Ler Lamba-me se puder – Capítulo 130 Online
O anúncio informando a chegada do trem ecoou por toda a estação. Ashley, incapaz de conter a crescente inquietação, levantou-se de repente e começou a andar de um lado para o outro no mesmo ponto. O tempo continuava passando, impiedosamente. Mas não havia sinal de Koy.
‘Será que três horas foi tempo suficiente?’
O arrependimento veio tarde demais. Preocupado com a possibilidade de os capangas de seu pai estarem atrás deles, Ashley achou que tinha sido esperto marcar o encontro na estação, fazendo um caminho mais longo — mas talvez devesse simplesmente tê-lo buscado. Fazer Koy pedalar até ali… talvez fosse pedir demais.
Será que aconteceu alguma coisa?
Tentando sufocar o medo que o corroía, ele checou o celular. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem.
— Koy… — murmurou, ao ver de relance um garoto de estatura parecida surgir à distância. Seu coração disparou — mas, ao se aproximar o suficiente para ver o rosto, percebeu que não era ele.
A decepção pesou-lhe os ombros. Voltou a olhar o telefone, o olhar ansioso. O tempo estava se esgotando de verdade.
Por fim, incapaz de aguentar mais, discou o número de Koy. O som seco do tom de chamada soou nos ouvidos enquanto seus olhos varriam o interior da estação, observando cada pessoa que passava, o coração disparado. Seu cenho se contraiu de nervosismo. O anúncio sobre a chegada do trem ecoou logo em seguida.
***
Koy ficou sentado em silêncio, observando o rosto de seu pai adormecido. No quarto do hospital, apenas o som intermitente das máquinas quebrava a quietude. Sob a luz branca brilhante do hospital, tão diferente da lâmpada amarelada do trailer, Koy finalmente pôde observar a aparência do pai com cuidado, pela primeira vez em muito tempo.
Ali estava um homem magro e frágil, o corpo tão exausto que mal parecia vivo. O rosto estava sem cor, os lábios rachados, e seu corpo revelava as articulações ósseas, como se a pele fina estivesse simplesmente esticada sobre elas — uma figura estranha e desconhecida.
Ver aquele homem, que sempre lhe parecera tão grande e forte, deitado de forma tão patética, deixou Koy com um sentimento estranho. Ele não conseguia acreditar que aquela pessoa era seu pai.
‘Você não sabia, não é?’
As palavras do médico voltaram à sua mente. O pai já sabia do diagnóstico havia algum tempo. O câncer havia se espalhado por todo o corpo. Não havia mais o que fazer.
De repente, Koy lembrou de todas as vezes em que o pai tentou lhe dizer algo, mas desistiu no meio da fala. E de como, nos últimos tempos, não levantara mais a mão contra ele.
‘Será que era por isso…?’
‘No máximo, seis meses.’
Foi o que o médico dissera, antes de lançar-lhe um olhar cheio de compaixão. Mas, ainda assim, Koy não conseguia acreditar. ‘Câncer? Seis meses de vida?’
‘Como poderia acreditar nisso?’
Mas ele viu com os próprios olhos. A imagem do pai desmaiando e tossindo sangue. E, acima de tudo, qualquer um que visse um homem tão magro e seco como uma folha de inverno saberia, sem dúvida, que ele estava gravemente doente.
‘Isso não pode estar acontecendo…’
Koy fechou os olhos e escondeu o rosto entre as mãos. A confusão o dominava por completo — tudo aquilo era demais, inesperado demais. Então, de repente, um fraco gemido rompeu o silêncio. Ele levantou lentamente o rosto, e viu o pai se mover com esforço, o semblante contorcido como se tentasse recobrar a consciência.
Koy ficou apenas observando, imóvel, enquanto o homem abria os olhos com dificuldade, o olhar ainda perdido, buscando foco. Ofegante, o seu pai fitou o teto por alguns segundos antes de virar lentamente a cabeça para o lado. Seus olhares se encontraram. Ficaram assim, em silêncio, apenas se encarando.
