Ler Cão Real. – Capítulo 06 Online
Antonio dizia com orgulho que um dia tinha sido um hacker lendário e, pelo visto, não era exagero. Hayul só tinha comentado, de forma casual, enquanto tomavam café: “Queria saber informações sobre a família ducal de Headington, mas por mais que eu procure, não acho nada.”
“As informações sobre os Alfas Reais são criptografadas e gerenciadas especialmente pelo governo, então pessoas comuns não têm acesso. Espera um pouco aí.”
Hayul achou que fosse apenas força de expressão, mas Antonio realmente foi buscar informações.
Ele sempre se perguntou como Marco havia conseguido fazer uma investigação tão detalhada sobre ele – e descobriu que tinha sido o próprio Antonio quem lhe passou os dados. O homem recitou até detalhes que Hayul nem queria saber: os casos amorosos do duque Headington, os escândalos das mulheres da família e a situação atual dos filhos do duque. Nada disso lhe interessava.
— O chefe disse que o filho mais novo do duque Headington matou três pessoas. É verdade?
— Ah, Pavel Yeits Headington? Sim. Pelo que descobri, ele matou três no dia 20 de dezembro, sete anos atrás. Todos eram alfas. Claro, não existe registro oficial nem reportagem na imprensa. Descobri hackeando, com muita dificuldade, dados confidenciais do sistema de compatibilidade.
20 de dezembro, sete anos atrás. Foi o dia em que Hayul matou Pavel e fugiu. Ao que parecia, Pavel não morreu e ainda cometeu vários assassinatos naquela data.
‘Mas por quê?’
— Depois disso, o duque Headington subornou as famílias das vítimas para chegar a um acordo e trancafiou Pavel Headington no mosteiro de Devneu, em uma ilha isolada da França.
— Um jovem saudável ficou preso em um mosteiro quietinho? Isso faz sentido?
— “Mosteiro” é modo de dizer. É um hospital psiquiátrico localizado em uma ilha cercada pelo oceano por todos os lados. Antigamente, era uma prisão para prisioneiros de guerra. Quem vai parar lá vira um Papillon – não sai de lá até alguém vir tirar.
— E como ele saiu de lá?
— Isso eu não sei. Apenas que, um ano depois de ter sido internado, um parente foi buscá-lo. Mas não consegui descobrir exatamente quem era.
‘Parente de Pavel?’
Hayul não lembrava de ele ter família próxima. Os irmãos e irmãs com quem não tinha bom relacionamento certamente não o ajudariam. Já que Antonio não descobriu o melhor era focar no que ele já sabia.
— Tem como descobrir quem foram as três vítimas de Pavel Headington?
— Sim, espera um pouco.
Depois de digitar e clicar rapidamente, Antonio exibiu no monitor os rostos dos três homens. Ao ver as fotos em preto e branco, Hayul deixou escapar um suspiro baixo.
Eram colegas de faculdade de Pavel. Alguns dos que invadiram o chalé de Belmark – onde Pavel queria passar o inverno a sós com Hayul – e tentaram estragar seus planos.
Na época, os três estavam bêbados e drogados e tentaram estuprar Hayul. Claro que não conseguiram. Hayul não era alguém que se deixasse violentar sem lutar. Ele espancou os bêbados desorientados e fugiu. Isso só foi possível porque eles eram alfas comuns e não Alfas Reais – se fossem, nem mesmo Hayul teria escapado.
— Pelo que descobri, ele era conhecido como um aluno exemplar. Não faço ideia do porquê de ter feito algo assim de repente.
Antonio murmurou, pensativo. Hayul tinha certeza de que Pavel ficou sabendo que eles haviam tentado abusar dele.
“Jamais perdoarei quem mexer no meu cachorrinho.”
A voz de Pavel ecoou em sua mente. ‘Maldito lunático.’ Hayul cerrou os dentes por dentro, xingando-o mentalmente.
De repente, pensou que, do ponto de vista do duque Headington, talvez tivesse sido melhor se Pavel realmente tivesse morrido pelas mãos dele naquele dia. Assim, ele não teria sido forçado a trancafiar seu próprio filho, que se tornou um assassino louco da noite para o dia, em uma ilha distante.
— Então onde Pavel Headington esteve escondido todo esse tempo? E onde ele está agora?
— Não sei. Não importa o quanto eu procure, não consigo encontrar nenhum registro dos passos de Pavel depois que ele saiu do Mosteiro de Devneu. Será que ele morreu?
— Morrido? Aquele desgraçado?
Hayul soltou uma risada sarcástica. Então, o sujeito com quem ele tinha falado por telefone há pouco seria um fantasma? Mas não disse isso em voz alta.
— E o duque Headington? Consegue descobrir onde ele está?
— Morreu.
— O quê?
— Segundo os registros, ele morreu num acidente há algum tempo. Depois de trancar o filho mais novo no hospital, parece que afundou na bebida e no jogo. Teve um ataque cardíaco num cassino e morreu.
— Então, a coleira dele foi totalmente solta.
Hayul murmurou isso junto de um suspiro. O duque Headington estava morto. Isso significava que o homem que mantinha o cachorro louco acorrentado, escondendo sua verdadeira natureza sob uma fachada dócil, já não existia mais.
Já havia sinais. Desde o primeiro momento em que viu Pavel, Hayul percebeu a natureza enlouquecida escondida sob a aparência brilhante. E, como consequência de ter percebido, passou meses suportando a loucura daquele homem em seu próprio corpo.
‘Aquele sujeito não é normal. Como consegue esconder algo tão monstruoso? Mais cedo ou mais tarde, vai explodir…’
E, no fim, parecia que, sete anos atrás, fora Hayul quem apertou o botão que detonou o gatilho dessa explosão. Seu interior ficou agitado, um emaranhado de pensamentos conflitantes se misturavam em sua cabeça.
— Hã? O que foi que você disse?
Ignorando a pergunta de Antonio, Hayul se aproximou da mesa no centro do quarto. Pegou a arma que estava em cima e começou a limpá-la em silêncio. Sempre que a mente ficava turbulenta, cuidar das armas ajudava a acalmá-lo.
Sentiu o olhar fixo de Antonio. Parecia que ele estava cheio de perguntas.
— Se quiser perguntar alguma coisa, pergunte agora.
— A Inglaterra é a sua terra natal?
Antonio falou como se estivesse esperando o momento.
— Sim.
— E quando você veio para os Estados Unidos?
— Há sete anos.
Depois de matar Pavel Headington, ele fugiu para este país sem pensar. Não havia um motivo específico para escolher os EUA. Apenas se lembrou, de repente, de um amigo da favela que tinha dito que viria para cá abrir uma pequena loja com um parente e que, se Hayul não tivesse nada para fazer, poderia trabalhar com ele. Mas, quando chegou, o tal negócio já tinha falido.
Depois disso, foi sobrevivendo de bico em bico, até criar uma nova identidade como Sean Ringer e se alistar no exército. O motivo era simples: dinheiro. A única coisa que tinha era um corpo saudável, e o exército oferecia estabilidade.
Achava que não tinha nenhum talento especial além do corpo forte, mas, ao entrar para as forças armadas, descobriu que tinha talento para atirar. Sempre acertava o alvo, sem errar um único tiro. Todos ficavam surpresos. Sua habilidade de tiro superava até a de oficiais alfas. Foi graças a isso que conseguiu entrar para as forças especiais.
— Mas você é um Sub-beta, não é? É verdade?
— Se não quiser trabalhar comigo, fale com o chefe. Não tenho nenhuma doença, pode ficar tranquilo.
Falou de forma despreocupada, enquanto conferia o carregador. Sub-betas como ele, eram alvo de desprezo em qualquer lugar. As pessoas os tratavam como se fossem germes.
— Não. Eu não tenho esse tipo de preconceito. Cresci na favela, e meu vizinho era um sub-beta. Ele fingia ser Beta normal, mas, como sub-betas não têm documentos oficiais… Um dia, o vizinho desmaiou, e chamamos a ambulância, porém como não havia registro dele, não pôde nem ser atendido no hospital e acabou morrendo. Era um bom homem. Então, minha mãe e eu fomos à igreja e fizemos o funeral dele.
— Fez uma boa ação.
Sub-betas, mesmo mortos, não tinham direito a funeral. Não podiam ser enterrados em cemitérios públicos; eram cremados e as cinzas jogadas em algum lugar qualquer. Em vida, não eram tratados como pessoas – e, na morte, como lixo.
— Você também deve ter passado por momentos difíceis.
Antônio falou com genuína compaixão. Pelo menos dava para perceber que, apesar de meio bobo, ele era uma pessoa gentil.
