Ler Cão Real. – Capítulo 36 Online

Modo Claro

 

O homem, ao ouvir seu nome ser chamado, ergueu a cabeça.

— Não precisa ficar tão nervoso assim.

Quis dar um sorriso para aliviar a tensão, mas aos olhos do outro homem aquilo parecia ainda mais assustador. Só pelo cheiro forte de feromônio espalhado por todo o ambiente e pela própria presença, dava para perceber que Pavel era um Alfa Real. O problema era que ele não estava sozinho: tinha trazido consigo homens russos armados.

O Sistema de Compatibilidade funcionava 100% com agendamento, era impossível visitar sem um, e mesmo assim, eles tinham aparecido de repente. Mas afinal, quem diabos é  esse cara ? Um Mafioso? E o que um mafioso estaria fazendo num lugar desses?

Os pensamentos do Sr. Tayson estavam estampados em seu olhar, enquanto ele rolava os olhos de um lado para o outro, observando ao redor.

Seus olhos, cheios de medo, pousaram em Hayul. Era como se perguntasse: E você, o que é?

Não era a primeira vez que Hayul visitava a filial americana do Sistema de Compatibilidade. Quando vivia como Sean Ringer, vinha aqui todos os anos para fazer exames. E todas as vezes encontrava esse mesmo homem – que nunca parecia se lembrar de Hayul.

— Bom… eu não sei qual é o motivo da sua visita, mas…

— Viemos para fazer um exame detalhado.

— O quê? O senhor? Digo, é que eu não sei nem o seu nome…

— Pode me chamar de Kirov. Mas não é para mim, é para minha noiva.

Dito isso, Pavel apontou para Hayul, que estava ao seu lado. ‘Noiva, essa maldita palavra. Se ele ousar repetir isso de novo, juro que corto a língua desse desgraçado.’ Hayul xingou por dentro, fervendo de raiva.

— …Perdão? Se é a noiva do Sr. Kirov, então este senhor é um Ômega Real?

— Não. É um Sub Beta.

Os olhos do homem quase saltaram das órbitas. Pavel logo acrescentou:

— Ah, não. Corrijo. Era um sub Beta. Agora passou por mutação e se tornou ômega.

— Q-quêêê?

Foi uma reação fantástica. Ele ficou de boca aberta, encarando Hayul. Todos os funcionários do escritório também desviaram os olhos para ele. Se houvesse um buraco de rato, era ali que Hayul gostaria de se enfiar.

— Mas… Como é possível um Sub Beta se transformar em ômega? E, mais que isso, como alguém assim consegue dormir  com um Alfa Real e sair ileso? Ainda está vivo?!

‘Um morto estaria de pé, bem na sua frente, por acaso?’

— Vamos logo começar o exa…

Hayul estava prestes a pedir, implorando mentalmente para que calassem a boca e iniciassem logo o exame, quando o chefe da filial se aproximou dele e começou a examiná-lo de forma invasiva. Aproximou aquele rosto feio, ajustou os óculos, encarou atentamente, puxou-lhe as pálpebras para ver os olhos, pediu que abrisse a boca para examinar por dentro e ainda ordenou:

— Mostre a língua.

— Como um Sub Beta, que nem é Beta ou Ômega, pode estar perfeitamente bem assim? Sr. Kirov. O senhor e sua esposa…

— Ainda não nos casamos. Mas vamos nos casar em breve.

Pavel cortou as palavras do chefe, falando alegremente. Colocou o braço nos ombros de Hayul e o puxou contra si, num gesto que deixava claro: Não encoste nele. Pelo modo como o diretor se encolheu, parecia que Pavel tinha olhado para ele com um tom ameaçador.

— Mas, Sr. Kirov, o senhor é um Alfa Real. É possível se casar com alguém que não é um Ômega Real? Até na Rússia isso é ilegal.

— Eu darei um jeito de tornar isso possível.

Pavel respondeu sem hesitar.

— Não, isso não faz sentido. Um Alfa Real e um Sub Beta? É impossível, isso.

— No meu dicionário não existe a palavra impossível.

Sua atitude descarada e arrogante era típica de um Alfa Real. Aliás, todos os Alfas Reais eram assim – arrogantes. Mas esse Alfa em especial estava esquecendo de um detalhe essencial: Hayul não tinha a menor intenção de se casar.

‘Casamento? Ele está falando sério? Só pode estar louco.’

— Eu não vou casar.

Não aguentando mais, Hayul também abriu a boca.

— Eu disse que não vou casar. Casamento? Ficou maluco? Por que eu me casaria com você?

Mas, como sempre, Pavel não deu ouvidos. Não importava o que Hayul dissesse, ele apenas se virou para o chefe da filial e falou:

— Por favor, agilize o exame. Não temos muito tempo.

— Certo. Por aqui, por favor.

