Ler Lamba-me se puder – Capítulo 134 Online

Modo Claro

Koy levantou os olhos, atordoado, para Ashley.

O outro, com uma expressão diferente de qualquer que já tivesse mostrado antes — urgente, quase desesperada —, falou rapidamente:

— Eu pago tudo. A mensalidade, o aluguel, a comida… tudo. Você não precisa se preocupar com nada, Koy. Só precisa ir comigo.

— Ash…

— Vem comigo. Se disser que vem, eu faço qualquer coisa. Só preciso de uma palavra. Só uma palavra.

‘Por favor…’ — sussurrou Ashley.

A voz dele soou abafada, quase um sopro, e Koy engoliu em seco. Por um instante ele hesitou.

‘O que aconteceria se eu simplesmente acenasse com a cabeça agora? Se eu dissesse que iria, se eu pegasse a mão do Ashley?’

Imaginou-o de novo na estação, vendo Ashley esperando sem fim por ele, enquanto o sol nascia. E, ao mesmo tempo, lembrou-se de si mesmo, sentado na beira da cama do pai, na luz fria da manhã, vigiando o monitor que apitava lentamente.

Koy mordeu o lábio, hesitou… e por fim, com a voz trêmula, murmurou:

— …Não posso.

Ashley ficou imóvel.

— Meu pai… — continuou Koy, a voz vacilando. — Ele só tem a mim.

O silêncio se instalou. Ashley apenas o olhava, sem dizer nada.

Então, de repente, ele soltou um suspiro que se desfez em uma risada vazia.

— Koy… e eu?

Ainda rindo, perguntou — mas o sorriso não chegou aos olhos. As pálpebras tremiam, os lábios também. Seu rosto se distorceu numa expressão de dor contida, de quem estava prestes a chorar.

— Eu também estou sozinho.

Por um momento, as palavras “Eu vou com você” quase escaparam dos lábios de Koy. Mas, junto delas, veio a imagem do pai dormindo dentro do trailer.

Ele apertou os punhos, resistindo à vontade de abraçá-lo, e murmurou:

— Você… você tem tanta coisa, Ash. Então…

Não conseguiu continuar.

Ashley o olhava com uma expressão vazia, como se tivesse levado um golpe.

— …Ha.

O som que escapou foi meio suspiro, meio gargalhada descrente.

— Até você tá dizendo isso pra mim.

As palavras o atingiram como uma lâmina. Koy percebeu tarde demais o que tinha dito. Quis se retratar, mas já era inútil — os braços de Ashley, que o seguravam, perderam a força.

Ele se afastou, um passo, dois, e o olhou uma última vez antes de se virar.

Koy, em pânico, o agarrou pelo pulso.

— A–Ash! Espera, por favor, só um segundo…!

Precisava dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Não podia deixá-lo ir assim.

— Você não vai embora daqui, vai? Não pra sempre…

Ashley respondeu com uma calma cortante:

— Eu não vou estar mais aqui.

Koy, tremendo, tentou insistir:

— Então eu vou até você! Eu posso ir te ver! — Falava rápido demais, a voz trêmula. — A gente pode se ver nas férias. Se eu não conseguir ir, você pode vir. Você sabe onde é minha casa…

Ashley soltou uma risada amarga.

— Eu não vou te ver nunca mais, Koy.

O silêncio entre eles se tornou insuportável. Ashley desviou o olhar e acrescentou, com um sorriso de ironia ferida:

— Quer saber o mais engraçado? Ela tinha razão o tempo todo.

Koy ficou paralisado. Um pressentimento terrível o impediu de dizer qualquer coisa — até que Ashley falou, com a voz fria e cansada:

— Você nunca gostou de mim. Você amava a ideia de ser amado por mim.

O coração de Koy despencou no peito. Antes que pudesse reagir, Ashley se virou para ir embora.

— Ash!

Assustado, Koy agarrou o braço dele com as duas mãos. A ideia de perdê-lo, de vê-lo partir assim, esvaziou sua mente por completo.

‘Eu tenho que impedi-lo. Tenho que trazê-lo de volta. Se não fizer isso… se não fizer isso agora…’

— Eu errei.

‘…Eu vou perdê-lo pra sempre.’

— Eu errei, Ash! Eu imploro, não vá! Eu nunca mais vou fazer isso, nunca mais vou dizer essas coisas… Por favor, eu te imploro, não vá!

Koy o segurava desesperadamente, sem saber o que fazer. ‘Por que eu disse aquilo?’ Se pudesse, voltaria no tempo. Agarrou-o com todas as forças, mas Ashley apenas ficou em silêncio por um momento antes de responder:

— Já é tarde demais.

Koy congelou. Ashley virou o rosto devagar, e quando seus olhares se cruzaram, Koy não conseguiu mais dizer nada.

Ashley levantou a mão para o rosto de Koy, que apenas olhava. Ele acariciou sua bochecha lentamente. O calor breve daquela carícia logo se desfez; os dedos longos e elegantes pairaram no ar por um instante antes de cair.

Na visão turva de Koy, Ashley sorriu — um sorriso calmo, quase sereno, mas tingido de melancolia. Os olhos violetas pareciam ainda mais escuros.

— Adeus, Koy.

A voz dele saiu mais baixa do que nunca, quase um murmúrio. Koy nem sequer piscou — apenas olhou.

E esse foi o fim.

Ashley se virou. A força nas mãos de Koy se dissipou, e ele se afastou com facilidade. Ele olhou para frente e deu o primeiro passo. Depois outro. Koy apenas o seguiu com o olhar, imóvel, vendo-o se afastar aos poucos.

A porta se abriu e fechou em silêncio.

Koy ficou sozinho.

E assim ele se foi — sem olhar para trás, nem uma única vez.

 

***

 

O pai de Koy faleceu num dia de outono, quando o verão já tinha se ido. Naquela manhã, ao se aproximar para vê-lo, Koy percebeu que o som fraco da respiração, que até a noite anterior ainda existia, havia desaparecido por completo.

Mesmo diante do corpo sem vida, Koy não se abalou tanto quanto imaginara. Desde dois dias antes, o pai estava inconsciente — e, de certa forma, Koy já havia se preparado para o inevitável. Tudo aconteceu conforme os procedimentos que ele já sabia que deveria seguir.

Poucas pessoas compareceram ao funeral. Apenas alguns antigos colegas de trabalho do pai, gente que o conhecia de vista. Os amigos de Koy — Bill e Ariel — lamentaram não poder vir, já que as aulas tinham recomeçado e o dormitório não permitia saídas, mas ele disse que não havia problema.

Depois do discreto funeral, Koy voltou para casa e se pôs a organizar o interior do trailer, começando por jogar fora a velha cama do pai. Mas não havia muito o que arrumar. As únicas coisas que restaram eram algumas roupas gastas e objetos sem importância — nada digno de ser guardado como lembrança.

Enquanto organizava as coisas, Koy decidiu guardar apenas uma velha fotografia de família — a única que restava. Colocou-a num pequeno porta-retratos e a deixou sobre a mesa. Depois de terminar a limpeza, tudo estava arrumado.

Em poucas horas, a vida que ele conhecia tinha sido empacotada e jogada fora. Koy sentiu um vazio estranho. O trailer estava silencioso demais — sem o som fraco da respiração do pai, sem movimento algum. Ele ficou ali, sentado por um bom tempo, encarando o nada.

Agora, estava sozinho.

 

***

 

— Koy! Aqui! — Era Bill, chamando-o.

No fim de semana, Bill e Ariel haviam voltado para casa e resolveram encontrá-lo. Como nos tempos do colégio, combinaram de se ver no Green Bell.

Fazia tempo que não se viam. Assim que se encontraram, os dois perguntaram como Koy estava e lamentaram não comparecido  ao funeral.

— Tá tudo bem, de verdade. — disse ele com um sorriso leve. — Nem demorou muito para arrumar tudo. E vocês? Como está a faculdade? É divertida?

Koy mudou de assunto, e eles embarcaram na conversa, animados. Bill contou histórias sobre o dormitório, Ariel falou sobre as aulas, e Koy, por um momento, deixou-se levar — rindo, curioso, imaginando como teria sido se ele também tivesse ido para a universidade.

O tempo passou depressa. Quando a noite caiu e estavam prestes a ir embora, Bill acompanhou Ariel até o ponto e depois parou, antes de entrar no carro.

— Ah, lembrei de uma coisa — disse, coçando a cabeça. — Parece que colocaram a casa do Ash à venda.

— O quê?

Koy se virou, surpreso. Bill assentiu.

— Pois é. Minha mãe comentou. Sabe, ela trabalha numa imobiliária. Disse que o imóvel entrou na lista há uns dias.

— Ah…

Foi só o que Koy conseguiu murmurar. Bill suspirou, olhando para ele com um ar compreensivo.

— Acho que o Ash não vai mesmo voltar.

Dizendo isso, entrou no carro e partiu.

Koy ficou parado, observando as luzes traseiras do veículo sumirem na estrada. Depois, virou-se e caminhou até onde havia deixado a bicicleta.

Montou nela sem pensar muito. Instintivamente, começou a pedalar — com firmeza, com pressa. Deveria seguir o caminho de casa, mas a bicicleta tomou outra direção. Mesmo subindo o morro, Koy não percebeu o desvio. Só quando chegou ao topo e viu o que havia adiante é que se deu conta de onde estava.

A casa de Ashley.

Com uma placa pendurada no portão:

À VENDA.

Diante do portão da mansão imponente e luxuosa, havia fincada uma placa de “À VENDA”, Koy desceu da bicicleta e ficou ali parado, olhando para ela sem expressão. Quando ergueu o olhar, a enorme casa — completamente às escuras — parecia fitá-lo de volta, silenciosa e fria.

Ele encostou a bicicleta na parede e começou a caminhar lentamente. Entrar, é claro, era impossível. Depois de confirmar que a porta principal estava trancada, deu a volta pelo lado, tentando alcançar o jardim. Mas o portão lateral também estava fechado. Tudo o que podia ver era a fachada escura da casa que, agora, não pertencia mais a ninguém.

Koy recuou alguns passos, olhando o casarão por um instante antes de baixar a cabeça. O entorno estava mortalmente quieto — nenhum som, nenhum movimento. Ficou parado ali por um tempo, imóvel, até que enfim voltou à bicicleta.

A descida do morro foi lenta, muito mais do que a subida. Mesmo com a gravidade o empurrando para baixo, ele pedalava devagar, forçando uma velocidade reduzida. A mente, entretanto, continuava vazia.

‘Então é verdade… ele realmente se foi.’

Esse pensamento mal se formou quando, de repente, um coelho atravessou a estrada. Assustado, Koy puxou o freio com força — tarde demais. A bicicleta derrapou, e ele acabou rolando pelo chão.

— Agh… ai, ai…

Deitado no chão e gemendo, ele logo parou de se mover. O entorno estava quieto. Na solidão, onde apenas o som de sua própria respiração era audível. E então, dentro daquele vazio, um fragmento de memória de repente voltou à tona.

〈Eu não vou mais estar aqui.〉

É verdade.

〈Nunca mais vou te ver.〉

‘Ash realmente não está mais aqui.’

〈Você não gostava de mim. Você amava a ideia de ser amado por mim.〉

Uma sensação de vazio o esmagou por dentro. Koy se levantou com esforço, endireitou a bicicleta e começou a caminhar, arrastando os pés. A cabeça parecia oca — não só pelo tombo, mas por algo mais profundo, mais doloroso.

〈Adeus, Koy.〉

— …Eu te amo.

Uma voz, quase inaudível, soou aos seus próprios ouvidos como um sussurro trazido pelo vento. Demorou alguns segundos até ele perceber que era a sua própria voz. No instante seguinte, os olhos começaram a arder.

Eu te amava de verdade, Ash.

Não era amizade. Nunca tinha sido apenas gratidão.

Não era porque você gostava de mim, ou porque naquela época você era o único que me amava.

‘Para mim, também era amor.’

Mas agora era tarde demais.

Nunca mais o veria. Nunca mais o chamaria pelo nome, nem veria aquele sorriso voltado para ele.

Nem sequer teria a chance de dizer tudo o que ficou preso na garganta.

Ash havia partido — e toda a culpa era de Koy.

Ash tinha tentado até o fim. E Koy… o machucara, o afastara, até perdê-lo de vez.

‘Eu realmente te amava tanto…’

As lágrimas explodiram descontroladamente. Koy caiu de joelhos no chão, sem forças, e chorou alto — soluçando, gritando o nome que agora só existia na lembrança.

 

°

°

Continua….

 

Tradução:  Ana Luiza

Revisão:  Thaís

 

 

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Em breve será disponibilizado uma sinopse!
Nome alternativo: Kiss Me If You Can

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