Ler Cão Real. – Capítulo 15 Online

Modo Claro

 

— Filho da puta pervertido.

O homem, de pé atrás de Hayul que lavava as mãos na pia, soltou o xingamento. Ele fingiu não ouvir e continuou lavando bem as mãos. Ser tratado como um pervertido do nada não era uma sensação agradável. Depois de sair do banheiro, olhou em volta, mas não encontrou nenhum sujeito que parecesse ser o intermediário.

Sem outra opção, sentou-se numa mesa vazia junto à janela. Pediu café e panquecas ao garçom e abriu o frasco de inibidores para engolir mais alguns comprimidos. Só queria receber logo o que tinha que receber e voltar para casa.

Enquanto aguardava a comida, o intermediário não apareceu. Já tinha passado da hora marcada. Hayul cortou a panqueca com uma faca, mastigou lentamente e ligou para o intermediário.

Apenas o sinal de chamada soou, e a outra pessoa não atendeu. Quanto mais o toque continuava, mais a ansiedade crescia dentro dele. Uma sensação de que algo estava errado o dominou.

Clack.

E a sensação se confirmou.

Alguém encostou o cano de uma arma na parte de trás da cabeça de Hayul. O menor movimento e o disparo viria. Quando tentou virar a cabeça, o homem que lhe apontava a arma falou. Um sussurro em italiano. Deviam ser da gangue de Marco.

— Fale em inglês.

— Levante-se devagar.

O homem repetiu em inglês. Hayul rapidamente varreu o ambiente com os olhos. Nenhum garçom circulava por perto. Era a mesa mais escondida do café, um ponto cego não visível do salão principal.

— Por que não atira logo, então?

Falou com desdém, enquanto cortava mais um pedaço de panqueca e o levava à boca. Mastigou um pedaço pequeno e ajustou a pegada no garfo.

— O chefe quer ver você.

— Marco? Ele está vivo?

— Eu disse para levantar.

O homem bateu com o cano da arma na cabeça de Hayul. ‘Marco está vivo. E agora?’ Se Marco estivesse vivo, poderia provar que não tinha sido ele o responsável pelo ataque ao seu restaurante e à cobertura. Talvez não fosse mais caçado como traidor pelos homens da organização. Talvez até fosse protegido de Pavel.

Sua vida voltaria ao que era antes. O cão de Marco. O Anjo da morte. Uma vida onde ocasionalmente era chicoteado, ajoelhava-se entre as pernas de seu dono para chupar seu pau, e recebia segurança em troca.

Era isso mesmo o que queria? Era essa a vida que desejava?

De repente, Hayul levantou-se abruptamente, agarrou e torceu o pulso do homem, e espetou o dorso da mão dele com o garfo que segurava. O agressor deixou a arma cair. Sem perder a chance, Hayul rapidamente puxou uma faca de dentro do casaco e cortou o rosto do homem.

Enquanto o homem urrava de dor, cambaleando, Hayul correu e pegou a arma. Outros membros da organização entraram no restaurante atirando. Os clientes gritaram e se jogaram no chão. ‘Malditos lunáticos. E se alguém inocente se ferir?’ Cerrando os dentes, Hayul atirou com precisão, acertando braços, ombros e pernas dos inimigos um a um.

Correu para fora, onde a chuva caía sem parar. Uma buzina estridente ecoou, um sedã preto estava parado ali. O vidro escurecido do banco de trás desceu lentamente, revelando o rosto de Marco.

— Venha, Anjo.

Marco sorriu e fez um gesto com a mão. Hayul permaneceu parado, mas alguém o empurrou pelas costas. Três ou quatro homens o haviam cercado sem que percebesse. Sem alternativa, ele entrou no banco de trás, completamente encharcado pela chuva. O assento de couro luxuoso, parecendo novo, ficou ensopado.

À distância, ouviu-se o som de sirenes policiais. Era claro que alguém tinha chamado a polícia. Ouvindo as sirenes, o carro saiu suavemente do beco perto do café.

— Você estava planejando forjar outra identidade e fugir do país?

Marco quebrou o silêncio, cruzando as pernas com calma.

— Até quando vai viver assim?

— Não tenho escolha. Afinal, eu sou um sub-beta.

Marco soltou uma risada. Dava para que sua mão direita estava enfaixada.

— Eu estava pensando em levar você para a Itália também.

Como se ele decidisse sozinho. Hayul não tinha intenção de ir até lá. Embora ele não estivesse em posição de recusar e dizer que não queria ir. Marco, que estava olhando pela janela do carro, virou a cabeça e olhou para Hayul.

