Ele esticou a mão e tocou cuidadosamente as áreas feridas. Uma preocupação inútil lhe atravessou a mente: “E se esse rosto ficasse marcado por cicatrizes?”
Se não fosse por Pavel, ele teria explodido e morrido no momento em que o carro detonou. Ele nem sequer tinha considerado a possibilidade de que uma bomba pudesse ter sido plantada no veículo. Era um método comum de eliminação da máfia; ele tinha sido estúpido. Isso era uma vergonha para se considerar um ex-agente especial.
Por que ele se jogou para salvá-lo? Um maldito Alfa Real. Um sujeito que nasceu com o sangue de Alfa, apoiado pelo poder da família Kirov, com o mundo inteiro em suas mãos… por que arriscar a própria vida por alguém como ele?
“Melhor eu morrer do que ver o hyung ferido?”
Será que a sua vida vale o mesmo que a dele?
‘Maldito. Maluco, filho da puta.’
Talvez, depois de tanto tempo grudados um no outro, tivesse criado algum tipo de apego corporal. Seria aquilo amor e ódio? Era ridículo. Senti vontade de matá-lo mas, ao mesmo tempo, esses sentimentos afetuosos também surgiam abruptamente dentro dele.
Hayul balançou a cabeça, esforçando-se para apagar seus pensamentos. Amor-ódio – que bobagem. Também não fazia sentido sentir pena dele. Quem sente pena de quem?
Ele sempre foi uma pessoa prática: sobreviver. Como viveu apenas por isso, simplificou ao máximo suas emoções. Ele não se permitia sentir pena dos outros indiscriminadamente. Odiar os outros também era cansativo. Obviamente, ter afeição por alguém era um luxo. Por causa disso, ele vivia seus dias com racionalidade, sem grandes altos e baixos emocionais.
Em compensação, a vigilância e a defesa pela própria vida eram inabaláveis. Ele não conseguia perdoar quem quer que fosse que lhe fizesse mal. Mantinha relações adequadas com as pessoas, mas traçava uma linha e não deixava ninguém ultrapassá-la.
A cabeça de Pavel, apoiada no ombro de Hayul, se mexeu um pouco – claramente desconfortável. Hayul soltou uma risada abafada.
Já havia existido um ser humano que causou emoções tão confusas em sua vida? Para o bem ou para o mal, já havia existido alguém a quem ele permitiu cruzar aquela linha?
Pavel Headington sempre foi a pessoa que proporcionou novas experiências a Hayul.
E agora, sete anos depois, aquele mesmo sujeito, que se tornou Pavel Kirov, também estava fazendo com que Hayul experienciasse coisas que nunca havia vivido em seus mais de 30 anos de vida.
Seu primeiro Alfa Real. Seria o primeiro e o último.
Pelo menos naquele momento, a ideia de matá-lo não passou pela cabeça. Era aquele sujeito, ferido e dilacerado, reduzido a um trapo, que dormia exausto porque se machucou no lugar dele.
Quem se jogaria em um poço de fogo por ele? Mesmo no exército, onde se enfatizava o companheirismo, no final, diante da ameaça da morte, todos cuidavam apenas de si mesmos. Hayul não era diferente. Ele nunca havia considerado arriscar a própria vida para salvar alguém.
O aroma cítrico sutil que emanava de Pavel, agora adormecido, se espalhou levemente. O aroma cítrico de Pavel, suavizado em seu sono, pairou sutilmente no ar. Involuntariamente, a parte inferior de Hayul ficou quente e úmida, uma sensação morna e pesada.
De repente, ele viu que, sobre os lábios vermelhos de Pavel, que respirava uniformemente, o sangue havia coagulado, formando uma crosta. Sentiu vontade de beijar o homem. Quis pressionar seus lábios contra aqueles lábios carnudos, chupá-los e lambê-los. Ele sabia muito bem o quão macios eram aqueles lábios, o quão doce e quente era seu hálito, o quão obscenamente aquela língua se movia dentro de sua boca, queria sentir aquele sabor – apenas aquele pensamento, obsceno, fez sua roupa íntima e as calças umedecerem.
Hayul rapidamente virou a cabeça e desviou o olhar para fora da janela do carro. Isso era claramente apenas uma manipulação dos feromônios, uma reação instintiva. Tinha que ser.
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Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog