Ler Cão Real. – Capítulo 25 Online
Naquela noite, Hayul não conseguiu escapar daquele maldito jardim. Parte da culpa foi do clima. A chuva caía tão forte que não se podia ver um palmo adiante. As gotas ficavam cada vez mais intensas, obrigando-o a procurar refúgio em qualquer lugar possível.
Depois de correr por um bom tempo, o que chamou sua atenção foi um castelo no alto de um penhasco. Ficava afastado da mansão principal. Na torre, havia um sino, e o primeiro andar parecia uma capela. Parecia ser um oratório, outrora usado como capela de oração.
A imagem de Jesus pendurada na parede estava gasta e quebrada, sinal de que o espaço estava abandonado há muito tempo. Enquanto espiava pelo salão de oração no primeiro andar, Hayul encontrou um canivete caído no chão e o guardou. Parecia antigo, mas a lâmina estava extremamente afiada. Havia bitucas de cigarro e um isqueiro jogados pelo chão – provavelmente aquele era o esconderijo secreto dos garotos da aldeia.
‘Mas como alguém de fora subiu até aqui? Será que existe algum caminho secreto?’
Hayul olhou ao redor, desconfiado.
Subindo as escadas atrás da capela, percebeu que as paredes estavam cobertas de retratos dos antepassados da família Headington. Como se esperava de um clã nobre, com sangue de Alfa Real, todos os ancestrais eram figuras impressionantes.
No segundo andar, encontrou um quarto. Embora velho, serviria para se abrigar da chuva por uma noite. Decidindo descansar um pouco antes de se mover, ele subiu na cama empoeirada, esticou as pernas e deitou.
‘Agora… preciso pensar. Para onde devo ir?’
Voltar para a favela onde morava era perigoso. Não tinha completado o contrato de um ano, portanto não receberia nada. Além disso, não possuía sequer documentos, não podia abrir uma conta bancária. Mesmo que recebesse o pagamento, teria que ser em dinheiro vivo.
‘Se eu soubesse, teria roubado algo da mansão dos Headington. Pelo menos o relógio do Pavel…’
Mas já era tarde para arrependimentos.
Ele sabia que precisava deixar aquele país. Por um momento, cogitou se Pavel realmente o perseguiria. Talvez desistisse? Logo afastou essa ideia. ‘Aquele homem não desistiria.’ A obsessão que ele demonstrou nos últimos meses estava longe de ser normal. Não importava para onde fugisse – era certo que ele o perseguirá. E seus maus pressentimentos, quase sempre, estavam certos.
A única saída seria atravessar a fronteira com ajuda de um intermediário. Mas para onde? Um lugar onde Pavel jamais pudesse encontrá-lo.
‘Será que um lugar assim existe? Talvez eu tenha que me esconder até debaixo da terra. Como foi que minha vida chegou a esse ponto…’
Ouvindo o som da chuva, foi se deixando levar até adormecer.
“Hyung, Rosie hyung…”
Sonhou. Era um sonho com Pavel. O homem aparecia radiante, os cabelos negros balançando sob a luz do sol, os olhos azuis brilhando, chamando por ele. Uma fragrância fresca se espalhava pelo ar, enquanto partículas de luz cintilavam ao redor.
No meio da multidão, Pavel era como a joia mais preciosa, e ainda assim procurou por Hayul, que tentava se esconder à sombra, longe dos olhares curiosos. Quando os olhos azuis o avistaram, um sorriso doce se espalhou por seu rosto.
“Hyung, venha até aqui.”
Ele acenava, sorrindo, com a mão branca estendida.
“O que está fazendo aí? Venha para o meu lado. Depressa.”
Pavel era como uma miragem pairando sob a cálida luz do sol da primavera, como um oásis ilusório no deserto. Essa existência incrivelmente e anormalmente bela sempre, invariavelmente, em qualquer lugar, buscava apenas por Hayul. Seu olhos azuis só o seguia.
— Hyung.
A voz ecoou em seus ouvidos. Nesse instante, Hayul abriu os olhos, sobressaltado.
— Hyung! Você está aqui?
Pouco depois, a voz que ele ouvira no sonho ecoou novamente ao seu redor. Aquilo não era sonho. Era a voz de Pavel.
O ambiente estava escuro. Difícil distinguir se era noite ou madrugada. Havia um tom acinzentado no escuro, sugerindo ser madrugada. A chuva ainda caía sem trégua.
— Rosie hyung.
No meio do som da chuva, a voz de Pavel soou nítida no corredor lá fora. Era clara e brilhante como um raio de sol atravessando as nuvens.
‘Como ele descobriu que eu estava aqui? E o maldita rut, o que aconteceu com ele? Ele pode simplesmente andar por aí desse jeito?’
Tomado por inúmeras perguntas, Hayul se levantou apressado.
‘Eu preciso sair daqui.’
Hayul saiu do quarto, tomando cuidado para abafar o som dos passos. Não havia como escapar pela janela, já que do lado de fora só havia um penhasco. Então, abriu a porta com cautela e espiou pelo corredor vazio.
‘Onde estará o Pavel?’
O castelo era grande e espaçoso, e o som da chuva era tão alto que não dava para sentir nenhum sinal de presença.
— Hyung!
A voz ecoou estridente no fim do corredor oposto, fazendo Hayul se sobressaltar. Havia escadas também daquele lado? A figura parada no corredor escuro parecia um vilão de filme de terror.
O perfume dele inundou o corredor. ‘Maldito cheiro cítrico.’ Assim que o aroma penetrou em suas narinas, o estômago de Hayul se revirou. Ele começou a recuar devagar, até que se virou bruscamente e disparou em corrida.
— Rosie hyung!
O som da perseguição se aproximava junto com o chamado do nome. Por dentro, Hayul gritava: ‘Eu não sou Rosie! Não me chame por esse maldito nome!’
Mas, apesar da fuga desesperada, foi agarrado no braço antes mesmo de alcançar a escadaria.
— Por que você está fugindo?
— Me solta!
Hayul gritou de forma quase histérica. Pavel apertou com força o braço dele e o sacudiu de maneira nervosa. Talvez por causa da rut, ou pela ferida na cabeça, seu rosto estava pálido. Suas bochechas também estavam magras.
— Por que você insiste em fugir? Por quê?!
Os olhos fundos brilhavam de forma perturbadora. Talvez tivesse tomado remédios, porque as íris haviam voltado à cor azul, mas a loucura ainda transbordava delas. Suavidade, gentileza, calma – qualquer traço desse tipo havia desaparecido completamente, restando apenas um desejo reluzente que ardia intensamente.
E aquele desejo estava todo voltado para Hayul. A ousadia sem vergonha de Pavel fazia o sangue dele ferver de ódio. Uma vontade assassina, vermelha e ardente, além da raiva, tomou conta.
‘Será que esse desgraçado realmente não sabe por que eu quero fugir?’
‘Esse maldito com certeza sabia que o primeiro rut iria explodir. E mesmo sabendo, ainda me trouxe para essa merda de mansão de Belmark. Com a intenção de enlouquecer de vez. Com a intenção de despejar em mim toda a libido acumulada durante 20 anos.’
Mas Hayul era um sub-beta. Não era exagero dizer que ele poderia morrer. E para piorar, ao tentar escapar de Pavel, quase foi estuprado por outros desgraçados.
‘Tudo isso é tão nojento. Porra! Todos, sem exceção, são uns merda. Pavel, os outros… eu quero matar cada um deles.’
— Você realmente não sabe? Não sabe por que eu estou fugindo? Está me perguntando sério, porque não sabe?!
Hayul também gritou, com as veias do pescoço saltando.
— Porra, seu maldito Alfa Real. O que você estava tentando fazer comigo? Está no Rut, não é? Se era isso, agarre um dos outros idiotas que estão por aí aos montes e se alivie com eles, por que fica se grudando em mim? Filho da puta. Você é realmente horrível. Nojento. Repugnante.
Houve uma luta breve, mas era mais um desespero inútil da presa contra seu caçador do que uma briga real. A força dele era esmagadora. Não importava o quanto se debatesse, Hayul não conseguia escapar daquela mão. Isso era o que mais o enfurecia – o fato de que teria que se render a um poder que não podia vencer.
Pavel o sacudia com ainda mais força, mandando que se acalmasse. Hayul balançava como algas arrastadas pela correnteza, sem forças, mas não conseguia parar de resistir. No momento em que desistisse, seria o fim.
— Como era o meu primeiro rut… Eu queria que a primeira vez fosse com o Hyung!
— Por quê?
Hayul arregalou os olhos e devolveu a pergunta.
