Ler Caminhando sobre às águas – Capítulo 70 Online

Modo Claro

— Então por que…

— Acho que a dor que sente o impulsiona a fazer isso. Se você convive com ela não tem outra escolha a não ser ouvi-la. Costumo falar isso para mim mesmo às vezes.

Sorrindo amargamente, McQueen se virou para mim e se aproximou um pouco.

— Você tem muitas coisas para mover?

— Um pouco. Alguns móveis.

— Eu tenho uma caminhonete, quer pegar emprestado?

— Sim, se você…  Obrigado.

Olhei para a lateral do rosto de McQueen, enquanto ele balançava a lata de cerveja em círculo, como se estivesse avaliando quanto restava. Pensei que não seria mais influenciado por sua gentileza calorosa que ele habitualmente dá para os outros, mas não pude evitar o sentimento de expectativa.

— Me desculpe, mas…

— Sim.

— Namoro… você tem muita experiência com isso?

Eu sabia que trazer à tona a palavra “namoro” lhe mostraria meus pensamentos e a confusão que eu sentia, mas não consegui esconder.

Ao ouvir minha fala após uma longa pausa, McQueen levou a cerveja aos lábios e soltou uma gargalhada estrondosa. Não havia nenhum sinal de surpresa em seus olhos, diante da minha pergunta impulsiva, quando ele olhou para mim.

— O que você acha?

— …

— Diga-me. Eu pareço um Don Juan?

Ele se virou completamente para mim e inclinou a cabeça para encontrar meu olhar. Quando não disse nada, McQueen chegou o corpo para mais perto.

— Se definir o namoro como uma relação onde você faz sexo, posso dizer que tive muitos relacionamentos, mas nunca estive profundamente imerso em um só. Eu não senti o sentimento miserável de me apaixonar.

McQueen ergueu o braço segurando uma lata de cerveja e a deixou cair na estrada.

— Quando você se apaixona por alguém, não se sente apenas miserável.

Falei consciente da ação do álcool e do tremor da minha voz.

— Sério? Quando criança, sempre me sentia miserável quando via aquele professor.

Ele continuou com o sorriso clínico.

— Claro que não é por causa de tais medos que eu não me apaixono. Agora, duvido que tal experiência seja realmente necessária.

Apesar de suas palavras firmes, McQueen lançou um olhar inseguro sobre meu colo. Ele esvaziou a lata de cerveja imediatamente e se levantou.

— Eles vendem uísque em frente ao parque. Espere um segundo, por favor.

Enquanto McQueen estava fora, bebi minha cerveja e pensei nele. Se ele estivesse apaixonado também, sua memória não teria sido, em suas palavras, um sentimento miserável.

McQueen voltou com um copo de plástico em cada mão. Ele me ofereceu algo que parecia uma bebida. Era um whisky com um cheiro pungente de álcool.

— O filme… É sobre você?

Sem uma palavra de negação, McQueen assentiu com a cabeça.

— 30% é fato, 50% é exagero, o resto é ficção. Esse é o processo pelo qual a maioria dos meninos passa quando são forçados a esconder sua identidade sexual. Nada especial.

Lembrei-me do homem no filme, com a impressão ascética que David gostava. Também pensei no homem de quem McQueen falou há muito tempo, ele queria distorcer sua expressão tão intensamente que até ele mesmo ficou surpreso. Eu queria ouvir sobre o primeiro amor de McQueen, mas o que saiu da minha boca foi outra coisa.

— Ainda assim, os artigos postados nos sites sobre o filme estão cheios de elogios. Se ver pessoas confusas sobre sua sexualidade… bom, mesmo que não seja sobre sexualidade, eu recomendo porque é um bom filme… É o que todos dizem.

Silenciosamente McQueen bebeu o whisky.

— Eu gostei do filme… achei realmente bom.

— Para um filme alemão, a resposta tem sido boa.

Ele ficou em silêncio novamente. Não querendo falar sobre a história, olhei atentamente para o rosto de McQueen. Ele lambeu os lábios por um momento e então olhou para mim, escovando sua franja bagunçada.

— Eu escrevi o roteiro há cerca de oito anos e não achei que seria transformado em filme porque eu estava filmando pornografia na época. Pensei que seria irrealista e sairia caro. Ainda assim, não deixei de querer escrever alguma coisa. Só mostrei o roteiro para duas pessoas: Ryan Tessler e Blightro. Jonas é um alemão que já foi meu colega de quarto na universidade. Ele é o diretor de <The Little Stories We Shared In Bed>.

Ele continuou enquanto olhava para o whisky fazendo uma pequena ondulação no copo com olhos pensativos.

— Mesmo depois que voltou para Alemanha, manteve contato comigo, ele nunca abandonou seus sonhos. Meu amigo que também é gay disse que queria fazer sua estreia com um filme autobiográfico, então começou a falar sobre o roteiro que tinha lhe mostrado alguns atos. Achei sua proposta interessante… Na verdade, eu não acreditava muito naquele amigo, mas concordei. Meu amigo não tinha dinheiro e estava falido depois de estudar no exterior, então pensei que não conseguiria fazer o filme sem investidores. Mas Jonas começou a filmar com o dinheiro da casa e do carro hipotecados. Durante três anos, trocamos e-mails para acertar o cenário, ele conseguiu alguns equipamentos emprestados e eu investi uma pequena quantia de capital, até que finalmente as gravações terminaram. Estávamos à deriva sem data de estreia, mas depois que estreou milagrosamente passou em muitos cinemas durante seis meses sem nenhuma publicidade especial, e eu continuo recebendo um lucro constante de receita da bilheteria em minha conta. Na verdade, quando olho para esses números crescentes…  Me sinto sujo.

McQueen olhou atentamente para o ar e inclinou a cabeça.

— No filme… fico pensando e se o David, que gritou que queria viver uma vida verdadeira, no final do filme crescera para se tornar um produtor pornografia.

Seu rosto endureceu como se sua garganta estivesse apertada.

— As pessoas não querem um final assim. Seria um final terrível e triste. Espero que não haja um escândalo tão feio que faça o filme não sair da boca das pessoas. As pessoas vão se divertir difamando-o. Não quero que o puro entusiasmo de Jonas se torne motivo de chacota. Desculpe se fui sensível um tempo. Foi negligência da minha parte deixar a carta lá.

Prendi a respiração enquanto escutava suas longas palavras, mas não consegui dizer nada.

— E a verdade mais feia é…

McQueen disse, baixando a voz como se alguém estivesse ouvindo.

— Que eu invejo Jonas. O mundo de colinas ensolaradas onde ele se encontra tão majestosamente agora parece lindo. Em algum momento pensei que não havia nada para invejar.

McQueen parou de falar. E disse com uma voz espremida.

— …Mas se você é humano… Instintivamente, você quer mais.

Não havia sequer uma respiração sufocante. Vi a ponta do nariz de McQueen, aguçado pela tensão, e nas costas de sua mão segurando com força o copo, os vasos sanguíneos começaram a inchar. As mãos grandes de McQueen tremiam.

Não havia mais música no parque escuro. Havia apenas sons ocasionais de gafanhotos pulando na grama. Olhando para a sombra escura de McQueen sob meus pés, pensei em seu apelido.

Hades McQueen. Como seu apelido sugere, ele tem uma riqueza subterrânea, mas o que ele anseia pode ser Perséfone na terra ensolarada. Ao contrário dos Deuses gregos que tinham muitas esposas, Hades, sabiamente tomou apenas Perséfone como esposa.

— Você quer ser um artista, certo?

Ele virou a cabeça e olhou para mim. “Artista”. McQueen murmurou, como se a palavra fosse desconhecida ou depreciativa. Parecia haver um pouco de umidade ao redor de seus olhos, mas evaporou rapidamente.

Ele endireitou os ombros curvados e franziu os lábios.

— Isso é patético, não é? Não sei por que estou falando sobre isso estupidamente. Acho que fiquei meio bêbado com isso.

McQueen esvaziou todo o whisky em sua mão e jogou o copo em uma lata de lixo próxima.

— Agora vamos caminhar até a estação de metrô. É tarde.

Olhando para o relógio em seu pulso, McQueen disse isso. Ele evitou olhar para mim, e eu senti como se estivesse diante de um garoto tímido.

McQueen não caminhou a passos largos como fez quando chegou ao Tompkins Square Park. Caminhamos em ritmo lento, lado a lado entre as longas filas de prédios em estilo brownstone e as árvores nas calçadas. Senti como se tivesse abraçado McQueen, a quem sempre pensei ser impossível de agarrar, mesmo que por um momento. Claro, eu estava imerso em minha própria ilusão.

— Você geralmente é um bom ouvinte, não é?

McQueen disse, olhando para frente, com as duas mãos enfiadas nos bolsos do casaco.

— Bem… costumo ser.

— Acho que seria melhor como conselheiro do que como guarda-costas.

— Não é pra tanto.

Diante da minha negação, McQueen diminuiu os passos e chegou um pouco mais perto de mim. O cotovelo de McQueen tocou meu braço e se afastou.

— Isso me faz querer te contar tudo. Até mesmo sobre um feio complexo de inferioridade.

— Não vejo nada feio…

— É um sentimento irracional de inferioridade. Já que eu venho calculando isso sob o pretexto de uma coisa pura.

McQueen tirou um cigarro do bolso. Mas em vez de fumá-lo, olhou para ele por um tempo e o colocou no bolso novamente. As palavras de McQueen não continuaram.

— Já falei muito sobre mim, vamos falar um pouco de você.

— O quê?

— Qualquer coisa, seja uma história sobre sua infância ou uma história auto depreciativa. Ou vamos falar sobre você querer atuar.

Ele abaixou a cabeça ligeiramente e olhou para mim.

Tentei esconder a tensão em meu rosto, que enrijeceu sob seu olhar fixo. Se ele quisesse saber eu poderia revelar tudo sobre mim. Mas o que mais eu tinha para contar sobre mim além de uma vida banal.

— Desisti do meu sonho de atuar há muito tempo, houve momentos… em que eu só pensava nisso.

— Por que você desistiu?

— Eu machuquei minha perna e passei cerca de um ano em reabilitação. Enquanto isso, contrai muitas dívidas… Agora me pergunto se tenho algum talento. Bem… não estou arrependido.

— Por falar nisso, você sempre carrega um livro de Stanislavski em sua bolsa.

A mão de McQueen puxou a alça da bolsa em meu ombro. O fiapo na alça de couro falso presa à velha bolsa preta era embaraçoso, mas eu não me importei.

— ‘A Preparação do Ator’, certo?

— Sim.

— Eu não acho que seja um livro para se carregar com você quando você mesmo diz não estar arrependido.

— É um livro que vale a pena ler, mesmo quando não se tem pretensão de atuar.

O livro que por muito tempo carreguei em minha bolsa estava cheio de frases que queimavam meu coração quando jovem. As frases há muito memorizadas, me fizeram flutuar em sentimentos enquanto as lia, as emoções corriam pelo meu sangue, mas agora não passavam de passagens desbotadas como fósseis. Ao contrário do que disse a McQueen, não olho mais para o livro que sempre guardo na bolsa.

Os olhos de McQueen focaram na bolsa velha. O olhar sobre a bolsa onde o livro de Stanislavski estava guardado há muito tempo, era vertiginoso.

Saímos do beco estreito e caminhamos pela encruzilhada onde os quarteirões se conectavam. O vento frio da noite varreu a rua ainda mais violentamente sobre a estrada que levava ao nosso destino. Enquanto nos aproximávamos da estrada que levava a estação de metrô, a multidão de pessoas só crescia. Cada uma delas andava sobre a estrada com seus casacos bem fechados devido ao frio repentino. À medida que a estação se aproximava, tentei desacelerar meus passos com uma sensação de pesar, mas o fim ainda estava se aproximando.

Vou me encontrar novamente com McQueen para pegar sua caminhonete emprestada e gravar a narração documentário, mas a semana parece muito longa.

— Da próxima vez que bebermos… Eu pago.

Olhei para ele, tossindo em meu punho para esconder meu embaraço. Não pude deixar de me perguntar se ele se deu conta quando me viu com <Como roubar o coração de um homem>. Nem tentei explicar que esse não era minha intenção, porque só iria parecer mais estúpido.

— Claro.

Assentindo com a cabeça, McQueen disse.

— Então… eu já vou.

Agarrei o corrimão da escada e dei um passo para trás. Queria ver as costas de McQueen enquanto ele se afastava, esperando que desse a volta e seguisse seu próprio caminho primeiro. Mas McQueen ficou lá e me encarou silenciosamente enquanto eu descia para a estação. Com relutância, eu estava prestes a me virar envergonhado, enquanto esfregava a parte de trás do meu cabelo curto, mas as pernas de McQueen descendo entram no meu campo de visão.

Sem nenhum aviso, a parte de trás do meu pescoço foi puxada e minhas bochechas frias foram cobertas pelas mãos quentes. A sensação de formigamento quente era mais próxima do frio. No começo, não percebi que ele e eu estávamos nos beijando. Sua membrana mucosa pegajosa se sobrepôs aos meus lábios congelados.

Uma parede fria atingiu minhas costas dolorosamente. Senti o toque de seus lábios ofegantes enquanto estava preso entre a parede e seu corpo, e o entrelaçamento intermitente de nossas respirações. Eu nem conseguia pensar por causa do beijo arrebatador. O beijo foi súbito, selvagem e longo.

Mesmo depois do beijo rodopiante, ele não afastou os lábios. As pálpebras tremeram quando abri meus olhos. Bem de perto pude ver os olhos fechados de McQueen. Suas pálpebras tremiam em pequenos espasmos. O movimento das pessoas indo e vindo da estação de metrô era lento como se tivessem pausado a cena. As pessoas que desciam lentamente as escadas olhavam para nós. Meu cérebro entendeu tardiamente porque o olhar deles permaneciam em nós.

Ele me beijou.

Eu quase gritei involuntariamente, mas consegui me segurar. Nossos lábios se separaram e ele juntou nossas testas. Estávamos tão perto que era impossível ler sua expressão e pensamentos. Quando ele abriu os olhos nossos olhares se encontraram.

— Ah…

Um gemido incompreensível escapou de sua boca. Seus olhos cor de âmbar cintilavam na escuridão da rua. As mãos quentes de McQueen gentilmente cobriram minhas bochechas rígidas.

Por muito tempo ficamos em silêncio. Ao contrário dos corações  barulhentos, o silêncio nos dominava.

Lembrei-me de suas palavras sobre a perda da pureza e como calculava isso constantemente. Talvez esse McQueen possa lamentar esse impulso de atacar apaixonadamente neste momento?

— E agora… o que… calculou?

A voz travada estalou como ferro. A distância era tão próxima que sempre que movia os lábios, nossos lábios molhados se tocavam.

McQueen afastou sua testa. À medida que a distância aumentou, pude ver seu rosto. Não havia sorrisos nos olhos tensos que olhavam para mim.

— Eu nunca me senti assim.

— …

— Quantos minutos levaríamos para correr o mais rápido possível até minha cama? Eu estava pensando exatamente isso.

Olhando para meus olhos bem abertos, McQueen continuou.

— Mais que isso.

Com uma cara séria sem um sorriso, ele olhou nos meus olhos.

— Eu não me sinto como eu mesmo, meu coração está sempre abalado e inquieto.

McQueen olhou para mim com um olhar que dizia ter me contado tudo. Seu polegar gentilmente esfregou minha bochecha. Quando engoli a saliva seca, e umedeci meus lábios sedentos, nossos lábios se sobrepuseram de novo. O beijo foi um pouco mais suave do que antes. McQueen mordeu meu lábio inferior como se estivesse saboreando um sorvete doce.

Depois de um longo beijo, abaixou a mão que segurava meu rosto. Ele disse, enquanto ofegava profundamente.

— Eu acho que o seu nome… realmente combina bem com você.

Ele enfiou a mão esquerda no bolso do casaco e agarrou o corrimão com a outra mão, dando meio passo para trás. Então ele apontou com o queixo para o meu peito.

— Vai ficar aí para sempre.

McQueen olhou para a área do meu coração com olhos complicados, e logo se virou. Deixando-me confuso, ele desapareceu em um beco estranho.

 

***

 

N/Quartz: Eu não sei vocês, mas eu tô toda molhada.

 

Ler Caminhando sobre às águas Yaoi Mangá Online

Este romance conta a história de Ed Talbot, um jovem de vinte e quatro anos que herdou uma dívida com um agiota.
Por acaso, ele acaba se envolvendo no mundo dos filmes pornôs gays amadores dirigidos por “Straight”.
Inicialmente, Ed pretendia se afastar da indústria após gravar apenas um vídeo de masturbação solo, mas sua mentalidade começa a mudar ao conhecer Glenn McQueen.
Glenn McQueen é um homem que comanda dezenas de produtoras de filmes pornográficos. E Ed, sem perceber, acaba se apaixonando por esse homem experiente e libertino.
Nome alternativo: Walk On Waterwow

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