A mãe de Hayul, que carregava no ventre o filho de um alfa real, fugiu para os becos miseráveis de Londres e, com grande dificuldade, deu à luz. Felizmente, o bebê nasceu saudável e, como uma erva daninha resistente, cresceu sem adoecer. Mas o corpo de sua mãe, que deu à luz ao filho de um alfa real mesmo sendo beta, e que criava-o sozinha, foi ficando cada vez mais debilitado.
O jovem Hayul fez de tudo para sobreviver com a mãe. Não hesitava nem em cometer crimes. Fez de tudo, exceto matar, antes mesmo de chegar à adolescência. As crianças da favela onde ele vivia eram todas assim.
A mãe, mesmo doente, continuava trabalhando. O mundo era injusto, mas ela queria viver a qualquer custo. Ele, ainda menino, sonhava em crescer logo, ganhar muito dinheiro e curar a doença dela.
‘Preciso crescer. Virar adulto logo.’
Com seu corpo franzino, ele perambulava pela favela, mendigando, roubando, apanhando até quase morrer quando era pego. Mesmo assim, sorria ao voltar para casa mancando, com o pão comprado com o dinheiro roubado.
‘Vai melhorar. Amanhã será melhor que hoje. Esse túnel tem que ter um fim.’
Mas nada melhorou. A cada dia, a doença de sua mãe piorava, e não importava o quanto ele andasse mesmo mancando, o túnel escuro não tinha fim. O mundo brilhante no fim daquele túnel não lhe pertencia. Nunca poderia ser dele.
Porque ele era um sub-beta.
Por mais que se debatesse, não havia como escapar do ciclo do sangue. No momento em que percebeu que, mesmo lutando até quase morrer, nunca sairia daquele túnel longo e interminável, Hayul caiu em desespero.
Chegou a culpar a mãe. ‘Se era para me fazer viver como um lixo, por que não me abortou antes de nascer?’ Odiou o pai que nunca conheceu. Amaldiçoou o mundo injusto.
Por isso, muitos sub-betas afundavam em uma depressão sem fim, acabavam se entorpecendo com drogas e álcool até morrerem ou se matavam. Hayul não foi exceção. Quando entrou na adolescência, já não conseguia lidar com a própria desgraça e passou a viver afogado em bebida.
Mas a mãe, mesmo tossindo sangue por causa da doença, ia trabalhar. Segurava firme o fio da vida e enfrentava os dias com coragem. E, mesmo assim, nunca reclamava do filho que passava o dia em casa bebendo sem parar. Até que um dia, no trabalho em uma pizzaria, ela voltou a tossir sangue e desabou no chão.
“Mãe… por que a senhora se esforça tanto assim? Do que adianta viver uma vida tão miserável?”
Hayul perguntou isso à mãe, caída na cama.
“Eu gosto de viver.” A mãe sorriu amplamente com o rosto magro. “Quando morremos, não podemos fazer mais nada, não é? Minha mãe sempre dizia isso. Que, mesmo rolando no meio do esterco, é melhor estar vivo do que no além.”
“O que isso significa?”
“É um provérbio coreano, filho. Quer dizer: “Melhor viver miseravelmente do que morrer”. A minha mãe sempre me dizia para aguentar firme e viver. Que, se a gente aguentar no mundo dos vivos, vai acabar vendo a luz. Que, depois da morte, tudo acaba. Mas ela… acabou morrendo antes de ver essa luz…”
Hayul ficou em silêncio, ouvindo cada palavra.
“Antes de morrer, ela me disse: ‘Entendeu, Soon Hee? Você tem que viver. Tem que ver a luz que eu não vi.’ Minha mãe viveu com muita garra. Tinha tantos sonhos, era bonita e cheia de talento… mas acabou morrendo sem ver a luz. Criar uma filha sozinha foi sofrimento demais. Não é triste? Por isso, eu decidi que, no lugar dela, eu veria a luz. Então, eu vou viver.”
Foi a primeira vez que a mãe falou tanto sobre a avó.
“Estando viva, posso conversar assim com meu filho amado e, quem sabe, um dia levar você para conhecer a Coreia. Só essa esperança já é felicidade, não acha? Eu tenho tantas coisas que quero fazer. Então, meu filho, viva também. Não importa o quanto seja miserável, vamos sobreviver.”
Os olhos dela brilharam com determinação ao dizer isso. Era uma mulher que já tinha escapado da beira da morte várias vezes. Contou que, diante da porta da morte, sempre pensava a mesma coisa: queria viver. Queria viver nem que fosse mais um dia.
Naquele dia, o dono da pizzaria onde ela trabalhava apareceu em casa com uma pizza cheia de cobertura, bife e um monte de comida. Mãe e filho, puderam se sentar juntos à mesa e comer até se fartar. A pizza estava tão boa que Hayul devorou tudo sem pensar em mais nada.
“Está gostosa, não está? Se morresse, não poderia comer uma pizza tão deliciosa… não seria um desperdício morrer assim?”
Com a barriga cheia e um sorriso satisfeito no rosto de Hayul, a mãe dele abriu um sorriso radiante.
Tão alegre e otimista como sempre fora, ela ainda assim não conseguiu vencer a doença. Queria tanto viver… mas, no ano em que Hayul completou dezessete anos, acabou morrendo. Até o último instante, ela segurou a mão do filho e murmurou:
“Você tem que viver até o fim. Por favor, viva por mim também.”
Viva. Aquilo ficou gravado em sua mente como um mantra. Ele precisava viver também pela mãe que havia partido. Precisava sobreviver até o fim. Assim como a avó fizera, a mãe, em seus últimos momentos, deixou essas palavras marcadas na mente do filho.
Por isso, Hayul sempre colocava a sobrevivência como prioridade em qualquer situação. O engraçado é que, com o tempo, ele passou a querer viver. E, ao suportar tudo de alguma forma, percebeu que a vida não era tão ruim assim. Conforme o último desejo de sua mãe, ele queria sobreviver até o fim… e começou a se perguntar o que encontraria lá no final.
— É realmente impressionante que um sub-Beta tenha chegado tão longe. Ouvi dizer que, quando você estava no exército ou trabalhando em empresas de mercenários, era famoso por ser o único a voltar vivo de missões extremas onde todo mundo morria.
— Sempre fiz qualquer coisa que fosse necessária para sobreviver.
Ele respondeu, sem dar muita importância. Hayul mastigou um pedaço de pizza fria com indiferença, mas fez uma careta. Parecia borracha.
— Onde você comprou essa porcaria?
— Eu que fiz… Pra gente comer….
Antonio encolheu os ombros, murmurando. Ele tinha usado os melhores ingredientes, mas o resultado foi isso. Mesmo assim, pensando no esforço do sujeito, que acordara cedo para assar a pizza, Hayul pegou novamente o pedaço que havia largado e, com esforço, mastigou.
— Até que, comendo mais um pouco, não é tão ruim.
O rosto de Antônio logo se iluminou e ele voltou a tagarelar.
— Pelo seu nome coreano, imagino que sua mãe fosse coreana, certo? Para um oriental, você tem um porte físico impressionante. A maioria dos Sub Betas tem problemas de saúde, mas você parece saudável. Que inveja… Por mais que eu malhe, nunca fico forte assim.
Enquanto falava, ele levantou a camisa, revelando a barriga saliente.
— Olha isso. Só ganho barriga.
Ao resmungar e suspirar, a barriga dele balançou, junto com a tatuagem no abdômen.
— O que é isso? Uma minhoca?
— É um dragão! — protestou Antonio.
Ao ouvir o grito, Hayul não conseguiu conter o riso. ‘Onde isso parece um dragão?’ Com certeza tinha feito aquela tatuagem em alguma loja clandestina de beco. Enquanto ele ria, incrédulo, Antônio o observava fixamente e murmurou:
— Quanto mais eu olho pra você, mais bonito acho.
— Não fala besteira.
Hayul soltou um leve riso irônico e pegou uma arma sem carregador, mirando no ar. Ele se concentrou como se houvesse um alvo real diante de si e puxou o gatilho com cuidado.
Bang!
O som do disparo ecoou em sua mente, e ele visualizou a bala cravando-se no peito de Steve Tavière.
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Continua…
Ler Cão Real. Yaoi Mangá Online
(Do mesmo universo de: Noite De Caça.)
O telefone tocou em uma noite chuvosa.
Do outro lado do aparelho flui a voz de um homem que carinhosamente chama Hayul de ‘Rosie’.
[Você não sente minha falta? Eu estou quase enlouquecendo de tanta saudade.]
A ligação vinha de um número desconhecido, mas a voz de alguma forma era bastante familiar.
[Espere, irei ver você em breve.]
‘Agora me lembro dessa voz. A única pessoa que me chama de ‘Rosie’ – Pavel Yates Headington, o homem que eu matei sete anos atrás.’
***
A história de como um (Cão real) que cortou sua coleira e mordeu o dono antes de fugir, se tornou uma (Noiva real.)
Nome alternativo: Royal Dog