— Por que eu? Por quê?! Você enlouqueceu? Eu sou sub-beta e você é um alfa real. Não, merda, isso nem importa. Eu não quero! Eu não quero morrer no meio dessa merda de foda! Vamos parar com essa coisa toda. Chega do contrato e de toda essa porcaria! Vamos acabar com isso!
— Quem disse que vai deixar você ir?!
O grito explosivo de Pavel fez Hayul se encolher, era como ser esmagado por uma força invisível. Se não fosse um sub-Beta, teria caído de joelhos com as pernas bambas, vencido pelos feromônios. Mas mesmo assim, estava apavorado. Um animal selvagem sempre será assustador, não importa quem o enfrente.
— Me solta, isso está doendo. Eu estou com medo…
Seus ombros e sua voz tremiam involuntariamente.
— Isso é uma merda. Eu tenho medo de você. Me solta… por favor…
Pelo visto, sua expressão trêmula surtiu efeito. A pressão da mão de Pavel em seu braço finalmente afrouxou.
— Para com essa loucura. A minha vida sempre foi uma desgraça, mas a sua não é. Eu vou embora. Não cumpri o período total do contrato, mas quero que me paguem o que trabalhei até agora.
— … por que é que eu sinto cheiro de outro homem em você Hyung?
‘Desgraçado.’
Ele não ouvia uma palavra. A veia na testa de Hayul saltou.
— O que eu estou dizendo não parece ter sentido pra você?
Pavel aproximou o rosto de repente e, como uma fera, começou a farejar.
— Quem foi?
‘Filho da puta…’
Quanto mais Hayul pensava, mais parecia que Pavel estava realmente agindo como um cão. Será que os Alfas Reais também tinham um olfato ao nível de um animal? Era assustador.
— Responda à minha pergunta primeiro.
— Não.
A resposta veio imediata e dura. Ele o encarou com os olhos azuis em chamas e repetiu, firme:
— Não. De maneira nenhuma.
— Quem você pensa que é pra dizer que não? Se eu digo que vou embora, eu vou.
— Vou trancar a matrícula e ir para Milão.
— Ótimo, vá. Quem é que está te impedindo?
— O hyung vai comigo.
O rosto de Hayul se contorceu de incredulidade.
— Quem disse? Eu não vou.
— Vai, sim. O hyung é o meu servo. Se eu disser que vou levar você, então você vai ter que me acompanhar.
Hayul sentiu como se algo tivesse explodido dentro da cabeça. Era como falar com uma parede.
— O que você quer? Que eu seja o seu escravo pro resto da vida? Não me faça rir.
— Escravo? Por que eu trataria alguém como você como escravo? Seria um desperdício.
‘Então ele vai mesmo dizer que quer casar? Que vai até o fim com essa loucura?’
A pergunta queimava na garganta de Hayul, mas ele não ousou falar em voz alta. Se perguntasse, Pavel poderia realmente responder que sim. Com um suspiro profundo, Hayul desviou o olhar.
— Vou repetir: eu sou um sub-beta.
— Isso não importa.
‘Importa, sim. Importa.’
Um Alfa Real com um sub beta? Que combinação absurda seria essa? Já tinha ouvido falar de alfas com betas comuns ou até ômegas, mas com sub-betas? Nunca. E, nos raros casos em que pudesse ter acontecido, era quase certo que o sub beta tivesse acabado morto.
— Então eu tenho que morrer só pra saciar o seu desejo?
— O hyung não vai morrer. Eu não vou deixar você morrer.
— Você por acaso é Deus? Malditos Alfas Reais e essa merda de feromônio… Arranje outro, por favor!
— Com outro não funciona. Eu só fico excitado com você hyung. Eu não consigo controlar.
— Você é um animal, é isso? Se não consegue controlar, então porra, corta fora! Se castre de uma vez!
A pressão no sangue de Hayul subiu. Pavel, ao contrário, soltou uma gargalhada alta.
— Castração? Só você pra dizer uma coisa dessas.
‘Engraçado, é? Porque eu não acho graça nenhuma.’
Pavel, ainda rindo, tentou agarrar novamente o braço dele. Hayul, nervoso, gritou enquanto o afastava com força.
— Não encosta em mim!
Mas Pavel não desistiu e voltou a segurar o braço dele.
— Você me odeia tanto assim?
Os olhos azuis escureceram.
— Eu sou tão repulsivo assim?
Com um rosto de beleza sufocante, tão distante de qualquer ideia de repulsa, Pavel curvou os lábios vermelhos num sorriso distorcido. Seus dedos brancos se moveram suavemente, roçando a pele do braço de Hayul. Cada toque, cada movimento dos dedos era sentido de forma nítida, fazendo sua pele se arrepiar.
Sim. É horrível. Repulsivo. Precisava dizer isso claramente, como se falasse com o inseto mais asqueroso do mundo. Mas, no fundo, queria xingá-lo com algo ainda mais chocante. Enquanto Hayul ainda procurava as palavras certas, Pavel puxou com força o braço dele para si. Hayul foi arrastado sem conseguir resistir.
— Me desculpe.
Pavel envolveu suavemente a cintura dele e sussurrou, como se estivesse acalmando-o.
— Daqui pra frente, eu vou me comportar.
A voz era doce, suave, a ponto de causar arrepios. As mãos que o seguravam pela cintura, os dedos que acariciavam seu braço, a respiração quente, o olhar úmido e brilhante, o aroma cítrico intenso que emanava dele – tudo chegava de forma avassaladora.
— Então, por favor, não me odeie tanto assim, hyung.
Hayul estremeceu e tentou se soltar, mas a mão em sua cintura apenas apertou mais, trazendo-o para junto de si. Pavel esfregou o rosto contra a bochecha dele e encostou o nariz em sua nuca e lóbulo da orelha, inspirando fundo o cheiro de sua pele. Aquele ato fez o corpo de Hayul tremer. Seus músculos se contraíram e endureceram em tensão absoluta.
— Não me evite.
A voz úmida e doce sussurrou contra sua nuca.
— Não fuja, venha comigo. O Hyung disse, lembra? Para eu procurar aquilo que realmente quero.
— Cala a boca. Eu não quero ouvir essa merda.
As palavras murmuradas por Hayul foram ignoradas. O braço de Pavel apertou ainda mais, cada vez mais, como uma tira de couro molhada, como correntes de ferro, prendendo-o por completo. Cada parte do corpo de Hayul estava sendo subjugada pela força daquele homem. Até a respiração dele parecia uma arma.
Era repulsivo e arrepiante, mas, estranhamente, seu corpo esquentou. Onde quer que a respiração e o toque de Pavel alcançassem, parecia que a pele queimava, como se tivesse sido marcada por fogo. O corpo, antes gelado pela umidade fria, estava agora coberto de suor.
— Eu descobri. Pensei muito. O que eu realmente quero? Que tipo de vida eu quero viver? Não era ser príncipe de Kartan. Também não era viver como parte da família real.
Pavel falava sem parar, chupando a nuca e a orelha de Hayul, ofegante, entre uma palavra e outra.
— Eu disse para não falar… eu não quero ouvir.
— Eu quero o hyung.
Pavel olhou diretamente nos olhos de Hayul e sussurrou de forma baixa e úmida. Seus olhos estavam roxos de novo. O rut ainda não tinha acabado. Não havia nada de romantismo naqueles olhos, apenas um desejo sexual cru e intenso.
— Só com você eu fico duro. Só por você eu me sinto atraído… eu quero te foder. Merda… estou louco… louco de tesão por você. Vamos lá, hyung. Eu te quero loucamente.
As palavras eram tão diretas quanto seu olhar. Era a pior confissão possível. Nem mesmo alguém das favelas mais miseráveis se declararia assim. E aquele homem era um nobre, um Alfa Real. Fazia uma declaração dessas sem sequer um anel, um presente, nada.
Naquele estado deplorável, todo sujo e machucado, Hayul estava ouvindo uma confissão que soava como a fala barata de um delinquente qualquer de subúrbio. E, ainda assim, seu coração disparou como um louco. Era a primeira vez que alguém lhe dizia que o desejava a ponto de enlouquecer. Um homem que tinha absolutamente tudo, um ser que parecia uma obra-prima esculpida por Deus, estava dizendo que só ficava excitado por ele. Olhando só para ele com aqueles olhos de joia.
Era por isso que ele odiava. Se a única coisa que aquele cara que tinha tudo não podia ter era ele, então Hayul não queria se entregar.
‘Não se deixe enganar.’