Diante daquela situação tão curiosa, o chefe da filial levou Hayul para a sala de exames interna, a mesma em que ele, na época de Sean Ringer, ficava na fila com outros soldados para passar pelos testes. Enquanto se dirigia à sala de exames, o diretor não parava de falar, com os olhos brilhando como os de uma criança que tinha acabado de encontrar um brinquedo raro.

Se até pouco tempo estava tremendo de medo, agora, diante de um caso tão inédito, a paixão de pesquisador parecia arder dentro dele.

— Sendo sincero, é a primeira vez que vejo um caso assim, é extremamente interessante. Um Sub Beta com um Alfa Real… Olha, não é que nunca tenha havido casais assim, mas, na maioria das vezes, o Sub Beta não aguenta os feromônios de um Alfa Real e acaba morrendo. Mais que isso, nunca ouvi falar ou vi um Sub Beta que sofreu uma mutação para Ômega. Hahaha. E ainda por cima, se casar? Se a matriz do Sistema de Compatibilidade no Reino Unido souber disso, vai ser um escândalo. Mas e o senhor é .…?

Ao abrir a pesada porta de ferro da sala de exames, o chefe da filial estava prestes a perguntar o nome, e Hayul ia responder “Pode me chamar de Jin”… quando, de dentro da sala, ecoou uma voz estrondosa, como a de alguém que tinha engolido um megafone.

— Eh? Ringer! Não é você, Sean Ringer! Wahahaha! Seu merda! Disseram que depois da baixa você tinha entrado numa empresa de mercenários… mas o que está fazendo aqui?

Era Jimmy, o funcionário de radiologia com quem ele havia feito amizade, o único na sala de exames durante suas várias visitas. Rindo alto como sempre, Jimmy veio andando em passos largos, mas parou de repente, percebendo o clima estranho.

— O-oi? Sean… quem são todas essas pessoas?

Jimmy lançou um olhar cuidadoso para Pavel e para os brutamontes de preto que tinham o seguido. Antes que Pavel pudesse abrir a boca para soltar mais uma daquelas besteiras como “minha noiva”, Hayul se apressou em responder:

— Desculpa, Jimmy. É… que acontece.

— Como assim, “acontece”?

— Eu não sou Sean. Meu nome é Jin Hayul. Não sou Beta, e sim um Sub Beta. E acho que sofri mutação para ômega, então vim refazer os exames.

— …O quê? Mas que porra é essa?

Até para Hayul aquilo soava como uma grande besteira. Para qualquer pessoa, seria uma loucura sem sentido. Mas o problema era que justamente essa loucura sem sentido estava acontecendo com ele. O diretor, que havia entrado primeiro na área de exames, chamou Hayul. Deixando Jimmy para trás com uma expressão atordoada, Hayul entrou e começou a fazer os exames.

No geral, não havia diferença em relação aos exames detalhados que sempre fazia. A única mudança era que, dessa vez, todos os funcionários estavam cercando-o de perto, observando cada detalhe. Será que examinar um Sub Beta que sofreu mutação para Ômega era algo tão incomum? Em pouco tempo, o medo em seus olhos havia desaparecido completamente, substituído por pura curiosidade. Alguns até tinham os olhos brilhando enquanto faziam anotações em seus cadernos.

Deitado, cercado por tantas pessoas enquanto era examinado, Hayul sentiu uma onda sufocante de vergonha e autoaversão.

— É possível fazer anestesia geral?

— Perdão? Está sentindo dor?

O funcionário que estava coletando o sangue perguntou, surpreso. O rosto jovem do rapaz mostrava confusão. Na verdade, Hayul tinha dito aquilo apenas pela vergonha – ele preferia desmaiar a continuar naquela situação.

— Não, esqueça. Está tudo bem.

Desistindo da ideia, Hayul apenas fechou os olhos com força. Ele mesmo tinha pedido para passar pelo exame, mas agora só queria sair dali o mais rápido possível.

Cercado por dezenas de pessoas, tinha que responder uma a uma às perguntas do médico. Não soavam como perguntas médicas, mas sim como um interrogatório.

— Sr. Jin, quantas vezes o senhor teve contato com o seu parceiro, o Sr. Kirov? Não estou falando de carícias leves, mas de contato de mucosa, ingestão de saliva ou fluidos corporais, ou casos de ejaculação interna.

Até ali, Hayul vinha respondendo direito, mas com essa pergunta travou completamente. Teria mesmo que responder aquilo diante de tantas pessoas o observando? Seu rosto inteiro ficou em chamas. O pior era que ele nem conseguia lembrar o número exato de vezes.

Enquanto Hayul fechava os olhos com força e hesitava em responder, Pavel, que estava ao seu lado como um guardião, abriu a boca.

— O primeiro contato foi há sete anos. Foi ingestão de sêmen via sexo oral. Depois disso, nos meses seguintes, houveram 46 beijos de língua com troca de saliva e 12 casos de sexo oral com ingestão de sêmen. Passados sete anos, o Jin hyung sofreu mutação para ômega e teve o primeiro ciclo de cio; durante o ciclo de cio, houveram 23 beijos de língua e 12 relações sexuais anais. Em todas as relações ocorreu ejaculação interna.