A princípio, o pai pareceu não reconhecê-lo. Piscou algumas vezes, confuso, até que, como se tivesse percebido, tentou se erguer — mas o corpo frágil logo cedeu, e ele tornou a cair sobre o travesseiro. Koy se assustou, o coração disparado, e ele observou atentamente o movimento dele, hesitando em se aproximar.
— Koy… — chamou o pai, a voz rouca, embargada.
Koy permaneceu quieto, fitando-o apenas. As lágrimas subiram rápido aos olhos do homem, tornando-os brilhantes e marejados.
— Você… ficou. Você não foi embora…
Ele não tinha ficado por escolha. Simplesmente não conseguira deixar um homem sangrando até a morte — ainda mais se esse homem fosse seu pai. Mas, em vez de dizer isso, as palavras que escaparam dos lábios de Koy foram bem diferentes.
— …Disseram que o senhor está muito doente.
O comentário sussurrado fez o pai hesitar por um momento. Ele ficou em silêncio por um tempo, então lentamente suspirou e falou.
— Eu estava tentando te contar…
Isso provavelmente era verdade. Ele se lembrava das inúmeras vezes em que o pai abrira a boca, tentando dizer algo. O homem fechou os olhos e continuou, com expressão cansada:
— Me desculpe… Eu não tive coragem de dizer… Parecia que, ao dizer as palavras em voz alta, eu estaria admitindo que realmente iria morrer logo.
Mas, no fim, aquilo já não importava. O tempo da negação havia acabado.
O silêncio voltou a se estender entre eles. O pai observou a bolsa de soro, acompanhando o gotejar lento, antes de continuar, com a voz fraca:
— Naquele dia… quando aquela mulher me contou que você estava com aquele cara… — a voz tremeu, a respiração pesada — eu… perdi completamente o controle. Devia ter te ouvido primeiro, devia ter te perguntado o que tinha acontecido. Mas, justo naquele dia, o patrão não me pagou, e… eu acabei bebendo de raiva…
Ele parou por um instante e balançou a cabeça, os olhos marejados.
— Não. Isso é só uma desculpa. — A voz saiu mais fraca ainda. — Não existe justificativa para ter te batido daquele jeito.
Koy ficou em silêncio. Só ouvia.
O pai continuou, num tom trêmulo, cheio de arrependimento:
— Quando percebi que você tinha ido embora com ele… foi como se tudo dentro de mim se partisse. Pensei que nunca mais te veria, e… me arrependi tanto.
Sua voz começou a tremer levemente
— Deveria ter falado antes. Deveria ter… pedido perdão.
Koy ouviu, atordoado, sem saber o que sentir. Aquilo — o pai doente, arrependido, pedindo desculpas — era algo que ele jamais imaginara. E por isso mesmo, não encontrava palavras para responder.
Mas o pai ainda não havia terminado.
— Eu pensava nisso há muito tempo — murmurou o pai, a voz trêmula. — Desde o momento em que soube que podia morrer… só queria te pedir perdão. Por tudo o que fiz com você… por ter sido tão cruel. Você também deve ter sofrido por perder sua mãe, você era apenas uma criança pequena…
A voz dele começou a embargar, o som das lágrimas se misturando às palavras. Deitado, o homem ergueu os braços e cobriu o rosto.
— Eu sempre soube que você não tinha culpa de nada. Foi só… o azar. Nosso azar. — A voz se quebrou ainda mais. — Mas eu não consegui suportar tudo sem culpar alguém… e acabei descontando tudo em você. Meu Deus… sou um lixo.
Um som baixo e trêmulo escapou dos lábios do pai. Koy pôde ver as lágrimas grossas escorrendo pelas laterais do rosto dele, uma após a outra, enquanto soluços entrecortavam sua respiração.
— Me perdoa, Koy. Por favor, me perdoa… — ele chorava, sem fôlego. — Só me dá uma chance… uma última chance. Me perdoa… e fica comigo… só por alguns meses, até eu… até eu morrer. Se você… se você também me deixar, eu… eu não vou aguentar…
Ele não conseguiu terminar. O corpo todo tremia, os soluços tomavam conta dele. Koy, sentado ao lado da cama, apenas observava — paralisado, incapaz de responder.
Então, de repente, imagens antigas começaram a se sobrepor diante de seus olhos.
Seu pai lavando o carro. Seu irmão mais velho, rindo, balançando a mangueira e espirrando água para todos os lados, e ele mesmo, pequeno, gritando e correndo em direção à sua mãe.
E ela, sorrindo, gargalhando alto diante da cena.
‘Por que a memória daquele dia está voltando tão vividamente agora?’
Os dias felizes nunca desaparecem por completo — apenas se escondem, adormecidos em algum canto fundo do coração, esperando o momento de despertar e sacudir tudo. O ar daquela época, o vento roçando no rosto, as gotas de água que saltavam no corpo, o som das risadas…
Tudo aquilo estava ali, outra vez, vívido como se pudesse estender a mão e tocar.
‘Koy, minha pequena ervilha.’
O riso alegre do pai ecoou em sua mente, misturando-se à imagem do homem forte que o erguia nos braços — e agora, ao fundo, a do homem fraco e enfermo diante dele. A visão de Koy embaçou, lágrimas pesadas deslizando por suas bochechas enquanto o som dos soluços do pai ecoava suavemente pelo quarto.
***
♬♪♪♫♬♪……
— Koy? —
Assim que o telefone tocou, Ashley atendeu apressado, quase gritando. Do outro lado, houve um breve silêncio, antes que uma voz familiar respondesse:
— É… Ash. Sou eu. Desculpa por ligar tão tarde.
— Ah… —
Ashley soltou um longo suspiro de alívio e passou a mão pelos cabelos. O trem já havia partido há um bom tempo. Enquanto isso, ele estava quase enlouquecendo de preocupação, temendo que algo terrível tivesse acontecido com Koy. Ligações atrás de ligações não eram atendidas, os trens continuavam partindo um após o outro e a estação ficava cada vez mais vazia Entre o número cada vez menor de pessoas, a pessoa que ele mais esperava não aparecia. Era uma agonia excruciante, uma experiência que ele nunca mais queria repetir.
— O que aconteceu? Está tudo bem? Você se machucou? — perguntou rapidamente, sem respirar.
— Tá tudo bem… — respondeu Koy, a voz fraca, abafada. — Me desculpa. Eu… não pude atender antes.
A simples certeza de que ele estava vivo bastou para acalmar um pouco o coração de Ashley. Mas a ansiedade voltou logo em seguida.
— Koy, o que houve? Onde você está? Me diz, eu vou te buscar agora, tá bem?
Se conseguisse pegá-lo e trazê-lo até a estação, ainda poderiam pegar o último trem. E, se não desse tempo, ele o levaria de carro até a próxima parada, pegariam o primeiro trem do dia seguinte — qualquer plano serviria. Desde que fosse com Koy.
‘Contanto que Koy estivesse com ele.’
— Ash… — a voz do outro lado vacilou. — Me desculpa. Eu… não posso ir.
Por um momento, Ashley pensou ter ouvido errado. Piscou, confuso.
— O quê? Desculpa, acho que não entendi… o que você disse?
Naquele instante, ele ainda acreditava — acreditava de verdade — que Koy jamais o trairia.
— Me desculpa — repetiu Koy.
Entre respirações trêmulas, ele murmurou, com dificuldade:
— Eu não posso ir com você… me perdoa. Me perdoa, por favor.
Ashley ficou parado, imóvel, o telefone firme nas mãos, o olhar perdido. Toda a força sumiu de seu corpo. Era como se o mundo tivesse parado de girar.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís
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Em breve será disponibilizado uma sinopse!
Nome alternativo: Kiss Me If You Can