— Ou vai se juntar aos russos?

— O quê? Eu? Por que eu me juntaria a eles?

Era uma pergunta totalmente inesperada. Os olhos de Marco se estreitaram.

— Que relação você tem com Pavel Headington?

‘De novo algo relacionado a Pavel.’

Hayul franziu a testa, sem responder.

— Não, espera. Agora já não é mais Headington. É Kirov. Vou perguntar de novo: que relação você tem com Pavel Kirov?

— Minha resposta é a mesma de antes.

— Nenhuma relação?

— Sim.

Marco bufou, e de repente agarrou o pescoço de Hayul, puxando-o bruscamente para si. Então ergueu a mão enfaixada diante dos olhos dele.

— Nenhuma relação, é? Então por que esse filho da puta deixou a minha mão nesse estado? Perdi dois dedos!

‘Pavel. Pavel. Seu maldito…’

Hayul soltou um suspiro interno.

— O que diabos o Pavel fez?

— Ele simplesmente apareceu do nada, descarregou a arma e tentou me matar. Aquele maldito Alfa Real filho da puta.

Murmurando insultos, Marco empurrou Hayul. Seu rosto pálido se contorceu de dor por causa da mão.

— Mas por quê? Sem motivo algum?

— O motivo é você.

Hayul fez uma careta.

— Ele não era assim…

Murmurou como se falasse consigo mesmo, e Marco soltou uma gargalhada debochada.

— O Pavel Headington que você conhecia já não existe mais. Esqueça o jovem mestre do passado.

Com o rosto pálido e abatido, Marco pegou um remédio do bolso com a mão trêmula e engoliu. O homem que estava sentado em silêncio no banco do passageiro se virou e apontou a arma para Hayul no banco de trás.

— Vou atirar levemente no seu ombro. Você vai ser uma isca comportada e pescar Pavel Kirov para mim. Depois que eu cuidar dele, você vem comigo para a Itália.

Era uma ordem unilateral, sem refletir em nada a vontade de Hayul.

— Está me dizendo para viver como um cachorro do chefe pelo resto da vida?

Marco lançou-lhe um olhar de lado e riu de forma vil.

— Você, um Sub beta, quer ser tratado como humano? Eu queria um cachorro forte e bonito. Não te mantive vivo para te tratar como humano.

O rosto de Hayul enrijeceu. Marco sorriu e deu leves tapinhas em sua bochecha tensa.

— Você precisa conhecer seu lugar, Anjo. Acho que fui muito brando com você até agora.

O estômago de Hayul se revirou. ‘Desgraçado, filho da mãe.’ Rangeu os dentes com força. Mas não fazia diferença: ninguém, fosse ele ou outro, o tratava como um ser humano. Marco passou a ponta dos dedos pela bochecha dele, depois franziu levemente a sobrancelha e aproximou o rosto para cheirar.

— Mas que cheiro é esse? Um cheiro estranho vem de você desde antes.

Encostou o nariz do lóbulo da orelha até a curva do pescoço, aspirando profundamente.

— É feromônio?

Um arrepio percorreu toda a pele de Hayul onde o hálito de Marco tocava.

— Anjo, por que você está cheirando como um ômega?

Os olhos de Marco brilharam de forma perigosa – eram os olhos de um alfa tomado pelo desejo. Instintivamente, o corpo de Hayul congelou. Mesmo encharcado pela chuva, ele sentia um calor sufocante. Até a respiração que escapava por seus lábios entreabertos estava quente. O interior fechado do carro era como uma sauna.

— O que diabos você é?

— Krrgh…

A mão de Marco, que acariciava a bochecha de Hayul, de repente agarrou seu pescoço e começou a apertar. A força era descomunal. Hayul ficou sem ar, sufocando, enquanto se debatia desesperadamente.

— O nome Sean Rinzer é falso, o nome Jin Hayul também deve ser falso, não é? Pensei que fosse um beta, mas era um sub-beta. E agora até cheiro de ômega você está exalando. Qual é a sua verdadeira identidade? Quem diabos você é?!

Hayul também queria saber. Afinal, o que ele era? Por que seu corpo estava reagindo daquela forma de repente? Os olhos de Marco, arregalados, estavam vermelhos e injetados de sangue. A força que ele aplicava no estrangulamento era impiedosa. Ele já tinha um histórico de não conseguir controlar sua excitação e estrangular até a morte um parceiro sexual.

Sem oxigênio, o rosto de Hayul ficou vermelho-escarlate enquanto ele se debatia com todas as forças. Mas, quanto mais lutava, mais parecia que aquele maldito cheiro – fosse de ômega ou de feromônio – se intensificava, deixando Marco ainda mais excitado. Seus olhos estavam completamente transtornados. Ofegante, arfando quente, Marco lambeu a bochecha trêmula de Hayul.

Era horrível. Absolutamente miserável. Toda a situação era uma completa desgraça, mas o pior de tudo era o fato de que, por mais que lutasse, não havia como vencer a força de um alfa.

Foi então que o carro balançou subitamente com um barulho alto. Tanto Marco quanto Hayul, todos dentro do carro, balançaram junto com a carroceria. Aproveitando o momento em que a mão de Marco afrouxou no seu pescoço, Hayul acertou o estômago dele com o cotovelo.

Em seguida, socou o rosto de Marco com força, agarrou-lhe os cabelos e bateu sua cabeça contra o vidro da janela com violência. Sentindo que não conseguiria conter a força da resistência de Marco, sacou a arma e atirou no ombro dele.

— Aaaagh!

O grito do homem ecoou. Mantendo a mão pressionando a nuca dele contra o vidro, Hayul encostou o cano da arma em sua cabeça.

— Baixem as armas e parem o carro.

Deu a ordem aos dois homens no banco da frente. Marco, contorcendo-se, resmungou:

— Vai me trair desse jeito? Esqueceu tudo que fiz por você até hoje?

— Acho que já paguei mais do que suficiente pelo meu sustento até agora.

Disse friamente, enquanto agarrava de novo os cabelos de Marco e esmagava sua cabeça contra a janela. O vidro ficou manchado do sangue viscoso. Só então o homem no banco do carona abaixou a arma, e o motorista reduziu a velocidade e parou o carro.

Hayul atirou outra vez no ombro esquerdo de Marco.

— Aaaaargh!

Um grito lancinante explodiu. Depois, Hayul golpeou a nuca dos dois homens da frente, um após o outro, deixando-os inconscientes. Só então conseguiu sair do carro e disparar pela rua.

A chuva fria desabava em torrentes. As gotas batiam em seus braços e pernas como chicotadas. O pescoço, onde os dedos de Marco haviam se cravado, queimava como se estivesse em brasas. Sentia frio e calor ao mesmo tempo: a pele arrepiada pelo vento gelado, enquanto por dentro seu corpo fervia. Estava encharcado e pesado como se respirasse debaixo d’água. Cada vez que ele ofegava, uma longa fumaça branca jorrava e se dispersava.

Agora ele era, definitivamente, um traidor.

Enquanto Marco estivesse vivo, jamais o perdoaria. Hayul nem sabia onde estava, nem para onde poderia ir. Não havia destino, não havia quem o acolhesse. Sempre viveu assim, sem rumo, à deriva. A solidão era sua eterna companheira, mas hoje a solidão parecia ainda mais fria e dolorosa.

Se pudesse, queria perguntar. Por que seu corpo estava desse jeito? Já não era algo que pudesse controlar com sua força de vontade. Até então, vivia resolvendo tudo sozinho, lutando sozinho. Mas aquela tormenta que agora sacudia seu corpo parecia impossível de deter.

Não tinha forças para resistir nem ao vento e à chuva que vinham de todos os lados, nem ao calor abrasador que o consumia por dentro.

Hayul se escondeu em um beco escuro e deserto, então se apoiou na parede por um momento, para recuperar o fôlego. Suas pernas tremiam tanto que era difícil ficar em pé. Suas roupas, completamente molhadas, grudavam desagradavelmente em sua pele. Abaixo, a protuberância era visível mesmo através do tecido: parecia prestes a explodir.

A cada respiração ofegante, era como se de seu corpo encharcado escapasse uma espécie de vapor branco, como fumaça densa se dissipando na chuva.

No fim do beco, alguns carros com os faróis acesos se moviam lentamente. Homens colocaram o rosto para fora das janelas e olharam ao redor. Deviam ser os capangas de Marco. Hayul encolheu o corpo ao máximo e se escondeu na escuridão do beco.

— Que droga de chuva é essa, caindo sem parar…

De repente, a porta dos fundos perto do muro onde Hayul estava escondido se abriu com força e bêbados completamente embriagados saíram cambaleando. Através da fresta da porta aberta, vazou o som de música alta e pessoas rindo e conversando. Por causa das vozes dos bêbados, o carro que havia desaparecido antes voltou de ré. Rapidamente, Hayul abriu a mesma porta por onde os homens haviam saído e entrou.

Parecia ser a porta dos fundos de uma boate. Jovens com garrafas de bebida na mão percorriam o salão escuro. Um cheiro forte de cigarro e álcool atingiu seu nariz. Hayul forçou passagem entre a multidão que lotava o salão. Pessoas cambaleantes esbarraram nele de vez em quando.

Então, de repente, começaram os murmúrios:

— Que cheiro é esse?

— É cheiro de ômega! O que um ômega está fazendo aqui?

— Será que alguém entrou no ciclo de calor?

O burburinho se espalhou por todo o salão, e as pessoas começaram a olhar ao redor procurando a origem do cheiro. Logo, como se tivessem combinado, todos fixaram o olhar em Hayul.

— É um ômega.

No silêncio que se formou, a voz de alguém quebrou a tensão. Os olhares das pessoas brilharam de forma sombria. Eram como os olhos das feras que brilham no escuro da floresta.

‘Será que todos aqui são alfas?’

Um arrepio gelado percorreu sua espinha. Era como se o sangue tivesse subido de repente. O ar no salão pareceu ferver, sufocando-o e seu instinto gritava enlouquecido que aquilo era um sinal de perigo. Com a mão trêmula, Hayul conseguiu puxar uma arma.

— Não se aproximem! Eu juro que atiro!

As pessoas ao redor recuaram num sobressalto. ‘Preciso sair daqui.’ Apontando a arma em ameaça, Hayul começou a avançar. ‘A saída. Onde está a saída? Está escondida atrás dessa merda de multidão.’ Cada passo era difícil, como se fosse impossível continuar andando. A tensão sufocante o fazia sentir que explodiria a qualquer instante.

Todos o olhavam como predadores à espreita da presa. Na escuridão, os olhos reluziam de forma caótica, era como se tivesse sido jogado dentro de uma jaula de feras famintas. Ofegante, mas sem baixar a guarda, Hayul seguiu.

— Está aguentando bem, mesmo em meio a um ciclo de calor, hein?

— Olha como ele treme, igual a um filhote de cervo recém-nascido. Que gracinha.

Risos zombeteiros ecoaram de várias direções. Tratavam-no como um macaco de zoológico. A sensação não era de medo ou hesitação, na verdade eles estavam se divertindo observando seu estado. O caminho à frente, que antes estava aberto como o Mar Vermelho, estava ficando cada vez mais estreito. As bestas famintas o cercavam com olhos brilhantes, andando lentamente ao redor.

— Será que ele sabe mesmo atirar?

Um homem riu debochado e tocou no braço de Hayul. Para mostrar que não estava blefando, ele puxou o gatilho. O estampido ecoou e o grito agudo do homem cortou o ar do salão. Só então perceberam que a arma na mão dele não era de brinquedo. A comoção tomou conta, e todos pararam.

— Eu avisei para não se aproximarem.

Mas Hayul estava terrivelmente enganado. Enganava-se ao pensar que aquelas pessoas eram normais. Alfas reunidos num lugar como aquele jamais estariam apenas bebendo cerveja inocentemente. O cheiro que impregnava o ar desde que entrou não era de cigarro.

— Peguem aquele desgraçado!

Um grito cortante ecoou de algum lugar. Imediatamente, vários brutamontes avançaram contra ele. Pareciam excitados por terem encontrado uma presa interessante, rindo enquanto atacavam. A arma de Hayul disparou várias vezes, derrubando alguns, mas sempre vinham mais. Atirava e caía um, logo outro surgia, não tinha fim.

Hayul puxava o gatilho sem parar, trocando o pente repetidas vezes. Não apenas a arma, também a faca foi usada para cortar e afastar os que se aproximavam. O pior inimigo do mundo é um louco sem medo da morte. E aqueles homens pareciam ter dezenas de vidas. Nenhum deles era normal.

‘Malditos alfas…’ Ele xingou por dentro. ‘Esses desgraçados. Malditos Alfas Reais. Como podem ser todos tão desprezíveis assim?’

Se fosse capturado por aqueles lunáticos, estaria acabado.  Poderia ser ainda pior do que ser capturado pelo inimigo. Sentindo-se à beira da morte, ainda assim resistiu, cerrando os dentes. No meio da confusão, um brilho verde chamou sua atenção: a luz da saída de emergência.

Assim que a avistou, atirou nas pernas de dois homens que bloqueavam seu caminho e correu com todas as forças. Desesperado, alcançou a porta e a escancarou.

Na entrada, Marco o esperava. Coberto de sangue, ele exibiu os dentes brancos num sorriso que lembrava um demônio saído do inferno.

— Eu nunca imaginei que você fosse me trair assim.

 

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Continua…

 

 

Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online

(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
 
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog

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