A voz de Pavel, elegante, imponente e clara, ecoou pela sala de exames. Hayul quis morrer. Não – ele sentia uma vontade de matar. Ele tinha anotado tudo aquilo? E, sobretudo, a ideia de que tinham feito sexo anal doze vezes com aquele sujeito durante os poucos dias de seu ciclo de cio era assustadora e surpreendente. Era até milagroso que sua parte de trás ainda estivesse intacta.

No silêncio que se seguiu, Pavel acrescentou, como se tivesse lembrado de mais um detalhe:

— Ah, houve também uma vez de sexo oral. Claro que, nessa ocasião, o hyung também ingeriu meu fluido.

Que maneira nobre de dizer uma merda daquelas. Hayul se arrependeu imediatamente: devia ter insistido para ser sedado. Suas pálpebras cerradas tremiam; as bochechas, também. Mas a veterana da sala de exames que fazia as perguntas era implacavelmente profissional.

— Entendo. Certo.

Ela anotou algo na ficha com ar impassível. Depois seguiram alguns exames complementares. Havia outros exames além dos habituais. Quando os exames terminaram e ele finalmente deixou de se sentir um macaco de zoológico, uma fome insana o atingiu. Ele estava tão nervoso durante todo o exame que sua garganta estava ardendo.

Quando perguntou se havia algo para beber, um funcionário indicou a máquina de bebidas, mas ele não tinha um centavo em dinheiro. Sem alternativa, entrou no banheiro, abriu a torneira da pia e bebeu água diretamente do cano, em goles largos.

— O que está fazendo?

Pavel, que entrou atrás dele um passo atrasado, perguntou irritadiço, fechando a torneira.

— Por que está bebendo essa água? É nojenta.

— Beber isso não vai me matar.

Na zona de combate ele já bebeu água barrenta; água da torneira era fichinha. Quando tentou abrir a torneira de novo, Pavel agarrou seu braço e o puxou.

— Pare com isso. Daqui para frente, não ponha qualquer coisa na sua boca.

Dito isso, levou Hayul até a máquina de venda automática ao lado do banheiro, mas Pavel também não tinha moedas. Não tinha notas, só seu cartão black. Tanto o sujeito que saca um cartão black para comprar um refrigerante, quanto o lugar que só tem máquinas antiquadas que não aceitam cartão numa era de automação de ponta… Tudo era uma merda.

Pavel fez um som de desaprovação, com o cartão na mão.

— Ora. Não aceita cartão.

Mal havia dito isso com elegância, e de repente Pavel chutou a máquina com a sola de seu sapato. A máquina balançou com um estrondo e latas de refrigerante caíram para fora em uma enxurrada. Então, com toda a naturalidade, ele se curvou, pegou algumas das latas que haviam caído, escolheu uma Coca Zero e a entregou a Hayul. Claro que também pegou uma coca zero para si também.

— Desgraçado delinquente.

— A culpa é deles por terem uma máquina que, no século 21, não aceita cartão.

Pavel disse isso com naturalidade, abriu a lata e bebeu o refrigerante. Hayul também bebeu o dele de um gole só. Era tão gelado que parecia revigorar.

— Cola zero, hein… Eu costumava zombar de quem só bebia isso por causa do corpo — disse ele, rindo de leve, lembrando como costumava caçoar dos colegas que só tomavam zero.

— Daqui para frente, seja mais seletivo com o que come. Não coma porcarias. Se vai conceber uma criança, o corpo da mãe precisa estar saudável.

Era uma sorte ele não ter cuspido o refrigerante. O que diabos aquele filho da puta estava falando agora? Ele olhou para o sujeito, atordoado, mas Pavel apenas continuou bebendo sua Coca com naturalidade. Logo, chamaram os dois para ouvir os resultados do exame lá dentro, e o homem puxou Hayul pelo ombro.

— Cr… Criança? Você realmente acha que isso é possível? Está louco? Eu, ter um bebê?

— Não é impossível.

— Você acha que é Deus?! Transformar o impossível em possível? É a cegonha que traz o bebê?!

Depois de anos no exército, Hayul achava que tinha desenvolvido um certo nível de paciência. Mas de nada adiantou, ele tinha encontrado alguém com quem era impossível dialogar. Sua pressão arterial subia várias vezes ao dia, e a garganta estava ficando rouca de tanto gritar.

Pavel nem se deu ao trabalho de ouvir Hayul gritando com a veia do pescoço saltada e o empurrou para dentro do consultório. Relutantemente, ele se sentou em frente  a uma médico e uma médica de meia-idade  que com uma expressão gentil sorriu radiantemente e disse:

— Sr. Jin Hayul. Parabéns. O senhor sofreu uma mutação completa para ômega. Todos os resultados mostram os níveis de um ômega.

Foi o fim da esperança. O último pingo de possibilidade se desmanchou naquele instante.

 

°

°

Continua…

 

Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online

(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
 
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog

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