Ler Lamba-me se puder – Capítulo 129 Online

Modo Claro

O som estrondoso de uma buzina atingiu-lhe os ouvidos. Por um triz, Ashley conseguiu virar o volante a tempo. Ele respirou com força, ofegante, piscando os olhos algumas vezes sem nem perceber.

Calma, calma.

Repetiu a si mesmo como se fosse um mantra, tentando se acalmar enquanto reduzia a velocidade. Por pouco não morrera a caminho do destino. Só de imaginar Koy chegando à estação e vendo o corpo dele ali, sem vida, um arrepio percorreu-lhe a espinha.

Diminuindo o ritmo, Ashley entrou no estacionamento da estação, parou o carro e pegou rapidamente a bagagem. Precisava se livrar do celular, mas encontrar Koy vinha primeiro. Sem ele, seria quase impossível achá-lo no meio de tanta gente.

Assim que entrou na estação, olhou em volta com atenção e sentou-se no primeiro lugar livre que encontrou. Imediatamente começou a procurar pelas passagens de trem online. Ainda havia assentos disponíveis no horário que verificara antes de sair de casa, e ele comprou duas passagens sem hesitar.

Agora, faltava pouco mais de uma hora para o horário combinado. O coração batia descompassado, tomado por dois sentimentos opostos — o medo de que os capangas do pai viessem buscá-lo e a expectativa de reencontrar o seu amado. Ansioso, olhava ao redor sem parar, enquanto os ponteiros do relógio pareciam arrastar-se lentamente.

 

***

 

Koy ficou atordoado enquanto encarava o pai. De repente, ele não conseguia entender o que o homem estava dizendo. Não, ele entendia, só não fazia sentido algum. ‘Por que ele está agindo assim comigo agora?’

Olhando para o rosto confuso do filho, o pai soltou um suspiro cheio de desespero. Abriu a boca como se procurasse o que dizer, mas acabou fechando-a novamente, os olhos apertados, como se as palavras lhe pesassem demais.

Vendo a expressão confusa do filho, o pai soltou um suspiro angustiado. Ele abriu a boca como se procurando o que dizer, mas, parecendo incapaz de encontrar as palavras, fechou os olhos com força e calou-se novamente, como se as palavras lhe pesassem demais.

— …Koy. — Chamou-o por fim, a voz trêmula e vacilante.

— Koy, eu sei que errei. Fiz coisas horríveis com você… Mas, por favor, não vá embora assim. Me dê uma chance… só mais uma única chance, pode ser?

As palavras começaram a sair cada vez mais rápidas, carregadas de emoção. A mão que segurava o braço do filho apertava com força, e Koy franziu a testa, inconscientemente, pelo desconforto. Mas o pai não parava, como se todo o arrependimento acumulado por anos estivesse explodindo de uma vez.

— Eu vou mudar, de verdade. Farei o que for preciso… Koy, por favor.

— Me… me solte. — A voz de Koy saiu trêmula, tomada pelo medo. Ashley o estava esperando. Não podia perder mais tempo. Iria embora com ele. Já era tarde demais — não importava o que seu pai dissesse agora, já era tarde demais.

 

‘Se ele tivesse dito isso antes.’

Koy olhou para o pai com um misto de mágoa e tristeza.

‘Se tivesse dito isso antes…’

— Me solte. Eu… eu preciso ir. Ash está me esperando, então… —

— Koy! —

A voz do pai cortou o ar, cheia de desespero.

O pai gritou o nome dele com desespero, a voz embargada de angústia. Mas isso, em vez de amedrontá-lo, aquele grito serviu apenas para dar coragem a Koy, que até então tremia sem conseguir se mover.

— Não grite comigo! —

O grito de Koy fez o pai parar no mesmo instante. O garoto o encarou com os olhos marejados, lágrimas, as pálpebras tremendo.

— O senhor diz que vai mudar, mas olhe para si mesmo… até agora está gritando comigo de novo! Como quer que eu acredite em você? E ainda me pede mais uma chance? —

Todas as emoções que ele havia reprimido por tanto tempo vieram à tona de uma vez. Koy falou diretamente ao pai, sem hesitar, com uma voz clara, carregada de dor e convicção.

— O senhor teve tantas chances… mas jogou todas fora. —

O pai o olhou com uma expressão perdida, sem conseguir dizer nada. No rosto dele, Koy viu a mistura confusa de desespero e arrependimento — mas não podia mais hesitar. Com toda a força que tinha, livrou o braço da mão dele e conseguiu escapar do canto onde estava encurralado.

— Koy! —

O pai o chamou às pressas, tentando alcançá-lo. Mas Koy foi mais rápido — escapou do alcance dele e abriu a porta do trailer.

O mundo, vasto e aberto, se estendia diante de seus olhos. Se desse apenas mais um passo, ele estaria livre — deixaria este lugar miserável para trás e partiria para sempre para um novo mundo.

Com Ash.

— Cof…! —

No exato momento em que ele se lançava para fora, um som de tosse rouca e violenta ecoou atrás dele. Ele devia ter ignorado. Ele devia ter continuado correndo, sem hesitar, sem olhar para trás.

Mas o som veio de novo — e de novo.

— Cof, cof, cof… khff! —

No entanto, o som assustador da tosse que não parava o fez parar os pés e se virar. E a cena horrível que entrou em seu campo de visão fez com que os olhos de Koy se arregalassem e ele ficasse paralisado no lugar.

 

O pai estava ajoelhado no chão, o corpo curvado, uma das mãos tapando a boca. Mas, a cada tosse, o sangue escapava pelos dedos, caindo no chão com um som úmido e pesado.

— K… Koy… —

Seu pai o chamou ofegante. Ele parecia tentar dizer que estava bem, mas o que se seguiu foi outro jorro de sangue.

Koy, com as mãos tapando a própria boca, pálido como cera, assistiu horrorizado enquanto o corpo do pai desabava para a frente.

Viu o homem tombar de forma patética sobre a poça vermelha que se alastrava pelo chão, sem forças para se erguer novamente.

— …Paaaai! —

O grito rasgou a garganta de Koy, que correu até ele. O chão do trailer, iluminado apenas pela luz fraca e trêmula do teto, estava agora tingido de vermelho-escuro.

 

***

 

De repente, Ashley achou ter ouvido a voz de Koy e, sem perceber, levantou-se da cadeira. Olhou em volta, varrendo o saguão da estação com o olhar, mas não havia quase ninguém ali. Nenhuma silhueta familiar, nenhum sinal de Koy.

Sentindo-se um pouco constrangido, Ashley voltou a se sentar e olhou o relógio no pulso. O horário combinado estava quase chegando. Ele conferiu novamente a passagem de trem e, tomado por uma ansiedade crescente, começou a balançar a perna enquanto fitava a entrada da estação.

Pensou em ligar para Koy, mas desistiu — se o garoto estiver vindo de bicicleta, não conseguiria atender de qualquer forma. E, pior, a ligação poderia distraí-lo e causar um acidente.

Tentando se acalmar, Ashley inspirou fundo algumas vezes e expirou lentamente, na tentativa de conter a ansiedade que apertava o peito. O ponteiro dos minutos no seu relógio moveu-se mais uma vez.

 

***

 

Os paramédicos levaram o homem às pressas para o pronto-socorro. Dentro da ambulância, Koy ficou imóvel, observando sem reação enquanto os médicos transferiam o corpo ensanguentado do seu pai para uma maca e o cercavam com tubos, fios e monitores, movendo-se com urgência e precisão.

Nada daquilo parecia real. Era como se ele estivesse sonhando, ou vendo tudo de fora.

‘Eu devia estar indo pra estação…’

Ashley devia estar esperando por ele agora. O coração de Koy queimava de angústia — ele precisava ir, mas as pernas simplesmente não respondiam. Quanto tempo havia passado? Se saísse naquele momento, ainda conseguiria chegar a tempo? Ou já seria tarde demais?

‘Ash vai ficar preocupado. Eu devia ligar… Não. Agora não. Não posso ficar aqui parado, devo ir rápido.’

Ele olhou para o pai.

‘Ele já está no hospital, vai ficar bem… De qualquer jeito, não há nada que eu possa fazer aqui.’

‘Preciso ir. Preciso ir agora.’

— Você é da família do senhor Victor Niles? —

A voz repentina o arrancou do transe. Koy virou-se devagar e viu um enfermeiro olhando para ele. Assentiu, hesitante.

— Não tem mais ninguém? — perguntou o homem, olhando em volta. — Sua mãe, algum irmão…?

— Não… não tem — respondeu Koy, a voz baixa e trêmula. — Nós… somos só nós dois.

A palavra “nós” saiu pesada, amarga. Soava estranha na boca dele — nós dois, como se ainda fossem uma família.

— Entendo — disse o enfermeiro, com um olhar constrangido. — Espere aqui um pouco, tudo bem? —

E voltou depressa para junto da equipe médica que rodeava seu pai. Pareciam discutir algo importante enquanto prosseguiam com o atendimento.

Koy ficou parado, imóvel, sentindo o coração bater dolorosamente no peito. Talvez precisassem de um responsável, alguém para autorizar um procedimento. Ele era menor de idade, mas era o único ali.

Apertou com força a alça da mochila. ‘Ashley está me esperando. Eu não posso ficar.’

Quando tomou a sua decisão, decidido a sair —  um dos médicos, de repente, se virou e olhou diretamente para ele. Koy congelou, preso naquele olhar.

O homem, que parecia ser o responsável pela equipe, se aproximou com passos firmes e estendeu a mão.

— Olá — disse ele com voz calma. — Eu sou Gerald. Qual é o seu nome?

Koy hesitou, depois apertou brevemente a mão dele e respondeu com a voz vacilante:

— Co… Connor Niles. Mas pode me chamar de Koy.

— Certo, Koy — disse o médico, com um olhar grave, porém gentil. — Você é filho do senhor Victor Niles, não é? E… é o único da família?

Koy assentiu, com um fio de voz:

— S… sim. Sou só eu.

Gerald soltou um suspiro e levou a mão ao queixo, coçando-o com um ar indeciso. O médico parecia claramente desconfortável, como se não quisesse dizer o que vinha a seguir — mas, no fim, assumiu uma expressão firme, resignada, e falou em tom decidido:

— Koy, o que eu vou te dizer agora pode te assustar um pouco, mas preciso que me ouça com calma, tudo bem?

A introdução, carregada de pessimismo, fez Koy enrijecer por instinto. Um frio subiu-lhe pela espinha. Ele ergueu o olhar para o médico, em silêncio, o coração acelerando.

Gerald manteve o semblante grave e perguntou, pausadamente:

— Você sabia que seu pai está com câncer?

 

°

°

Continua….

 

Tradução:  Ana Luiza

Revisão:  Thaís

 

 

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Em breve será disponibilizado uma sinopse!
Nome alternativo: Kiss Me If You Can

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