Aquilo era apenas o truque dos feromônios. Apenas o fogo insano de um pervertido. Mas se se deixasse levar pelo fogo daquele herdeiro mimado, acabaria queimando até virar cinzas. Era o destino, tinha sido assim com a mãe dele também. Ela perdeu tudo por causa da brincadeira de um Alfa Real.
E, mesmo sabendo disso, o coração às vezes traía a razão. Hayul tinha que admitir: em alguns momentos, ele realmente vacilava. Aquele Alfa Real arrogante, que queria dominá-lo, restringi-lo e esmagá-lo à sua vontade, era horrível. Ele o desprezava, o odiava, mas, às vezes, se via enfeitiçado, pelo toque suave das mãos, pelo olhar caloroso que parecia se dirigir apenas a ele, pela voz doce, pelo sorriso radiante sempre que o encontrava no meio da multidão.
Quando o chamava de “hyung” sorrindo, havia momentos em que o som o irritava – e, ao mesmo tempo, fazia seu peito pulsar.
“Hyung, Rosie hyung. Venha aqui.”
Mesmo no meio das pessoas, quando Pavel o chamava e fazia um gesto para que se aproximasse, Hayul sentia uma estranha sensação de superioridade. Às vezes chegava a se enganar, acreditando que era especial.
Pavel às vezes tratava Hayul como um cachorro, mas também lhe dava tratamento de nobre. Mesmo forçando suas perversões, ainda assim se preocupava em permitir que ele tivesse uma vida mais digna, mais humana.
Era inevitável balançar e se deixar levar por ilusões, não havia como evitar. As pessoas sempre o odiaram e o desprezaram. Afinal, ele era um sub beta, e receber esse tipo de tratamento era o esperado, mas um dos mais altos, um alfa real, não fazia isso. Apesar de pervertido, não demonstrava o mesmo desprezo que os outros.
— Eu quero você, hyung.
Pavel sempre olhava para Hayul com aqueles olhos.
— Não brinque comigo.
Hayul mal conseguiu abrir os lábios, mas foi isso o que saiu. Uma ilusão era apenas isso: uma ilusão. Pavel era um Alfa Real de vinte anos. Não havia como acreditar que aquela emoção em seus olhos fosse verdadeira. Não passava de sussurros baratos que qualquer um no rut diria apenas para levar alguém para a cama.
— Por que acha que é brincadeira?
— Uma pedra jogada “de brincadeira” ainda pode matar o sapo que acerta, seu desgraçado.
Sentimentos eram um luxo. Deixar-se abalar por emoções era, em si, uma sentença de morte. Para sobreviver, os sentimentos não eram necessários.
— Quer transar comigo? Então eu deixo. Mas me pague! Vamos fazer isso, você paga e acabou.
Ele tentou se mover para se soltar, mas, como sempre, os braços fortes de Pavel não o deixaram ir. Encarando-o com fúria, Hayul lançou uma proposta que sabia que não colaria.
— Se você precisa de dinheiro, eu dou o quanto o hyung quiser. Mas acabar com isso… nunca vai acontecer.
De novo o mesmo círculo vicioso, sempre voltava ao ponto inicial.
— Isso não vai acontecer, Rosie hyung.
Era uma ordem clara. Naquele momento, sua última réstia de paciência explodiu. O fio da razão se partiu com um estalo. Dizia que o queria, mas nunca sequer o chamava pelo nome verdadeiro. Continuava usando o nome de um cachorro morto, ignorando suas palavras, controlando-o como bem queria. E isso era amor? Era só uma piada.
— Para de agir como se tudo fosse ser do seu jeito, porra!
Hayul gritou com toda a força da garganta, empurrando Pavel com uma das mãos. Mas, no final das contas, Pavel não quis soltá-lo, segurou com brutalidade o braço dele e o puxou com violência. A força era esmagadora, a ponto de parecer que seus ossos iam se partir. Ele já era forte normalmente, mas durante o rut era um verdadeiro monstro.
— Me solta…. me solta!
— Eu não posso deixar isso terminar assim. Nunca.
— Eu disse pra soltar!
Não importava o quanto gritasse e se debatesse, Hayul jamais conseguiria vencer aquele homem pela força a diferença era clara. E ainda assim, Pavel sempre o esmagava com sua superioridade física. Isso era o que mais o enfurecia.
Rangendo os dentes, Hayul resistiu, mas no fim acabou sendo puxado de volta. O belo rosto de Pavel se aproximou, e seus lábios também. Hayul virou o rosto, mas os lábios dele ainda roçaram sua bochecha.
— Não. Eu não vou soltar, eu não posso. Eu preciso do hyung, quero você. Eu te quero tanto.
Ele murmurava de forma úmida e pegajosa, passando a língua pela bochecha de Hayul, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha e a nuca. O cheiro de Pavel invadiu suas narinas, até o hálito dele carregava aquela fragrância.
Houve momentos em que isso trouxe prazer, momentos em que aquele cheiro parecia agradável. Mas agora, tudo era repulsivo, era desprezível, dava vontade de matá-lo. Só queria escapar daquele homem e se libertar daquela droga de fragrância.
Com a mão livre, Hayul tateou o peito e puxou a faca que escondia. Sem hesitar, cravou a lâmina no corpo de Pavel.
Os olhos de Pavel se arregalaram, ele cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu para trás. Em seguida, rolou escada abaixo. Foi algo que aconteceu num piscar de olhos.
Ofegante, Hayul olhou. No fundo da escadaria, Pavel estava estirado como um boneco quebrado. Em sua própria mão, Hayul ainda segurava a faca suja de sangue.
— P… Pavel…
Ele chamou o nome dele com a voz trêmula. Largando a faca ensanguentada, correu desesperado, descendo as escadas em disparada.
— Pavel!
Hayul se ajoelhou diante dele e o sacudiu. O corpo largado de Pavel balançou sem força. No chão onde a cabeça dele repousava, o sangue se acumulava. O sangue se espalhava pela área do peito onde fora esfaqueado, tingindo suas roupas de vermelho.
— Pavel. Pavel. Ei!
Por mais que gritasse, não havia resposta. Será que estava morto? De verdade? Por algo tão simples? O corpo inteiro de Hayul tremia enlouquecido. Seu corpo inteiro tremia loucamente. Seus olhos, trêmulos, pareciam prestes a derramar lágrimas.
Ouvindo o som forte da chuva, Hayul parou tudo o que estava fazendo e ficou sentado por um momento, atordoado, como se tivesse perdido a alma. Ele desejava que fosse um pesadelo horrível, mas era a realidade. Pavel continuava estirado diante dele, imóvel. O cheiro de água salgada misturado com o denso cheiro de sangue atingiu suas narinas.
Ele havia matado uma pessoa. E não qualquer um: havia matado um Alfa Real, tinha matado Pavel Headington. Ele estava morto.
E isso significava que estava livre. Era libertação.
Um sorriso se espalhou pelo rosto transtornado de Hayul. Uma sensação de êxtase, semelhante a um arrepio elétrico, percorreu todo o corpo.
— … morto. Filho da puta.
Mesmo morto, o rosto de Pavel ainda era belo, olhando para ele, Hayul praguejou com um sorriso radiante. Nesse instante, um clarão cortou o céu, seguido pelo estrondo do trovão. A chuva desabou com fúria. De repente, sua cabeça latejou. A dor aguda, como se algo estivesse perfurando seu crânio, trouxe-lhe a lucidez de volta.
Era uma chance. A oportunidade de escapar daquele pesadelo.
Hayul reuniu forças e se levantou de um salto.
— Você merecia morrer, desgraçado.
Deixando suas últimas palavras diante do corpo de Pavel, disparou em corrida. Arrebentou a porta e irrompeu para fora, sob a chuva torrencial.
Ele correu, para a liberdade, corria para se libertar. Agora, de fora do castelo, podia ver claramente um caminho secreto que antes não enxergava. Havia uma escadaria de pedra descendo pela encosta do penhasco. Pelo visto, até estrangeiros passavam por ali. Hayul desceu às pressas pela íngreme escada, não parou para respirar, nem sequer se virou uma vez. Apenas fugia.
A dor latejante em sua cabeça só aumentava. Seria um castigo vindo do céu? Se esse era o preço pela liberdade, estava disposto a aceitá-lo de bom grado.
— Hhh… Hrk… Droga…
Um som, não se sabia se era um soluço ou um suspiro ofegante, escapou de sua boca. Líquido, não se sabia se eram lágrimas ou água da chuva, encharcou todo o seu rosto. Era um dia em que parecia que o próprio mundo inteiro chorava em desespero.
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Continua no Volume 2…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
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A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog