Ler Cão Real. – Capítulo 13 Online
O restaurante italiano localizado bem no centro da cidade era o estabelecimento de Marco. Embora fosse um restaurante famoso em formato de franquia, na verdade era usado como espaço para contrabando de drogas e lavagem de dinheiro.
Era conhecido por funcionar o ano inteiro, sem nunca fechar as portas, mas hoje estava fechado. Hayul ficou ali, atônito, olhando para a porta firmemente trancada do bar. Era óbvio. Já que a cobertura de Marco havia sido atacada, toda a organização estaria em polvorosa.
— E a corrida, como vai ficar?
Perguntou o taxista, com um olhar desconfiado. Hayul pensou se deveria fugir ou ameaçá-lo para mandá-lo embora, quando alguém chamou seu nome.
— Sean?
Era Maria. Ao ver o estado de Hayul, ela franziu o cenho.
— O que aconteceu? Por que você está nesse estado?
— Primeiro, pague a tarifa do táxi, por favor.
Percebendo a situação rapidamente, ela pagou a tarifa ao motorista de táxi, que estava cheio de reclamações. Como ele estava tremendo de frio, ela desamarrou o cachecol do pescoço e o enrolou no pescoço de Hayul.
— Você não está com frio? Meu Deus… como foi que ficou sem sapatos?
Só então ele sentiu a sensação de que seus pés iriam congelar. Pessoas que passavam pela rua lançavam olhares curiosos e seguiam adiante.
— Em vez de ficarmos aqui assim, vamos para o carro.
Maria levou Hayul até o carro dela: uma Ferrari azul. Parecia que ela havia trocado de carro de novo.
— O restaurante também está um caos. Parece que, no mesmo horário em que a cobertura foi atacada, alguns bandidos invadiram o restaurante.
Ela falou rapidamente, ligando o carro. O motor roncou pesado enquanto avançavam pela rua escura e úmida daquela noite.
— E o Marco?
— Não sei. Ainda não deu notícias. E os membros da organização estão desconfiando de você.
— De mim? Por quê?
— Marco vivia chamando você para a cobertura, não vivia? Dizem até que ele deu a você o cartão-chave da cobertura. E você e o Marco tinham uma relação “especial”.
Maria lançou um olhar de soslaio, observando Hayul.
— Na hora em que a cobertura foi atacada, eu estava preso com o Steve.
— Então você matou o Steve e conseguiu escapar?
— Ele realmente está morto, mas não fui eu quem o matou.
Maria franziu ainda mais a expressão.
— O quê? Do que você está falando? Ah, e o Antônio?
Só então, Hayul se deu conta de Antônio. Como ele tinha se esquecido daquele cara? O sujeito que choramingava sem parar, implorando para ser poupado.
— Não sei.
Só podia torcer para que ele tivesse sobrevivido e conseguido escapar. Ainda tremendo de frio, Hayul estremeceu, e Maria aumentou a temperatura do aquecedor.
— Dizem que os caras que atacaram o restaurante eram russos. Mas por que a máfia russa miraria no Marco? A gente nunca teve negócios com eles. Você tem algum palpite?
Tinha. O culpado pelo ataque a Marco provavelmente era Pavel. Esse palpite começava a se consolidar em certeza.
— De repente, tudo está explodindo e não consigo entender nada. Queria que alguém me explicasse passo a passo o que está acontecendo.
— Eu também.
Hayul concordou com Maria. Ele também estava igualmente perdido, sem entender nada.
Maria o levou para a própria casa. Deu-lhe roupas, sapatos e até roupas íntimas que haviam pertencido ao ex-marido. Ela também entregou a ele uma arma que guardava para autodefesa. Quando ele pegou a arma e se preparou para sair imediatamente, ela o segurou.
— Você não vai me contar nada?
— É melhor não saber. Apenas continue sem saber. E, se possível, arrume as suas coisas e vá embora para longe. Não se envolva em vão com os assuntos da organização.
Inteligente como era, Maria não insistiu mais. Apenas entregou a ele dinheiro e a chave do carro.
— Você também deve ir para o Canadá imediatamente. Há uma casa de campo que o Marco comprou em segredo para dar ao Levi. Talvez o Levi apareça por lá algum dia.
— O Levi está morto.
Maria arregalou os olhos, surpresa. Mas a surpresa durou pouco; logo recuperou a calma e murmurou, como se pensasse alto: “Então é ainda melhor.”
— De qualquer forma, a situação não está nada boa. As coisas estão ficando sérias. Não sei quem é que está mirando o Marco, mas se a máfia russa se envolver, vai ser dor de cabeça. Você também não vai escapar ileso. Vá para aquela casa de campo, esconda-se lá e depois dê um jeito de fugir para o exterior.
— Eu sei quem é o desgraçado que está mirando o Marco.
— O quê? Pode falar logo? Estou ficando louca de tanta aflição.
Hayul virou as costas para Maria, que batia no peito, reclamando de sua frustração.
— Estou indo.
Deixando para trás algo que mal podia ser chamado de despedida, ele ergueu o capuz do casaco e saiu.
Ele não se importava com a vida ou morte de Marco. Ele era um sujeito que já tinha se metido em tudo quanto é confusão no submundo. Ele sobreviveria de alguma forma.
Maria havia dito para seguir em direção à fronteira do Canadá, mas Hayul preferiu ir até o mercado de alimentos em Midtown que costumava frequentar. O primeiro andar era um mercado comum, mas no porão podia-se comprar todo tipo de arma. O comerciante de armas, Feng, ao ver Hayul, levou-o direto para um quarto nos fundos, sem sequer cumprimentá-lo.
Hayul, sem dizer nada, começou a pegar cuidadosamente várias armas da vitrine.
— Vai para a guerra, é?
Feng se intrometeu ao lado. Hayul não respondeu, pegou algumas Glocks, examinou-as em suas mãos para ver se estavam em ordem e depois pegou munição suficiente. Preparando-se para combate corpo a corpo, ele também pegou uma faca OTF da Microtech.
— Ouvi dizer que o penthouse do Marco foi atacado, não é?
— Onde estão os coletes à prova de balas?
Feng apontou com o queixo para uma direção. Hayul foi até lá, pegou um dos coletes da prateleira e vestiu.
— Estão dizendo por aí que você traiu o Marco.
Em vez de responder, Hayul apontou um Glock carregado para Feng.
— Se eu tivesse traído o Marco, acha que viria aqui?
Feng deu uma risada contida, e disse: É verdade. Mesmo com a arma apontada para si, manteve a calma, virou-se tranquilamente e ligou a máquina de café. Preparou duas xícaras e entregou uma a Hayul.
— Que dia mais variado, não? Ouvi que o Steve também morreu. O Marco foi atacado. Até nesta cidade sem graça alguma parece que coisas interessantes vão começar a acontecer.
Só então Hayul abaixou a arma, aceitou a xícara de café e soltou um longo suspiro.
— Você acha divertido? Eu sinto que vou morrer.
— De um tempo para cá, tenho ouvido um rumor muito interessante. Dizem que a máfia russa vai derrubar todas as máfias e gangues de Nova York e absorver tudo.
Hayul franziu a testa enquanto bebia o café.
— É mesmo?
— Você não sabia?
— Sou lento com informações. Você sabe quem é esse russo?
— O nome eu não sei, só o sobrenome. Kirov. Parece ser da linhagem de Oleg Kirov. Oleg é um dos grandes magnatas russos. Já foi até braço direito do presidente da Rússia. Mas o curioso é que dizem que Oleg não tem filhos. A única filha que tinha morreu há muito tempo, pelo que sei.
Pavel. Não Pavel Headington, mas o sujeito que se tornou Pavel Kirov. O homem que ele viu pela primeira vez em sete anos não era mais o jovem herdeiro da família Headington, mas o descendente da família Kirov, conhecida como assassinos das sombras.
‘Pavel… Em sete anos, no que você se transformou? Que tipo de monstro virou?’
— O que me intriga é: por que esse russo veio de repente causar confusão aqui? Para ser sincero, essa cidade não é exatamente um ponto de negócios atraente. Com a política do novo prefeito, os Estados Unidos já não são mais um lugar tão favorável para as máfias. Os tempos mudaram. Todos os outros estão migrando para o norte da Europa ou para a América do Sul. Então por que, de repente, isso está acontecendo?
Como Feng havia dito, o prefeito Ronald, eleito um ano atrás, havia declarado uma guerra implacável contra o crime, lançando uma ampla campanha de restrição ao uso de armas de fogo e intensificando o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas.
As organizações de drogas e os traficantes de armas sediados em Nova York haviam sido derrubados um a um, e os poucos que restaram estavam encolhidos, tentando se proteger. A organização de Marco não foi exceção. Ele também estava encerrando seus negócios por ali e se preparando para retornar à sua terra natal, a Itália.
Mas então, que razão teria a máfia russa para se meter em um território que já estava esgotado?
A dúvida durou pouco. A resposta veio logo.
‘Porque eu estou aqui.’
Hayul engoliu a saliva amarga que se acumulou em sua boca junto com o café. Pavel não estava fazendo isso para ganho financeiro. A motivação por trás de suas ações devia ser ele próprio.
Ele não sabia os detalhes do que aconteceu, mas parecia que Pavel havia se tornado parte da família Kirov, de sua mãe, e finalmente vestia as roupas que realmente lhe cabiam.
Mesmo antes, Pavel sempre combinava mais com armas do que com livros, mais com o cheiro de sangue do que com o perfume doce.
Mas se o objetivo de Pavel fosse ele, não o teria deixado escapar tão facilmente do hospital. Se seu corpo fosse realmente o alvo, teria sido amarrado de forma que, mesmo acordado, não pudesse se mover.
Era evidente que o havia deixado fugir de propósito. Mas por quê? Ninguém além de Pavel poderia responder a essa pergunta. Como saber o que se passava na mente de um louco?
‘Se me deixou fugir, então vou continuar fugindo.’
Ding dong. O som da porta para o porão se abrindo foi ouvido, e dois homens desceram as escadas. Eram homens que ele havia encontrado algumas vezes antes neste lugar. Todos que compravam armas aqui eram mais ou menos iguais.
Gângsteres, mafiosos ou gente com passado sujo. Por isso, não trocavam nomes nem cumprimentos. Mesmo ao se cruzarem, fingiam não ver. Mas naquela noite, os homens lançaram olhares de relance para Hayul.
Um mau pressentimento percorreu seu peito.
Hayul pousou a xícara de café já vazia e enfiou as armas compradas dentro da bolsa. Escondeu uma pistola no casaco, pronta para uso imediato. O pagamento seria feito depois por Marco. Mesmo que Marco morresse, Feng arranjaria um jeito de cobrar pelo arsenal.
— Hoje provavelmente é o último dia. Acho que é hora de fechar as portas aqui também. Não morra.
Feng disse aquilo como se fosse uma despedida, exibindo um sorriso enviesado. Hayul retribuiu apenas com um leve aceno de cabeça e saiu da loja. Logo atrás, escutou passos pesados. Eram os mesmos homens que tinha visto há pouco.
Ao invés de ir direto até o carro estacionado, decidiu caminhar calmamente pelas ruas vazias, como se nada estivesse acontecendo. ‘Eles continuam me seguindo. Amadores. Que tipo de perseguição desleixada é essa?’ Hayul ajustou a alça da bolsa e entrou em um beco no fim da rua, colando-se à parede para se esconder.
Ouviu os passos se aproximarem. Assim que avistou suas silhuetas, atacou de repente: atingiu um com a bolsa e outro com o cano da arma. Surpresos, os homens cambalearam e só então tentaram puxar suas armas, mas já era tarde demais. Hayul disparou, acertando um tiro no ombro direito de cada um deles.
Ambos caíram no chão, gritando de dor.
— O que é isso? Quem são vocês?
Apontando a arma para os corpos contorcidos, ele perguntou em voz baixa. Um dos homens respondeu em uma língua que Hayul não compreendeu. Era italiano.
— Falem em inglês.
— Maldito traidor!
Gritou o outro, num inglês carregado e desajeitado. Hayul franziu o cenho.
— Vocês são homens do Marco?
— Você se juntou aos russos e traiu o chefe! Desde que ele trouxe você, já parecia suspeito!
Pelo visto, assim como Mariana e Feng haviam dito, os subordinados de Marco o viam como um traidor.
— Não fui eu. Por que vocês pensam que eu traí o Marco?
— Há testemunhas que viram os russos levando você para o hospital.
— Houve uma razão para aquilo. Eu também sou uma vítima.
— Não acredito nas palavras de um traidor! Você já traiu seus companheiros do exército e colegas mercenários para se salvar sozinho. Anjo? Que anjo o quê. Maldito Satanás desprezível.
Não havia diálogo possível. Por mais que gastasse palavras, tudo seria ouvido apenas como mentira.
— Traição se paga com a morte. Maldito traidor imundo.
Quando o homem, com os olhos em brasa, gritou encarando Hayul, o sujeito que murmurava em italiano ao lado dele de repente se levantou bruscamente e avançou contra ele. Era desajeitado e, talvez estivesse drogado, seus movimentos estavam trôpegos. Hayul o dominou facilmente e o arremessou ao chão. Mal o fez e o outro se lançou sobre ele. Ele o subjugou em um instante e o derrubou.
Sem matá-los, escapou rapidamente do beco.
— Os irmãos não vão te perdoar!
A voz maldizente do homem ecoou aguda pela rua deserta.
Era algo que mais cedo ou mais tarde aconteceria. Na organização de Marco, que aceitava apenas membros de origem italiana como família, Hayul era o único de outra etnia. Um oriental. Desde que Marco o trouxe para o grupo, houve burburinhos. Por isso, os membros não escondiam o desprezo por Hayul, e ele também nunca se esforçou para fazer amizade com eles.
Como oriental, Hayul estava condenado a ser para sempre um estranho. Mesmo sem esse incidente, cedo ou tarde teria sido expulso da organização. De qualquer forma, ainda que tentasse explicar em detalhes a situação, eles não acreditariam.
A opção de voltar já havia desaparecido há muito tempo. Mais uma vez, tinha de fugir para sobreviver.
Os irmãos de Marco caçariam o traidor a qualquer custo e o executariam. Além de fugir deles, ainda precisava escapar de Pavel Heddington – agora Pavel Kirov aquele maldito.
Já era tarde da noite quando entrou num carro e dirigiu até um motel barato, onde se enfiou para dormir. Envolto em cobertores com cheiro de mofo, a fadiga e os efeitos das drogas se dissiparam. Forçou os olhos a se fechar, lutando contra as dores que vinham de todos os lados.
Refletiu um pouco sobre o que era sobreviver. Mesmo que conseguisse viver desse jeito, será que em algum momento viriam dias melhores?
Ele havia dito a Pavel que seguisse a vida que desejava, a sua própria vida. Mas será que ele mesmo já vivera a vida que queria? A dúvida o corroía.
Sua existência sempre foi apenas sobrevivência. Na infância, viveu para sua mãe, a única família. Depois da morte dela, continuou vivendo porque ela havia pedido que vivesse. Sete anos atrás, quando matou Pavel e fugiu, mesmo afogado na culpa e no medo de ter tirado uma vida, agarrou-se à sobrevivência, teimando em manter-se vivo.
Agora queria apenas descansar. Queria experimentar uma vida tranquila. Ousava sonhar com isso, mesmo vivendo como assassino sob as ordens de Marco.
O representante do sistema de compatibilidade havia dito: Os Subs-Betas são o mal desta sociedade. A classe superior, os Alfas Reais, não deveriam produzir esse mal.
Hayul, desde o nascimento, era considerado um tumor maligno que jamais deveria ter existido neste mundo.
Ter que viver uma vida falsa como Sean Ringer, um Beta, e não sob seu nome verdadeiro, Jin Hayul. Se tudo não passava de uma mentira, que sentido poderia ter uma vida assim?
Enquanto caía no sono, Hayul sonhou.
Um sonho de sua época vivendo na casa do Duque de Headington, há 7 anos.
Era uma tarde em que acontecia uma festa de chá nos jardins da mansão. Típico do clima britânico, o dia estava nublado e sombrio. Hayul observava Pavel de longe, cercado por Alfas Reais e outros Alfas. Mesmo naquele lugar cheio de umidade desagradável e frio, Pavel brilhava radiante como a luz do sol do Mediterrâneo.
Naquele momento, um dos rapazes que rondava a mesa acabou derramando o chá.
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Continua….
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
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A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog